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VAMOS BEBER UM CAFEZINHO

  • 9 de mai.
  • 1 min de leitura

Vamos beber um cafezinho, meu amigo;

É um bom modo de aquecer a solidão.

Podes falar das saudades que estão contigo;

Eu falo doutras tão velhas, que já nem cá estão.

 

Talvez tu hoje me fales dos teus desencantos,

De factos desejados, que nunca chegaram.

Mas eu vou buscar aos meus íntimos recantos,

Passados difíceis que muito me custaram.

 

Vamos lá beber um café, meu velho amigo;

Um desses que seja muito negro e amargo,

Que, num travo bem quente e bem largo,

Nos traga essa pureza do tempo antigo.

 

Talvez mentalmente, nos saltem para os joelhos

Aqueles afetos, que outrora embalámos;

Que ouviram as histórias que nós contámos,

Mas que hoje dizem que já somos muito velhos.

 

Vamos lá então, beber o nosso cafezinho,

Nesta tarde fria, que a vida nos dá.

Nós já quase trilhámos todo o nosso caminho,

Mas o deles, quantas curvas ainda terá?

 

Nascemos no tempo em que os pais se veneravam,

Mas hoje, por alguns, eles são esquecidos.

São estorvos para filhos, tão distraídos,

Que se esqueceram dos braços que os amparavam.

 

Vamos lá beber este nosso cafezinho;

Nós que ainda falamos a mesma linguagem;

Conhecemos os mesmos lugares, nesta viagem,

Amando a vida, sorvendo-a devagarinho.

 

Deixa lá ir veloz, aquele que quer passar,

Não sabendo que a pressa é má para viver.

Não somos dois velhos cansados a recordar;

Somos pessoas que gostam de conversar

Sobre o existir e a essência do ser.

 

Faro, 25-11-2023

 

José Bento

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