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UMA DECISÃO DIFÍCIL

  • 17 de abr.
  • 7 min de leitura

Conheceram-se na universidade em que ela estudava filosofia e onde ele era professor duma das disciplinas.

Ela tinha vinte e cinco anos e ele já completara cinquenta e seis.

Ela apaixonou-se por ele, demonstrava-o ostensivamente, mas ele fazia que não percebia, até que um dia ela o convidou para jantarem juntos e lhe falou claramente de quanto o amava.

Enquanto ele ouvia aquela declaração entusiástica de amor, que foi a primeira da sua vida, enquanto via, naqueles olhos verdes, o fogo exuberante da paixão, enquanto olhava aquele corpo jovem e elegante e aquele rosto bem delineado, ia-se deliciando com o que ouvia, ao mesmo tempo que se ia torturando com o que lhe vinha ao pensamento.

As palavras dela, carregadas duma emoção boa, aqueles olhos límpidos dizendo no olhar tudo o que a boca expressava, sem uma vírgula a menos, sem uma qualquer desconexão entre a fala e o sentimento, aquele exterior feminino, derramando sobre ele uma alma sinceramente apaixonada, eram como que a água fresca caindo sobre a areia escaldante do deserto; água que era logo absorvida, tanta que era a sede, tão grande que era a carência, tantas

Que eram as raízes dele que, lá no fundo, esperaram, por décadas, que uma oportunidade daquelas surgisse.

As palavras dela entranhavam-se no íntimo dele, chegavam a locais muito profundos que estavam sedentos delas, a plantas que há muito hibernavam e que agora queriam finalmente rebentar numa explosão de vida, de afirmação, num rebolar delicioso para um prazer íntimo e selvagem, potente e puro, ao mesmo tempo sensual e casto.

Contudo, essas plantas que tinham raízes fincadas lá bem no íntimo, na vastidão do antes, na história brumosa e imensamente ignorada dele próprio, ao mesmo tempo que despertavam para a luz, eram cobertas por uma densa cortina que vinha da razão e que o admoestava:

 é verdade que o prazer está ali, mas é apenas fugaz, de tal forma fugidio, que nem vale a pena entrares nele, para que a dor não surja e o faça substituir por um sofrimento muito mais cortante e implacável, do que essa hibernação em que tens vivido até agora.  

Quando acabou de declarar-se ela perguntou:

- Então professor, sente o mesmo por mim?

Ele, para ganhar tempo, respondeu:

- Fui completamente apanhado de surpresa. Dás-me esta noite para pensar?

Ela disse que sim. Terminado o jantar cada um recolheu-se à sua casa.

Ele passou uma das noites mais difíceis da sua vida.

Como ele gostaria de ter uma mulher daquelas ao seu lado!

 como lhe faria bem receber as suas carícias carregadas de emoção e entusiasmo!

Como lhe daria felicidade passar as suas mãos, numa longa carícia por aqueles cabelos longos e castanhos e aspirar, no dia a dia, o perfume inebriante que ela exalava!

Mas como a vida lhe proporcionara um momento tão difícil!

 De facto, aquela mulher viera ao seu encontro com trinta anos de atraso.

Quanto ele desejara um amor espontâneo e fresco como aquele e, no entanto, como tinha passado quase toda uma vida longe desse sentimento, qual diamante que se alindava, mas sem brilho suficiente para que alguém o visse, sem exterior transparente, que pudesse deixar passar para fora as pujantes florestas de ternura que dentro dele vicejavam!

Como ele apesar de culto era triste, apesar de bondoso era infeliz, apesar de desejoso era carente, sendo um feixe de contradições, de deficientes leituras dos momentos da vida que se foram sucedendo.

Como ele era e não era, como, afinal ele não passava dum novelo tão enleado por contradições e receios, que não conseguia estender-se o suficiente para levar àquela mulher pura e decidida, a potente luz que o inundava por dentro!

Mas que luz lhe poderia ele dar, se a sua candeia já ia no declínio do combustível que a fazia estar incandescente?

O coração berrava-lhe para que fosse em frente, mas a razão dizia-lhe para que não aceitasse abrir a porta dessa relação.

É verdade que o amor não tem idade e, por isso, ambos se amavam, apesar de haver, entre eles, mais de trinta anos de diferença.

Mas talvez quem descobriu que o amor não tem idade se tenha esquecido de constatar que nem sempre o amor tem a boa oportunidade.

Erguia-se, lá no íntimo, uma voz autoritária e avassaladora que lhe dizia que ele, de tanto tempo passado a ler os livros escritos pelos outros, não teve tempo para escrever o seu próprio livro com letras de afeto, de ternura, letras geradoras de outros afetos e capazes de promoverem laços luminosos que tivessem unido almas, formado famílias, no enleio de dar e receber, na construção da harmonia entre o amor e o sacrifício, entre o prazer e a renúncia, a desavença e o perdão, a calma e a inquietação, entre o seu tempo e o tempo de alguém que com o seu se sincronizasse.

Sim, é verdade, ele tinha o cérebro cheio de teorias, de sínteses, de silogismos, de filosofias mais ou menos complexas, mas tinha o coração vazio de entregas, de apoios, de emoções, que sendo boas ou menos boas, de qualquer forma ajudam a que alguém se vá aprimorando, selecionando dos cascalhos do afeto as pepitas de ouro que lá se encontram.

 Ou melhor dizendo:

Essas emoções que permitem que aprendamos a transformar todo o cascalho em ouro, em pedras preciosas de ternura, de dádiva e de engrandecimento.

Ele, no fim de contas, sentia-se um analfabeto emocional, alguém que nunca soube descer do seu pedestal de eloquência, para entrar na casa humilde dos corações alheios, mas onde resplandece uma exuberante luz que, forjada na prática contínua, consegue suplantar o brilho de quase todas as teorias.

Ele não compreendia nada dessa linguagem que se expressa nas lágrimas, nos sorrisos, nos beijos, nos encontros ou nos desencontros, nos silêncios que falam, nas indiferenças que magoam, nas mentiras expressas como verdades e nas verdades indevidamente tidas por mentiras.

De facto, dava-se ele agora conta disso, em adulto, ele nunca vertera uma lágrima e nem sequer tinha ajudado a secar o pranto de quem quer que fosse.

Ele não se tinha repartido com ninguém e nem tinha deixado que alguém se tivesse repartido consigo.

Ele sentia-se agora extremamente pobre, como jamais pensara que pudesse ser possível sentir-se.

Era uma sensação de vazio, de solidão, de tempo esbanjado em imbecis indecisões de quem não ajudou a que outros se edificassem e tão pouco permitiu que os outros o auxiliassem na sua própria edificação.  

Ana Teresa, como tu, sem que o soubesses, fizeste despertar monstros que estavam em letargia e que cobravam daquele homem esfarrapado por dentro, a falta de entrega à vida, ao amor, à solidariedade, ao sumo que nos dá a gratificação de pertencermos à humanidade.

Pobre professor Roberto Costa; ao mesmo tempo tão douto e tão néscio, exteriormente tão bem parecido, mas interiormente dilacerado por cobranças tão difíceis!

Estas ideias embatiam numa mente quase em desalinho, numa noite solitária, na véspera duma decisão difícil, numa encruzilhada da vida que só a ele cabia percorrer devidamente.

O passado faz a nossa história, mas dele apenas se deverá refletir no presente aquilo que possa contribuir para que o hoje seja melhor.

Aquela moça encantadora não poderia ser prejudicada pelo facto de ele não ter conseguido gerir devidamente o seu curso de vida, e de não ter sabido incluir no mesmo o amor a dois.

No dia seguinte, conforme o combinado, encontraram-se na faculdade, e ela não tardou em perguntar pela resposta.

Ele fez uma curta pausa que, todavia, talvez tenha sido a mais dolorosa e significativa que alguma vez experimentou.

 Depois disso, com a serenidade que conseguiu, olhando-a fixamente nos olhos, e colocando-lhe paternalmente no ombro a sua mão direita, disse-lhe:

- Sabes, Ana Teresa, nós estamos em lados distintos da montanha. Tu vais a subi-la, pões os olhos no céu e vês o azul, pensas no futuro e vês flores, sentes a vida e queres sorvê-la dum trago todos os dias.

Eu também já subi essa vertente da montanha, cheguei ao seu cume e agora estou a descê-la.

Já começo a ver o vale onde fica o lugar da despedida.

Se nós iniciássemos a relação, não tardariam alguns poucos anos que ela fosse má para os dois.

Tu precisas de quem esteja também a subir a montanha.

Eu, provavelmente, já não encontrarei ninguém que me acompanhe até ao vale da despedida.

De qualquer forma, deixaste em mim a recordação de amor mais bonita que alguma vez a vida me proporcionou. Nunca terei palavras suficientemente boas para te agradecer.

Eu não estaria a amar-te se te fizesse carregar as minhas frustrações, as minhas más leituras da vida e os muitos anos de vida biológica que nos separam e durante os quais nunca tive a lucidez suficiente para fazer a alguém uma declaração de amor tão espontânea e bela, como a que tu me fizeste.

Ele mantinha os olhos secos, mas o coração estava inundado de lágrimas, umas de alegria por ter conseguido despertar em alguém aquele sentimento tão belo, mas muitas outras duma profunda tristeza por já não poder desfrutar do fresco hálito dum amor tão espontâneo, puro e envolvente.

Contudo, esta foi a única decisão que lhe deu a paz de que precisava.

Talvez ela se tivesse sentido rejeitada, talvez transformasse muito daquele amor num sentimento mau, que lançou sobre ele e que, certamente ajudou a que o esquecesse mais rapidamente.

 mas, porque a existência, no seu sábio fluir,

  nunca deixa que o bem e a verdade fiquem subterrados para sempre, A Ana Teresa, a seu tempo, compreenderia que ele, ao parecer rejeitá-la, lhe deu a maior prova de amor que, numa situação daquelas, alguém lhe poderia dar.

Ela, ao ouvir a resposta, começou a chorar, voltou-lhe as costas e, daí por diante, mostrou-se não só indiferente para com ele, mas cada vez mais hostil.

Ele, porém, sentiu que, ao tomar esta decisão, pondo a felicidade daquela moça acima do seu prazer imediato, reabilitou grande parte do seu passado de analfabetismo afetivo, tendo experimentado uma profunda e deliciosa paz.

Lembrou-se então que alguém, nos primeiros tempos do cristianismo, dissera que o amor cobre uma multidão de pecados.

 

 

Faro, abril 2021

 

 

José Bento

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