SOLDADO INVOLUNTÁRIO
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As tuas lágrimas sinceras tanto me doem,
Porque são tão espontâneas e tão puras,
Revelam tantas más lembranças e amarguras,
Que entram em mim, me queimam e quase me destroem.
Por favor, não me dês quaisquer justificações,
Porque, como tu, tenho pesos do passado.
Eu sou um ser tão impuro e endividado,
Que também preciso de centenas de perdões.
Acredita que foi apenas por mera sorte,
Que eu não tive também de vestir uma farda;
Que não tive de envergar uma espingarda,
Falando a linguagem que diz, vida ou morte.
Tu apenas querias ser um operário,
Um ser útil, um pacífico trabalhador;
Mas, pela decisão dum velho ditador,
Tiveste de entrar num ambiente sanguinário.
Perguntas hoje, se não devias ter fugido,
Sendo apelidado de desertor e cobarde.
Mas o tempo não retrocede, e hoje é tarde,
Para fazer o que menos te houvesse traído.
Estamos todos numa rede que não tecemos,
Numa prisão, feita de falsas liberdades.
Não as vemos, mas limitam-nos muitas grades,
Fabricadas por leis perversas, que não fizemos.
Quem nos governa nem sempre o faz da melhor forma,
Não zelando pelos nossos interesses.
Quem fez que tu assim tanto te comprometesses,
Não pôs o amor, na decisão, em cada norma.
Quem fez essa guerra não viu os que lá tombaram;
Não sentiu a dor desses que lá padeceram;
Não chorou por nenhum daqueles que lá morreram
E nem tem as sombras dos que da morte escaparam.
Quando éramos crianças, queríamos crescer;
Enquanto jovens, construíamos o futuro.
Nós éramos puros, desejávamos viver;
Em nós, nada havia de guerra ou de obscuro.
Como arma, alguns só tinham a enxada;
Outros tinham o volante ou a caneta.
Tínhamos paz, numa vida abençoada;
Cada um tinha a doçura dum poeta.
Meu amigo, nobre soldado involuntário;
Não sucumbas sob as sombras de que padeces.
Beneficia-te dos perdões que tu mereces,
Pois querias ser um homem de paz, um operário.
Faro, 22-12-2023
José Bento
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