top of page

SER MÃE

  • 9 de mai.
  • 36 min de leitura

Num domingo de agosto de 2018, pelas nove horas, o despertador tocou, num dos três quartos daquele apartamento que tem três amplas janelas voltadas a nascente, e o qual se situa no primeiro andar dum edifício de quatro pisos, que fica de fronte dum dos pequenos jardins da cidade.

Se recuássemos no tempo doze anos, quem, nesse apartamento, quisesse acordar àquela hora não precisava de colocar qualquer despertador, porque uma senhora, então já quase entrada na casa dos sessenta anos, de mediana estatura, cabelo grisalho e porte nobre, estava certamente levantada e, muito provavelmente, regando as flores que tinha na sacada, e sobre as quais projetava o seu carinhoso modo de ser.

Sem enfado e com muita ternura, ela despertaria quem, num domingo de verão, quisesse levantar-se logo pela manhã.

Saiu desta vida alguns meses depois.

Ficou então a casa a ser habitada pelo seu ex-cônjuge, um homem cerca de oito anos mais velho do que ela, e pelo único filho do casal, o Rafael, um jovem que então contava vinte anos.

Mas para sermos mais precisos, digamos que, para além deles, ficou ali invisível, mas ocupando todas as divisões da casa no passar de cada dia, uma extensa toalha tecida pela saudade sobre a qual ambos, pai e filho, não raro, derramavam algumas sentidas lágrimas.

Decorridos pouco mais de cinco anos sobre a partida da referida senhora, partiu também o viúvo e a toalha de saudade desdobrou-se em cortinas que continham uma amálgama de tristeza e solidão, de vazio e saudade, de perda e pesadelo.

Estas invisíveis, mas densas cortinas ameaçavam esmagar aquele jovem de cabelos negros e olhos verdes, de rosto arredondado e de porte elegante, com cerca de um metro e oitenta de altura, dotado duma fina sensibilidade, já entrado nos vinte e seis anos, mas que estava totalmente despreparado para conseguir enquadrar, de forma saudável, estas duas dolorosas partidas.

Ele foi o único filho daqueles dois seres, que tiveram a alegria de o conceber e de o ter nos braços, quando a mãe já se abeirava dos quarenta anos e quando o casal já não esperava fazer despontar qualquer rebento.

Mas, como eles diziam, Deus entregou-lhes um menino saudável e lindo e relativamente ao qual, repetidamente afirmavam ser a potente luz que veio dar mais alento e felicidade às suas vidas.

O Rafael nasceu e foi criado num ambiente de amor por duas pessoas que lhe dedicaram o resto dos seus dias, tudo fazendo para o comprazer nos mais ínfimos detalhes.

Apesar de filho único, os progenitores nunca lhe incentivaram posições egoístas, cedo o tendo levado a contactar com os ensinamentos de Jesus Cristo, que, do ponto de vista moral e religioso, iluminavam aquelas três vidas.

De facto, aquela pequena família não se limitava a invocar Jesus apenas quando ia a qualquer templo cristão, antes sendo verdade que o tinham presente na prece coletiva que todas as noites erguiam ao Cristo e ao Pai Celestial, preces essas a que o Rafael começou a assistir, ainda em criança, sendo certo que, desde cedo ele compreendeu que devemos amar os outros como Jesus nos amou, e que devemos ter muita fé no nosso Pai Celestial, pois Dele nos virá sempre todo o Bem e toda a proteção de que necessitamos.

A criança, desde tenra idade, demonstrou uma grande apetência para a música e para a poesia e, a par do ensino escolar, cursou também, no conservatório da cidade, solfejo e piano, tendo dito aos progenitores, por volta dos quinze anos de idade, que tinha decidido dedicar-se afincadamente a aprofundar os conhecimentos do instrumento, ainda que não deixasse de concluir o décimo segundo ano de escolaridade.

Pacientemente, e com argumentos diversos, o pai e a mãe demonstraram-lhe que, apesar da música ser uma arte muito bela, os proventos auferidos profissionalmente por um músico são extremamente incertos e, por vezes insuficientes, e que, por isso, ele poderia ter a música como um obi, mas deveria obter um curso universitário, o qual lhe permitisse ter uma fonte de rendimentos mais firme.

Mas o jovem mostrou-se irredutível. Disse que preferia correr os riscos de ter dificuldades financeiras, mas que sentia que só na música é que se conseguiria realizar.

 Terminou o décimo segundo ano, mas continuou os estudos musicais e, alguns meses após haver completado os vinte anos, ocorreu a morte da mãe e, como já acima dissemos, alguns anos depois faleceu o pai.

Digamos que, quando a ferida causada pela partida da mãe ainda estava longe de sarar, quando o pai representava para ele um pilar essencial ao nível das suas referências afetivas,

 o seu falecimento foi um duro golpe que quase arremessou para o abismo avida daquele jovem, que até então fora uma pessoa equilibrada do ponto de vista emocional e cognitivo.

Ele sabia que a morte não existe; que os seus progenitores continuavam vivos na dimensão espiritual e que o amor entre todos eles permanecia bem forte e luminoso, apesar das diferentes dimensões em que se encontravam, sabendo também que devemos estar sempre prontos para aceitar a Vontade de Deus, mesmo que, em cada momento, os factos nos tragam muita dor.

Tudo isto ele sabia, mas o sentir não obedecia ao raciocínio.

Aquele apartamento, onde antes sempre brilhavam as luzes da paz e da esperança, passou a ser um local com réstias de vazio, tisnado pela solidão e pelo luto.

A dor da partida dos dois seres que mais amava repercutiu-se nele tão profundamente, que, apesar da razão lhe dizer que deveria resistir e seguir adiante, o seu coração não obedecia.

Tudo o que antes o motivava deixou de ter tal efeito; já não abordava o novo dia com esperança, nem se envolvia emocionalmente nas atividades profissionais que, anteriormente, sempre o empolgavam, para dar o seu melhor, quer aos alunos, quer àqueles para quem tocava, nas diversas atuações ao vivo que tinha em vários locais da região.

Recorreu ao apoio psiquiátrico, os fármacos ajudavam a suavizar a dor, mas nenhum medicamento podia substituir a vontade de construir a felicidade, a qual de todo lhe faltava.

Perdeu contratos para atuações ao vivo, perdeu o lugar na escola em que lecionava e mais teria perdido, se não fosse a intervenção decidida, amiga, persistente e enérgica dum dos seus professores de música, velho conhecido dos seus progenitores, que tudo fez para o retirar do perigoso labirinto em que ele se enredava.

Só quem conhece este tipo de situações é que consegue avaliar o quanto elas fazem sofrer e quantos perigos podem acarretar para quem as suporta.

No ano letivo de 2016/2017, o Rafael, já recuperado dos intensos sofrimentos e distúrbios que antes referimos, conseguiu um lugar de docente como professor de música numa das escolas da região, o qual foi renovado nos anos seguintes.

Quando o despertador tocou, nessa manhã de agosto de 2018, aquele jovem de trinta e dois anos de idade que acordou ainda meio estremunhado, era alguém que já sentia alegrar-se o coração em cada dia que chegava, e que estava grato ao Senhor pela vida, pela saúde e pelo dom da fé.

Para ele, a manhã de domingo, num dia de agosto, não era propriamente boa para se levantar tão cedo, posto que, normalmente, tinha atuações no sábado à noite, até de madrugada.

Mas se havia dias em que sair da cama era algo que lhe trazia boas motivações, aquele era um deles.

De facto, desde que fora lecionar para aquela escola, em setembro de 2016, houve uma colega sua, professora de português no mesmo estabelecimento de ensino, que constituiu para ele um foco de atenção, como que um íman afetivo que lhe dava boas energias, que lhe despertava horizontes de muita beleza e, vamos lá a dizer a verdade, alguém de quem ele estava cada vez mais enamorado.

A Vanda Sofia; é verdade; ele cada vez se sentia melhor junto dela, mas cada vez tinha mais a certeza de que ela se afastava dele.

Por várias vezes ele lhe propusera que fizessem aulas em conjunto, deslocando-se às aulas dela, para demonstrar aos alunos, como a poesia podia ser integrada na música, a fim de ser composta uma canção.

A Vanda achou essa atividade muito interessante; os alunos também, várias foram as aulas lecionadas pelos dois docentes conjuntamente, mas nem por isso o afastamento afetivo dela em relação a ele se tinha quebrado.

Vários amigos de ambos tinham já reparado, quer no interesse dele pela colega, quer no desinteresse dela por ele e, por causa disso, houve até um amigo dele, também professor na mesma escola, o Gil Dias, que lhe disse:

-Rafael, há por aí tantas mulheres bonitas! Se esta não te dá bola, não percas mais tempo, ó meu.

Mas ele não conseguia tirá-la do pensamento.

Parecia uma obsessão: Aquele corpo mediano, frágil e elegante, aqueles cabelos castanhos,

O olhar penetrante e doce que se irradiava duns olhos grados da mesma cor, tudo aquilo mexia com ele, tornando cada vez mais escaldante um sentimento que, já de si, estava em

combustão acelerada.

Naquele dia, uma colega e amiga dele e da Vanda, a Lurdes Maria, pretendendo ajudá-los, convidou-os a ambos para que fossem com ela à praia, no intuito, segundo o que a Lurdes pensou, de, provavelmente, matar duma vez por todas as ilusões do Rafael e ajudá-lo a que se libertasse dum sentimento que, tanto quanto ela supunha, não era correspondido pela Vanda.

O próprio Rafael já tinha tomado a decisão de ajustar contas com esta situação, por forma a que não continuasse preso numa relação que apenas ele alimentava.

Por tudo isto, logo que ouviu o despertador, ele levantou-se, aprontou-se, saiu de casa e, cerca de uma hora depois, estava com as duas colegas na praia.

Abriram duas sombrinhas, por forma a que se abrigassem dos intensos raios solares, a Lurdes ligou um pequeno dispositivo que trouxera e que passou a reproduzir música de fundo suave, estenderam as toalhas, deitaram-se sobre elas, ali tendo ficado os três a conversar descontraidamente, sobre assuntos vários, por mais de meia hora.

A certa altura a Lurdes disse que estava a apetecer-lhe entrar na água e, de imediato, encaminhou-se para a zona em que as ondas tranquilamente iam desmaiando, tendo entrado lentamente no mar.

O Rafael não perdeu tempo e, encarando a Vanda com serenidade, disse-lhe:

- Vanda, tu já reparaste que, quase desde que nos conhecemos, estou interessado em namorar contigo.

Ela não esperava por uma abordagem tão direta deste assunto e limitou-se a responder, com alguma rispidez.

- E depois, Rafael, o que é que eu tenho a ver com isso?

- Bem, eu sei que, pelo facto de eu ter este sentimento em relação a ti, isso não significa que estejas obrigada a corresponder.

Mas acho que o facto de alguém nos querer bem, sempre deve levar-nos a apreciar esse sentimento e, pelo menos, se não temos interesse nessa pessoa, dizê-lo clara e definitivamente, para que a pessoa em causa possa libertar-se.

- E tu queres-me bem, Rafael?

Como é que podes dizer que tens esse sentimento em relação a mim, se praticamente nem me conheces?

Ele não se atrapalhou com esta pergunta dela e acrescentou:

De facto, pouco sei dos teus sentimentos, das tuas ideias, da tua forma de encarar múltiplos aspetos da vida. Portanto, tens razão, quando dizes que quase não te conheço.

Mas há pessoas com quem, sabe-se lá porquê, temos química; a nossa alma diz-nos que essa pessoa nos realizaria ao passo que, pelo contrário, com outras pessoas, isso não acontece.

Eu tenho química contigo. Isso quer significar que a minha mente me diz, por motivos que não te sei explicar, que ambos poderíamos ser felizes um com o outro.

Ao ouvir isto, ela riu com um certo ar de troça e disse:

- Que estranho, Rafael, alguém querer começar uma relação com outra pessoa só por causa da química.

- Repara, Vanda, se eu tivesse na adolescência, eu dizia-te que estou completamente apaixonado por ti; que te amo para sempre.

Mas como já passei essa fase, digo-te que gosto de ti e que esse gostar é de tal forma intenso, que, da minha parte, existe o desejo forte e sincero de que nos aproximemos, que namoremos e que, dessa forma, nos possamos conhecer melhor e decidir ficar, ou não ficar.

- Rafael, e se eu te disser que o meu projeto de vida não passa por ter uma relação a dois?

Ele, sorrindo respondeu:

- Bem, nesse caso eu respeito a tua decisão e o que tenho a fazer é tomar as medidas para tratar esta minha química.

Diz-me então, com amizade e sinceramente:

Devo entender que não queres ter uma vida a dois com ninguém?

Ao perguntar isto, ele olhou-a fixamente, com tanta sinceridade, ternura e perquirição, que o seu olhar penetrou na alma dela, tocou-lhe nas fibras mais íntimas e, em vez de obter uma resposta traduzida em palavras, daqueles lindos olhos castanhos, inopinadamente, brotou um rio de lágrimas e aquela mulher, aparentemente fria e insensível aos sentimentos do Rafael, começou a chorar convulsivamente.

Este colocou a sua mão direita suavemente sobre o braço direito dela, deixou que aquela alma aflita se derramasse nas lágrimas que já goteavam para a toalha e, quando ela estava mais calma, disse-lhe:

- Tu podes não querer namorar comigo; isso agora até já nem é tão importante. Mas posso garantir-te que, seja pelo que for e seja para o que for, tens aqui um amigo que te quer ouvir, que te quer ajudar, se me deres essa oportunidade.

Mas nem agora é o tempo, nem aqui é o lugar.

Vamos permanecer os três a desfrutar tranquilamente deste maravilhoso dia que a nossa amiga Lurdes nos proporcionou.

Tu tens o meu contacto de telefone.

Se e quando quiseres, chama-me, na certeza de que eu estarei completamente ao teu dispor, sem pressas, sem pressões e sem a expectativa de qualquer outro resultado, que não seja o de te ajudar a ser feliz.

Entretanto a Lurdes chegou da água, deitou-se na toalha, e então foi a vez do Rafael e a Vanda irem ao banho.

Estiveram na praia até à hora do almoço e depois cada um seguiu o seu rumo.

Ele, enquanto dirigia o seu carro rumo a casa, ia tomando consciência de algo que lhe era muito gratificante.

De facto, apercebeu-se de que, naquela manhã tinha nascido um sentimento muito profundo entre ele e a Vanda e que, se o mesmo não crescesse sob a forma de amor conjugal, cresceria certamente sob a forma de amizade, desde já regada pelas palavras que ele sinceramente proferiu e pelas lágrimas que, por causa delas, aquela linda mulher espontaneamente soltou.

Nos três dias seguintes nada ele soube da Vanda, nem ela dele, posto que ambos estavam de férias.

Contudo, na quinta-feira seguinte, por volta das quatro da tarde, estando ele a preparar os instrumentos para ir tocar nessa noite, ela telefonou-lhe, dizendo que queria falar com ele.

Marcaram encontro para o dia seguinte, às nove da noite, num bar existente na praia onde tinham ido no domingo passado.

Quando ele lá chegou, a Vanda já lá estava, ocupando uma das mesas.

Pediram cada um o seu gelado e, a dada altura, ele disse:

- Então Vanda, estou completamente disponível para ti. Mas, talvez, pelo bulício que há neste bar, não será aqui o melhor lugar para falarmos.

Ela concordou e, depois de comerem cada um deles o seu gelado, saíram para a praia, que estava quase deserta, e começaram a caminhar, descalços, pela beira-mar, deixando que, de quando em vez a espuma duma ou outra vaga mais atrevida lhes beijasse os pés.

Andavam lado a lado, mas nenhum deles rompia o silêncio.

Ao pisarem a areia molhada, sentiam-se a caminhar num flexível tapete natural que os encorajava e unia, indo ali ambos entrando noite dentro, ao mesmo tempo que abriam portas para que a imensidão, com as suas fantásticas incógnitas, entrasse dentro de cada um deles.

O odor a maresia envolvia-os, a lua em quarto crescente iluminava-os, a quietude da praia dava-lhes tranquilidade e a vontade de se entreajudarem ia ganhando vulto dentro daqueles dois corações, os quais se deixavam sintonizar reciprocamente pela voz suave e cadenciada do mar, que os incitava à libertação.

A dada altura, ela ganhou coragem, parou diante dele, olhou-o fixa e penetrantemente e perguntou-lhe:

- Diz-me lá uma coisa, Rafael. Suponhamos que eu gostava de ti, dessa forma como tu disseste que gostas de mim.

 Se eu agora te dissesse que tenho uma doença devido à qual os médicos só me prognosticam poucos meses de vida, o que é que tu achavas, quanto ao nosso relacionamento?

Ele esperava por tudo, menos por uma pergunta desta natureza.

Mas a mesma era muito séria e carecia duma resposta igualmente séria e muito profunda.

Ele pediu mentalmente a Jesus que o inspirasse na resposta a dar, por forma a que essa resposta fosse a mais autêntica, aquela que melhor correspondesse aos seus sentimentos e aos princípios morais que professava.

A Vanda fizera-lhe uma pergunta inesperada e ele endereçava essa mesma pergunta a si mesmo, ao ponto mais subtil da sua alma.

Depois dum breve silêncio, ele disse:

Vanda, vamo-nos sentar na areia, ali mais acima, mais ou menos na zona em que falámos no domingo passado.

Ela assentiu.

Depois de se sentarem, ambos enfrentaram o olhar um do outro, deixando-se penetrar reciprocamente, sem máscaras, sem opacidades, sem reservas e ele, tomando-lhe ambas as mãos, convictamente exclamou:

- Se hoje tu me dissesses que me amavas, assim como eu te amo a ti, por muito pouco tempo de vida que tivesses, por muitas tribulações que ambos tivéssemos de passar por causa da tua doença, eu pedir-te-ia já em casamento, e seria teu para sempre.

E digo-te mais:

Este meu pedido manter-se-ia ardente e amoroso, mesmo que, nesta vida, não fosse possível termos sequer uma relação sexual.

Ela não esperava por uma resposta destas, assim dada com tal convicção, e, tendo começado a chorar, perguntou-lhe:

- Mas porque é que tu decidirias desse modo, começando uma relação que te traria tantos problemas?

- Sabes, Vanda, porque a conceção do amor que eu trago na alma não resulta duma soma unilateral de vantagens.

Aquele amor que me satisfaz é aquele que mergulha na essência da pessoa a quem amamos e que, quanto mais ele mergulha, mais sentimos essa pessoa como fazendo parte de nós, e mais a queremos ajudar nas suas fases difíceis, para que ambos nos regozijemos, em conjunto, pela \superação das mesmas.

O amor puro, profundo e abrangente, tal e qual o concebo, liga-se essencialmente à beleza interior da pessoa amada, esse elemento que não pode ser manchado pelos desastres da fortuna material ou da saúde do corpo físico, essa beleza que permanece como um atributo do espírito eterno que existe em cada um de nós.

Esse amor a dois que idealizo resulta da vontade de ambos de se entregarem, de permanecerem unidos, perante quaisquer dificuldades, auxiliando-se na iluminação mútua e na superação dos respetivos fracassos, com muita fé em Deus, com muita sinceridade e profunda dádiva entre cada um dos dois seres que decidem partilhar a sua vida.

Porque esse amor assenta em duas vontades convergentes que lhe dão significado, ele manter-se-á, enquanto essas vontades se mantiverem e, se uma dessas pessoas desistir da relação, a outra, que ama com pureza, respeita-lhe o livre arbítrio e não guarda quaisquer ressentimentos.

Esse amor a dois que eu gostaria de ter assenta no pressuposto de que esta vida física é meramente transitória, mas que a essência de cada um de nós é eterna, pelo que o amor de que falo é um sentimento e compromisso que ultrapassa a precariedade da vida deste corpo, o qual, com brevidade se torna imprestável, sendo pois um pacto mutuamente querido e gratificante que resplandece na eternidade, beneficiando aqueles que assim se amam do prazer da ajuda mútua, da plenitude e da complementaridade amorosa, subindo, em conjunto, felizes, os diversos patamares da existência, sendo capazes de absorver, à medida que mais se aperfeiçoam, uma maior parcela da Bela e Potente Luz Divina.

Ela estava maravilhada com o que ouvia, mas as lágrimas não deixavam de soltar-se.

Ele reparou nisso e disse-lhe:

- Vanda, o que eu te disse sobre o amor é de tal forma belo, que deveria fazer-te sorrir, mas, pelo contrário tu voltas a chorar hoje, tal e qual o fizeste no domingo passado.

Desabafa comigo; solta todo o teu sofrimento perante este amigo que te quer ajudar, sem exigir de ti quaisquer compromissos ou sentimentos que não possas ter em relação a mim.

Eu quero ouvir-te, quero apoiar-te; o meu coração está totalmente disponível para sentir o que me seja transmitido pelo teu, e a minha mente quer entregar-te alguma ideia que possa contribuir para o teu bem-estar.

Fala comigo; confia em mim; tudo o que me disseres ficará apenas entre nós.

Contudo, se achares que não vale a pena deitares-te para fora, não digas nada.

Estou certo que estes momentos já te fizeram muito bem.

Ditas estas palavras, ambos ficaram sentados frente a frente, de mãos dadas e, entre eles, fez-se um prolongado silêncio.

O Rafael respeitou este momento e pensou que a iniciativa de quebrar o silêncio, de decidir o que falar ou fazer a seguir, só deveria caber à Vanda.

Ele estava disponível para ficar ali a ouvir o que ela lhe tivesse para dizer, ou para ir-se embora, se essa fosse a vontade dela.

Entretanto, enquanto o silêncio se prolongava, ele sentiu que aquela mulher, que luminosamente lhe preenchera durante tantos meses os sonhos de amor, estava a consumir-se, por dentro, em chamas dum intenso e profundo sofrimento.

A dada altura, ele apercebeu-se que ela queria falar, mas que, apesar disso, ainda não tinha logrado soltar aquela débil tampa que impedia que o fizesse.

Acariciou-lhe ambas as mãos e insistiu:

- Vamos Vanda, libera tudo o que sentes. Podes crer que isso te fará muito bem.

Então ela, entre lágrimas e hesitações, superou os medos que quase a esmagavam e finalmente, resolveu-se a falar.

- A minha história é muito triste, Rafael.

- Sabes, Vanda, todos temos, ao longo da nossa existência trajetos mais difíceis, que alternam com outros mais aprazíveis.

Por estranho que pareça, é muitas vezes nos trajetos mais dolorosos da nossa história de vida, que encontramos mais força para clarearmos ideias e para amadurecermos, tornando-nos mais sensíveis, mais pacificados e amorosos. Podes contar-me a tua história, por muito triste que seja.

Estas palavras tiveram o condão de lhe transmitir alguma calma e confiança.

- Rafael, em 2010, quando eu tinha vinte anos e tinha a mente enfeitada por sonhos muito bonitos, fui, certo dia, acometida por fortes dores no baixo ventre, por causa das quais tive de recorrer aos serviços de emergência hospitalar.

Após os exames de diagnóstico que me foram realizados, a equipa médica disse que eu deveria ser operada de urgência, e assim aconteceu.

Nos dias que se seguiram à intervenção cirúrgica, a recuperação foi ocorrendo satisfatoriamente e, algum tempo depois, recebi a alta médica, mas, conjuntamente com o cirurgião que me operou e que me assinou o documento para a saída do hospital, veio uma mulher que aparentava andar na casa dos quarenta anos, que se identificou como sendo psicóloga, tendo ambos dito que queriam falar comigo.

Eu tranquilamente assenti, pensando que eles pretenderiam transmitir-me alguns conselhos acerca do modo como eu deveria proceder, durante o período de recuperação.

Mas, infelizmente, não foi nada disso.

Mal sabia eu que, em poucos minutos, e por poucas palavras, a minha vida iria ter uma reviravolta que transformou o que antes era um belo jardim, num mar tremendamente tempestuoso do qual, até hoje, não mais me consegui livrar.

- Continua Vanda. Seja o que for, estou aqui para te ouvir e ajudar.

- A psicóloga foi rodeando o assunto e, com as melhores palavras de que conseguiu servir-se disse-me que, devido ao que foi necessário extrair-me, em virtude da intervenção cirúrgica, eu jamais poderia dar à luz.

Quando ouvi estas palavras eu desabei, perdi o controle, caí num atroz sofrimento e não quis ouvir nada mais.

Em vez de palavras, eu só tinha lágrimas e mais lágrimas, pesadelos que me invadiam mesmo eu estando acordada; sonhos que ruíam e cuja destruição me triturava, uma névoa densa e profunda que me sufocava, que nada mais me permitia ver ou sentir, se não a atroz dor que me possuía.

De repente eu tomara conhecimento de que não podia ser mãe, quando, afinal, esse era um dos grandes propósitos da minha vida.

Foi o meu pai, quem me foi buscar ao hospital.

Quando lhe falei da notícia que havia recebido, vi no seu rosto estampada a desilusão e as palavras que teve para me conformar eram débeis e ditas sem convicção.

Nos meses seguintes apercebi-me, sem lugar para quaisquer dúvidas, que esta notícia não foi apenas uma desilusão para mim, mas igualmente o foi para os meus progenitores, que deixaram de ver na minha pessoa uma filha que lhes poderia dar netos e herdeiros, tendo passado a desinvestir afetivamente em mim, ao passo que concentravam todas as suas esperanças na minha irmã, cerca de dois anos mais nova, para lhes dar o herdeiro que tanto queriam.

O meu namorado, o único que tive até hoje, e com quem namorava há cerca de três anos, poucos dias após ter tomado conhecimento daquela triste notícia, terminou a relação, dizendo que não fazia sentido para ele ficar privado de ser pai.

Por tudo isto, Rafael, eu fiquei vacinada contra o amor a dois e, em certa medida, até contra o amor em família, e agora já podes compreender melhor as atitudes que tenho adotado, em relação a ti.

Decidi que devo continuar sozinha, não sendo a desilusão de ninguém e não constituindo um motivo de infelicidade para quem quer que seja.

Ela calou-se.

O silêncio que se seguiu durou por vários minutos e foi regado pelas lágrimas de ambos.

 As dela, que brotavam do enorme sofrimento que ainda a consumia e que provinha dos factos por si narrados; as dele, que radicavam na emoção de sentir o quanto aquela jovem e doce mulher tinha sido maltratada e injustificadamente posta de lado, como se fosse um objeto que, por ser imprestável, já não queremos utilizar.

O mar continuava a entoar o seu ritmado cântico de paz, libertação e beleza; uma brisa de sul tornava a noite tépida e convidativa; a lua derramava sobre a praia, àquela hora já quase deserta, a suavidade da sua luminosidade; as estrelas, num céu pejado delas, cintilavam, como que apelando ao ser humano, para que se eleve, soltando-se de velhas peias forjadas pela ignorância, deixando-se contagiar pela infinitude do universo, obra majestosa de Deus.

Nos mais recônditos rincões deste planeta, àquela hora, havia milhões de almas que se despenhavam no desespero, e também milhões delas iluminadas pela fé, que logravam elevar as suas preces ao Senhor da vida, pedindo por paz, amor e justiça.

Mas ali, naquele ínfimo ponto do universo, um homem e uma mulher ainda jovens estavam a galgar distâncias, a transpor barreiras, a desfazer preconceitos, a iluminar opacidades e a acender luzes no centro de si, para que reciprocamente se pudessem encontrar.

Nos novelos daquele silêncio libertador, o Rafael compreendeu, pela primeira vez, que a Vanda queria ficar com ele, mas tinha medo de se entregar à chama do amor, para não voltar a arder e a ser torturada com brasas de crueldade e egoísmo, as quais a sufocassem, na fornalha da desilusão.

Ela era uma flor viçosa, plena de desejo e de amor, capaz de se dar e sedenta de realização, mas temia não encontrar quem conseguisse afinar-se consigo, no diapasão do amor universal.

A vida já lhe fora muito amarga no livro da afetividade e deixara-lhe profundas cicatrizes que o tempo, cada vez mais empolava.

O silêncio prolongava-se e cada um deles ia desbravando estradas que, sem que o soubessem, seguiam no mesmo rumo, buscando o apoio, o abraço, o beijo, o entendimento e a plena comunhão.

A certa altura, ele encontrou o fio das ideias que queria transmitir e as palavras que melhor as pudessem expressar.

- Vanda, quando Jesus Cristo estava na agonia do seu sofrimento, na cruz em que, injustamente foi pregado, ergueu ao Pai Celestial, reportando-se àqueles que o condenaram, esta simples, mas significativa prece:

“Perdoai-lhes Pai, porque não sabem o que fazem.”

O que é que eu pretendo transmitir-te com esta citação?

Quero dizer-te que, na maioria das vezes, as pessoas cometem graves injustiças, erros tremendos, por causa do seu desconhecimento acerca daquilo que os rodeia e de si mesmas.

Deixa-me explicar-me melhor.

Quando a psicóloga te disse que não irias poder dar à luz, ela proferiu as palavras corretas.

Mas tal comunicação produziu em ti um significado diferente, de acordo com a conceção da existência que tu então tinhas e que, muito provavelmente ainda tens.

Tu entendeste logo que já não poderias ser mãe.

- Desculpa lá Rafael. Uma mulher que não pode dar à luz pode ser mãe?

- Pode sim, Vanda. Assim como é verdade que há milhões de mulheres que dão à luz e nunca conseguem ser mães.

O verdadeiro significado da palavra mãe vai muito para além de dar à luz.

 Ser mãe, na medida em que uma mulher o pode ser, é algo de afetivo; algo que tem por base o amor que se enlaça noutrem, que pretende ajudar, proteger, amparar, tudo independentemente de existirem ou não laços de sangue.

Ser mãe resulta dum vínculo que se estabelece entre dois espíritos, um que carece de amparo e o outro que, por amor, deseja amparar, fortalecendo-se tal laço, à medida que o intercâmbio afetivo ocorre.

Ser mãe, portanto, no amplo e mais profundo sentido desta palavra, não assenta no facto duma mulher conceber um corpo físico dentro de si, mas sim no facto de sentir que existe alguém debilitado que necessita do seu apoio, estando essa mulher, por amor, disposta a concedê-lo.

Por isso, há mulheres que concebem um corpo físico, mas que, por não amarem o ser que deram à luz, nunca têm, em relação a ele, a posição afetiva de mães, tal como há mulheres que nunca deram à luz e que são ótimas mães.

Ao ouvir isto, a Vanda lembrou-se imediatamente duma das suas alunas, a Marta Helena, uma adolescente que vivia com a sua mãe de criação, a qual a tinha ido buscar a uma instituição do norte do país, quando a marta contava sete anos de idade.

Sempre que havia reuniões com os encarregados de educação, lá estava a mãe de criação da Marta, demonstrando um comovente amor em relação à menor e sendo sempre muito prestável na realização de tudo o que se mostrasse necessário, para a estabilidade emocional da mesma e para o seu bom aproveitamento escolar.

A Marta era uma adolescente feliz, equilibrada e plenamente realizada afetivamente.

Essa mulher desempenhava, em relação a tal menor, o papel duma mãe extremamente afetuosa, mesmo sem que tivesse havido qualquer vínculo de sangue e, inclusivamente, sem que houvesse o vínculo jurídico da adoção.

É verdade, refletiu a Vanda. O Rafael estava cheio de razão.

E como é que ela ainda não tinha pensado nisso antes?

Mas ele continuou:

- O normal é que uma mulher que dê à luz uma criança a ame, porque a natureza dotou os recém-nascidos dum encanto e duma inocência tais, que tocam no mais fundo das fibras afetivas existentes no ser humano emocionalmente saudável, seja ele homem ou mulher, levando a que o laço afetivo se desencadeie.

Por isso, o pai, que não deu à luz, ama o seu bebé, assim como uma pessoa estranha a quem esse bebé desprotegido seja entregue, se for de boa índole, também o amará como se fosse seu filho.

Aquilo que é importante e aquilo de que um bebé necessita é de amor e isso, tanto pode provir de quem o trouxe a este mundo, como de outra pessoa.

Mas é absolutamente essencial que tenhas em conta o que te vou dizer agora:

A mulher que dá à luz, é a mãe biológica desse bebé, e se ela o amar, é também a sua mãe afetiva, mas não é a sua mãe espiritual.

Ao ouvir isto, a Vanda mostrou uma expressão de incompreensão e perguntou:

- O que é que queres dizer com isso, Rafael?

Então ele, depois duma breve pausa, disse convictamente:

- Vanda, fixa-te nesta verdade absoluta:

A conjugação dum homem e duma mulher nunca pode gerar uma outra pessoa, porque a essência de qualquer pessoa é o seu ser espiritual, e os espíritos só podem ser criados por Deus.

É precisamente porque só Deus pode criar um espírito, que o mesmo é eterno e não pode ser destruído pelo homem, porque ninguém pode destruir o que Deus criou.

Quando um homem e uma mulher geram um bebé, eles estão a constituir um corpo físico, no qual penetra, ainda durante a gestação intrauterina, um espírito que vai servir-se desse corpo para reencarnar no mundo material em que vivemos.

Passemos por cima dos preconceitos religiosos, da questão de saber se Jesus teve ou não um pai biológico, que para isto que te vou dizer não tem relevância, e tenhamos em mente o exemplo, que ninguém contesta, da encarnação de Jesus Cristo.

Repara que o Divino Mestre já existia no mundo espiritual, como um ser de elevado nível evolutivo, mas que se serviu dum corpo de mulher para vir à existência física, onde chegou por parto natural, e foi criança, como todo o ser humano, antes de ser adulto.

Aliás foi Jesus quem disse:

"antes que Abraão existisse, eu sou."

Quer dizer, Jesus, antes do seu nascimento como bebé, vindo de sua mãe, Maria, estava, em

 Espírito, como um ser autónomo, dotado de toda a sua sabedoria e poder, na dimensão espiritual, mas, para ter um corpo físico, do qual carecia para entrar em comunicação direta com as pessoas do seu tempo, quis submeter-se aos trâmites da encarnação, ou seja, o seu espírito teve de entrar no ventre de sua mãe, ajudando a gerar o bebé que, já dotado de espírito e de corpo físico, veio a nascer.

 Isto demonstra que, afinal, existe nas leis da natureza, a forma dum espírito preexistente entrar no ventre duma mulher e no corpo físico que lá dentro se gera.

Jesus utilizou a via que todos os espíritos utilizam para entrarem num corpo físico.

Chegam, por processos magnéticos, já miniaturizados ao ventre da futura mãe e aí vão participando, com ela, na geração do seu corpo físico, que vai ser modelado, tendo em conta as necessidades evolutivas do ser espiritual a encarnar.

Esta foi a forma utilizada por mim, por ti, para virmos ao corpo físico, e por todos os que nos precederam, bem como será a forma utilizada por todos os que nos sucederem.

Mesmo que um dia, por exemplo, o útero da mulher, devido ao avanço da ciência, seja substituído por um útero artificial, nunca poderá surgir um bebé humano vivo, se não houver um espírito que esteja a ocupar o corpo físico aí gerado.

A ciência poderá criar esse útero artificial, poderá dar todas as condições biológicas para que o feto se desenvolva, mas nunca poderá criar o espírito que vai ocupar esse corpo, porque tal criação só pode provir de Deus.

Pode até acontecer que Deus permita que um espírito venha a entrar nesse útero artificial e a reencarnar, mas esse espírito foi criado por Deus e é preexistente a tal útero artificial.

A criação dum ser eterno só pode provir do eterno, ou seja, a

Criação dum espírito constitui um poder exclusivo de Deus.

Aqui, ele fez uma breve pausa, para coordenar as ideias, e, serenamente, continuou:

Voltando à encarnação de Jesus Cristo.

Dir-se-á que Jesus foi um caso diferente e específico.

Acrescentar-se-á que, segundo a conceção Católica, Ele não teve um pai biológico.

Mas nem vamos entrar nesse ponto, porque isso não altera o meu raciocínio.

Neste caso temos dois pontos a considerar:

O primeiro diz respeito à causa da encarnação de Jesus Cristo.

Repara que eu falo de encarnação e não de reencarnação, porque, ao contrário do que acontece com quase todos nós, Jesus encarnou por missão, por amor ao ser humano, e não para se aperfeiçoar, na rota da sua evolução espiritual.

O segundo ponto é o da forma como Jesus tomou um corpo físico.

Este é o ponto essencial agora para aquilo que te quero demonstrar.

Deus utilizou, em relação à aquisição do corpo de Jesus, através duma mulher, as leis naturais que Ele próprio criou, porque essas leis são completas e perfeitas.

O ministério público de Jesus durou cerca de três anos, ao que se sabe, entre os trinta e os trinta e três anos do Divino Mestre.

Mas ele cumpriu todo o ciclo da encarnação, tendo sido gerado no ventre de sua mãe e por ela trazido à vida física, como qualquer outro bebé, tendo sido criança e tendo-se tornado adulto e só já em plena força física, é que inicia a sua atividade de propagação dos ensinamentos que trazia para nos deixar.

Para além disso, Jesus foi retirado da carne por morte violenta perpetrada por assassínio, como aconteceu e ainda acontece a tantos outros seres humanos.

Se Deus pretendesse, em relação a Jesus agir fora das leis da natureza, não precisava de servir-se dum ventre de mulher e nem sequer Jesus teria necessitado de passar por todas as fases da vida dum ser humano, até chegar à idade em que começou a sua vida pública.

tê-lo-ia colocado no mundo já adulto, na altura de desempenhar o seu ministério de evangelização.

E repare-se que nada se sabe de relevante relativamente ao período da vida de Jesus que medeia entre a altura em que discutia no templo com os doutores da lei, por volta dos doze anos, e os trinta anos, altura em que terá iniciado a sua vida pública.

Portanto, este período de cerca de dezoito anos da vida de Jesus não teve relevância na sua atuação pública, mas nem por isso o Divino Mestre o deixou de viver, como fazendo parte da sua encarnação.

Ou seja, o que adiante te reafirmo acerca de Jesus Cristo não pode ser desmentido por nenhuma das igrejas cristãs:

Jesus já existia no mundo espiritual antes de nascer no corpo físico;

Ele tomou o corpo físico, como qualquer bebé humano, no ventre de Sua Mãe, tendo nascido por parto natural;

Ele percorreu os caminhos da vida física, como recém-nascido, como criança, como adolescente e como adulto e saiu da vida física por ação violenta de terceiros que lhe provocaram lesões físicas tais, que o seu corpo físico não podia continuar vivo.

Portanto, só por aqui já podemos ver como é absolutamente verdade que seres espirituais que já existem antes da conceção, entrem no ventre da mãe biológica, para tomarem um corpo físico, a partir do parto.

Essa ideia de que um homem e uma mulher podem dar origem a um novo ser, a alguém que antes não existia e que, da junção de ambos passa a existir, é absolutamente falsa.

Os progenitores constituem o corpo físico do futuro bebé, transmitem-lhe os seus elementos genéticos, mas não as suas qualidades ou defeitos espirituais, que esses são os que já vêm com o espírito que reencarna.

É, pois, totalmente errado, por exemplo, dizer que o filho é violento, porque sai ao pai, ou que a filha é vaidosa porque sai à mãe.

Os progenitores podem e devem ajudar a formar no descendente uma boa personalidade, através da educação, mas existem tendências e passados que o ser renascido traz consigo e que, apesar de terem sido temporariamente ocultados pela cortina do esquecimento, por misericórdia Divina, para que o ser que volta à vida física recomece sem os traumas do passado, não deixarão de ser fatores que vão revelar-se oportunamente.

Vanda, o nosso inconsciente não tem por limite esta vida física, antes sendo verdade que se estende às nossas vidas anteriores. E por isso têm tido sucesso determinadas terapias baseadas em trazer ao consciente certos factos ocorridos em vidas passadas.

Ela estava pasmada, porque nunca havia tomado contacto com este tipo de ideias, mas tudo quanto ele dizia fazia logicamente muito sentido.

Ele, entusiasmado pela atenção que via no olhar dela, continuou:

- Vanda, tu e eu não estamos na vida física pela primeira vez.

Qualquer um de nós já reencarnou centenas de vezes, no decorrer do nosso processo evolutivo, o qual se vai processando ao longo de séculos e de milénios.

Quem sabe se a tua incapacidade para ser mãe biológica, nesta reencarnação e se essa minha química de que, no outro dia te falei, não terão algo a ver com tudo isso.

Este corpo que ostentamos é aquele que melhor se adequa às nossas necessidades atuais de evolução, mas ele é extremamente transitório. Antes dele já tivemos outros corpos e, depois dele, outros diversos teremos.

Entre uma reencarnação e outra, vamos permanecendo na vida espiritual, onde nos vamos aperfeiçoando e onde detetamos as falhas que devemos corrigir na reencarnação seguinte.

É pelo facto de as coisas se passarem como te disse, que o aborto provocado é um ato que causa grande sofrimento ao espírito que já está no útero materno, preparado para reencarnar, o qual sofre com todas as manobras de arrancamento praticadas durante o aborto, e que tem de voltar, em situação de grande sofrimento à dimensão espiritual, onde se tinha preparado e miniaturizado para vir a ocupar um corpo físico.

Posso mesmo dizer-te que já li comunicações feitas por espíritos altamente credíveis, os quais, lá, na dimensão espiritual, têm visitado instituições assistenciais que acolhem e tratam os seres vítimas de aborto provocado, e que têm descrito as condições deploráveis em que lá chegam tais seres.

É claro que, se fores tentar aprofundar isto através das diversas formas de ver o Cristianismo,

 as igrejas cristãs maioritárias, infelizmente, não aceitam ainda como boa a tese da reencarnação, mas apenas por mero dogmatismo fanático, tal como antes não aceitavam que a terra girasse em volta do sol.

Mas os cristãos dos primeiros tempos aceitavam que João Baptista tinha sido a reencarnação do profeta Elias, como vem bem expresso no Evangelho de Mateus, ainda que, presentemente, a Igreja Católica, as igrejas Ortodoxas e as igrejas evangélicas tradicionais se pronunciem contra a existência da reencarnação.

Contudo, a tese da reencarnação é aceite pelo Budismo, pelo Jainismo, pelo Sikhismo, pelo Hinduísmo, pelo Candomblé e pela Umbanda.

Na Grécia antiga, houve eminentes filósofos que adotaram a tese da reencarnação, tais

 como Ferécides de Siro, que terá nascido cerca do ano 600 A.C, assim como, posteriormente, Pitágoras e Platão.

Orígenes, que foi um importante teólogo cristão que viveu no século III depois de Cristo, aceitava a preexistência do espírito, em relação ao corpo, tendo sido seguido por diversos religiosos de nomeada, no seu tempo.

Mas a tese da reencarnação, dentro do Cristianismo, é a que é aceite pelo Espiritismo, com múltiplos espíritos de elevado nível a comunicarem-se através de médiuns muito credíveis, reafirmando sempre que existe a reencarnação e, inclusivamente, descrevendo com detalhe, os processos pelos quais passa o espírito que vai reencarnar.

As pessoas não devem continuar hoje, já quase dois mil anos decorridos desde que Jesus esteve fisicamente na Terra, a centrar a sua discussão só acerca do que está ou não escrito na Bíblia, interpretando uns duma forma e outros de outra, e fazendo dessas interpretações literais o seu cavalo de batalha acerca duma questão tão importante, como é a da reencarnação.

Se a existência duma vida espiritual é algo dado por assente por todas as igrejas cristãs, é importante entrar em contacto com a dimensão espiritual, onde estão os seres humanos que já aqui estiveram, cada um com o seu nível de conhecimentos e de procedimentos morais, e saber, sem dogmatismos e de mente aberta, como é que se interligam as várias dimensões e se existe ou não o regresso do espírito ao corpo físico, pela reencarnação.

- Mas diz-me Rafael, há alguma forma de podermos saber o que se passa na dimensão espiritual?

- Claro que sim, Vanda. Isso é possível através do exercício da mediunidade, levado a cabo por pessoas que tenham esse dom devidamente desenvolvido e que, com grande honestidade e amor ao próximo, o ponham ao serviço do bem.

A mediunidade foi praticada desde as mais remotas eras da humanidade, ainda que, algumas vezes, por pessoas inescrupulosas.

O contacto entre a dimensão da vida física e a da existência espiritual ainda só pode ser efetuado através da mediunidade, porque a ciência, talvez até devido ao baixo nível moral da humanidade, ainda não conseguiu criar quaisquer aparelhos que o permitam, porque certamente o ser humano faria um péssimo uso da possibilidade desse contacto entre as várias dimensões, feito indiscriminadamente.

Tudo aquilo que te disse acerca da reencarnação e de muitos outros aspetos relativos à inter-relação entre a vida do ser humano na dimensão da matéria e a sua existência na dimensão espiritual, pode ser lido na obra mediúnica vasta que nos foi legada pelo mais importante médium psicógrafo que alguma vez existiu, o Brasileiro Francisco Cândido Xavier, um homem que, agindo com uma honestidade sem mácula, e sem quaisquer interesses de ordem económica ou de promoção social, durante mais de sessenta anos, colocou as suas portentosas faculdades mediúnicas ao serviço da humanidade, tendo ele recebido importantíssimas comunicações provenientes de espíritos de grande elevação moral, encontrando-se o seu labor mediúnico corporizado em mais de quatrocentas obras impressas.

A leitura atenta da sua obra mediúnica pode trazer, a quem nisso esteja interessado, importantes conhecimentos sobre toda esta matéria.

Contudo, muitas dezenas de milhões de pessoas nunca leram nada do que consta de tal obra, uns por mero desconhecimento, outros por desinteresse e outros ainda por injustificáveis preconceitos religiosos ou científicos.

Mas, voltando ao assunto da reencarnação, o Rafael acrescentou:

Só aceitando a tese da reencarnação é que conseguimos compreender melhor a Justiça Divina, que a ninguém condena para a eternidade, porque todos fomos criados Pelo Pai Bondoso, para sermos felizes, ainda que seja necessário percorrer longas estradas de aprendizagem e sofrimento, se não optarmos por seguir pelos luminosos caminhos que o Divino Mestre nos ensinou.

A reencarnação é uma lei natural, como qualquer outra e, a seu tempo, todos a terão de reconhecer, tal como no presente se reconhecem as leis da gravidade, da evolução ou da relatividade.

Ele efetuou, de novo, uma breve paragem, para melhor coordenar as ideias e, apertando levemente a mão dela, acrescentou:

- Todos nós temos um único Pai, que é Deus, a quem Jesus Cristo nos ensinou a chamar de Pai Nosso.

Foi Deus que nos criou, como espíritos imortais e Dele recebemos todo o amor de que necessitamos, para que cresçamos espiritualmente e possamos ser cada vez mais bondosos, mais justos e mais felizes.

Portanto, como as religiões dizem, na verdade, todos somos irmãos, porque todos somos filhos de Deus, o nosso único Pai.

Mas, porque as coisas se passam tal como te disse, quando um casal pensa conceber um bebé, deve fazê-lo com muito amor pelo espírito que, através dessa conceção, virá a reencarnar, o qual está na vida espiritual esperando por esse importante momento, que é absolutamente necessário para a sua evolução, tal como todos nós também já tivemos antes a oportunidade de vir à reencarnação.

Por tudo isto, quando um casal pretende conceber um bebé, não deve fazê-lo com a atitude egoísta de o sobrecarregar com as suas próprias expectativas, as quais podem não ter nada a ver com as necessidades evolutivas do espírito que vai renascer.

A função dos pais biológicos é a de proporcionarem ao ser que reencarna uma boa educação, ajudando-o a crescer harmonicamente, mas não inibindo as necessidades próprias de evolução para o bem, que esse espírito traga consigo.

Isto que te digo é tanto mais importante, quanto é verdade que, por vezes, o espírito que reencarna está longe de corresponder às expectativas dos seus progenitores, designadamente por trazer determinadas anomalias físicas ou psíquicas, quando o que é certo é que toda a gente quer ter filhos lindos e saudáveis.

Contudo, há muitos espíritos que carecem, para poder evoluir, duma reencarnação mais difícil.

Ela interrompeu e perguntou:

- Mas porquê?

- Vanda, porque cada um tem os seus defeitos a eliminar e os seus débitos a solver.

Por exemplo, alguém que se tenha suicidado por envenenamento, é bem possível que tenha de reencarnar com graves perturbações no aparelho digestivo, assim como alguém que se tenha suicidado com um tiro no coração é bem possível que reencarne com graves problemas cardíacos.

De facto, quando uma pessoa deteriorou voluntariamente o seu corpo físico e, bem assim o seu corpo espiritual, o qual está dentro daquele, em muitos casos só através duma reencarnação com mazelas no corpo físico é que poderá sarar, para o seu futuro evolutivo, os danos voluntariamente causados em si mesmo. 

Portanto, a vinda ao corpo físico, em muitos casos, é uma forma indispensável para que o espírito possa tratar determinadas enfermidades graves de que padece e que ele próprio causou.

De facto, nós somos obrigatoriamente os herdeiros do nosso passado e os construtores do nosso futuro.

Porque o ato de conceber um bebé deve ser norteado, fundamentalmente por amor a quem vai renascer, mesmo que tenhamos aquele descendente com inibições graves, o que não desejávamos nem prevíamos, devemos dedicar-lhe todo o amor e ajudá-lo, porque é um irmão nosso que está em sofrimento, mas que necessita de subir os degraus da dor, para atingir a felicidade.

Chegado aqui, ela interrompeu, sentindo a necessidade de fazer esta pergunta:

- Rafael, e porque é que terá de ser determinado casal, que não teve culpa nos factos prejudiciais praticados pelo espírito que tem de reencarnar, a arcar com a responsabilidade de o recuperar, numa reencarnação difícil?

- Não te consigo responder cabalmente a essa questão, porque me faltam elementos para isso.

Mas uma coisa te posso garantir:

As decisões do Senhor são sempre justas.

Provavelmente, quando alguém pensa que não teve culpa nisto ou naquilo, poderá estar errado, porque não tem pleno acesso ao seu passado.

Se Deus nos entregou esse ser debilitado, é porque sabe que nós temos as condições adequadas para o ajudar e que sobre nós recai o dever de o fazer.

Vamos dando pequenos passos na direção de nos iluminarmos, mas devemos ter a humildade de pensar que ainda estamos imensamente longe de conhecer os desígnios Divinos.

Ao ajudarmos um irmão necessitado que veio renascer na nossa família, estamos a ter uma enorme oportunidade de nos ajudarmos a nós mesmos.

Vanda, todos nós fazemos parte duma grande família e, ao longo das muitas reencarnações, vamos assumindo diversos corpos, diversas posições familiares, económicas ou sociais, diversas anomalias físicas ou psíquicas, tudo conforme os nossos débitos e as nossas necessidades evolutivas.

Hoje somos nós a auxiliar, mas amanhã serão os outros a ajudarem-nos.

Por isso, todos nos devemos sentir solidários com todos.

Em geral, o nível moral da humanidade a que pertencemos ainda é muito deficiente, e por isso vemos o sofrimento a desabrochar um pouco em todo o lado, praticamente não havendo ninguém que, numa ou noutra parte do seu trajeto sobre a Terra, lhe esteja imune.

Se quiséssemos definir este planeta pela sua função, face aos espíritos que nele habitam colocados em corpos físicos, poderíamos dizer que se trata duma enorme escola e dum grande hospital, mas não duma colónia de férias.

Basta que estudemos a história dos últimos três mil anos da humanidade, e que tenhamos em conta as atrocidades que, ainda hoje, nas mais diversas partes do globo ocorrem, para chegarmos a esta conclusão.

Afinal, - disse ele sorrindo - todos somos colegas no curso de aperfeiçoamento da vida e, em maior ou menor medida, todos estamos ainda enfermos e endividados.

- Nunca tinha visto as coisas por esse prisma, Rafael. Mas é bem possível que tenhas razão, porque tudo isso tem muita lógica.

- Deixa-me que te diga só mais isto, minha amiga.

Nós, em certa medida, podemos e devemos exercer em relação aos nossos irmãos disso necessitados, uma paternidade e maternidade, não do ponto de vista da criação espiritual, porque isso só Deus o pode fazer, mas do ponto de vista do amparo afetivo de que todos carecemos em maior ou menor medida, cada um no seu patamar evolutivo.

Quando o meu pai fisiológico partiu desta vida, eu fiquei completamente perdido e desorientado e o que me valeu foi um meu professor de música que de tudo fez para me amparar e, posso hoje dizer, só devido ao seu apoio é que eu não me perdi.

Esse meu professor e amigo exerceu em relação a mim, nessa altura, uma função paternal, a qual muito lhe agradeço.

Portanto, Vanda, tu podes ser mãe, eu posso ser pai, mesmo que não geremos nenhum corpo físico, porque, em cada dia, relativamente a cada pessoa que ajudarmos a que se encontre, a que se conheça e a que se ilumine, trilhando o caminho para a felicidade, estamos a estabelecer, mesmo que isso não seja dito por palavras, uma relação de filiação afetiva.

- Tens razão Rafael. Nem imaginas como te agradeço pelo tanto que me deste.

Ela estava tranquila; as palavras dele tinham-lhe irrigado a alma com gotas de clareza, de profundidade e dum puro amor, algo de que ela há tanto estava muito carente.

Subitamente, ela deixou de sentir-se a pessoa incompleta só por não poder protagonizar a maternidade biológica, passou a deixar que revivesse dentro de si o pujante e lindo sonho

De edificar uma bela relação a dois, e, livrando-se das cinzas de preconceitos tóxicos que a ignorância, século após século foi sedimentando na mente humana, começou a sentir que ainda era possível fazer despertar a sua brilhante aurora e lograr acender, conjuntamente com o Rafael, a maravilhosa e multifacetada lanterna da felicidade.

O silêncio voltou a estabelecer-se entre ambos e, a dada altura, e sem que ele o esperasse, ela timidamente perguntou-lhe:

- Continuas a ter química comigo?

Ele não respondeu, mas o olhar que ambos endereçaram um ao outro foi tão elucidativo e intenso, que os seus lábios se embeberam num beijo longo, os braços de cada um deles envolveram o corpo do outro, e, sem quaisquer palavras, expulsaram medos, aboliram barreiras, demoliram preconceitos cruéis, sentiram que faziam parte da grande família que tem a terra por morada, e deixaram-se inundar pelo amor, como sendo a luz que faz brilhar o bem e a única linguagem que gera e transporta a felicidade.

Desde aquela noite, eles não mais ficaram separados.

Tinham uma enorme sede de apoio, de proteção, de consonância, de grandeza, de eternidade e, porque cada um deles achava no outro toda a sintonia de que precisava, não mais voltaram a tocar a sós o barco da vida.

Ela instalou-se definitivamente na casa dele, que passou a ser a morada de ambos, e, pouco tempo depois, quem passasse na rua, podia ver na sacada daquele apartamento, de quando em vez, uma bela moça a regar as flores que, provavelmente descendiam daquelas que a mãe dele tratava com desvelo, mais de doze anos antes.

O apartamento de ambos voltou a ser enfeitado pela doçura feminina que, sendo harmónica e dadivosa, constantemente inspirava as melodias que aquele jovem músico lograva criar, como novas formas de beleza que continham a amplitude inclusiva de quem se reconhece como parte dum todo, com o qual se compraz e se harmoniza.

As portas da casa e do coração deles passaram a estar sempre abertas para todos aqueles que ali precisassem de colher a flor da mais fraterna solidariedade, porque as duas pessoas que edificavam aquele belo casal estavam conscientes de que pertenciam à grande família humana e de que, em cada pessoa podem sempre ocultar-se zonas de sombra, reclamando iluminação e proteção e zonas de luz onde se erguem os braços do carinho capazes de amorosamente a concederem.

Eles já conheciam o amargo sabor da desgraça e, por isso, mais condições tinham de fazer amadurecer, compartilhando-o com os mais necessitados o doce fruto da alegria.

Desde que, naquela noite, sobre uma praia quase deserta, eles se encontraram, iniciaram uma relação a dois sem jogos de poder, sem falsas aparências, sem portas que escondem labirintos que cada um vai ocultando do outro, sem dúvidas que não merecessem ser clarificadas, sem debilidades guardadas a sete chaves pelo medo de gerarem o desencanto, sem reservas, sem passados que não pudessem ser partilhados, sem

 sonhos que não devessem ser postos em comum, sem personalidades construídas com pés de barro, exibidas propositadamente para enfeitarem a fotografia a dois, falsificando o mundo de cada um deles.

E por tudo isso, eles fecharam as portas das solidões, dos dramas causados por amores calculistas, das vaidades mascaradas de ternura, dos comodismos enfeitados por palavras suaves, das falsas entregas, dos tempos de vida gastos a correr a trás de promessas que alguém fez já com o intuito de nunca as cumprir.

Daquelas duas almas, mutuamente encantadas, reciprocamente amantes, religiosamente sintonizadas com o Alto, não mais deixou de brotar um belo e glorioso hino de gratidão a Deus por tudo quanto lhes concedia e, em especial, por ter permitido   

que, nos complicados caminhos desta vida, ambos se pudessem ter encontrado, para edificarem o casamento feliz com que sempre sonharam.

Desde então, numa noite de agosto, na mesma praia quase deserta, deitados sobre um macio lençol de areia, desfrutando do calmo marulhar das ondas, das luzes do firmamento e dos odores fortes da maresia, eles voltam em cada ano, para repetirem sempre com muito calor e grande entusiasmo, o beijo longo, o apertado abraço e tudo o mais que, pela primeira vez, ali os uniu.

Desta forma, perante a natureza que testemunhou a sua primeira entrega mútua, eles celebram esse belo poema de amor e verdade, de esperança e de fé, que, em cada dia, ambos vão escrevendo no livro da vida, com rimas de dádiva e estrofes de mútuo encantamento assentes na pureza e no desejo, na entrega e na comunhão, no viver que eleva e na integral disponibilidade para dar-se, que é a mais sublime forma de engrandecimento pessoal.

E por tudo isto, eles não mais precisaram de pensar em contos de fadas e de príncipes encantados, porque o novelo da realidade que tecem e no qual se enrolam, supera, em muito, o maravilhoso que, normalmente flui de tais ficções.

Diremos por fim que, no mais profundo daquelas duas almas, livres, puras, harmónicas e gratamente abertas à beleza da existência, e por isso bem-aventuradas, sempre ecoam, como sendo o poema de todos os poemas, o hino de todos os hinos, a mensagem de todas as mensagens e a essência da verdade para toda a obra da Criação, aquelas palavras que constam do Evangelho de Mateus e que o Divino Mestre pronunciou, ao compor o Eloquente e Sagrado Sermão da Montanha.

 

Faro, 24-4-2026

 

José Bento

Comentários

Avaliado com 0 de 5 estrelas.
Ainda sem avaliações

Adicione uma avaliação
bottom of page