RECORDANDO DUAS TARDES MARCANTES
- 9 de mai.
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Foi numa daquelas tardes dos começos de setembro, em que o sol já se havia escondido, mas em que ainda restava a luz do dia.
percebia-se o tépido do sol posto e já a suavidade da noite que se anunciava.
Sentia eu então um cantar dentro de mim, talvez expresso em notas de música, talvez em palavras de poesia, talvez em ambas as formas de arte ou em nenhuma delas exclusivamente, porque há sensações que, de tão belas e transcendentais que são, se tornam indefiníveis, pois que passam para além das tipificações das formas de arte que se conhece, porque a beleza global é ilimitada, indefinível por completo, sendo como um oceano cujo início e o fim se ignoram, estando dispersa por todo o universo à espera das almas que a consigam captar, indispensável como é para o bem estar do ser humano.
O ar é preciso para a vida física, mas a beleza passa para além disso, porque é necessária em todos os trajetos da existência, nesta forma de estar e nas outras que estão antes e a seguir a esta,
Sendo como algo que nos envolve e une ao essencial, ao supremo, à harmonia universal, àquilo que intuímos que existe e que nos eleva, nos ilumina e nos engrandece.
E afinal, o que são os artistas senão antenas capazes de acolher alguma da beleza
Que perfuma o universo, construindo com ela obras concretas que os outros conseguem apreciar, adornando o seu interior e refrescando-se nesse grandioso e sublime atributo da Criação Divina, que é a beleza?!
A beleza funciona assim como algo que dá força, enobrece e sintetiza: não é nem física nem química, não é nem música nem palavra, não é nem cor nem forma, mas pode estar subjacente a tudo isso, pode também estar na dádiva dum abraço, dum beijo, duma moeda, de algo que vem de nós e inunda de alegria aquele a quem o dar se destina.
A beleza aninha-se no mais pequeno detalhe; é algo que deleita, que regenera, que amplia e tranquiliza, que nos irmana e nos acena com a essência, o divino, o incomensurável e o absoluto.
Senti eu, nessa tarde já com sabor de noite, num dia de setembro de 2022, um cantar cá dentro, mas que também podia ser um louvor ou um lamento, algo que me libertava e que me prendia, uma harmonia intensa que mesclava presente e passado, numa orquestração transcendental, onde despontavam, com vibrações inauditas e surpreendentes, belos odores de futuro.
Que tarde essa, onde eu sentia o cedo, onde o pôr do sol me amanhecia, onde me encostava ao tempo e nele me embrenhava, onde eu era e gostava de ser, onde eu, ajoelhando-me, ainda mais crescia!
Que tarde foi essa, que não cabe nas palavras, que, trazendo restos de amarguras, todavia me tornava mais pacífico, mais abrangente, compreensivo e mais doce, elevando-me por sobre as minhas difíceis fissuras!
Nessa tarde marcante, sentia eu um crescer, uma certeza, uma fé, uma imensidão e tudo isso cantava cá dentro e me fazia subir acima do caos, da mesquinhez, do limitado e daquilo que, por falta de dados mais precisos, é aparentemente inexplicável.
Era já no final de tarde e eu caminhava lentamente por aquele jardim que fiz nascer cerca de vinte e dois anos antes, na casa que me foi emprestada para viver, ao que penso, até que chegue o momento em que eu já não precise de estar lá e possa transferir-me de dimensão, conhecer novas moradas, novas gentes, novas sensações, certamente num local onde o horizonte será muito mais extenso e o corpo muito menos pesado e débil.
É verdade, quando para lá fui, não existiam ali as palmeiras, nem os loendreiros, uns com flores cor-de-rosa e outros com flores brancas, e exalando o seu perfume, ao mesmo tempo adocicado e revitalizante;
não vicejavam lá as alfazemas e o alecrim; não se erguiam as bananeiras que, pela pressão dos cachos, se quedam vergadas quais abnegadas trabalhadoras dobradas ao peso da vida, e que, depois de produzirem acabam por morrer; não apontavam para o céu as nespereiras que todos os anos em abril nos brindam com deliciosos frutos; não permaneciam ali os hibiscos iluminando o dia com as suas flores, umas cor-de-rosa, algumas vermelhas e outras brancas; não havia um manto de frescura junto à cozinha formado pela pimenteira, o cipreste e outras árvores várias que se juntaram, para que o sol escaldante do estio não magoe quem deseje, pela hora do almoço, ali comer, tranquila e gostosamente, alguns recém colhidos figos do algarve, conjugados com um bom queijo da serra.
É mesmo verdade; quando eu fui para lá, nada disso havia, mas eu imaginei que devia passar a haver e, depois de imaginar tanto, meti mãos à obra, e o trabalho, aliado aos elementos da natureza, fizeram do sonho uma realidade.
Era também já de tarde, já em vias do sol se pôr, quando entrei pela primeira vez naquela casa, com menos vinte e dois anos de vida física, cheio ainda de enganos e de preconceitos, de ideias erradas sobre a existência que sobrevalorizavam o acidental, em desfavor daquilo que permanece e que se apoia no Princípio dos princípios, na Inteligência das inteligências, na Vontade das vontades e no Poder dos poderes.
Nessa altura, quando cheguei pela primeira vez àquela casa, carregado de ideias de posses e de estatutos sociais sobre elas edificados, achava eu muito estranho que uma pessoa como eu que toda a vida havia trabalhado denodadamente desde o nascer do dia até noite dentro, tivesse de viver alguma vez, já perto dos cinquenta anos, numa casa emprestada.
Que néscio que eu era então!
O que é que existe de nosso, para além do que somos?
O ter representa sempre uma relação provisória entre nós e o que não nos pertence.
Eu então desconhecia que o ter só existe para enriquecer o ser, ou para provocar a sua pobreza, quando o utilizamos fora do seu adequado propósito.
Quando atingi esta visão da realidade, nessa tarde de setembro que ocorreu vinte e dois anos depois de ter entrado numa casa que eu pensava que era minha, mas que só me estava emprestada, passei a ler o livro da existência duma forma mais profunda, autêntica e abrangente, e comecei a sentir-me mais liberto para penetrar, sem falsas ideias, nos umbrais do ser.
De facto, de nosso apenas temos o que não é percetível pelos sentidos, mas que nos acompanha no cá e no lá, no ir e no voltar, dando-nos tranquilidade quando mergulhámos no bem e aflição quando trilhamos o caminho do mal.
Tudo aquilo que realmente nós somos não é apropriável por mais ninguém, nem sequer nos pode ser transmitido, ninguém o deteve antes de nós nem o passará a deter no após.
Aquilo que efetivamente nos constitui e que nos define o ser, vai-se, por passos pessoais e sucessivos, encrostando na nossa mente, ato após ato, pensamento sobre pensamento, tudo repartido ao longo do tempo segundo o nosso querer e o nosso agir, o positivo e o negativo, o que nos beneficia e o que nos prejudica, o que nos faz desejados ou detestados pelos outros, o que marca com letras de ouro ou tintas escuras a nossa permanência junto dos demais.
Quando amamos, sentimos luzes, quando odiamos, mergulhamos em obscuridades; quando amámos, o passado traz doces lembranças, mas quando odiámos, traz-nos amargos remorsos, os quais desejaríamos esquecer, se bem que nenhum remédio logre trazer-nos essa amnésia.
Nessa tarde de setembro de 2022, senti pela primeira vez a minha libertação em relação à ilusão do ter.
Agradeci então ao Senhor da vida o ser e os empréstimos que me abonou, e senti-me liberto para ir vogando no caminho do bem, do amor, qual viajante que desfruta duma luz que cada dia é mais bela e resplandecente e que fica disponível para estar inteiro, onde quer que isso se mostre necessário ao bom cumprimento da sua existência, em conexão e solidariedade com a existência dos demais.
Naquela tarde dos começos de setembro, percorri o jardim várias vezes, parando junto de cada planta, acariciando cada uma delas, quais companheiras e amigas, e respirando o perfume que gostosamente me entregavam.
Andei ali repetidamente dum lado para o outro, percorrendo quilómetros dentro dum local que não tem mais do que quinhentos metros quadrados e, a certa altura parei junto da única árvore que estava ali ereta, viçosa, pujante, na tarde em que entrei pela primeira vez naquela moradia.
Era e continua a ser um enorme pinheiro manso, com mais de sete metros de altura e que se abre para os céus, com uma larga e acolhedora copa.
Este pinheiro assistiu silenciosamente às duas tardes para mim tão marcantes;
àquela em que eu ali chegara cheio de enganos e de valores mal definidos, e a essa outra que ocorreu vinte e dois anos depois, quando o tamborilar da vida, entre quedas e soerguimentos, entre lágrimas e sorrisos, entre perdas e ganhos, com a mestria da sua escola, fizera de mim alguém com os olhos da alma mais fixos no ser e capazes de atribuir ao ter o seu verdadeiro significado.
Lembro-me que alguém então me disse que ali estava uma árvore que devia ser abatida, porque só me iria causar problemas, metendo as raízes na canalização dos esgotos e causando o seu entupimento.
Recordo que nesse primeiro dia de permanência ali, também num crepúsculo, quando o logradouro já não tinha qualquer outra pessoa que não eu, me encostei ao pinheiro e senti-lhe o odor forte, revitalizante, acariciei-lhe aquele tronco grosso que dois homens não conseguem abraçar, passei demoradamente as mãos pela sua casca rugosa e senti que eu não podia mandar destruir aquela obra que a natureza tão demorada, mas primorosamente havia erigido.
Sem pronunciar quaisquer palavras, aquela árvore robusta falava-me de muitas décadas de existência, de invernos tempestuosos e de verões agrestes, da força do ser e da dádiva para que outros também fossem, duma cadeia evolutiva sabiamente arquitetada pelo Criador de tudo e aproveitada pelos milhões de seres vivos que povoam esta diminuta ilha que voga nos vastos oceanos do infinito.
Senti-me minúsculo perante tanta grandeza e neguei-me a pronunciar as poucas palavras que seriam necessárias, para que aquele exemplar de vida e beleza fosse transformado num monte de destroços aptos a alimentar as chamas de qualquer lareira.
Nesse primeiro dia de permanência naquela casa, o pinheiro era a única árvore que dava vida e verde à sua parte frontal.
No despontar do primeiro amanhecer que lá tive, ouvi o cantar a três tempos das rolas turcas, o chilrear disperso e abundante dos pardais, o melro que ainda antes do sol nascer, já o anunciava com uma deliciosa e tranquilizante melodia, e tive a noção de que aquele pinheiro não era só uma grande árvore, mas um hotel onde centenas de aves passavam descansadamente a noite sem pagarem qualquer diária, sem requisitarem serviços de receção ou de cozinha, de limpeza ou de ginásio.
Agora, ao digitar no computador estas palavras, passavam na minha mente duas tardes, dois crepúsculos, o do primeiro dia de estada naquela casa e o dessa tarde dos começos de setembro que ocorreu vinte e dois anos depois.
Entre uma tarde e outra houve um pinheiro que permaneceu, tendo crescido por fora e houve um homem que, apesar de se ter mantido fisicamente tão grande como o era vinte e dois anos antes, tinha crescido muito por dentro, vislumbrando agora horizontes que, nesse primeiro dia de chegada a essa casa, ele nem sequer supunha que pudessem existir.
Pois nessa tarde que apanhou um homem mais maduro, que fotografou um jardim que havia nascido dum logradouro inóspito e que encontrou o mesmo pinheiro que ali estava vinte e dois anos antes, nessa tarde de começos de setembro, eu fui de novo encostar-me ao tronco vivo, pesado e firme daquela vetusta árvore e dei por mim a derramar-me pelo passado e, para
que os alicerces não me faltassem, passei a relembrar-me de coisas que há muito andavam ocultas, mas que deviam regressar ao meu consciente, para que as analisasse com outra ótica, aproveitando tal ensejo para obter os meus perdões e para colocar mais fé na mochila onde se contém o farnel que tão necessário se torna, para que, pondo humildemente pés ao caminho, possa alcançar novas parcelas da verdade, na senda das afirmações do Mestre dos Mestres, que nos garantiu, categórico: “Conhecereis a verdade e a verdade vos fará livres.”
nessa tarde dos começos de setembro de 2022, já com a noite a chegar, com as rolas turcas amalhadas nalguns dos ramos do pinheiro e os pardais noutros deles, com a lua que já se ia fazendo visível, na quietude do lugar que tudo ia irmanando na mesma paz, perante o dia que se preparava para dormir, com os dois cães de pequeno porte que me lambiam os pés quase descalços, com a suave brisa que adocicava, com a resignação que me preenchia e a atração para Deus que me puxava, eu senti intensamente um forte laço que me unia ao tudo, ao que ali estava junto de mim e ao que eu não conhecia, ao que eu pensava que era e ao que em muito me superava, a toda agente que para se conhecer sofria, e que ao crescer mais se encontrava.
É mesmo verdade, eu senti-me conectado a tudo, aos átomos todos onde quer que se integrassem, ao universo por mim
inimaginável, ao futuro por conquistar e ao passado para resgatar, como quem deixa uma casca já desnecessária, depois de, por plena justiça ter saldado todas as dívidas lançadas na infalível conta da existência.
Nesta tarde de setembro, senti mais plenamente a vida, porque intuí claramente que a morte não existe.
Então, emendei o clamoroso erro de me pensar velho, deixei de antever o fim, mas passei a projetar intensamente o porvir, a novidade, os encontros que sempre ambicionei e neste trecho me faltaram, os quadros que momentaneamente haviam desaparecido, os perdões de que ainda carecia e que devia conseguir, as montanhas que se me depararam e que ficaram por escalar, e veio de dentro de mim, mais cristalino do que nunca um humilde e grandioso sentimento de agradecimento ao Criador pela sua imensa bondade e confortadora misericórdia, sendo esse, afinal, o cantar indefinível e global que não cabia em qualquer concerto, em qualquer livro, em qualquer quadro ou escultura, em nenhuma outra forma de arte já tipificada, mas que era transversal a todas elas e que se dilata, buscando sempre mais beleza para, apesar da minha exiguidade, me sentir cada vez mais sintonizado com Deus, de quem, farta e amorosamente, para suavizar mesmo os mais recônditos e atribulados troços da Criação, promana toda a beleza que existe.
Faro, 11-4-2026
José Bento
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