top of page

QUERIDA AVOZINHA

  • 9 de mai.
  • 2 min de leitura

Derramam-se as tintas dum cair de tarde,

Envolvendo-me, neste tranquilo recanto.

E chegam recordações, como que por encanto,

Trazendo a saudade, que no meu peito arde.

 

Estão comigo lembranças de tempos idos,

Quando ternamente, me ouvias e me chamavas,

E, no poial da porta, tu acariciavas

Os meus joelhos que, de brincar, estavam feridos.

 

Mas eram feridas leves e superficiais,

Que causavam dores tão brandas e tão ligeiras,

Que, ao pousar dos teus beijos, já não doíam mais,

Regressando eu feliz, às minhas brincadeiras.

 

Diferentes eram essas simples machucadelas,

Destas outras que agora mais me molestam.

Hoje que partiste, e os teus beijos não me restam,

São mais profundas e custosas as minhas mazelas.

 

Que santas e ternas eram as mãos que tu tinhas,

Que faziam milagres, no meu corpo tão petiz!

Bastava que elas se encontrassem com as minhas,

Para que eu me sentisse um menino feliz.

 

Décadas depois, cá estou, numa tarde qualquer,

Lembrando esses tempos, em que eu amanhecia;

Quando pensava que o teu rosto estaria,

Comigo, para sempre, nas sendas do viver.

 

Mas hoje sinto o real dum modo diferente;

Partiste, mas deixaste em mim as marcas tuas.

Apesar de não andarmos juntos pelas ruas,

Sinto que o teu amor continua bem presente.

 

Quantos contos inventaste, para que eu dormisse!

Quantos beijos me deste, para que eu despertasse!

Quantas festas me fizeste, para que se criasse

Entre nós um amor que, para sempre nos unisse!?

 

Eu sei que no futuro, num amanhecer talvez,

Vou achar em ti, de novo, o meu doce abrigo.

Vais-me narrar contos de outros mundos, outra vez,

Mas, por certo, poderei ficar mais tempo contigo.

 

FARO 26-8-2025

 

José Bento

Comentários

Avaliado com 0 de 5 estrelas.
Ainda sem avaliações

Adicione uma avaliação
bottom of page