QUADRAS SOLTAS II
Havia uma lacuna
No seu triste coração.
Apesar de ter fortuna,
Não tinha educação.
O saber é pão da mente,
Que não se nega a ninguém.
É a luz resplandecente,
Se aplicado no bem.
Se a gente utilizasse
Bom senso no que consome,
Talvez aqui acabasse
A dor de quem passa fome.
Eu sei duma norma boa,
Nas regras do bom viver.
Não queiras duma pessoa,
Mais do que pode fazer.
Esse que vive no mal
E que no erro se detém,
É pobre, pois afinal,
O ser feliz só faz bem.
Se tu já vais trabalhar,
Sem desejo de lá ir,
Não consegues constatar
Que trabalhar é progredir.
Está muito mais sozinho
Quem, vivendo enganado,
Coloca no seu caminho,
Quem não está ao seu lado.
Quando na vida nos calham
Desastres materiais,
As ajudas que não falham
São as das forças morais.
Aconselhar para o bem,
É sempre uma boa oferta.
Mas só a recebe quem
Estiver de mente aberta.
Nos recantos desta vida,
Há prazeres e tormentos.
No carro do bem há subida,
No do mal há sofrimentos.
O querer é importante,
Para fazer o porvir.
Mas o depois do instante
Ficará por definir.
Tem contigo as lições,
Que a vida nos ensina.
Do fogo das tentações,
Afasta a gasolina.
Apesar da sua cruz,
A força que cada um tem,
Acende na alma aluz,
Que faz a gente ser alguém.
Quem tem boas energias,
E brilho no coração,
Faz o bem todos os dias
E não sofre sem razão.
Não consegue avançar,
Essa pessoa que sente,
Que o seu saber e pensar,
Já lhe é suficiente.
Quando existe beleza
Numa boa poesia,
Uma luz fica acesa,
Até na vida sombria.
Onde houver harmonia,
Há beleza e amor;
Há paz e muita alegria,
E mais conforto na dor.
Deus dá-nos muita riqueza,
Deixando-nos desfrutar,
Do livro da natureza,
Para sentir e criar.
O amor é a doutrina,
O agir, a energia,
É a boa medicina
Que põe a alma sadia.
Mesmo nas duras estradas
Que tive de percorrer,
Senti as bênçãos sagradas
De Deus a me proteger.
Deus sempre nos quer erguer
E jamais nos desampara.
Nas dores do anoitecer,
Faz-nos ver a manhã clara.
Há beleza de mil formas,
Assente em muitas noções.
Mas a que tem boas normas,
Só tem boas intenções.
Por que queres aumentar
As paisagens do teu ter,
Se a vida, ao passar,
Só te vai deixar o ser?
Se tens o dom de criar,
Não tenhas fascinação.
Cria só para ajudar
Os irmãos de criação.
Se cá chegaste à vida,
Trazendo felicidade,
Faz para que, na saída,
Cá deixes muita saudade.
A vida passa e corre,
Qual fio que desenrola.
Depois que a gente morre,
Mal ou bem, sai da escola.
Não te deixes magoar
Pelo que não sucedeu.
Pensa que Deus, ao zelar,
Cuida bem do que é teu.
Todo o mal que nos alcança
Traz uma dor que é só nossa.
Mas com fé e esperança,
Ele faz-nos menos mossa.
Prefiro enfatizar
O que eu consigo ser,
Ao invés de me centrar
No que não posso fazer.
Há que ter muita cautela
Na conversa da censura.
Há quem atire por ela,
O seu travo de amargura.
Não te votes ao desterro,
Pela dor de ter caído.
Tenta achar no teu erro,
A chance de ter aprendido.
É próprio dos mais velhos
Algo que defino assim.
Doem-me mais os joelhos,
Mas ando mais dentro de mim.
No viver de muita gente,
Avulta a dimensão,
De vogar pela corrente,
Sem ter discriminação.
Nos momentos de doença
Há quem tenha devoção.
Mas que se olvide da crença,
Quando finda a aflição.
Conforme seja tratada,
A vida tem as paisagens.
Por vezes é complicada,
Graças a falsas mensagens.
Agora que ascendeu,
Na fama que o achou,
Ele jamais esqueceu
O que o sofrer lhe ditou.
Esse que tem bom sentir
Age pela equidade.
Tem mais gosto em servir
Quando há mais dificuldade.
Se algo me agradou,
No que já tenho vivido,
Foi ter quem me ajudou,
Mesmo sem eu ter pedido.
Fazendo a revisão
Das formas do meu viver,
Mostro a Deus gratidão
Pelo bem que sei fazer.
Faro, 7-8-2026
José Bento
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