QUADRAS SOLTAS
Se a dor te visitar,
Levando-te a alegria,
Pensa que a noite ao passar,
Vai trazer a luz do dia.
No meu jeito de sentir,
Eu costumo ser assim.
Tenho medo de me abrir,
Mas nada oculto de mim.
Foi já depois de fazer,
O mal que eu não queria,
Que passei a entender
Que eu não me conhecia.
Mesmo depois que se vão,
As horas mais infelizes
Deixam-nos no coração,
Bem profundas cicatrizes.
A gente que desanima,
Nas horas duras da vida,
Deixa de andar para cima,
Porque desiste da subida.
No saber da lealdade
E nos jardins da brandura,
A chave da humildade
Abre qualquer fechadura.
No viver que vai fluindo,
Encontrando as pessoas,
Devemos ir construindo
Um passar de horas boas.
Quem tiver a mente negra
Em tudo vê sujidade.
Usando a sua regra,
Até no bem vê maldade.
Quanto menos sorte tinha,
Mais gente dele fugia,
Porque a gente mais mesquinha
Crê que o azar contagia.
Gosto da tua maneira,
De iludir a ilusão,
Pois tens por meta primeira,
Saber pôr os pés no chão.
O maldoso por mais que ande,
Nunca sai da mesma cena.
Quer achar a sorte grande,
Mas colhe a sorte pequena.
A mentira é embusteira,
Cavalgando na maldade.
Ela vai muito ligeira,
Por ter medo da verdade.
Ele tem livre o seu caminho,
Nas ruas por onde passa,
Pois está sempre sozinho,
Quem tem consigo a desgraça.
A gente planta amarguras,
Dentro do seu coração,
Tendo nas suas fissuras,
A fonte da tentação.
A vida vai aceitando
O bem ou mal que lhe damos.
Mas tudo vai registando,
Cobrando quanto pagamos.
Esse que muito trabalha,
Para mostrar o que não é,
Há de ter sempre uma falha
No modo de pôr o seu pé.
Não foi no amor a dois
Que senti felicidade.
Busquei-a aí, mas depois,
Só a achei na amizade.
Quando queiras melhorar
A tua forma de ser,
Começa por debelar
O que mais te faz perder.
Se tu quiseres saber
As causas do teu penar,
Pensa que o teu renascer
Foi só um recomeçar.
De Deus vem sempre bondade;
De Deus vem sempre o amor.
Nós criámos a maldade,
A vingança e o rancor.
Temos um Pai tão bondoso,
Que vendo o nosso cair,
Nos permite ter um gozo,
Que pagamos no porvir.
Sinto a tua tristeza,
Se alguém te calunia.
Mas nas leis da natureza,
O bem tem sempre o seu dia.
Ninguém consegue prever
As sendas do seu futuro.
Nas tormentas do viver,
Jamais te dês por seguro.
Se algo tu tens de pagar,
Por contas do teu viver,
A vida vai-te cobrar,
Não te podes esconder.
A luz que mais alumia,
Com os olhos não se vê.
Brilha de noite e de dia,
Buscando achar um porquê.
Faro, 28-7-2026
José Bento
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