PERGUNTA AO TEMPO
- há 3 dias
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Quanta claridade existe no teu rosto,
Quando recordas aqueles tempos de criança,
Em que sentias tanto amor e esperança,
Mas hoje sentes tanta solidão e desgosto.
Era esse um tempo, que não tinha idade;
Colhias bons afetos em todo o lado;
Tudo então tinha um dom abençoado,
Com sorrisos e muita felicidade.
Mas agora pões-te a falar do que já tiveste,
E não são bens materiais o que enumeras.
Falas do amor que te deram e que tu deste,
Lembrando quem se foi, e por quem não esperas.
E o que posso eu dizer, para consolar-te?
Faltam-me termos, faltam-me boas imagens.
Posso dizer-te que há amor em toda a parte;
Que viver, afinal, é uma bela arte
De saber recomeçar novas viagens.
Posso dizer-te que os afetos não se esgotam;
Que as pessoas que amamos, apenas se mudam;
Que as boas lembranças são flores que brotam,
Dos jardins do passado, donde nos saúdam.
Podia dizer tanta coisa, para animar-te,
Mas sei que não serei capaz de preencher
Esse vazio que está sempre a torturar-te,
Que provém dessa enorme dor de já não ter:
De não ter os beijos do avô e da avozinha;
De já não ter esses amigos de brincadeiras;
De já não ter aquela terna cachorrinha,
Que dormia, junto a ti, noites inteiras.
Não, as minhas palavras têm pouco valor;
São curtas, são débeis, são mal inventadas.
Pergunta ao tempo, a esse grande senhor,
Onde estão essas gentes, por ti tão lembradas.
Faro, 15-5-2023
José Bento
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