OBRIGADO MEU AMOR
- 17 de abr.
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A luz resplandecente bombeada por um sol radioso, o qual tornava tépida uma linda tarde de maio, penetrava livremente naquele quarto pela ampla porta envidraçada que o separava do terraço que lhe era adjacente.
Entrava esse manancial de luz, e tornava mais nítido o lilás da parede, à qual se encostava a cabeceira da cama, e tornava mais brilhante o amarelo claro das outras três paredes.
Em toda esta sublime claridade, mergulhava o castanho escuro das mobílias, a cama, as duas mesas de cabeceira que a ladeavam, o guarda-fato, que quase ocupava toda a parede que ficava aos pés da cama, e a cómoda que descansava junto à parede que ficava oposta à porta que dava para o terraço.
Os cortinados condiziam com a parede lilás; os tapetes condiziam com as demais paredes.
Na parte da parede que restava a descoberto, junto ao guarda-fato, encontrava-se colocada, a quase dois metros de altura, uma televisão com acesso à internet.
Fora ali posta há cerca de cinco anos pelo Hilário Manuel, que a comprou pelo Natal e a colocou antes que a mulher regressasse do emprego, para, mais tarde, a levar junto desse novo aparelho, e ver um claro e amplo sorriso a iluminar aquele bonito rosto de mulher satisfeita com a vida, com o casamento, com o emprego e a família, um sorriso que inequivocamente, e sem necessidade de quaisquer palavras, dizia que tinha valido a pena o secretismo da compra e o gosto da surpresa.
Como o casal desfrutou do encanto daquele momento!
Como ela então o beijou ternamente e como ele se sentiu gratificado pela vida!
Como aquele quarto, nesse tempo, era iluminado, não só pela luz que entrava pela ampla janela, mas também pela outra que era produzida por um casal em sintonia, vivendo, dia a dia, as rimas dum amor pujante que a ambos dava felicidade!
Havia ali, então, não só a luz que vinha de fora, mas a que saía de dentro de cada um deles, por forma a iluminar o outro.
E como as coisas haviam mudado desde então para cá!
Poucos meses antes da televisão ali ter sido colocada, procedeu ele à pintura do quarto.
Já há mais de quinze anos que nele dormiam; as paredes, então, há mais de oito anos que tinham sido pintadas.
A mulher sugeriu-lhe que deixassem de ter todas as paredes da mesma cor.
- ó Maria do Rosário, mas isso parece que não tem muito jeito.
- ó amor, é assim que agora se usa. Já tenho observado em várias revistas.
E foi assim, ela disse, ele confiou no seu bom gosto e fez-lhe a vontade.
Foram ambos à casa das tintas, ela escolheu as cores no catálogo, compraram as latas de tinta necessárias e, durante as suas férias, o Hilário pintou o quarto, o mais esmeradamente que conseguiu.
Agora mantinha-se aberta uma pequena fresta daquela porta que dava para o terraço e, por ela, entrava o suave chilrear de bandos de pardais que alegremente cortejavam a vida, e refrescantes aromas florais que traziam para dentro do quarto a energia primaveril que lá fora se espalhava.
Em cima da cama, deitado de barriga para cima e de olhos semicerrados, encontrava-se um homem de compleição robusta, cabelos grisalhos e despenteados, lábios grossos e nariz aquilino, rosto com rugas profundas e quase inexpressivo.
Os sons amenos que vinham de fora misturavam-se com sonoridades pesadas que provinham do interior da casa; o abrir de gavetas, o arredar brusco de móveis e o abrir e fechar impaciente de portas.
A dada altura, uma mulher cuja idade já rondava os sessenta anos, cheia e de vulto mediano, de rosto miúdo, olhos escuros e cabelos pintados de castanho, entrou bruscamente no quarto e, sem qualquer outra preparação, atirou estas palavras:
- Ó Hilário, mas afinal, eu ainda não consegui compreender qual é essa insistência que tens de ir para o lar. Será que aqui não estás bem?
O homem abriu os seus olhos verdes, claramente tristes e expressivamente cansados e respondeu:
- Nestas condições em que eu estou, onde é que será que eu estarei bem?
Estar bem já não é para mim, maria do Rosário, agora o que tenho é que estar o menos mal possível.
- Bem, então vou-te fazer a pergunta de outra forma: e no lar tu estás menos mal do que aqui?
- Do ponto de vista físico, estarei tão bem como aqui, deitado numa cama, dia e noite quase sempre deitado, dia e noite imóvel, permanentemente incapacitado para ser uma pessoa com autonomia.
Mas, psicologicamente penso que poderei estar melhor.
- Ora essa, - respondeu ela notoriamente agastada – eu tenho feito tudo por ti, tenho-te dado tudo o que é possível, e assim me pagas com tanta ingratidão?
Fez-se um breve silêncio. Ele tinha algo a dizer, mas ainda não sabia se o queria fazer de imediato; mas por fim decidiu-se.
- Maria, senta-te aqui na cama e vamos falar tranquilamente.
Há tanto tempo que ela não o ouvia tratá-la apenas por Maria, há tanto tempo que ela não o via com tanta determinação no que falava.
Lembrou-se então do homem que a acompanhara durante mais de trinta anos; saudável, pujante, ativo, o faz tudo lá de casa, o marido que estava sempre disposto a colocar à disposição da mulher todas as facilidades da vida que ele tivesse ao seu alcance.
Sentou-se, olhou-o com um misto de espanto e de expectativa.
Ele arrastou a mão esquerda e, com dificuldade colocou-a sobre a perna dela e decidiu-se a abrir o coração.
- Quando me deu isto, esta coisa que os médicos dizem que foi um avc, eu fiquei entre a vida e a morte.
Lembras-te?
Já lá vão cerca de vinte e oito meses.
- Então não me havia de lembrar? Foi a enorme e terrível tempestade que se abateu sobre esta casa.
- É verdade, Maria; eu recordo-me perfeitamente, quando despertei do coma, de te ver, de lágrimas nos olhos, debruçada sobre mim, com um gesto terno, esperançada que eu voltasse vivo e saudável para a nossa casa.
Pois é; eu voltei vivo, mas doente e para sempre incapacitado.
Nos primeiros meses, todos esperávamos que a minha recuperação fosse quase total.
Esperava eu, esperavas tu e as nossas duas filhas, e esperavam os demais familiares e amigos.
E como todos esperavam as minhas melhoras, mantinham-se em contacto connosco, visitavam-me com frequência, e todos os dias havia vários telefonemas, perguntando pelo meu estado de saúde.
A esperança então justificava tudo, porque, na mente de todos, inclusivamente na minha, o homem incapacitado apenas estava numa situação transitória e, por isso, valia a pena fazer tudo para que essa situação terminasse o mais brevemente possível.
Sabes, a esperança é um dos incentivos mais importantes para que as pessoas se sintam motivadas a sacrificar-se, deem tudo de si, e para que, mesmo assim, a vida pareça mais bela.
Pouco a pouco fui recuperando, hoje uma aquisição, daqui a uma semana outra, e a cada progresso mais uma esperança.
Mas o meu estado não se altera há mais de um ano e meio e todos sabemos que, a haver algumas alterações, elas só podem ser para pior.
Ela fitava-o atentamente e não conseguia perceber o que é que toda aquela conversa tinha a ver com a pergunta que lhe fizera. E, por isso perguntou-lhe:
- Mas o que é que tudo isso tem a ver com o teu desejo de ir para o lar?
Esta pergunta não teve o poder de o perturbar no raciocínio lúcido que tinha na alma e também debaixo da língua para revelar à sua mulher.
- Enquanto tu tiveste esperança que eu melhorasse, que eu voltasse a ser o marido de que tu gostavas, tu eras uma; quando perdeste essa esperança tu passaste a ser outra.
- Não digas isso homem, eu sempre fui a mesma pessoa.
- Sabes, Maria, eu compreendo-te muito bem. Tu não casaste com um homem inutilizado e para sempre imóvel em cima duma cama.
Se eu estivesse assim, quando tu me conheceste, tu não me querias, tu só te aproximarias de mim para me lamentar e nada mais.
Eu já não sou o marido que tu ambicionaste; o homem que te resolvia quase todos os problemas; o marido que conduzia o carro, que fazia as reparações cá em casa, que ia às compras, que te abraçava vigorosamente, que era um macho cheio de desejo e que tu orgulhosamente podias apresentar onde quer que fosses.
O marido que tu agora tens não foi aquele que tu escolheste; foi-te imposto pela vida e, como sabes, quando as situações nos são impostas, quase nunca resultam.
Eu não estou com isto a criticar-te. Talvez se ambos estivéssemos em situações opostas, tu aqui, como eu estou, e eu aí na posição de assistente, talvez eu ainda me comportasse com mais frieza do que tu te comportas.
Ela ia interromper, sabe-se lá para dizer o quê, mas ele pediu-lhe que o deixasse terminar; e continuou.
Curiosamente, eu diminuí nas aptidões físicas, mas tenho a clara sensação que aumentei muito na capacidade de entender as pessoas, inclusivamente na capacidade de me conhecer a mim mesmo.
Sabes, penso que o ser humano, duma forma geral, é preguiçoso. Quando nós temos na matéria uma vida facilitada, como eu tinha, contentamo-nos com isso e não crescemos cá por dentro.
Afinal o que é a vida?
E ele mesmo respondeu:
Para o homem, viver não é apenas não morrer fisicamente. Viver é desfrutar, é uma pessoa derramar-se por tudo aquilo que o rodeia e por dentro de si mesmo e sentir que vale a pena existir.
A minha vida era ter-te e sentir que tu me amavas, era poder estar com as nossas filhas e sentir que elas tinham orgulho do pai que tinham, era chegar ao emprego e poder confraternizar com os meus amigos e colegas, era chegar a casa e dar comida às 3 ovelhinhas, às galinhas, aos cães, era andar pela nossa pequena horta e olhar para cada árvore, era saber que em Abril iria colher as nêsperas das duas árvores que estão perto do tanque e que, em outubro ou novembro ia colher as romãs daquela árvore que ambos plantámos.
Enfim, a vida era tudo isto e muito mais que eu tinha e que, por vezes nem sequer conseguia avaliar bem como era tanto e tão bom.
E como eu tinha uma vida por fora muito preenchida, nunca dei lugar a que o meu ser espiritual se manifestasse mais e crescesse.
Depois deste desastre, perdi quase tudo aquilo que fazia parte da minha forma de entender a vida.
Tiveste que vender as ovelhas, porque não as podias tratar; foste matando as aves uma a uma e o galinheiro ficou vazio.
Sabes que eu até conhecia o cantar dos galos que tínhamos.
Quando estava aqui na cama, de madrugada, e eles começavam a cantar, eu dizia para mim:
Olha, agora cantou o galo cinzento; olha, agora respondeu-lhe o amarelo.
Ainda de noite, aí por volta das cinco horas, há um melro que canta aí em cima do nosso pinheiro.
Eu oiço-o; ele, sem saber, dá-me os bons dias, anuncia-me que mais um dia está para chegar e com ele mais uma página do tempo da minha vida para ler, mas já não sei se é aquele mesmo que eu via, quase ao sol posto, andar por ali, à procura de lugar para se amalhar.
O que é que eu quero dizer-te com tudo isto?
\Que eu tinha uma vida muito grande e que, por causa do que me aconteceu, ela ficou muito mais pequena.
- Mas o que é que tudo isso tem com a ida para o lar?
Não deixou ela de insistentemente perguntar.
Ele continuou, como se esta pergunta não tivesse existido.
Quando um homem, por fora, tem uma vida grande e, de repente, por um golpe do destino, ela lhe fica muito pequena, há uma bomba que rebenta no interior da mente, há uma torrente de lágrimas que se solta e corre todos os dias duma forma dolorosa.
mesmo que os olhos estejam secos, essa torrente continua a correr, inunda-nos a alma, encharca-nos o coração, nós estamos a falar com qualquer pessoa, estamos com os olhos fitos no que quer que seja para nos distrairmos, mas essa torrente não nos sai da cabeça; não deixa ver clara a luz do dia, tudo fica embaciado, monótono e triste.
Agora diz-me: o que é que um homem como eu ainda necessita?
Já não me importa saber se tenho uma casa com quatro ou com cinco quartos; basta-me apenas um, porque nem sequer deste eu posso sair, pelos meus próprios meios.
Já não necessito da horta, dos animais, do carro, do emprego, da confraternização na rua ou no café com os amigos, já não necessito de andar descontraidamente pela cidade e apreciá-la nos seus múltiplos aspetos.
Já não necessito de nada disto, não porque eu tivesse querido deixar de ter essas necessidades, mas antes porque pura e simplesmente aprendi a não necessitar daquilo que não posso ter.
O que é que eu tenho então?
Tenho uma mente capaz, implantada num corpo quase totalmente incapaz.
Do que é que afinal eu preciso no meu dia a dia?
Necessito duma cama onde este corpo possa estar deitado, dum quarto minimamente confortável que nos abrigue, a mim e à cama, e, já agora, necessito também duma televisão e dum telemóvel através dos quais me chegue o mundo que doutra forma eu não posso ver.
Estas são apenas algumas das minhas necessidades.
Mas, para além destas, posso falar-te duma outra que é essencial:
Necessito de alguém que me cuide, que faça ao meu corpo aquilo que ele próprio autonomamente não pode fazer, mas que o faça sem azedume, sem recriminação, sem estampar na cara e nas mãos uma imagem entristecedora de estar agindo com um enorme sacrifício, o qual se torna tanto mais penoso, quanto mais passam os dias.
- E tu, aqui em casa não tens tudo aquilo de que necessitas?
Perguntou ela mais agastada e impaciente.
- De facto, tenho o quarto, a cama, o telemóvel e a televisão, tenho as tuas mãos que dia a dia me ajudam a viver, mas não o fazem com amor, com bondade, com a alegria de quem, ao ajudar, se sente mais confortado e feliz, por ver o contentamento que desperta naquele a quem dá a sua ajuda.
- Que ingratidão, homem, como tu és capaz de dizer uma coisa dessas.
- Disse ela extremamente zangada.
Ele não se deixou perturbar e respondeu-lhe.
Foste tu que pediste para eu falar.
Então deixa-me que continue até ao fim.
Se eu for para o lar, não há ninguém lá que tenha boas ou más expectativas em relação a mim.
Eu sou um utente igual aos demais; há várias pessoas que me tratam, cada pessoa no seu turno. Não há ninguém que, ao prestar-me assistência, pense que o tenha de fazer obrigatoriamente, durante o resto da minha vida.
Cada uma daquelas pessoas não me encara como uma prisão, um destino a longo prazo, um corte permanente na sua própria vida.
Cada uma daquelas pessoas sabe que está comigo temporariamente e que, logo que mude de serviço, não mais voltará a ter de me assistir.
Para cada uma daquelas pessoas, eu tenho algo de gratificante, que lhes retribuo, que é precisamente o salário que levam para casa.
Se não existisse eu e se não existissem outros que estão nas mesmas circunstâncias em que eu estou, aquele emprego não tinha razão de ser.
Achas que não me custa ir para o lar?
Achas que não me custa deixar a casa que eu construí com tanto gosto, no terreno que os meus pais me deixaram?
Pensas que não me custa deixar de ouvir o melro a cantar sobre o pinheiro, de madrugada, e os pardais que, em bandos, por aí esvoaçam todos os dias?
É claro que me custa; é evidente que sinto que, ao sair daqui, há mais um pedacinho de mim que se arranca.
Contudo, depois de alguém ficar tão seriamente afetado como eu fiquei, cada nova perda já começa a ter cada vez menos significado.
Uma pessoa parece que passa para um mundo diferente, onde quase todas as raízes anteriores se soltaram, perderam o sentido que tinham e onde, ou conseguem nascer raízes novas, ou a vida física extingue-se por completo.
Pensas que já não pus muitas vezes em causa a razão de ser da minha vida?
Acredita que sim.
Houve algum tempo em que duvidei que a minha vida, assim com uma incapacidade tão profunda como esta, tivesse alguma justificação.
Mas houve um dia em que uma pequena luz começou a despontar dentro de mim e comecei a entender timidamente que esta minha vida podia ter muito sentido.
essa força de viver foi-se robustecendo cada vez mais e hoje está já fortemente enraizada.
Afinal continua a valer a pena viver, Maria!
Já não para desfrutar de todos aqueles prazeres que eu tinha quando era saudável, porque esses já não voltarão nesta vida, mas para sentir efusivamente um prazer novo que antes eu nunca tinha descoberto.
Esse prazer é o de viajar por dentro de mim e compreender-me, é o de olhar para os outros e entendê-los e saber que todos estamos no mesmo planeta e que, duma forma ou de outra, os nossos mundos sempre se influenciam e entrelaçam.
Esse prazer é o de sentir, com uma enorme potência, a luz de Deus, de quem eu nem me queria aproximar, esse Ser Sábio e Amoroso que a tudo dá sentido e que eu, enquanto saudável, teimava em não querer conhecer.
Talvez tudo isto tenha um sentido bom!
Talvez o corpo se tivesse parcialmente incapacitado, a tempo de a mente, ainda nesta vida, conseguir crescer.
Maria, esta incapacidade que diminuiu muito daquilo que eu desfrutava, nesta vida física, fez aumentar outro tipo de realidades de que eu desfruto agora e que superam em muito, em beleza, as anteriores, e que permanecem connosco, quer uma pessoa possa ou não andar pelos seus pés, quer esteja fisicamente viva, quer já esteja na dimensão espiritual.
Ouve, Mulher, eu descobri que esta vida física não é mais do que uma passagem e que, por vezes, estes graves acidentes que nos acontecem não são mais do que os factos que, ainda a tempo, nos despertam para enriquecermos a nossa mente de amor, de resignação e de muita fé.
Deixa-me só que te diga mais isto:
Quando entrámos na igreja para nos casarmos, o que é que nós sabíamos acerca de Jesus Cristo?
Praticamente nada.
Nós casámo-nos na igreja católica, porque todos, ou quase todos, lá se casavam.
E depois de casados, quando é que voltámos à igreja?
Só para acompanhar alguma missa de corpo presente relativamente a alguém querido que tinha falecido, ou então aquando do casamento das nossas filhas.
Contudo, Jesus Cristo deixou-nos uma mensagem dum valor extremamente importante e que só agora, depois de forçosamente ter parado a minha rotina de homem fisicamente saudável e de me ter dedicado mais à rotina de homem que quer ter saúde espiritual, é que comecei a compreender melhor.
Ele assegurou-nos que, após esta vida física existe outra, a qual é eterna e para a qual transitamos com o nosso corpo espiritual, que é idêntico ao nosso corpo físico.
E, para além disso, Jesus ensinou-nos que o caminho da felicidade está no amor.
Por tudo isto que eu só agora descobri, compreendo que toda a esperança vale a pena, porque nós podemos aproveitar o sofrimento físico para nos irmos libertando das imperfeições morais e para chegarmos à vida espiritual com muito mais saúde.
Quem não sabe disto e cai numa cama, como eu caí, pergunta-se:
- Mas esperança para quê, se o que me espera é a morte?
Mas isso é absolutamente falso.
A esperança justifica-se plenamente, porque o que me espera é outra vida melhor do que esta, onde eu voltarei de novo a ser saudável, onde eu vou rever pessoas que amo e onde serei ainda muito mais feliz do que já fui até aqui.
Quando eu antigamente ia aos almoços com os meus amigos, a forma de ver a vida que quase todos tínhamos era a de que havia que aproveitar o agora e, dizíamos nós, vamos lá comer, beber e gozar, porque isso é o que se leva desta vida.
Que ignorância a nossa, Maria!
Nada disso se leva desta vida.
O que dela se leva de enriquecedor são os bons valores que colocamos dentro de nós; o amor, a humildade, a entrega do nosso tempo, das nossas atitudes, do nosso carinho, isso que somos capazes de fazer em prol dos outros.
O que é que eu agora acho que não tenho da tua parte?
É precisamente essa entrega.
Não é a parte material da assistência, porque isso tu dás-me.
Mas é a ternura, o amor, a tua vontade espontânea de te continuares a dar, como antes o fazias comigo.
E pensa nisto que te digo, Maria.
É desta entrega que tu também precisarás, mais cedo ou mais tarde, nesta ou na outra dimensão, porque todos somos seres muito débeis e muito dependentes do amor dos outros.
E tudo aquilo que dermos nos será restituído, porque a gratidão é uma importante mola que nos impulsiona a fazer aos outros aquilo que os outros nos fizeram.
Isso nós já o sentimos nesta vida física e continuaremos a senti-lo na vida espiritual.
Jesus Cristo alertou-nos para tudo isto, mas nós, que nos dizemos cristãos, passamos anos e anos ao lado deste tipo de realidades e de reflexões e, por vezes, só quando a vida nos obriga a abrir os olhos da mente, é que nos damos conta do enorme tempo que perdemos em inutilidades e das muitas oportunidades que desperdiçamos de seguir as Pegadas do nosso Divino Mestre.
As nossas qualidades ou defeitos espirituais é que são as realidades que levamos para a outra vida.
Se, enquanto saudável eu me tivesse preparado por forma a me enriquecer espiritualmente, esta transição para uma vida materialmente menos abrangente ter-me-ia custado menos ou, inclusivamente, até poderia não ter sido necessária, porque eu já tinha desvendado, por mim próprio, as janelas que, afinal, a vida teve de me abrir dolorosamente, para que eu despertasse para a minha espiritualidade.
Não existem coincidências, Maria. Nada acontece por acaso.
Hoje estás plena de vitalidade, mas amanhã podes já não estar e, nessa altura, tal como eu hoje necessito, tu precisarás da solidariedade dos outros e ficarás extremamente triste se, em vez de te darem solidariedade te mostrarem enfado e contrariedade pela ajuda que te prestam.
Acredita numa coisa, mulher:
Um dos factos mais penosos é sentirmos que estamos a dar trabalho a quem não quer ter incómodos por nossa causa.
Aquelas palavras embatiam na muralha que ela tinha erguido e, aparentemente retrocediam.
Ela não tinha tido ainda a necessidade, e nem tinha criado a oportunidade de abrir uma fresta pela qual este tipo de ideias pudesse penetrar no seu interior.
Por isso, ela não conseguiu aguentar mais e, bruscamente levantou-se e disse:
- Já vi que não vale a pena; esta conversa não leva a parte alguma. Fica com as tuas ideias fixas, com a tua ingratidão, que eu fico com a tranquilidade da minha consciência.
E, dito isto, saiu e fechou com estrondo a porta que dava para o resto da casa.
O Hilário ficou ali, entre aquelas paredes, encerrado no quarto que agora era o núcleo do seu mundo físico, mais sozinho do que estava antes de se ter derramado sinceramente, para que a sua mulher o ouvisse, e de ter dito tudo aquilo que lhe ia na alma.
Mas ele, nesta altura da vida, já estava capaz de receber, sem se perturbar, embates desta natureza, os quais eram extremamente diminutos, quando comparados com as montanhas de tristezas e de dúvidas que ele já tivera de defrontar, dentro da mente e do coração, desde que, numa enevoada manhã de inverno, ficara a saber que estava gravemente doente e assustadoramente incapacitado.
Manteve, pois, o seu projeto de ir para o lar. Não colocou minimamente em dúvida o processo que já iniciara, quando tinha feito o pedido ao diretor da instituição e quando, semanas mais tarde, foi visitado pela respetiva assistente social.
Desde a conversa que anteriormente narrámos, passaram-se mais de duas semanas, dias aparentemente iguais, mas que para ele começavam a ter, cada um deles, a sua identidade própria.
A mulher, ajudada pela empregada que lá trabalhava cinco horas por dia, continuava a prestar-lhe o apoio e, quanto àquela conversa que acima reproduzimos, nunca mais a mesma foi aflorada entre o casal.
Aquele monólogo que ele protagonizou, apenas entrecortado pelas faltas de aceitação dela relativamente ao que lhe era afirmado, foi a abordagem mais franca que tinha ocorrido entre ambos acerca da situação de incapacidade que agora o vitimava.
Mas, no bom rigor da verdade, a franqueza proviera apenas dele, que tinha tido a coragem de trazer para fora o que lhe ia no mais fundo da alma, não se importando de dizer coisas incómodas, mas verdadeiras, à mulher de quem, naquela altura, ele dependia quase exclusivamente.
Seja como for, ao deitar-se para fora, ele lançou o seu lamento, disse da sua tristeza e, quer se queira quer não, tudo oque nós dizemos a outra pessoa provoca nela alguma reação, a qual pode ser inconsciente, pode ocorrer sem que essa pessoa se aperceba, pode até ser em sentido contrário daquele que a pessoa pensou ao ouvir as palavras, mas a reação existe e, com ela, há caminhos que se abrem, uns para o amor e outros para o ódio, uns para a solidariedade e outros para a indiferença, uns que nos levam para longe de nós mesmos e outros que nos edificam e nos fazem crescer espiritualmente.
O equilíbrio daquela relação alterara-se profundamente, desde o dia em que ele ficou tão dependente da boa vontade dela e do seu maior ou menor espírito de solidariedade.
De facto, ele tinha razão.
Aquelas palavras reveladoras duma situação conjugal deplorável que, de tanto assim o serem, a mulher não conseguiu ter outra reação que não a de as rejeitar, constituíam a fiel descrição da leitura que o coração dele fizera dum diário não escrito, mas intensamente vivido, que, naquela casa, mais precisamente naquele quarto, se tinha desenrolado ao longo de mais de dois anos.
A Maria do Rosário sentia-se presa, já não ao marido, mas à situação, já não ao casamento que o amor concebera, mas apenas àquele que os ditames sociais impunham.
As mãos dela limpavam, vestiam, mas faziam-no por dever; os olhos dela tentavam não ser janelas fiéis do que lhe ia na alma, mas, por muito que se quisessem fechar à tempestade que lhe agitava o interior, esta acabava por transparecer, traindo-lhe a vontade, mostrando o sentir de quem, naquela situação que a vida, sem aviso ou preparação lhe entregara, não tinha conseguido encontrar o marido que, diminuído pela permanente dependência, contudo continuava a existir, naquilo que um ser humano tem de essencial.
Três anos antes, o casal ainda entrelaçava as mãos, quando ambos viam televisão sentados no sofá da sala, apesar de, então, já terem mais de trinta anos de vida em comum.
Nessa altura o afeto ainda borbulhava dentro de ambos, e irrompia por todas as vias disponíveis para a sua comunicação.
Expressava-se pelos olhos, pelas mãos, pela voz, pelo roçar dos corpos, pelas mais ínfimas atitudes que cada um tomava em relação ao outro.
Agora ainda existiam as mãos, os olhos, a voz e os corpos, ainda existia dentro dum homem um coração que ardia em calores imensos de ternura e em agonias torturantes geradas pela escassez dela, mas o outro coração já não estava sintonizado na mesma onda.
De facto, o Hilário Manuel tinha razão: a sua mulher tinha agora a viver consigo o marido que não desejara, o marido que a vida, sabe-se lá porquê, inopinadamente lhe tinha imposto.
Ela sentia-se ali acorrentada, já não pelo sentimento, mas pelo dever.
“afinal tenho duas filhas com ele. E seria agora, que o homem está nesta desgraçada situação que eu o iria deixar?
O que é que todos diriam de mim?
Se eu o deixasse, quem é que vinha tomar conta dele?
E, se eu me fosse embora, onde é que eu iria encontrar outra casa igual a esta para viver?”
Era assim, durante aqueles quase 28 meses de vida diferente, tinham sido estas e outras de natureza análoga, as interrogações que, quase permanentemente a tinham assaltado.
Era uma sopa racional em que se misturava o dever formal de ser solidária e a necessidade de não perder as suas comodidades habitacionais quotidianas.
Foi, pois, neste substrato, que o dia a dia se tinha forjado, que o Hilário tinha sido assistido na sua nova situação de dependência.
mas ele, que anteriormente se tinha habituado a receber muito mais da mulher que ainda amava, defrontava-se agora com a desilusão, com o desgosto, com um tremendo mal-estar psicológico que já o afligia mais do que a sua própria situação física.
Ele bem o sabia, o amor não se raciocina nem se impõe e, por outro lado, apesar de ele
ter conseguido encontrar uma luz onde quase toda a gente diz que apenas existe a escuridão, sentia pesar-lhe cada vez mais dolorosamente o sentimento de cansaço e indisponibilidade solidária que a sua mulher, involuntariamente, lhe ia comunicando.
mais de duas semanas após aquela conversa que narrámos, certa manhã, a Maria do Rosário foi à caixa do correio e encontrou aí uma carta dirigida ao marido.
O remetente era conhecido; vinha da instituição à qual o Hilário pedira para ser admitido no lar para idosos existente na cidade.
Não era hábito seu abrir as cartas que vinham para o marido sem que este a autorizasse e, por isso, guardou-a, na intenção de lha entregar.
Podia tê-lo feito imediatamente, mas, intuitivamente, algo lhe dizia que o não fizesse. Tinha quase a certeza que aquela carta iria trazer a aguardada comunicação de que, finalmente, ele poderia entrar na residência S. João.
Mas, pensava ela, se a notícia fosse essa, não estaria ali a porta para recuperar a sua comodidade perdida?
Não estava ali a oportunidade de deixar aquela rotina esgotante de quem, aos dias de semana, chegava já cansada do trabalho e ainda tinha outros trabalhos pela frente?
E quem a poderia acusar de ter abandonado o marido numa hora difícil, se fora ele quem escolhera ir para o lar, aliás, contra a vontade dela, que insistira com ele para que o não fizesse?
Tudo argumentos extremamente válidos que uma análise exterior dos factos não podia desmentir.
Mas o ser humano, por mais que tente ir em sentido contrário, não consegue ficar-se apenas por aquilo que é exterior, cognoscível pelos sentidos, apreensível no fluir dos factos que, objetivamente, ocorreram em determinada relação.
A moral formal é uma, mas, quando ela é somente formal, voga à superfície, questionada pela moral substancial, a qual não se verga, não se amolece, não se engana e nem se cala.
Ela sabia que tinha tentado, por palavras claramente expressas junto do marido, dissuadi-lo de deixar de viver naquela casa.
Mas ela também conhecia outra realidade, a qual se tinha passado numa zona da consciência que exclusivamente lhe pertencia e onde ninguém mais, se não ela, tinha acesso.
Ela sabia que aquelas palavras que o marido lhe dirigira mais de duas semanas antes, quando lhe escancarara a factualidade assistencial podre, que tinha ocorrido desde que ele ficara doente, condiziam com a crua verdade, violentamente acusadora, incomodamente gritante, ainda que ela, com grande desespero a tivesse querido calar.
“quantas vezes disse eu, de mim para comigo, que estava farta desta situação, que viver assim não é vida, que eu não tinha feito mal nenhum a Deus para agora merecer um castigo tão grande!
Bem, mas se eu disse não foi por mal, perdoa-me meu Deus, eu estava cansada, eu nunca pensei que isto me pudesse acontecer, tudo isto está totalmente fora dos planos que eu tinha feito para a minha velhice.”
Eram ideias destas que, de quando em vez lhe afloravam à mente, mais vezes do que ela
própria desejaria, num chicotear sistemático e preciso, executado pela consciência, a qual nunca deixa impune qualquer falta nem esquecido qualquer merecimento.
As horas foram decorrendo e ela balançava entre a vontade de entregar a carta e algo que lhe dizia para não o fazer.
Chegou a noite, mais tarde disse boa noite ao marido e foi dormir para o outro quarto, o qual, deliberadamente, ela escolhera para pernoitar, desde que o marido tinha voltado para casa, já enfermo.
Enquanto o sono não vinha, existiam ideias que, como breves relâmpagos lhe faiscavam na mente.
Nelas estava sempre o Hilário, ele caminhando e ele na cama, ele robusto e ele doente, contudo era sempre o Hilário, mantinha-se o mesmo, não só o nome como a pessoa, clamando, silencioso, pela promessa que ela sempre lhe fizera de o amar para a vida inteira.
Nessas breves, mas repetidas imagens, o Hilário nada dizia, mas, espontaneamente a pergunta repetia-se:
Amar para a vida inteira?
Tu sabes o que é que isso significa?
Consegues compreender minimamente as expectativas que lhe criaste?
Será que tu alguma vez te apercebeste que amar é dar com alegria, é conseguir contagiar-se com o sorriso de quem se ama, é fazer tudo para que esse sorriso surja?
Talvez tu ainda não tenhas compreendido que a vida nos entrega oportunidades irrepetíveis de podermos comprovar a grandeza do nosso amor e dessa forma, crescermos um pouco mais.
Não, enganas-te, ele não precisa agora mais de amor do que tu precisas.
Aparentemente ele está mais dependente do que tu, mas tu afastaste-te mais do caminho da felicidade do que ele, sendo certo que, quanto mais longe estamos de nós, mais precisamos da mão do outro para que nos ajude a encontrarmo-nos.
Por momentos esqueceu a carta, fechou-se determinadamente às questões que vinham de dentro, pegou no telemóvel e entrou nas redes sociais, contactou com as amigas, divagou por temas diversos e, depois de ter permanecido mais de duas horas acordada, finalmente adormeceu.
Na manhã seguinte, que era sábado, só se levantou quando a empregada bateu à porta.
- olá d. Rosário, então hoje deixou-se dormir?
- É verdade, nem sei como é que isto aconteceu. E logo a mim que até costumo dormir mal de noite.
- Então o esposo esta noite dormiu bem?
- Sim, de facto teve uma noite boa.
O que sabia ela da noite que o marido tivera, se desde que se despedira dele, na noite anterior, não o voltara a contactar? Mas sim, partiu do princípio de que tinha dormido bem e que devia já estar à sua espera para a muda da manhã.
O dia decorreu normalmente e, a meio da tarde, ela decidiu-se finalmente e entregou a carta ao marido.
Este, depois de a ter lido, disse-lhe:
- Pronto, mulher, vou ter vaga já no princípio do mês.
Faltam mais ou menos onze dias. Prepara aquilo que achas que eu devo levar. E não disse nada mais.
Ela ficou ali imóvel, de pé ao lado da cama, olhando-o com uma tristeza tão grande que ele se comoveu e, sem quaisquer palavras, começou a chorar.
Então ela, sentou-se na cama, pegou na mão dele com a ternura de antigamente, olhou-o
nos olhos com a luz que antes expelia, e da qual ele já estava cheio de saudades, e, com uma voz entrecortada de soluços, disse-lhe meigamente:
- Não vás para o lar, Hilário.
Eu sei que tu tens razão em muito daquilo que me disseste, mas eu vou ser melhor. Desculpa, eu amo-te muito.
Não foram necessárias mais palavras. Seguiu-se um silêncio onde existiam poemas profundos e doces que se recitavam, onde soavam melodias que vinham de dentro, onde se acendiam luzes que faziam resplandecer multidões de seres humanos que estavam iluminados, eram um todo, os que caíam eram levantados pelos outros, os que choravam os outros os consolavam, aos que queriam desistir, os demais lhes davam força para continuar.
“Eu amo-te muito.”
Estas palavras entraram dentro dele e varreram-lhe os medos, as dores, os tropeções, fizeram-no esquecer do corpo quase incapaz e ele saiu, deslizando por horizontes imensos, tão amplos que nenhuma cama podia impedir que explodissem em cânticos de glória e de satisfação, de envolvimento e de paz.
“Jesus, Jesus,” gritava uma voz dentro dele, “como tu soubeste ir à essência e trazer ao de cima o amor, esse sentimento muito belo que pode salvar a humanidade, que pode fazer o milagre de dar saúde a todos os enfermos, aos do corpo, mas também aos do espírito, e fazer nascer um clarão de esperança na mente de todos aqueles que se debatiam no desespero.
É verdade Divino Mestre:
“5Bem-aventurados os mansos, porque eles herdarão a terra;
7Bem-aventurados os misericordiosos, porque eles alcançarão misericórdia;
8Bem-aventurados os limpos de coração, porque eles verão a Deus.”
O Hilário, afinal tinha razão, onde todos pensavam que já nada se enxergava, havia ainda por descobrir uma luz refulgente, imensa, abrasadora e edificante, justa e reparadora, a qual agora unia aqueles dois seres, num amor mais profundo, mais maduro e verdadeiro, porque enfrentava a adversidade, e sobre ela saía vitorioso, para glória e felicidade de ambos.
Esse amor de agora confirmava com letras de esperança e de renúncia, de fé e de paz, aquela promessa que tinham feito um ao outro, perante o sacerdote, junto ao altar, no dia do seu casamento.
- Não, Maria, eu já não vou para o lar. Eu ficarei contigo até que tu o queiras e Deus o permita.
Ela, então, deitou-se ao lado dele, abraçou-o como nunca mais o fizera, beijou-o com amor e um enternecimento inesgotável, e apenas foi capaz de dizer:
- Obrigado meu amor.
Faro, 24-4-2020
José Bento
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