OBRIGADO JESUS
Era o dia 24 de dezembro.
A cidade estava no auge da sua vivência Natalícia; lojas enfeitadas, pessoas ultimando os preparativos daquela noite tão aguardada em que as famílias se juntam no aconchego da casa, uns por amor, outros apenas pelo hábito e outros ainda pelo medo de enfrentarem sozinhos uma noite que, tradicionalmente, é para ser vivida na companhia de alguém, mesmo que as palavras sejam pouco significativas e os sentimentos vagos e frios.
Na noite de Natal, até os solitários dão consigo a temer estarem sozinhos, pois, quanto mais os outros se juntam, mais eles se sentem tristes e excluídos, porque o ser humano é, por natureza, um ser social, não podendo realizar-se se não através do intercâmbio com os seus semelhantes.
E quando a solidão cresce, surgindo intempestiva lá do fundo da alma, com terror e brutalidade, começa a formular questões, a trazer recordações do tempo em que ela não existia, a buscar razões para o seu próprio existir e tudo com muita dor, a qual vai sendo debitada no coração do solitário, que se remexe mais do que é costume e que enfrenta ondas de sofrimento mais intensas e cruéis que, em vez de desmaiarem na praia do esquecimento, se agitam sobre as penedias da tormenta.
Era nesse ambiente festivo da cidade, mas que, apesar de não estar sozinho, paradoxalmente lhe sabia um pouco a solidão, que o Gabriel ia passeando lentamente pelo centro da urbe onde morava, acompanhado pelo seu filho, o David, um menor de treze anos, já bem entroncado, de cabelo escuro e crespo, de olhos castanhos e faces arredondadas.
Deslizavam lentamente pelas ruas, viam as montras e, de quando em vez entravam numa pastelaria e aqueciam-se, tomando um copo de leite com chocolate e saboreando uma qualquer especialidade da doçaria local.
Pai e filho andavam por ali sem pressas, sentindo a azáfama das gentes que circulavam de loja em loja, buscando a compra mais adequada.
Eles, porém, tentavam ganhar tempo para enfrentarem uma situação que, nesse ano, se lhes pusera pela primeira vez, e para a qual nenhum deles tinha ainda conseguido arranjar o devido enquadramento.
Roçavam-se ambos pelo bulício exterior, com medo de escutarem o aflitivo ruído que tinham interiormente, o qual sabia a carência, a perturbação, ao desgosto sentido por quem perdeu alguém que, todavia, ainda tanta falta lhe faz.
Estavam ali ambos metidos na mesma situação, adotando, cada um deles, a sua própria estratégia para a enfrentar.
Por um lado, era um adolescente que ainda estava extremamente débil para suportar problemas desta natureza e, por outro, um homem, já quase na casa dos quarenta, que nunca pressupôs defrontar-se, precisamente num qualquer Natal, que dizem ser a festa da família, com o facto de se deparar com a sua própria família nuclear em desagregação.
Estavam eles sentados numa das mesas do café central, quando o adolescente se saiu com esta:
- Pai, no ano passado, fomos todos à Missa do Galo; lembras-te?
- Sim meu filho.
Disse o Gabriel já com a voz embargada por uma tristeza muito grande que, a todo o custo, não queria deixar transparecer.
E o miúdo continuou:
- A mãe tinha preparado uma mesa muito bonita, com um bacalhau espiritual e com doces que ela tinha aprendido a fazer, por consultas na internet. Eu ajudei a fazer alguns deles.
- É verdade meu filho.
Mas o menino não se ficou por aqui e lançou mais uma pergunta:
- E este ano?
E ao fazer esta pergunta os olhos do pequeno toldaram-se de lágrimas e o Gabriel, ao olhar a enorme tristeza que transparecia na cara do filho, não pôde deixar de chorar também.
Estava ali uma das perguntas que ele temia, que o desorganizava por dentro, que trazia consigo dores quase insuportáveis, mas não podia deixar o seu filho sem a melhor resposta que o seu coração despedaçado pudesse arquitetar.
Por isso, recolheu toda a força interior de que era capaz e, olhando o menino com a serenidade que lhe foi possível, disse-lhe:
- Este ano apenas somos dois, meu filho.
a tua mãe quis seguir outro caminho e a doçura do nosso natal desfez-se. Vamos cear à casa da tia Laura, mas já não é a mesma coisa. depois voltamos para a nossa casa, mas não te posso mentir. Para mim, e também para ti, a noite já não tem a alegria que as noites dos outros Natais tinham, enquanto estávamos os três juntos.
Quando eu e a tua mãe nos conhecemos, fizemos belos projetos de criarmos uma família muito unida, de termos uma casa linda, à medida da nossa família, e de termos um menino assim como tu que nos enchesse a vida de afeto e alegria.
Tudo se realizou, e por isso não é fácil, pela primeira vez este ano, verificar que muito daquilo que projetámos, que tivemos e que, com prazer vivemos, afinal se destruiu.
Mas não te esqueças duma coisa:
Festejar o Natal é, fundamentalmente festejar o nascimento de Jesus, o nosso Divino Mestre.
Ele continua a espalhar sobre todos nós bênçãos de amor e compreensão, consolo e fraternidade e devemos congratularmo-nos com o Seu Nascimento.
Por isso, devemos ir à festa do seu aniversário, na Missa do Galo, com o coração cheio de esperança, porque a vida tem muitos altos e baixos e nós temos de saber enfrentar os momentos mais difíceis com muita fé, porque de Deus sempre nos chega o auxílio, no tempo oportuno, para que a tristeza se transforme em alegria; para que o negativo ceda lugar ao positivo e para que, enfrentando o sofrimento, possamos crescer interiormente e ser pessoas cada vez mais compreensivas e solidárias.
Há muita gente que está em situações mais custosas do que a nossa, mas, ainda assim, mantém a fé.
Hoje estamos aqui neste café, lamentando a falta da tua mãe entre nós, mas há muitos pais que, a esta hora, apesar de estarem unidos, têm os seus filhos gravemente doentes, muitos deles já com as horas de vida contadas.
Hoje estamos nesta cidade, em que as pessoas, em paz, se preparam para a noite de Natal, mas existem outras cidades no planeta onde, agora mesmo, se ouve o rebentar das bombas e onde crianças como tu apenas pedem que lhes seja encontrado um abrigo que lhes permita terem mais um dia de vida.
No meio de tantos sofrimentos, há gente que não perde a fé em Deus, que tem a certeza que do fundo da escuridão sempre o Senhor fará nascer a luz mais radiosa.
Tem esperança em dias melhores, meu querido.
É aprendendo a viver os dias menos bons que conseguimos crescer e apreciar melhor toda a felicidade que a vida tem para nos dar.
E há outra coisa importante que deves ter em mente: A tua mãe não está entre nós, mas está viva, está saudável, continua a gostar muito de ti e está combinado que amanhã vais jantar com ela.
Há muitos meninos da tua idade que já não têm mãe nem pai, e não podem sentir o carinho que tu, felizmente ainda sentes da parte daqueles que te deram o ser.
Mas o David tinha o coração agitado demais para apenas ouvir e meditar.
Ele tinha muitas perguntas a fazer, cujas respostas lhe eram fundamentais para a compreensão daquela situação dolorosa em que se encontrava mergulhado.
E à medida que ele perguntava, mais o coração do Gabriel se retalhava e comprimia, esforçando-se por dar a resposta que, ao mesmo tempo, fosse mais adequada e menos agravante da perturbadora situação que ambos vivenciavam.
O filho perguntava para tentar acalmar-se, mas a cada pergunta feita, mais se avolumava a feroz tempestade que dilacerava o coração daquele pai, o qual se via obrigado a encontrar respostas que fossem satisfatórias para o seu filho, quando, na verdade, ele próprio ainda não tinha achado todas aquelas que lhe trouxessem o apaziguamento de que tanto carecia.
- Porque é que a mãe se foi embora paizinho?
- É difícil responder-te; David.
talvez porque pensou que ia ser muito mais feliz junto de outro homem.
Mas acredita que ela também deve sofrer muito, nesta noite de Natal, quando for invadida pelas mesmas recordações que agora nos entristecem a nós.
Aquilo que se gerou entre nós os três foram laços enormes de ternura, foram teias muito belas de sonhos, foi uma construção espiritual que não é fácil estragar, sem que venha muito sofrimento à mistura.
Nós construímos, afinal, no suave tecido da ternura, uma moradia muito bonita, com adornos preciosos onde cada um de nós tinha um lugar privilegiado e onde os três nos sentíamos muito felizes.
Essa moradia, em vez de ter paredes, telhado, portas, janelas, móveis e tapetes, tinha imensos laços de amor, que se foram criando, que foram crescendo e se apertaram, à medida que os anos se passavam e que cada um de nós acarinhava os demais.
Esta nossa moradia dos afetos é muito diferente da moradia em que hoje nós habitamos.
Nas casas que se tocam, onde há paredes, portas e janelas que se veem, nós entramos e saímos, e quando não gostarmos daquela casa, mudamos para outra.
Estas casas materiais trocam-se, compram-se e vendem-se e a sua função é a mesma: dar conforto ao nosso corpo.
Na casa dos afetos, as coisas não se passam assim. Nós fazemos parte da própria casa e, por isso, não entramos nela e não saímos de lá quando queremos, nem a podemos trocar ou vender.
A casa dos afetos vive dentro de nós e nós vivemos dentro dela, somos parte dum todo que se harmoniza.
Por isso, meu filho, não é fácil destruir tudo isto sem que o coração se ponha a sangrar e a pedir explicações para a justificação dum ato tão demolidor.
A tua mãe partiu, quis deixar esta nossa casa dos afetos, pensou que era possível afastar-se dela assim como se afastava da casa onde nós moramos.
Mas pouco a pouco ela vai ver que as coisas são diferentes.
Ela pôde bater com a porta da casa onde moramos, pode mesmo esquecer-se dela, mas não consegue fazer o mesmo à nossa casa dos afetos, porque parte dessa casa foi com ela, pegada na sua mente, recordando-lhe hora a hora que ela faz parte dessa casa e perguntando-lhe por razões válidas para que ela se mantenha fora do lar de ternura que lhe pertence e que tanto contribuiu para criar.
Mas seja como for, temos de compreendê-la.
Talvez seja esta a grande provação que nos foi posta neste Natal, para que aprendamos a entender a forma de ser e agir de cada um, e a não odiar nem desprezar quem segue um caminho diferente do nosso.
Lembra-te que Jesus estará sempre contigo se o tiveres no teu coração.
Mais logo, quando formos à Missa do Galo, naquela altura em que o sacerdote faz a consagração, erguendo o cálice e a hóstia, crê que Jesus está ali presente, está entre nós e ouve as nossas preces.
E então, com muita fé, pede-lhe que nos ilumine a todos e nos ajude a trilhar o melhor caminho.
Depois de dizer isto, o Gabriel foi invadido por várias perguntas que não vinham do seu filho, mas lá de zonas bem profundas da sua mente, e que lhe surgiam pela primeira vez, obrigando-o a respostas incisivas e precisas:
- “Diz-me lá, o que fizeste para que, na vossa casa dos afetos houvesse uma claraboia por onde pudesse entrar em abundância a luz da fé?
Quantas vezes, no fluir do dia a dia, apresentaste Jesus ao teu filho e à sua mãe?
Não será verdade que, apesar da religiosidade que agora demonstras, apenas te lembravas de Jesus, e apenas falavas dele com o teu filho e a tua mulher, quando, na noite de Natal, iam à Missa do Galo?”
Se tivesses deixado Jesus, no dia a dia, entrar na tua casa dos afetos, será que a Alexandra não teria, na sua alma, energias muito mais positivas, as quais lhe permitissem resistir à teia enganosa que a levou para longe de vocês?
Estas questões abriram-lhe portas novas e diferentes na forma de encarar a situação que agora tanto o fazia sofrer.
É verdade; ele havia feito, perante o seu filho, minutos antes, a distinção entre a casa material e a casa dos afetos, mas, de facto, enquanto a sua relação conjugal durou, a casa material sobrepôs-se à casa dos afetos, não raro brilhando mais do que esta, tolhendo os voos da alma, os quais ele não tinha incentivado, nem em si, nem na sua então esposa, nem sequer no seu filho, para que ascendessem até à Alta Espiritualidade e aí se iluminassem com os Divinos e bons valores que Jesus nos tinha anunciado.
Afinal, ele não estava isento de culpas quanto às causas que haviam desencadeado aquela violenta tempestade que trazia as lágrimas aos olhos do seu filho e enormes pesares à sua torturada alma de pai.
Após um demorado e conturbado silêncio que entre pai e filho se estabeleceu, o Gabriel levantou-se, pagou a conta e saíram os dois, tendo ambos continuado a passear pelo centro da cidade, até que se fizesse mais de noite e fosse tempo de irem para casa, para se arranjarem, irem à Missa do Galo, e depois poderem então estar com a tia Laura e a família dela.
A verdade é que eles não tinham pressa de voltar para casa, porque tinham medo de enfrentar a dor provocada pela falta duma pessoa que antes a enchia e agora, com a sua ausência, a tornava tremendamente triste, desabrigada e vazia.
Quando lá chegaram, acenderam as luzes do presépio e da árvore de Natal, que propositadamente o pai fizera maior e mais bonita que todas as dos anos anteriores, encheram a casa de música de Natal, e ali ficaram a aguardar que chegasse a hora de irem para a Missa, pondo os olhos, ora no computador, ora na televisão.
Mas o David ainda não tinha satisfeito toda a sua curiosidade. O seu coraçãozinho tinha lá dentro uma pergunta derradeira, talvez a mais importante de todas para ele, naquele momento.
- Paizinho, desculpa lá mais esta pergunta:
- Diz lá meu querido menino.
- E se a mãe quisesse voltar para nós tu aceitavas?
O pai compreendeu logo que ali estava algo mais do que uma pergunta; estava um pedido que, para o David, apenas poderia ter uma resposta satisfatória.
O pai, para arranjar tempo para responder devidamente a uma questão tão difícil, disse-lhe que tinha de ir à cozinha beber um pouco de água, porque estava com sede.
E realmente foi, mas a sede que ele mais tinha era de clareza nas ideias, para conseguir ter respostas satisfatórias que pudesse dar a si mesmo e ao filho.
Enquanto lentamente bebia a água na cozinha, foi-lhe passando pela mente a coragem e clarividência do Divino Mestre que, perante uma sociedade altamente preconceituosa que lhe foi contemporânea, sempre colocou o amor acima de tudo e que, pela lente do amor, tudo via e esclarecia, tendo-nos deixado ensinamentos que resistem aos milénios, porque vêm do Divino, do Essencial, daquilo que está na criação e continuará no fluir da existência, impondo-se às controvérsias falaciosas que mentes entorpecidas pela arrogância, pela vaidade e pelo egoísmo ainda possam engendrar.
Quando voltou à sala, onde o David ainda estava, o pai sentou-se de frente para ele e, encarando-o, disse-lhe:
- Sabes, meu filho, se me fizessem uma pergunta dessas, quando eu tinha vinte anos, responderia imediatamente que não.
Eu fui educado num ambiente em que o facto duma mulher deixar o seu marido para ir viver com outro homem, era considerado como imperdoável pela sociedade.
O homem que aceitasse uma mulher que u tivesse trocado por outro homem era mal visto pela demais gente, era considerado um frouxo.
As pessoas, nos meus tempos de juventude, não eram flexíveis, neste tipo de situações.
Mas hoje penso de outra forma.
Eu acredito que todas as pessoas, porque falíveis, são suscetíveis de cair em erro, mas merecem ser perdoadas relativamente aos erros que cometem.
Por vezes, geram-se situações muito difíceis, que podem levar uma pessoa a ser seduzida e a convencer-se de que vale a pena deixar a sua família e passar a viver com outrem.
Se essa pessoa um dia chega à conclusão que errou e, sinceramente volta para o seu cônjuge com o coração cheio de arrependimento e de amor para continuar com a relação de ambos, se o cônjuge ainda a ama, penso que não se deve deixar que nenhum preconceito se oponha à felicidade do casal.
Por isso, a minha resposta hoje seria positiva.
Sim, se a tua mãe voltasse, eu estava disposto a esquecer todo o mau bocado que passámos e faria tudo para que a nossa relação fosse o mais feliz possível.
O David expressou um amplo sorriso que lhe iluminou a face, e, por momentos, o seu contentamento foi tão notório, que até parecia que a mãe já tinha voltado para casa.
O tempo foi-se passando e, pouco depois do relógio ter batido as onze da noite, eles saíram de casa, pois que a igreja onde iam assistir à missa ainda era longe.
Quando lá chegaram, sentaram-se numa das filas da frente e, alguns minutos decorridos, a Missa do Galo começou.
O David não entendia bem muitas das orações que iam sendo ditas, mas gostou de ouvir os cânticos e as palavras proferidas pelo sacerdote, quando ele explicou o trecho do evangelho que havia lido e o significado daquela noite tão especial.
Duas filas atrás, já depois deles terem entrado, sentou-se uma mulher de cabelo negro que lhe caía sobre os ombros, usando óculos escuros, e a qual vinha enrolada num casaco comprido cinzento.
Eles não deram pela sua chegada.
Quando o sacerdote tomou na mão o cálice e a hóstia e disse que ali estava o corpo e o sangue de Jesus, o David lembrou-se daquilo que o pai dissera; acreditou profundamente que Jesus estava ali e que ouviria tudo aquilo que ele lhe pedisse.
olhou fixamente o cálice e a hóstia sagrada e começou a fazer uma prece que lhe vinha das zonas mais profundas do ser, uma prece com palavras que a sua grande fé lhe ditava, uma prece secreta, mas profundamente sincera, a qual, contudo, não teve o conteúdo idêntico àquele que o pai lhe tinha aconselhado horas antes, mas antes o que mais correspondia à aflição que torturava o seu ainda tão carente coração.
Não repetiremos aqui todas as palavras que disse, mas o fundamental foi isto:
- “Senhor Jesus, pede à minha mãe que volte de novo para junto de mim e do meu pai.”
À medida que rezava, dos seus olhos de adolescente, desprendiam-se lágrimas que, ao deixarem aqueles olhos ainda tão inocentes e esperançosos, houve uma mulher, sentada duas filas atrás, que viu que essas lágrimas se transformavam em pequenas luzes com tons alaranjados, que flutuavam no ar e iam pousar nas mãos do sacerdote que fazia a consagração.
Esse mesmo alguém afirma que viu que todas essas lágrimas aí se juntavam, tendo a forma dum coração e que, do cálice, saía uma luz verde, maravilhosamente brilhante, que rodeava aquele coração de lágrimas sinceras, dando-lhe a tonalidade revigorante da esperança.
De todas as pessoas que estavam naquela igreja, apenas uma delas pôde ver isso, porque aquelas lágrimas provinham de alguém que a ela estava ligado pelo amor mais profundo que é possível imaginar, aquele amor que já existe antes que a pessoa tenha nascido, e que se vai aprofundando a cada beijo, a cada gesto, a cada passo que a criança vai esboçando e que o adulto gostosamente ensina e ampara.
E, por outro lado, essa mulher sentada duas filas atrás, estava na mesma sintonia do pedido do menino, porque ela já tinha entendido que só conseguiria ser feliz na sua casa dos afetos, a qual a acompanhara a toda a hora, na relação que tinha mantido com outra pessoa e, de tal modo, que, à medida que o tempo passava, essa relação ia tendo cada vez menos brilho, porque aquele que dimanava da casa dos afetos que essa mulher trazia consigo, se sobrepunha a tudo o resto.
Antes que a missa acabasse, essa mulher saiu, e nem o Gabriel nem o David deram pela sua presença.
Depois da Missa, eles meteram-se no carro e dirigiram-se à casa da tia Laura, para festejarem aí a consoada.
Quando lá chegaram, viram estacionado perto da porta dela, um carro que lhes era familiar.
- Pai, aquele é o carro da mãe.
-É verdade David, talvez tenha vindo cá para te dar um beijinho e dar-te o presente de Natal.
O miúdo não perdeu tempo e assim que o carro do pai se imobilizou, abriu a porta e foi a correr para junto do carro da mãe.
Esta, ao vê-lo, saiu e abraçou-o, beijando- demoradamente.
Pouco tempo depois, chegou junto deles o Gabriel, que cumprimentou a ex mulher.
- Olá Alexandra, que bom que tenhas vindo nesta hora ver o menino. Acredita que ele fica muito contente.
Ela, olhando-o fixamente, colocando-lhe a mão direita sobre o ombro, perguntou-lhe:
- Ainda terei aqui algum lugar, Gabriel?
Ele ficou em silêncio por alguns segundos e depois respondeu-lhe:
- Tu manténs aqui o lugar que sempre tiveste.
Na nossa casa dos afetos o teu lugar não pode ser extinto nem preenchido por mais ninguém.
Então, a lareira da ternura tornou aquela noite fria de dezembro na manhã mais clara e agradável dum reconfortante estio.
o brilho que saiu daqueles três olhares entrelaçados subiu ao firmamento
e juntou-se ao belo e contagiante hino, que, em coro, sempre é entoado por todos aqueles que acreditam no amor, na paz, no perdão e no arrependimento.
Abraçaram-se os três e uniram-se ao enorme grupo de seres humanos que desejam o bem, que sentem o bem, que creem no amor e fazem desse possante sentimento o mapa da sua vida, da sua evolução, da sua ascensão rumo aos páramos Celestiais.
Não se tornaram necessárias mais palavras.
Aquele abraço a três dizia tudo; as lágrimas de alegria que todos choravam eram notas que compunham a mais bela sinfonia que, em conjunto, eles tinham criado, porque era uma obra que falava não só de afeto, mas também de perdão, não só de queda, mas também de coragem de levantar-se, não só da felicidade, mas também da capacidade de suportar e ultrapassar as dores que, pelo caminho surgem, para que ela possa ser alcançada e mantida.
Estava de novo completa, mas ainda mais sólida aquela casa dos afetos.
O David ficou absolutamente convencido de que este reencontro havia sido a prenda que o Menino Jesus lhe havia dado, ao ouvir a prece tão sincera e tão sentida que lhe tinha dirigido na Missa do Galo.
Ainda nessa noite, quando voltou para casa e se deitou na sua cama, fixou os olhos Num pequeno Presépio que estava sobre a cómoda, e disse,
com a voz mais terna e sentida que possamos imaginar:
- Obrigado Jesus.
Duas palavras que valeram por milhares delas, e que verbalizaram mais um dos tantos milagres que brotam da fonte poderosa e inesgotável do amor.
Por sua vez, o Gabriel e a Alexandra, voltando ao seu quarto de casal, rasgaram preconceitos inúteis e corruptores da boa moral; reforçaram a sua moradia do afeto com o cimento do bem querer e da responsabilidade; sentiram o resplandecer do coração do seu menino que transbordava de alegria, recostaram-se na cómoda almofada acolchoada por mais de quinze anos dum passado feito em comum, com dádivas e renúncias, com desejos e carências, com projetos realizados e outros ainda por realizar.
A dada altura, deram por si envolvidos num maravilhoso lençol tecido pelo sonho que dinamiza, potencia e eleva a beleza da realidade.
Eles acreditaram sem reservas na capacidade de edificar a dois, aprofundando a comunhão, mesmo que, para tanto, seja necessário cair e levantar-se, errar e arrepender-se, estender o coração e perdoa-se, entrelaçar as mãos e ajudar-se, conhecer a humildade e encharcar-se com a potente força do seu fluir, acender mais forte a luz do amor e deixar-se iluminar por ela.
Faro, 2015
José Bento
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