O TERÇO SAGRADO
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Capítulo I
Ainda a cidade ia despertando sob a tímida claridade do dia, naquele sábado de outubro de 1976, quando o José Ricardo, um jovem robusto, com cerca de um metro e setenta de altura, de ombros largos, de cabelo negro e crespo, de rosto arredondado, lábios grossos e olhos castanhos, então com vinte e seis anos de idade, entrou no velho edifício da estação ferroviária de Faro, adquiriu o bilhete para Lisboa, comprou o exemplar dum jornal desportivo e aguardou tranquilamente a chegada do respetivo comboio.
Trajava-se com umas calças de bombazina castanhas, uma camisa branca e um casaco de cabedal negro, levando, ao ombro, uma sacola, na qual tinha colocado os poucos pertences de que necessitaria para passar, na capital, apenas aquele fim de semana.
Após ter saído do serviço militar obrigatório, em 1974, tinha conseguido trabalho, em Faro, na agência duma das entidades bancárias nacionais.
Esta ida a Lisboa era-lhe especialmente agradável, pois iria estar com a Vera, a sua namorada, a qual apesar de residir normalmente em Faro, se encontrava então em Lisboa a estudar, na faculdade, frequentando o terceiro ano do curso de história.
E que saudades ele já tinha daquela moça aparentemente débil, mas interiormente com uma força e uma ternura imensas, que se expressavam no seu sorriso franco, nos seus olhos verdes sempre dispostos a olharem a vida pelo ponto mais positivo, e nas suas mãos constantemente disponíveis para prestarem auxílio e para desbravarem caminhos luminosos nos amplos horizontes da bondade.
Aquilo foi, como eles diziam, da parte de ambos, uma paixão à primeira vista, a qual surgiu cerca de dois anos antes, quando se conheceram numa festa de amigos, quando dançaram um \com o outro e reciprocamente sentiram a empatia que surgiu como uma síntese que disse àqueles dois jovens que cada um deles podia ser o complemento de que o outro necessitava para ser mais feliz.
O aroma do perfume que ela então usava, os seus cabelos castanhos que lhe caíam sobre as costas, aquele corpo delicado de cerca de um metro e sessenta de altura, o adocicado da sua voz, tudo foram elementos altamente positivos que se fixaram na memória dele e que passaram a explicar-lhe, sem quaisquer palavras, quão belo pode ser o amor entre um homem e uma mulher, o qual ele sentiu, graças à Vera, pela primeira vez.
Eles, desde então, viviam o gosto de amar sorvido duma forma sublime, numa plena entrega sem tempo para se questionarem acerca dos porquês do amor ou dos possíveis obstáculos que o pudessem ensombrar.
Caminhavam um para o outro sempre repletos de desejo, e permaneciam juntos, mesmo que a distância espacial teimasse em separá-los.
O amor era a luz que os unia, A razão que os iluminava, a harmonia que os banhava e que de paz os envolvia.
Pouco tempo depois dele se ter sentado num dos bancos de pedra existentes na gare, uma voz anunciou:
- Dentro de momentos dará entrada na linha número um uma composição proveniente de Vila Real de Santo António e com destino a Lisboa.
As pessoas agitaram-se e aqueles que queriam tomar lugar na referida composição, foram-se posicionando, ali, mais perto da linha.
O barulho do comboio que se aproximava foi-se tornando cada vez mais audível e, quando a composição parou no local adequado, o José Ricardo apressou-se a entrar numa das carruagens, tendo-se sentado num banco que, apesar de ter dois lugares, ainda estava completamente vazio, estando também sem ninguém o banco que lhe ficava de fronte.
Suou o sinal de partida dado pelo chefe da estação e, quase de imediato, o comboio pôs-se em movimento.
Apesar de ter utilizado muitas vezes aquele meio de transporte, quando ainda estava na tropa,
para se deslocar de Faro para a unidade militar em que estava incorporado e de lá para Faro, foi naquela manhã que o José Ricardo deu consigo, à medida em que o comboio ia avançando, a relembrar a boa sensação que tivera, quando viajou na ferrovia pela primeira vez.
Ele tinha cinco anos de idade e, numa tarde de domingo, a sua mãe juntou-se com mais duas amigas, cada uma delas com uma criança e, enquanto os respetivos maridos tinham ido assistir a um jogo de futebol do farense, elas decidiram ir passear até Olhão.
Foi essa a primeira vez em que ele entrou naquela estação de que há pouco tinha saído e em que experimentou, sentado numa automotora, como era agradável ouvir as rodas a deslisarem pelos carris e como era bom ir lá dentro, bordejando a ria formosa, desfrutando da paisagem que, entrando sem pedir licença pelas largas janelas, a todos inundava de amplitude e beleza.
Essa automotora parou em todos os apeadeiros; Portas do Mar, S. Francisco, Bom João, Garganta e, finalmente chegou a olhão.
Foram algumas horas bem passadas, todos como se fossem família, ele e as demais crianças, a sua mãe e as demais amigas, tudo tão alegre e belo que se situava entre o sonho e a realidade, entre a história fantástica que previamente a imaginação dele tinha construído e a outra ainda mais rica, que a vida, nessa distante tarde, lhe proporcionou.
Muitas vezes ele tinha recordado, enquanto menino, aquela sua primeira viagem de automotora a Olhão, ali a cerca de dez quilómetros de Faro, mas, à medida que foi crescendo, esses momentos foram desaparecendo da sua memória e, precisamente nesse sábado de outono de 1976, em que ele já era bem adulto, essa bela tarde de domingo vivida na sua infância voltou-lhe inopinadamente ao consciente, pouco depois de se ter sentado naquele comboio, no qual esperava fazer uma mera viagem de rotina que não tinha qualquer atrativo, porque o bom mesmo era cair nos braços da sua namorada, que, certamente, se abririam para ele, no Terreiro do Paço, quando saísse do barco que o transportaria do Barreiro para Lisboa.
O comboio lá seguia no seu ritmo cadenciado, apitando aqui e acolá, e ele fechou os olhos, encostou-se na parte mais próxima da janela e, à medida que desfilavam lá dentro os bons momentos passados na automotora, nos seus belos tempos de criança, ia-se deixando relaxar, com a intenção de poder dormir durante algum tempo, por forma a que as mais de quatro horas de viagem se tornassem menos cansativas.
Quando o comboio parou na estação de Loulé, nele entrou uma mulher ainda muito jovem, que teria pouco mais de vinte anos, trazendo nas costas uma mochila, também uma pequena mala à tiracolo e, dentro dum saquinho apropriado, uma linda bebé que não teria mais de três meses de nascida.
A mulher, apesar de ter outros bancos disponíveis, ocupou o lugar que ficava à frente do José Ricardo e, no outro lugar ao lado dela, colocou o saquinho com a menina, tendo posto a mochila no local destinado à bagagem.
Era uma mulher bonita, com cabelos muito negros que lhe caíam pelos ombros, uns olhos grados da mesma cor, com um rosto muito bem desenhado, lábios finos, nariz delicado, vestindo uma saia negra e uma blusa branca, bem como um casaco comprido, verde escuro.
Pouco tempo depois da composição se pôr em movimento, a menina chorou, e a mãe colocou-a ao peito, amamentando-a.
Uma vez saciada, a bebé foi posta no saco em que era transportada, tendo adormecido.
Ele não teria prestado qualquer atenção especial a estas duas companheiras de viagem, se não fosse o facto de alguns momentos após a bebé adormecer, a mãe ter retirado da sua malinha de mão um terço de contas brancas e do qual pendia um pequeno crucifixo escuro de madeira, onde estava pregada a figura de Jesus Cristo, feita de metal, tendo aquela moça começado,
silenciosamente, a passar entre os dedos as contas do terço, uma a uma, mexendo os lábios, como quem fala só para si, e apresentando um rosto onde cada vez mais se misturava algo de luz e de sombra, um misto de fé e de desespero, o desejar duma paz que ela queria que lhe chegasse, para diminuir uma perturbação que se avolumava, adivinhando-se dentro dela um rio de lágrimas que queria soltar-se e uma vontade que, a todo o custo, o pretendia suster.
O José Ricardo familiarizara-se com o aspeto exterior do terço, porque a sua mãe tinha um, que sempre levava consigo quando ia à igreja, mas do terço nada mais ele sabia.
Desconhecia por completo o significado daquelas contas agrupadas em cinco fileiras de dez, estando separada, cada uma das fileiras da que se lhe seguia, por uma conta isolada e existindo mais quatro contas adicionais perto do crucifixo.
Ele ouvira falar de Jesus Cristo ainda em criança por várias pessoas da sua família, estudara, na história universal algo sobre a forma como surgiu e se implantou o cristianismo, também ouviu falar disso nas aulas de religião e moral a que obrigatoriamente teve de assistir no liceu, mas, quando lhe perguntavam se acreditava em Deus, respondia duma forma evasiva, ou seja:
- Nunca pensei nisso.
Mas agora ele tinha diante dos olhos uma jovem mulher que se agarrava ao terço como se fosse um meio de se comunicar com o Divino, a qual, baixinho, certamente rezava orações que ele não conhecia e que punha nas mesmas a esperança de aliviar o grande sofrimento que visivelmente a perturbava.
Ele fechava os olhos, tentando dormir, mas o sono não vinha. Sempre que os abria, apesar de não querer ser indiscreto, via que aquela moça ia passando lentamente entre os dedos conta após conta, como quem pede e crê que acontecerá, talvez na oração seguinte, talvez no final de todas elas, sabe-se lá como, sabe-se lá porquê e quando, mas ela acreditava firmemente que a ajuda viria, enfim, ele tinha diante de si a imagem viva da fé, corporizada numa moça em grande sofrimento e que esperava do Alto o auxílio para a resolução dos problemas que certamente muito a martirizavam.
De quando em vez, a bebé chorava, a mãe tomava-a no colo e acalmava-a, por vezes apenas com carícias e outras vezes também com o leite que fartamente lhe saía dos seios.
A dada altura, as lágrimas há tanto tempo represadas soltaram-se, tendo começado a cair copiosamente sobre o terço, apesar de ela com um lenço as ir tentando enxugar.
Enquanto isto ia decorrendo ali bem perto dele, ao vivo, sem quaisquer truques cinematográficos, a sua personalidade rapidamente se amadurecia, surgindo lá do fundo daquele jovem que até então tivera uma vida facilitada, e para quem os dias tinham decorrido sem quaisquer turbulências, um misto de compaixão e de solidariedade, de amor global e de vontade de ser útil, tudo incorporado num homem mais maduro, que ele completamente desconhecia que habitasse dentro de si.
A certa altura, quando o comboio já ia em pleno Alentejo, tendo acabado de partir da estação de Saboia, ele lembrou-se que trouxera na sua sacola duas pequenas garrafas de água.
Tirou uma delas, que para si se dispôs a abrir e, com um sincero desejo de ajudar, perguntou àquela moça se pretenderia receber dele a outra garrafa de água, que, de imediato, lhe mostrou.
Ela, sem qualquer hesitação, respondeu afirmativamente e, logo que ele lha deu, abriu-a e sorveu a água toda, quase dum só trago.
Seguidamente o José Ricardo, com alguma timidez, disse-lhe:
- Se lhe puder ser útil em alguma coisa, pode dispor.
Esta pequena frase foi o calmante de que ela precisava para se sentir um pouco amparada e também o incentivo para que compartilhasse com alguém a trágica história que trazia consigo.
- Sabe – disse ela timidamente – esta é a primeira vez que vou a Lisboa. Tenho lá uma amiga que me vai esperar. Mas ela disse-me que, antes de se chegar a Lisboa é necessário ir de barco. Se você me puder ajudar nisso, agradeço muito.
- Certamente que ajudo – retorquiu ele, e acrescentou:
Trate-me por Zé, que é como quase toda a gente me trata.
- Eu sou a Ana Luísa. Pode tratar-me por Ana, que é como todos me chamam.
E, desta forma, eles ficaram apresentados um ao outro e ela sentiu-se menos só, tendo, sem que ele lho perguntasse, referido o porquê de estar ali naquele dia.
Contou que, há pouco mais de quinze meses tinha saído da casa dos pais, na zona de Tavira, porque se enamorou do pai da filha dela e, como os seus progenitores se opusessem a tal relacionamento, porque diziam que ele não era boa pessoa, ela teimou e saiu, tendo ido viver com ele, para a zona de Loulé.
Algum tempo após, engravidou.
À medida que os meses se foram sucedendo, que a vida em comum se foi desenrolando, ela foi vendo que, de facto, os seus pais tinham razão.
Ele passou a tratá-la rispidamente, começou a drogar-se de quando em vez, e, já depois da menina nascer, chegou mesmo a bater-lhe.
Na semana passada tinha-a abandonado definitivamente, dizendo que estava farto dela e da filha e tendo ido viver para o Luxemburgo, com familiares que lá tem.
A sorte dela foi uma vizinha que a abrigou lá em casa, tendo-lhe dado de comer, durante alguns dias.
Estava agora a caminho de Lisboa, porque uma sua amiga que lá mora, que trabalha numa loja de roupas, e com quem falou telefonicamente na terça-feira passada, lhe disse que fosse para junto dela, que lhe daria habitação e que, logo que ela tivesse quem cuidasse da menina, lhe arranjaria trabalho.
Era precisamente essa amiga que a iria esperar, a quando da sua chegada a Lisboa.
Como ele perguntasse porque é que não tentava reconciliar-se com os seus pais, ela respondeu que tentou várias vezes, inclusivamente chegou a levar a bebé, com duas semanas de nascida para que eles a vissem, mas eles disseram que não a queriam ver a ela, nem à menina. Que, para eles, a filha já não existia.
O José Ricardo nunca tinha tomado contacto com uma situação deste tipo.
Um misto de tristeza e de piedade foi-se apoderando dele e, sem saber porquê, passou a sentir-se protagonista daquela insólita história, talvez fazendo ele parte do socorro do Alto que aquela moça há tão pouco tempo buscava, ao ir rezando com muita fé aquele singular terço.
Ele, que não sabia oração alguma, que nada conhecia de filosofia religiosa, começou a pensar que faz muito sentido que Deus inspire o ser humano para levar socorro a qualquer outra alma que disso esteja carente.
Foi então que aquela afirmação tantas vezes repetida pelo seu professor de religião e moral de que todos somos irmãos, porque filhos de Deus, o nosso Pai Celestial, começou a fazer sentido para si.
Quando o comboio chegou ao Pinhal Novo, ele disse para a Ana que se fosse preparando, porque estavam quase no final da viagem.
Quando a composição ferroviária se imobilizou no final da linha no Barreiro, ele ofereceu-se para levar a mochila dela, o que, de imediato foi aceite, e lá saíram os três; ele que pisava firme num lugar que já conhecia, ela surpreendida e pasmada de tanto movimento e a menina que não dava por nada, adormecida que ia, no seu confortável saquinho.
Entraram no barco, apresentava-se um sol radioso, ainda que soprasse um vento frio carregado dum odor a maresia.
a Ana estava admirada com a grandeza do tejo.
Ele ia alegremente possuído pelo desejo de brevemente apertar nos braços a sua querida namorada, mas a Ana Luísa ia atemorizada pelo desconhecido, pelo rugir da cidade grande, pelo mergulho noutro tipo de ambiente que de todo desconhecia, pelo trágico balançar da incerteza, qual ave que deixa o ninho e mal sabe voar, qual criança que bate à porta dum mundo novo, mas que se inunda de treva, amargura e desgosto, ao abandonar a sua tranquila zona de conforto.
O comboio que ficara para trás e que a ligava ao seu algarve, donde jamais antes tinha saído, o atravessar do rio, como se fosse um enorme oceano que fechava as portas de retorno à sua terra natal, tudo isso, durante aquela travessia, a fustigava por dentro, a punha de gatas perante os espinhos da vida que já tanto lhe doíam, apesar de ainda ser tão jovem.
Ela estava meio levantada pela fé e meio vergada sob o peso do sofrimento, agarrando-se à coragem para não se desmoronar, querendo ser o pilar de suporte daquela inocente bebé que ali dormia alheia a tudo o mais, querendo ser a mãe que zela, que abriga, que protege, quando, afinal, ela própria ainda carecia tanto de ser filha, amada e protegida.
Aquela travessia fluvial soava-lhe lá dentro, como se fosse o separar de dois grandes capítulos da sua vida; um que se encerrava e onde ficavam os seus belos tempos de meninice, de carinho e despreocupação, e o outro que iria começar e que se lhe apresentava nubloso, encrespado pela incerteza e doloroso, pelo brutal esmagamento das suas raízes.
Ela ia ali, num barco atulhado de centenas de pessoas, vogando sobre as calmas águas dum rio que desconhecia; mas dentro de si acumulavam-se mares tempestuosos de lágrimas que só esperavam um local mais reservado para que, de todo, se pudessem soltar, trazendo
ao de cima as tantas dores que a dilaceravam, as quais lhe acenavam com ideias conflituantes, ora de salvação, ora de naufrágio.
À medida que Lisboa se aproximava, mais confusa ela se sentia; mais a sua tormenta a massacrava e mais a sua alma estremecia.
Apesar do sol que iluminava o ambiente exterior, por dentro, ela estava repleta de névoa, de medo e de maus presságios.
Quando o barco finalmente atracou, eles deixaram desembarcar a maioria das pessoas, para não serem envolvidos nos apertos dos mais apressados e depois, calmamente foram saindo.
No Terreiro do Paço, lá estava a Vera, que veio alegremente abraçar-se ao namorado; mas outro tanto não aconteceu com a amiga da Ana Luísa.
O José Ricardo fez uma breve apresentação da Ana à Vera e, tranquilamente disse àquela que procurasse pela amiga, que ele ficaria ali com a mochila, esperando que ela a viesse buscar.
Enquanto a Ana Luísa, levando a sua menina, se afastava, vasculhando aflitivamente as redondezas, no intuito de encontrar a sua amiga, o José Ricardo sinteticamente contou à namorada tudo o que soubera acerca da situação daquela moça e da sua bebé.
A Vera ficou consternada e de imediato exclamou:
- Zé, não podemos deixar esta moça ao abandono por aqui.
E se essa amiga não aparecer?
A interrogação ficou ali a pairar entre ambos, à medida que os minutos passavam e que a Ana Luísa cada vez ficava mais desesperada, por verificar que a amiga não estava ali à sua espera, tal como tinha prometido.
A dada altura, a Ana, debulhada em lágrimas, quase em descontrole, aproximou-se deles e nem conseguia falar.
Foi então que a Vera lhe disse:
- Vamos lá, Ana. Nada está perdido.
Qual é o contacto que tem dessa sua amiga?
- Eu só tenho o número de telefone da loja em que ela trabalha, pois era para lá que eu lhe ligava e era de lá que ela, quando o patrão não estava, ligava para a casa da minha vizinha, para falar comigo.
- Pois bem, – disse a Vera – vamos lá a uma cabine telefónica e ligamos para essa loja.
E assim fizeram. A Ana nem sabia como ligar dum telefone público e nem tinha as moedas trocadas para tal efeito.
Mas a Vera tinha moedas e, depois da Ana lhe passar um papel onde estava escrito o número da tal loja, ligou para lá e perguntou pela Lurdes Santos, que era o nome da tão aguardada amiga da Ana.
Quem respondeu foi um homem, com maus modos, que lhe disse:
A Lurdes deixou de trabalhar aqui ontem. Foi despedida.
A Vera, desconcertada que ficou com tal notícia, depois de a ter comunicado à Ana Luísa, passou-lhe o telefone. Esta, notoriamente aflita, perguntou:
- O senhor não me poderá dizer onde é que posso encontrar a Lurdes?
- Não, minha senhora, nada mais sei sobre ela. E, sem mais, o homem desligou.
A Ana Luísa não aguentou mais, saiu da cabine telefónica e encostou-se a uma parede que lhe ficava perto, perdendo o controle, desabando em soluços aflitivos e encharcou a blusa com as abundantes lágrimas que não deixavam de correr.
A Vera aproximou-se dela, colocou-lhe uma das mãos no ombro e, tão serenamente quanto lhe foi possível, disse:
- Ana Luísa, você não está sozinha, nem está perdida.
Nós estamos consigo e não a deixaremos, enquanto o seu assunto não estiver devidamente encaminhado.
Vamos esperar aqui mais dez minutos, porque até pode acontecer que a sua amiga se tenha atrasado.
- E se ela não vier?
Retorquiu a Ana entre soluços.
- Bem, depois se verá – respondeu a Vera – mas o que pode estar certa é de que não ficará por aí ao desamparo.
O José Ricardo mantinha-se calado. A Vera tinha tomado as rédeas da situação e ele bem sabia que ela resolveria as coisas da melhor maneira.
Os dez minutos de espera passaram; outros dez se sucederam e, quando o Zé e a Vera já estavam certos de que a Lurdes não chegaria, a Vera disse:
- Certamente que todos estamos com fome, porque já é hora do almoço.
Vamos buscar aqui nos muitos restaurantes da baixa um que seja mais económico e vamos almoçar.
Ao ouvir isto, a Ana disse que não, que ficaria ali, porque se a Lurdes chegasse e a não encontrasse, ambas se perderiam uma da outra definitivamente.
A Vera e o Zé tinham a certeza de que essa Lurdes já não viria, mas para que a Ana Luísa ficasse mais descansada, aceitaram ficar ali com ela mais vinte minutos.
Decorreram não só mais vinte, mas mais trinta minutos, e a Lurdes não chegou.
Foi então que a Ana Luísa, tendo perdido a esperança de se encontrar com essa amiga, aceitou acompanhá-los.
Encontraram o restaurante, acomodaram-se, a Ana foi aos lavabos para fazer a sua higiene e a da bebé, enquanto eles, meio estupefactos por terem entre mãos um assunto tão grave, o qual nem esperavam e nem sabiam ainda bem como resolver, passaram a pensar na melhor saída que acautelasse o amparo daqueles dois seres tão indefesos.
Quando a Ana voltou para a mesa, os três pediram ao respetivo empregado que lhes servisse aquilo que lhes apetecia tomar.
A dada altura a bebé ficou inquieta e a mãe tomou-a nos braços, acalmando-a.
A Vera, acariciando ao de leve a menina, exclamou:
- Que linda menina! Qual é o seu nome?
- Telma Sofia – respondeu a Ana Luísa, com um breve sorriso de contentamento, motivado pelo elogio que tinha acabado de ouvir, relativamente à sua filha.
Naquele tempo ainda não se podia contar, em Portugal, com as facilidades trazidas, anos mais tarde, pelos telemóveis.
Durante o almoço, a Vera dirigiu-se ao balcão e pediu ao dono do restaurante que a deixasse fazer um telefonema para Lisboa, ao que o mesmo acedeu.
Ele conduziu-a a um pequeno gabinete, onde o telefone estava instalado e, dali ela ligou para a sua amiga Carmem Maria, que então trabalhava como assistente social numa das grandes instituições de assistência da capital, tendo-lhe explicado, com algum detalhe, a situação em que se encontrava a Ana Luísa e a sua bebé.
A Carmem prontificou-se a deslocar-se, ainda nessa tarde, ao estabelecimento pertença da instituição em que trabalhava e que tinha por objetivo acolher mães solteiras com os seus filhos, tendo ambas combinado que todos lá se encontrariam por volta das dezassete horas.
A Vera voltou para a mesa e disse à Ana Luísa que poderia estar absolutamente descansada, que nem ela, nem a sua menina iriam ficar ao abandono em Lisboa e que ela teria um abrigo onde poderia ficar com a menina, até que encontrasse um trabalho e meios de poder tornar-se mais autónoma, se assim o quisesse.
Terminado o almoço, o Zé levantou-se, pagou a conta e, já com o ambiente mais desanuviado, os dois namorados levaram a Ana para que conhecesse o rossio e as ruas adjacentes.
Por volta das dezassete horas, lá se encontraram todos com a assistente social Carmem, a qual tranquilizou a Ana Luísa, tendo-lhe mostrado as instalações daquele estabelecimento assistencial e tendo-lhe perguntado se queria ser ali admitida.
A moça disse logo que sim e, já nessa noite, ela e a sua filha lá dormiram.
Já batiam as dezanove horas, quando aquele casal de namorados passou a pé pela igreja da Sé, em Lisboa, a qual estava aberta ao público, tendo a Vera entrado na mesma, ao que foi seguida pelo Zé.
Já no interior da catedral, ela ajoelhou-se, em prece, agradecendo silenciosamente ao Senhor o apoio que a todos tinha dado; à Ana Luísa e à bebé, porque encontraram um bom abrigo; a ela e ao namorado, porque tiveram o ensejo de comprovar o seu amor ao próximo.
Por seu turno, o José Ricardo, que nunca se tinha ajoelhado, num templo ou fora dele, ficou de joelhos, junto da Vera, e sentiu-se como que invadido por uma deliciosa paz, uma emoção profundamente reconfortante que jamais tinha experienciado.
Ali permaneceram em silêncio respeitoso, durante cerca de quinze minutos.
Posto isto, ela levantou-se, benzeu-se e ele levantou-se também.
Quando saíram da catedral, ela disse-lhe:
Zé, vamos sentar-nos num destes degraus, que te quero ler algo de muito importante que aqui tenho.
Ele, surpreendido e curioso, acedeu.
Sentaram-se ali lado a lado, naquele fim de tarde outonal de Lisboa, que estava tranquilo e ameno,
tendo ela retirado de dentro da malinha de mão um pequeno livro que sempre a acompanhava, onde estava transcrito o Novo Testamento, o qual abriu no Evangelho de Lucas, em 10:25-37, tendo lido em voz suave a Parábola do Bom Samaritano.
Foi a primeira vez que o José Ricardo ouviu este trecho do Evangelho, mas as palavras de Jesus, Sábias e sempre Atuais, trazendo refletida nelas a situação que tinham acabado de viver, entraram nele para lá ficarem, para transformarem num crente cada vez mais fervoroso, o jovem que até há pouco dizia que nunca sequer tinha pensado se acreditava ou não em Deus.
Quando ela acabou aquela leitura, gerou-se um silêncio entre ambos que não era de hesitação, mas sim de paz, que não expressava incredulidade, mas antes se alicerçava numa simbiose harmónica de fé e de amor, sentindo aquele casal de namorados, que no bem estava submerso, que o amor é uma lei Divina, bela, profunda e abrangente, clara, doce e eloquente, que rege a criação em todo o universo.
Ele tomou as mãos dela nas suas, apertou-as possuído por uma emoção forte e boa, e disse-lhe:
Só agora compreendo como o Senhor Jesus é um Ser Maravilhoso.
Afinal, continuam a existir milhões de pessoas caídas ao longo das estradas da vida e o grande mal do mundo é faltarem mãos bondosas que as queiram levantar.
Continua a haver muita gente que passa de lado, que fecha os olhos para não ver, ou que, mesmo tendo visto, encerra o coração para não sentir os grandes sofrimentos alheios.
Vera, por favor, ensina-me a ser bom.
Ao ouvir isto, ela abraçou-o comovidamente e retorquiu:
- Querido Zé, quem é que trouxe aquelas duas necessitadas até mim, não foste tu?
Podias ter viajado com elas e passar de lado, ver, mas fazer que não vias, sentir, mas fazer que não sentias, estar junto ao seu sofrimento, mas manter-te isolado.
Sabes, nenhum de nós é ainda inteiramente bom, mas todos temos aberta a estrada da fé, do amor e da sublimação.
Todos, um dia, podemos ser anjos, mas ainda estamos muito longe de o ser.
A perfeição é fruto duma conquista individual que, gradativamente, ao longo da nossa existência, agora aqui, mas depois no mundo espiritual, se vai fazendo.
Deus, o nosso querido Pai Celestial, que é a causa de tudo o mais que existe, é Infinitamente Amoroso e Justo e, por isso, ninguém alcançará aquilo que, pelo seu trabalho não mereça, tal como ninguém deixará de solver os débitos que tenha contraído nos conturbados e por vezes complexos roteiros da existência.
Foi o nosso Divino Mestre quem disse, como vem relatado no Evangelho de João:
“O meu Pai trabalha até agora, e eu trabalho também.
Querido Zé, fiquemos sempre unidos no sentir e no praticar dos ensinamentos de Jesus, porque Ele é o caminho, a verdade e a vida.
Selaram este compromisso com o beijo mais significativo que tinham mutuamente dado um ao outro até ali, sentindo ambos que aquele fim de semana, tendo-os aproximado mais de Deus, cimentou em alicerces ainda mais profundos, assentes nos imperecíveis tesouros do espírito, a bela construção afetiva que, até então, já tinham edificado.
Eles não o disseram, mas dizemo-lo nós:
Felizes essas almas que descobrem o doce elixir da fé e do amor; que, no gosto de se darem, não se encobrem e que se ajudam nos difíceis caminhos da dor.
Capítulo II
Acerca da Ana Luísa e da sua bebé, a Carmem, algumas semanas após, informou a Vera que a Ana tinha sido admitida como empregada doméstica na casa dum casal muito respeitável, tendo essa família anuído a que a bebé acompanhasse a sua mãe, garantindo todo o apoio a ambas.
Entretanto, nos anos que se seguiram, a Vera terminou u com êxito o seu curso universitário, tendo conseguido ser colocada, como professora, numa das escolas do algarve.
Por sua Vez o José Ricardo, cada vez mais considerado como sendo um trabalhador zeloso e eficiente, foi consolidando a sua posição na entidade bancária em que trabalhava.
Eles, desde aquele fim de semana ocorrido em outubro de 1976, passaram a complementar a sua relação com outra linguagem que mais os unia, a qual se baseava na fé em Deus e no desejo de serem úteis aos seus semelhantes.
O José Ricardo associou-se a uma instituição de benemerência de Faro e, brevemente, foi eleito como um dos membros dos seus corpos gerentes.
Em maio de 1980, casaram-se, tendo juntado, no almoço que se seguiu ao matrimónio que teve lugar numa das igrejas de Faro, os seus familiares e amigos.
Apesar de ainda serem jovens, ambos já tinham a maturidade suficiente para rejeitarem o amor possessivo e para se comprometerem a edificar uma família ligada simultaneamente a Deus e a toda a humanidade, sentindo cada pessoa como alguém que partilha connosco a senda evolutiva e a quem+ devemos proporcionar o melhor que esteja ao nosso alcance.
Aquele casal buscava no amor a linguagem universal que entende, que edifica e eleva, que desfaz a bruma de qualquer treva, que sempre dá força ao brilhar dum nobre ideal.
Eles iam colocando, na sua vida em comum, o belo do sonho, a pureza do desejo, a força da fé e do amor, o gosto de conceber e a capacidade de gerarem, o melhor que lhes fosse possível, dias que não se transformassem em meras rotinas, que não fossem frases sem significado, que não se tornassem em repetições monótonas, desajeitadas e comodistas.
No final de cada dia, por muito cansativo que o trabalho tivesse sido, por muito assoberbados que estivessem de preocupações, eles sempre arranjavam alguns minutos para, dando as mãos antes de dormir, com muita fé, agradecerem ao Senhor as suas bênçãos, mesmo que elas tivessem chegado pela via do sofrimento, o qual, como eles já sabiam, nos amadurece, nos testa e nos impulsiona para o crescimento.
Eles levavam muito a sério aquele ensinamento de Jesus contido no Evangelho de Marcos, 13:33, em que o Divino Mestre nos incitou:
“Olhai, vigiai e orai; porque não sabeis quando será o tempo.”
Aquele jovem casal sabia que, para além desta dimensão material percebida pelos nossos cinco sentidos e pelos equipamentos já descobertos pelo homem que penetram no infinitesimal, até à partícula atómica, até ao gene, e que tentam desvendar o macrocosmo, as galáxias, os planetas e as estrelas, existe outra dimensão que está interpenetrada com esta, para onde passaram aqueles que já cá estiveram; os bons e os menos bons, os que cultivam o amor e os que preferem embriagar-se de ódio e ressentimento.
Sabiam que a par do mundo da matéria existe o mundo do espírito e que os que estão em cada um destes mundos se podem influenciar reciprocamente através das respetivas afinidades.
Por isso, eles se serviam da oração e das boas obras como sendo as suas vias preferidas de se contactarem com Deus e com os Seres da Alta Espiritualidade, sabendo que, desta forma a sua vida e a vida da sua família estaria devidamente protegida contra o assédio desses que, nesta ou na outra dimensão, continuam a preferir andar, em sofrimento, fora dos caminhos do bem.
Muitas vezes eles se perguntaram, por vezes de si para consigo, mas outras vezes em conversas que ambos tiveram, onde é que andaria então a Ana Luísa, a qual, sem o pensar, com a sua debilidade, lhes tinha dado as forças de que agora desfrutavam.
Em janeiro de 1982, nasceu-lhes o primeiro filho, o Rui.
Em setembro de 1987, o seu sonho de terem uma filha tornou-se numa bela realidade.
Nasceu-lhes a Filomena.
Em 1994, o gerente da agência bancária em que o José Ricardo trabalhava aposentou-se, tendo este sido nomeado para o seu lugar, aliás sob proposta do próprio aposentado, o qual depositava grande confiança nas capacidades profissionais do Zé.
A partir de meados de 1996, o José Ricardo passou a ter um intenso contacto, por motivos de trabalho, com um quadro superior do banco, que exercia funções, em Lisboa, no departamento dos grandes clientes, o Dr Jorge Cunha e Sousa.
Este era um homem licenciado em económicas e financeiras, então já entrado nos cinquenta, o qual tinha grande experiência no setor bancário e que gozava duma ótima reputação junto da administração daquele banco.
Ele visitava as filiais do algarve uma vez em cada trimestre e, de quando em vez, era o José Ricardo que se deslocava a Lisboa, a fim de trabalhar em conjunto com o Dr Jorge.
À medida que o conhecimento mútuo se ia aprofundando, a amizade entre ambos também se fortalecia.
Era comum que o Dr Jorge Sousa, quando ia ao algarve, fosse almoçar com o José Ricardo, sendo também verdade que esses almoços em conjunto ocorriam, quando o Zé se deslocava a Lisboa.
Eles gostavam das maneiras um do outro, professando o mesmo tipo de valores morais e tendo formas idênticas de estar na vida.
Os seus almoços em comum não ocorriam por obrigação, mas por gosto.
Aliás, foi mesmo o Dr Jorge quem, logo ao início disse:
- Meu caro Zé, no almoço deixamos o trabalho completamente de lado.
Em várias conversas que tinham tido, o Dr Jorge mencionou que ele e a sua esposa não tinham filhos, mas que tinham a viver com eles uma afilhada de quem gostavam como se fosse sua filha.
No ano de 2003, por altura dos Santos Populares em Lisboa, o Dr Jorge convidou o José Ricardo e a família deste, para que fossem assistir, consigo e a sua esposa, ao desfile das marchas populares, convite este que foi aceite, tendo, contudo, o José Ricardo posto como condição a de não ficar
a pernoitar na casa do casal Cunha e Sousa, como o Dr Jorge tinha sugerido, mas sim num estabelecimento hoteleiro da capital.
No que diz respeito ao Rui, o filho do Zé e da Vera, o mesmo, então, já se encontrava a morar em Lisboa, numa residência universitária, posto que estava a estudar no Instituto Superior Técnico.
Assim sendo, e por tudo isto, o Zé, a Vera e a filha de ambos, a Mena, foram para Lisboa no dia dez de junho, tendo-se juntado ao Rui, a fim de aí desfrutarem das festas dos santos populares.
Foram todos ao desfile das marchas populares, com exceção do Rui, que alegou encontrar-se indisposto e com uma leve dor abdominal, e da afilhada do casal Cunha e Sousa, que, sendo médica, estava, nessa noite a prestar serviço hospitalar.
No dia seguinte, foram todos almoçar à casa do casal Cunha e Sousa, que era uma ampla moradia, a qual se situava numa agradável zona do concelho de Cascais.
Foi a primeira vez que o Zé e a sua família foram à casa do referido casal.
Por volta da uma da tarde, lá chegaram, o Zé, a Vera e os seus dois filhos, tendo sido aí recebidos pelo Dr Jorge e pela sua esposa, com muita amabilidade.
Foram conduzidos para uma grande divisão destinada a sala e casa de jantar.
Após os cumprimentos normais em tais circunstâncias, foram-lhes servidos aperitivos, tendo a esposa do Dr Jorge, a Drª Leonor, dito que o almoço seria um pouco mais tarde, por quanto esperavam a chegada da afilhada, a Telma Sofia, que estava prestes a sair do serviço no hospital em que trabalhava.
Foi também a esposa do Dr Jorge quem, muito espontaneamente, disse para os convidados:
- Deixemos, desde já, os títulos sociais de lado.
Acabou-se o doutor e a doutora.
Todos aquiesceram.
A dada altura o Zé perguntou:
- Maeu caro Jorge, então sabe qual foi a marcha vencedora do concurso?
- Claro que sim, amigo Zé, foi a minha marcha preferida, a do Bairro da Bica.
Dizendo isto, exibia um amplo e franco sorriso.
A sua esposa complementou:
- É que, enquanto criança, o Jorge ia frequentemente para a casa dos avós paternos, que se situava precisamente nesse Bairro.
- Vamos lá, meus amigos, vamos brindar à vitória da marcha da Bica – disse, com alegria o Jorge.
Ergueram os copos, e todos brindaram, com um ótimo vinho da Madeira, cuja garrafa o Jorge abriu propositadamente naquela altura.
A dado momento, a dona da casa, olhando para o Rui, disse-lhe:
- Meu rapaz, mas tu estás tão murcho; isso são desgostos de amor?
A Vera adiantou-se ao filho e esclareceu que o mesmo, desde ontem estava com uma dor no abdómen, a qual não havia meio de passar.
- Bem, espera lá, porque a médica está a chegar.
– Disse com ar prazenteiro o Jorge.
Daí a cerca de quinze minutos, a empregada da casa veio anunciar:
- A menina Telma já está a estacionar o carro na garagem.
E de facto, decorridos poucos minutos, ela entrou.
Era uma moça de mediana estatura, muito bonita, com cabelos muito negros que lhe caíam pelos ombros, e uns olhos grados da mesma cor, com um rosto muito bem desenhado, lábios finos e nariz delicado, exalando frescura e simpatia.
Ela cumprimentou as visitas, beijou o padrinho e a madrinha e todos passaram para a mesa grande, onde o almoço iria ser servido.
O Rui, apesar de se ter sentado à mesa, disse que não lhe apetecia comer e, na sequência disso, o Jorge disse para a afilhada:
- Telma, depois do almoço tens de tratar este nosso doentinho.
- Certamente que sim, padrinho.
E voltando-se para o moço, ela perguntou:
- Achas que podes esperar pelo final do almoço?
Ele respondeu afirmativamente.
Almoçaram num ambiente descontraído e familiar, várias vezes tendo o Jorge voltado a repetir o quanto estava contente pela vitória da marcha do bairro da Bica, que, segundo ele dizia, teve a melhor letra, a melhor música e a melhor coreografia.
A Vera referiu que a tradição das marchas populares em Lisboa é muito bonita e está muito enraizada na população local, pelo que deveria ser sempre estimulada.
O Rui estava a sentir-se cada vez com mais dores, nada mais tendo conseguido comer do que um pouco de sopa.
Quando o almoço terminou, a Telma disse para o moço:
- Bem, então vamos lá ao hospital que eu tenho ali improvisado, no meu quarto.
Quem quiser pode-nos acompanhar.
A Mena ficou na sala a ver televisão, mas a Vera e o Zé, já demonstrando alguma preocupação com o estado de saúde do filho, e também o casal Cunha e Sousa, para tentarem incutir tranquilidade nas visitas, todos acompanharam a médica e o moço adoentado.
A Telma pediu ao Rui que se deitasse na sua cama e pediu-lhe que lhe apontasse onde é que sentia as dores.
Ele disse que a dor lhe começou, no dia anterior, não muito forte, na zona do umbigo, mas que depois se intensificou e agora doía-lhe muito do lado direito, no baixo ventre.
Ela fez os procedimentos que ali achou possíveis e convenientes, mediu-lhe a temperatura e verificou que ele tinha 37,8 de febre.
Todos os demais circunstantes estavam em silêncio.
Mas o Zé e a Vera não tiravam os olhos dum retrato de grandes dimensões que estava colocado numa das paredes do quarto.
Numa mesa que existia por debaixo desse retrato, lá estava a imagem duma Nossa Senhora, feita em cerâmica, tendo pendente das mãos um terço de contas brancas, com um crucifixo escuro de madeira, que o José Ricardo bem conhecia.
Ele e a esposa sentiram os seus corpos agitados por arrepios que provinham da forte emoção que deles se apoderava.
Não soltaram uma única palavra, mas os seus olhares conversavam numa linguagem que apenas os dois entendiam.
Ora punham os olhos na Telma, ora no retrato, ora no terço.
A dada altura, a Leonor, tendo-se dado conta dos olhares deles, disse:
Aquele retrato é da Ana Luísa, a mãe da nossa afilhada.
Esta imagem da Nossa Senhora foi ela que a trouxe de Fátima, uma vez que lá a levámos e este terço já ela o trazia consigo, quando veio para a nossa casa.
Mal sabiam os anfitriões que aquele casal de visitantes já tinha identificado quem era a pessoa representada no retrato, e quem era aquela jovem médica que agora examinava o seu filho e que, outrora, num sábado de outubro de 1976, tinha sido examinada por eles, não para lhe diagnosticarem qualquer doença, mas antes para a protegerem, para que a ela não se contagiasse o cruel sofrimento que, nesse tempo, já tumultuava a vida da sua mãe, mesmo sendo esta ainda tão jovem.
A dada altura, a Telma disse convictamente:
- O Rui deve ser visto, com brevidade no hospital.
Se me derem permissão para isso, eu própria o levo ao hospital onde trabalho, aproveitando até o facto de lá estar um médico muito competente que foi meu professor na faculdade.
E, sem esperar que qualquer dos circunstantes pudesse reagir, perguntou de imediato:
- Rui, queres ir comigo ao hospital?
Ele respondeu afirmativamente, sem qualquer hesitação.
Ela, voltando-se para os demais, disse:
- Bem, eu levo-o, mas não vale a pena irem também para lá, porque não poderão estar com ele, pelo menos nas primeiras horas de observação.
Prometo que me mantenho em contacto convosco, informando de tudo o que se passar.
O Jorge disse confiantemente:
Se ele está nas mãos da Telma, acreditem que está em boas mãos.
Vocês ficam aqui connosco, sentamo-nos tranquilamente aí na sala, vemos um bom programa de televisão e, brevemente, saberemos notícias que, se Deus quiser, serão boas.
O Zé e a Vera anuíram, passaram para a sala, enquanto o Rui e a Telma se dirigiram ao carro desta, tendo saído em seguida, rumo ao hospital.
Quando já estavam sentados na sala, a Vera, ainda visivelmente nervosa, quer pelo motivo do seu filho se sentir doente, quer pelos factos que pôde depreender ao ver aquele retrato, o terço e a relação da Telma com tudo isso, disse para os anfitriões:
- A vossa afilhada é muito parecida com a mãe.
- É verdade – disse o Jorge – parece tirada a papel químico.
E a esposa deste acrescentou:
- Elas vieram para a nossa casa, ainda a Telma era uma bebé.
A princípio tivemos algum receio de as acolher aqui, pois não sabíamos que tipo de pessoa era a mãe da menina.
Mas, graças ao Senhor, hoje digo que foi uma das melhores decisões que tomámos.
A Ana Luísa era uma pessoa dócil, com uma boa formação moral, muito nobre e respeitadora, muito educada e, à medida que a menina foi crescendo, ela passou a ser a alegria desta casa.
Podem crer que, se a Telma fosse minha filha, não gostaria mais dela do que gosto.
E o marido apressou-se a confirmar:
- É mesmo verdade. Esta menina é um anjo que Deus mandou para a nossa vida.
A mãe dela faleceu, com um carcinoma de rápida evolução, quando a menina tinha dez anos.
Mas aprendemos muito com ela em matéria de espiritualidade.
A Leonor continuou, espontaneamente, a narração do marido.
- A Ana Luísa tinha uma conexão muito especial com as aparições de Fátima.
Nós sempre a levávamos lá, no mês de outubro, já depois do dia treze, para que não houvesse tanta gente.
Ela dizia que tinha sido num mês de outubro que a Nossa Senhora as tinha recolhido da rua, a ela e à bebé, e lhes tinha dado um abrigo.
Enquanto nós ficávamos com a menina, andando por ali, ela permanecia em prece, na basílica, sempre por uma ou duas horas.
Quando saía, dizia que se sentia renovada e mais leve.
Fez-se um breve silêncio, durante o qual o Zé e a Vera compreenderam que, de facto, a Nossa Senhora se tinha servido deles, para que a Ana e a sua filha fossem recolhidas da selva em que ficariam, se, naquele sábado de outubro de 1976, eles tivessem passado de lado, deixando-as ali à deriva, completamente indefesas, na balbúrdia do Terreiro do Paço.
Eles entenderam também que sempre estiveram presentes nas preces daquela boa alma, a qual, ao ter sido desprezada pelos seus pais, maltratada e abandonada pelo pai da sua bebé, e ao ver que lhe tinha falhado a promessa feita pela sua amiga Lurdes, caiu numa aflitiva angústia, tendo achado neles a tão desejada tábua de salvação.
Quem quebrou aquele silêncio foi o Jorge, tendo continuado a falar da Ana.
- Ela tinha uma fé em Deus muito profunda e inquebrantável. Quando ela adoeceu, devido ao carcinoma que a levou, ela disse ao Dr José Gomes, o médico que a tratou, que não lhe ocultasse nada, por mais doloroso que fosse o prognóstico.
Quando o médico lhe disse o que se passava e que a doença era fatal, ela, resignadamente, exclamou:
- Eu já pressentia que a minha doença pudesse ser maligna.
Mas não me acusa a consciência de ter cometido abusos contra o meu corpo, por forma a provoca-la.
Terei, pois, uma partida prematura, que eu não poderia ter evitado.
Acho que há pessoas que, por motivos que só o Senhor sabe, precisam de estar menos tempo do que outras nesta escola que é a vida.
Faça-se em mim a vontade de Deus.
A seu pedido, ela aguardou a sua última hora de vida nesta casa.
Várias vezes ela repetia que partia tranquila, porque sabia que a menina iria ficar bem cuidada.
Foi então que a Vera perguntou:
- Como é que a Telma reagiu ao falecimento da mãe?
A isto respondeu a Leonor, serenamente.
- Na medida do possível, reagiu bem.
A mãe dizia-lhe que, um dia, iria adormecer aqui e que iria despertar, noutra dimensão, numa bela cidade, com muita gente boa, com lindos edifícios, com jardins maravilhosos e que, sempre que a Telma lhe mandasse pensamentos de amor, nas suas preces, ela lá os receberia e ficaria muito contente.
A Ana também disse para que a menina não chorasse por ela, porque as suas lágrimas chegariam lá ao coração da mamã, ficando ela muito triste.
A menina ficou convencida disto e, após o falecimento da mãe, sempre fazia as suas preces e, por vezes dizia-nos:
- Já mandei a minha carta de hoje para a mamã.
Foi então que a Vera disse:
Agora que estamos chegados a este ponto, o Zé tem algo para vos dizer que completará muito o conhecimento que têm desta situação.
Os anfitriões ficaram admirados com estas palavras, mas o Zé manteve-se em silêncio.
A Vera insistiu.
- Vá Zé, conta lá o que sabes.
- Conta tu, Vera, que consegues fazer isso melhor do que eu – disse ele meio intimidado.
- Então o Jorge, duma forma conciliadora disse:
- Vamos lá, dum ou do outro, queremos ouvir essa história.
Então o Zé contou tudo, desde o princípio, desde a sua entrada na estação ferroviária de Faro, da entrada da Ana Luísa com a bebé na estação de Loulé, da altura em que esta retirou o terço da sua malinha e começou a rezar com devoção, contou das sentidas lágrimas que viu jorrarem dos olhos dela e que molharam o terço e as mãos que iam passando as contas, contou da chegada ao Terreiro do Paço, do desespero que a Ana sentiu, ao ver que a sua amiga não vinha, enfim, contou até que, por causa de tudo o que se passou nesse dia, ele, que, nem conhecia o Excelso Ser que é Jesus, passou a ver Nele o Divino Guia da humanidade.
E foi tão sentida e fiel a sua narrativa que, antes que a mesma acabasse, todos choravam naquela sala.
A Leonor e o Jorge passaram então a compreender a razão que levava a Ana Luísa a escolher o mês de outubro, para ir mostrar a sua gratidão à mãe do Céu.
A dada altura, a anfitriã disse:
Como a Justiça Divina é Bondosa e Sábia!
Aquela bebé que vocês ajudaram está hoje, como médica, a tratar o vosso filho.
Quem planta o bem sempre colhe o bem, no retorno que funciona nas leis da vida.
E o marido acrescentou:
- Sem que o soubéssemos, as nossas duas famílias já tinham um forte traço de união, que foi desenhado pela Ana Luísa.
E mal sabiam todos eles que essa união, a breve trecho, seria ainda mais consolidada.
Já passava das dezoito horas, quando tocou o telemóvel do Jorge.
Ele disse logo:
- É a Telma.
- Está, diz lá querida.
- Padrinho, o Rui tem uma apendicite aguda e vai ter de ser operado de urgência.
- O quê? Respondeu o Jorge algo alterado.
O Zé e a Vera aperceberam-se de que a chamada dizia respeito ao caso do seu filho e de que havia algo imprevisto, tendo ficado extremamente inquietos.
- Então o Jorge disse:
- Telma, eu vou pôr o telefone em voz alta e tu falas com os pais do Rui.
- Sim padrinho, faça isso.
- Telma, - disse a Vera – então o que é que se passa?
- O Rui tem uma apendicite aguda e, por isso, é importante que seja operado imediatamente.
Mas não estejam apreensivos, porque se trata duma cirurgia relativamente fácil e ele vai ficar entregue a uma boa equipa, que é chefiada por aquele médico muito competente, que foi meu professor na faculdade e de que vos falei hoje, aí em casa.
Eu vou assistir à cirurgia e garanto que não sairei de junto dele, enquanto não tiver boas notícias para vos dar.
Mas não desliguem. Eu estou a caminhar para o local em que ele está, para que lhe possam falar.
Rui, estão aqui os teus pais ao telefone. Podes dizer algo para que fiquem tranquilos?
- pai, mãe, não se preocupem. Eu estou muito bem entregue. A Telma diz que vai ficar comigo, para vos ir dando notícias.
Não vale a pena virem para cá, porque eu agora não posso receber visitas.
E foi assim, a chamada foi concluída e, na casa do casal Cunha e Sousa, todos ficaram a aguardar ansiosamente pelos resultados da cirurgia.
Já passava das onze da noite quando a Telma telefonou de novo para o padrinho.
- Sim Telma, então como estão as coisas?
- O Rui já foi operado, a cirurgia correu bem; ele já despertou da anestesia.
Agora vai para uma zona de recobro.
Eu fico por aqui, para o ajudar no que for preciso.
Podem deitar-se, durmam descansados, que o nosso doente, em breve, será de novo saudável.
O Jorge e a esposa foram perentórios:
- Agora ficam aqui a dormir.
E pediram logo para que a empregada doméstica providenciasse dois quartos, sendo um para o casal e o outro para a sua filha.
No dia seguinte, todos foram visitar o Rui, que estava acompanhado pela Telma, estando ele visivelmente bem-disposto.
Foi um momento extremamente emotivo para todos eles.
O Rui teve alta hospitalar dali a quatro dias, ainda que, tal como a própria Telma lho recomendou, ele tivesse de manter determinados cuidados especiais, durante várias semanas, até ao seu completo restabelecimento.
Contudo, se foi uma indesejável enfermidade que aproximou o Rui da Telma,
Dali por diante, uma vez ele recuperado dessa enfermidade, houve um saudável laço que nunca mais se desfez entre eles e que, antes pelo contrário, a cada dia que passava, mais os envolvia.
Certo dia, falando com a Vera, aquele moço que tinha o corpo parecido ao do pai, mas que tinha os cabelos e os olhos parecidos aos da mãe, disse:
- Mãe, a Telma ajudou-me a curar da apendicite, mas passei a sofrer do coração.
A princípio a Vera sobressaltou-se, mas, como ele sorrisse com um ar matreiro, ela atingiu o verdadeiro alcance desta afirmação do filho, tendo sorrido gostosamente.
Em novembro de 2003, o José Ricardo e a sua família nuclear foram convidados para passarem na casa do casal Cunha e Sousa o período natalício.
E foi na sala grande dessa casa, na noite da consoada, pouco antes da meia-noite, que o Rui e a Telma comunicaram convictamente, para grande alegria de todos, que já não podiam passar um sem o outro.
Casaram-se, em Fátima, numa manhã dum sábado de outubro de 2004, levando ela, ali bem visível, junto ao seu vestido de noiva, aquele terço Sagrado de que a sua mãezinha, enquanto ela tranquilamente dormia no saquinho de bebé, se tinha servido, cerca de vinte e oito anos antes, num sábado de outubro de 1976, a fim de obter dos Céus a necessária força para não sucumbir de desespero, perante a difícil tormenta que, por dentro a convulsionava.
Quem estava do lado de cá, assistindo à celebração do matrimónio daquele jovem casal, pôde ouvir os diversos cânticos que foram entoados de louvor a Deus e ação de graças.
Mas do lado de lá, na dimensão espiritual, a Ana Luísa e os seus amigos, que sempre se tinham empenhado muito para tornar possível aquele enlace, estavam também em festa, naquela catedral, entoando cânticos que expressavam ao Senhor a gratidão e a alegria que todos sentiam.
De ambos os lados da existência, todos os assistentes sabiam que ali se uniam dois jovens que, tendo muita vontade de trabalhar na ceara do Senhor, acendendo luzes na senda do bem, iriam contribuir, com a sua fé e as suas obras, para ajudarem a construir a humanidade mais nobre e mais feliz do futuro.
Faro, 10-6-2026
José Bento
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