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O PODER DA RENÚNCIA

17 de abr.
13 min de leitura

Encontraram-se, por acaso, numa clara manhã de finais de março dentro dum autocarro

 tão cheio de gente, que o único lugar disponível que ele vislumbrou   foi precisamente ao lado dela.

Estavam agora ali, bem perto um do outro o Vasco, um homem alto, robusto, de cara larga, com bigode, olhos castanhos e cabelo farto, de quarenta e seis anos de idade, e a Isabel, uma mulher de baixa estatura, elegante, cabelos castanhos e olhos verdes, encantadoramente expressivos, que há pouco mais de um mês tinha entrado na casa dos quarenta.

Ele divorciado e pai dum filho já adulto e casado; ela casada e mãe de duas filhas ainda menores.

 O mero acaso os aproximara; dois assentos encostados um ao outro que acomodavam duas pessoas que, pela primeira vez se olhavam; duas vidas que, até ali, inteiramente se desconheciam e que, muito provavelmente, se continuariam a não conhecer, logo que o primeiro deles descesse do autocarro.

Ela trazia posto um perfume fresco, suave, algo que colocava naquele pequeno espaço partilhado por ambos, a frescura da primavera que despontava, realçando o encanto duma mulher que, serenamente, irradiava uma beleza que não se impunha, que ficava ali flutuando, para quem tivesse a sensibilidade para a apreciar, que se quedava ali calma e profundamente significativa, para quem tivesse o feliz dom de a entender.

Estavam ambos num meio público de transporte, cheio de gente que cumpria a rotina diária de percorrer a rota marcada, as paragens onde entravam pessoas pela porta da frente e saíam outras   pela porta de trás.

 A cidade ainda mal desperta, mas que tentava agarrar freneticamente o dia que há pouco começara, a agitação, o tempo marcado, comprimido, recortado em pedacinhos que, na mente de cada um, se iam representando relativamente aos horários a cumprir.

Pelas janelas daquela viatura de grande porte iam entrando os excertos duma grande cidade, que no amanhecer era igual a tantas outras, ao mesmo tempo confusa e ordenada, barulhenta e poluída, impessoal e possessiva.

As ruas estavam pejadas de carros conduzidos por gente que espelhava no rosto a impaciência que lhe causava o trânsito compacto, onde o para e arranca era a única forma de ir avançando algumas dezenas de metros.

 Pelos passeios caminhavam apressadamente centenas de pessoas já marcadas pelo peso dum dia que apenas há pouco tinha começado. Cada um para o seu lugar, para o seu caminho, para o destino já impresso na rotineira forma de abordar a cidade.

Eles estavam lado a lado, mas não falavam, olhavam-se de quando em quando de relance, mas ambos desfrutavam do prazer da companhia inesperada, como se um fluido muito leve os unisse, como se uma química muito próxima os estimulasse.

Ele, que entrou numa paragem depois daquela em que ela entrara, sairia duas paragens depois daquela em que ela ia sair. Por isso, como ela estava sentada do lado da janela, quando chegou a altura de sair ela pediu-lhe licença para passar e ele levantou-se.

 Ela passou-lhe bem perto, estava de pé, exposta, inteira, revitalizante, delicada e doce; apressada, mas apesar disso, descontraída e aparentemente tranquila.

Ela deixou o autocarro e não pensou mais naquele companheiro duma viagem que não durou mais de meia hora.

Contudo, apesar dela se ter ido embora, ele continuou com aquela mulher que dimanava doçura e beleza, agora já não sentada ali ao lado, mas antes introduzida na sua mente, começando a sua imagem a agigantar-se em múltiplos predicados do bem e do belo, na criatividade da sua fantasia, muito provavelmente alicerçada nas carências afetivas que ele ia carregando consigo.

Um mero encontro casual ia começando a tornar-se num fator que sabia a positivo, anunciando algo que podia ser bom, que podia dar uma tonalidade diferente a um dia que, quando ele fechou a porta lá de casa e se lançou nos braços da cidade, pensava ser igual a tantos outros.

- Diz-me lá Vasco, o que sabes tu daquela mulher para que te sintas como que enfeitiçado por ela?

Esta foi a pergunta que ele murmurou de si para consigo.

 Reuniu os conhecimentos adquiridos, e respondeu-se:

- Sei que é bonita, que usa um bom perfume, que quando cheguei ao autocarro já ela cá estava e que saiu duas paragens antes daquela em que eu vou sair.

Eram, afinal, bem poucos os dados disponíveis, os quais não justificavam que a sua fantasia tivesse, desde logo, disparado num galope impetuoso, como se ele houvesse ali conhecido uma fada, aquela que reunia todos os elementos físicos e psicológicos que vestiam a sua mulher ideal.

Mas nós somos assim mesmo; a água mais vulgar pode ser sorvida como se fora o néctar mais delicioso, por quem está sedento; uma mulher desconhecida pode começar a protagonizar cenas belas e complexas, multifacetadas e enriquecedoras, na mente dum homem que precisa desse complemento, ao mesmo tempo estimulante e refazedor que a feminilidade pode trazer.

Saiu do autocarro e continuou a pensar nela, a avaliar o porquê desta reação, a perguntar-se e a tentar obter uma resposta.

Contudo, como essa resposta não vinha, limitou-se a desfrutar da sua presença imaginária, iluminando uma mente que andava necessitada de calor, que reclamava uma companhia daquelas, que já acusava o cansaço duma vida de homem que estava só há mais de cinco anos; que entrava em casa e sabia que ia encontrar tudo como o deixara horas antes, tudo envolto num silêncio que, a princípio parecia tranquilizador, mas que, à medida que os anos foram passando, se foi tornando muito pesado e incomodativo.

Talvez fosse mesmo por tudo isso, pelo cansaço da solidão, pelo silêncio perturbador de cada noite, que aquela mulher lhe pareceu tão bonita.

 Ali, ambos perto um do outro, ela soltou a madrugada de quem ilumina, o calor de quem acompanha, o olhar doce de quem, mesmo sem tocar já acaricia e, como ele necessitava disso, o resto ficou por conta da sua fantasia, que foi aumentando tudo, que o levou a pensar mesmo que se tinha apaixonado à primeira vista.

Quarenta e seis anos vividos, um casamento que durara quase vinte anos, mas já destruído, algumas relações curtas depois do divórcio, sempre deixando um sabor a desilusão, e aquele homem ainda pensando e acreditando neste tipo de fenómenos, de histórias, de magias!

Mas foi assim mesmo, a necessidade era o combustível e aquela mulher tão globalmente agradável tinha sido a faísca que desencadeara o processo.

No dia seguinte encontraram-se outra vez, à mesma hora, no mesmo autocarro, mas agora já não foi o acaso  quem organizou o encontro, mas antes a vontade dele que, logo que entrou na viatura e viu que o lugar ao lado dela estava livre, se apressou a tomá-lo. Pensou que estava a arriscar já de mais, que ela podia sentir-se perseguida, que a sua presença a podia incomodar, mas mesmo assim sentou-se e, pouco tempo depois, olhando para uma revista semanal que ela tinha aberta num artigo que falava de saúde e nutrição, atreveu-se a dizer que gostava muito daquela revista, que aquela publicação continuava sempre a manter uma grande qualidade.

Ela respondeu sem enfado; afinal não o repeliu, no fim de contas a sua presença não a incomodava e passaram o resto da viagem a falar de trivialidades.

Ambos se sentiram bem. Ela não começou a fantasiar, transformando-o no seu príncipe encantado, mas era normal que a reação dela não fosse idêntica à que ele tivera, quando a encontrou pela primeira vez.

De facto, cada um tinha o seu ambiente afetivo, as suas carências ou os seus preenchimentos, os seus sonhos ainda válidos e também aqueles já desfeitos.

Ele vivia sozinho, numa casa onde já fazia falta uma mulher; mas ela, mãe de família, habitava numa casa onde todas as noites estavam os quatro, ou seja, para além dela, o marido e as duas filhas.

Ela não estava conscientemente carente de afetividade; o seu mundo estava tranquilo e preenchido, pelo menos tanto quanto uma mulher normalmente casada e mãe de família o poderia conceber.

Os dias foram-se sucedendo e eles foram-se conhecendo melhor, cada um já ia compondo cada vez mais detalhadamente a imagem do outro, pedaços do seu passado, grandes trechos do quotidiano, tudo se cruzava naquelas conversas diárias, que para ambos começavam a ser um grande estímulo para que o dia se iniciasse bem…

O autocarro penetrava nas ruas da cidade e cada um deles, desejando que a viagem se prolongasse um pouco mais, ia entrando no outro pelo conhecimento que se aprofundava, pela compreensão que mutuamente se expandia, pela relação afetiva que cada vez mais se apertava.

Estavam ali dezenas de pessoas, cada um esperando a paragem para sair, pensando já no próximo transporte que tinha de apanhar, no novo pedaço de rotina que iria suportar em cada dia que principiava.

Mas eles não pensavam em nada disso. Nem na paragem onde iriam descer, nem na rotina do trabalho ou na monotonia do regresso pela tardinha, porque, de facto, ao sentarem-se lado a lado, começavam a navegar nos vastos mares do imaginário, nas vagas que vinham de longe, talvez de séculos de existências, em tempestades ferozes que ficaram por amainar, ou em bonanças paradisíacas que, sem um porquê razoável, deixaram de acontecer.

Eles, apesar de ali sentados, saíam daquele autocarro e penetravam nos mundos um do outro, mundos que se repartiam e por isso ficavam mais claros, mundos que se entrelaçavam e por isso ficavam mais atraentes, mundos que se expandiam e, por isso ficavam mais compreendidos e compreensíveis.

As imagens da cidade que entravam pela janela da viatura não eram mais do que paisagens de fundo, eram assim como que pequenos vídeos que tinham pouca relevância, face ás palavras que trocavam, aos olhares que eles se dirigiam, aos silêncios que falavam, ainda que o som das palavras pensadas, muitas vezes, não conseguisse sair, porque esbarrava em normas que impediam, que amordaçavam, que desferiam reprovações silenciosas que cada um deles guardava só para si.

Sem se aperceberem, eles estavam a recitar um poema que, em cada dia, era mais comum e profundo; estavam a compor uma melodia, que cada vez era mais bela e envolvente.

 ela falava muito do seu presente, das rotinas lá de casa que a cansavam, das preocupações com as filhas que a comprimiam, das faltas de apoio do marido que a amachucavam.

Ele falava mais do seu passado; das desilusões que o feriram, das despedidas que o despedaçaram, das chagas ainda bem vivas que, apesar de já tanto o ter tentado, ainda não lograra de todo sarar.

Naquela meia hora diária, eles libertavam-se, vogavam acima de tudo mais, concentrando-se apenas na conversa, na troca de olhares, de emoções, de ideias, de alegrias e tristezas; confortando-se pela certeza indesmentível de que cada um estava interessado em escutar o outro e visivelmente empenhado em trazer para aquela comunhão, cada vez mais profunda, a sua mais autêntica forma de ajudar.

Eles estavam, sem que tivessem dado por isso, e sem que o tivessem querido, a entrar cada vez mais um na vida do outro e a prender-se mutuamente.

    Decorreram assim mais de três meses e cada um deles sentia que aquele encontro matutino lhe era cada vez mais indispensável.

Era a janela por onde entrava o oxigénio do belo, do profundo, do pretendido, mas nunca alcançado, era o terraço donde se tornavam notados os horizontes da personalidade que não se conseguiam definir por palavras, mas que existiam, que se agigantavam e que conseguiam balançar, como se fossem terramotos violentos, plenos ao mesmo tempo de terror e de beleza, personalidades que, anteriormente, eram tidas por estabilizadas e amadurecidas.

Contudo, nos roteiros da história afetiva, eles sulcavam mares diversos.

Ela estava encantada pela novidade, pelo empolgante da até aí inofensiva aventura, pela beleza daquela entrega afetiva mútua que aquecia, ao passo que a outra, aquela que ocorria entre ela e o seu marido já há muito que ia esfriando, à medida que o tempo passava.

Mas ele era o marinheiro que só a muito custo conseguira resistir a enormes tempestades de relações afetivas que se desconjuntaram e que, à medida que se iam demolindo, dilaceravam, causavam na alma feridas muito dolorosas, profundas, provocando choros que dificilmente se estancavam e medos que a muito custo se sustinham.

E por tudo isso, ao passo que ela ia avançando feliz e decidida, ele, apesar de querer também avançar, não queria repetir, nem para si nem para ela, as rotas inebriantes, mas dolorosas por onde já tinha passado.

Ela ainda desfrutava da inocência de sentir que era bom entregar-se, sem peias e sem medos, sem pensamentos que tisnassem a pujança do presente.

Mas ele sabia que em cada presente se constrói o futuro e que, por isso mesmo, não se pode apenas pensar no ato da entrega, mas nas consequências que daí podem resultar, porque, qual acontece nos factos regidos pelas leis da física, também naqueles que ocorrem na existência humana, nunca existe uma causa que não produza os seus efeitos.

Numa manhã de sexta-feira, ela disse-lhe que ia ter aquela tarde livre e perguntou-lhe se ele não queria ir beber um café com ela no bar dum dos parques arborizados da cidade.

Claro que ele quis, claro que ele, se não tinha a tarde livre, rapidamente arranjou forma de a libertar.

Aquele convite entrou na mente dele, como se fosse uma proposta da Cinderela que vinha enfeitada com lacinhos de ternura, de sonho, de encantado desejo e de cativante cumplicidade.

Aquele convite, só por si, já era um poema, uma canção, uma sinfonia inteira, um universo em miniatura que se abria dentro dele e que tinha o gosto a amor, daquele mais puro, mais perfeito, mais incólume a tudo, amor desse que nem carece de sexo, de casa, de profissão, de status, nem de rotina, amor daquele que é intemporal, que nos aperta ao mesmo tempo que nos liberta, que nos dá o gosto a vitória, mesmo que, depois, no campo da derrota, fiquemos com o desgosto da saudade.

Aquele convite dela teve o sabor a uma adolescência já há tanto tempo desaparecida; a um final de aulas no liceu e ao passear de mãos dadas com a namorada a quem há pouco se havia feito uma declaração de amor, apesar dos desejosos e inocentes lábios de ambos nunca se terem tocado.

À hora marcada encontraram-se.

 Depois de beberem o café na pequena mesa onde frente a frente se sentaram, foram dar um passeio pelo parque e, sob a sombra de grandes árvores por onde passava uma leve brisa quente dum verão ainda em começo, ouvindo lá ao longe o borbulhar da cidade e ali ao perto o chilrear livre dos pássaros, respirando os odores florais libertados docemente, numa tranquila tarde estival, a dada altura deram as mãos e, alguns segundos depois ela parou, olhou-o intensamente nos olhos e fez esta pergunta:

- Para onde nos estamos nós a dirigir, Vasco?

- Já tenho pensado nisso, Isabel. Ainda existem vários destinos possíveis; estamos a tempo de optar por aquele que ...

E ficou-se naquela palavra sem adiantar mais.

- Que o quê?

– Perguntou ela impaciente.

- Pois é, Isabel, ainda estamos a tempo de optar por aquele destino que nos faça mais felizes no agora, ou então por aquele que nos cause menos dor.

Ela ficou perplexa com a índole vaga destas afirmações; ele apercebeu-se disso e por isso, continuou:

- Sabes, eu hoje podia convidar-te para ires para minha casa, podia abrir aquela porta e dizer alto e bom som que ali chegara a minha rainha, a pessoa que, de agora para o futuro iria mudar tudo, o meu ambiente triste, a minha casa vazia, o meu sabor a derrotas, aminha talvez deturpada visão sobre duas pessoas que entram em sintonia.

Enfim, eu podia hoje pensar e dizer, ao entrar em casa, alto e bom som, que ali tinha chegado, de mãos dadas comigo, a pessoa que iria mudar a minha vida já um pouco sem sentido.

Eu podia esta noite cozinhar para ti uma comida exótica, depois acendia umas velas bonitas que lá tenho, punha a funcionar a pequena fonte que existe na sala e que há muito não sabe o que é deitar uma gota de água, punha a tocar uma música de fundo tranquila e os dois comemorávamos o amor que já construímos e que agora se iria aprofundar muito mais.

Eu podia fazer isto, sou livre para o fazer, mas tu não podias, nem ir esta noite à minha casa, nem convidar-me para ir à tua, para vivermos uma cena parecida.

- Mas tu disseste há pouco que há várias opções possíveis

 – Respondeu ela duma forma interrogativa.

- É verdade, Isabel, há várias opções possíveis, mas talvez apenas haja uma viável.

É verdade que tu podias ir à minha casa, não esta noite, mas outro dia que combinássemos, podias mudar-te para lá, podias ser a minha rainha, mas eu temo que,

 com o passar do tempo, tu começasses a sentir já não a felicidade do amor que se aprofunda, mas antes o peso da mudança que tortura.

Tu já não és livre.

 É evidente que podes divorciar-te, podes escolher ficar comigo, mas a tua mente está agarrada a um passado que nela se foi estruturando e infiltrando, que nela criou raízes muito profundas e que nunca deixarão de vir à superfície, para te lembrarem, com traços muito pronunciados, que essas raízes lá continuam.

Tu e o teu marido tiveram certamente muitos momentos em que juraram amor um ao outro; juraram que era para a vida inteira; agora o sentimento pode ter temporariamente esfriado, mas as juras existiram e os momentos de construção a dois também.

Relativamente às tuas filhas, aquele é o pai delas e por isso, por mais que lhes pedisses para encararem duma forma positiva o teu novo marido, elas, lá no fundo, sempre o rejeitariam.

A dada altura, vergada sob o peso das recordações, das perguntas, das recriminações que a ti própria te começarias a fazer, passarias a sentir como que um gosto amargo a ter saído da antiga relação, e o azul do nosso amor passaria a conter algumas nuvens negras, que turvariam a nossa felicidade.

- Como sabes tudo isso, Vasco?

- Porque já o vivi na pele e, porque te amo muito, porque te quero ver sempre segura de ti, não quero que passes muito daquele amargor   que eu já passei, apesar de eu ter dado todos esses passos difíceis, em busca sempre do amor mais puro, da paixão mais autêntica, do beijo mais verdadeiro e do poema a dois que pudesse ser emotivamente por ambos sempre vivido e recitado.

Este conhecimento que agora te revelo custou-me anos de dores, de noites a remexer cá dentro, de semanas a suportar o passado que me torturava, até que eu, ora caindo, ora me levantando, fui conquistando a liberdade que tenho agora.

Mas foi necessário muito tempo para conquista-la, o tempo que precisamente tu ainda não tiveste e nem sequer sabes se queres vir a ter.

A dada altura, abraçaram-se, uniram os lábios num longo beijo e, pelos olhos dele foram passando as pessoas na paragem do autocarro, o veículo que chegava, ele que entrava e se sentava ao lado dela, meia hora de ternura, de tranquilidade, de amor puro, vivido até ali, e para viver futuramente, até que o horário de trabalho de um ou do outro mudasse e os encontros matutinos deixassem de acontecer.

Mais tarde, quando já se tinham separado, ambos recordaram aquele beijo, a doçura das palavras que trocaram, e não mentimos se dissermos que ambos deixaram cair algumas lágrimas pela renúncia que tinham sido capazes de fazer, mas que doía muito.

 Foi uma renúncia de que outros iriam beneficiar, sem que alguma vez soubessem quão amargo foi, para cada um daqueles dois seres, estar à porta do sonho e não entrar, estar perto do amor mais ardente, e virar-lhe deliberadamente as costas só para não o ver, por medo das dores causadas pelos edifícios mentais que se iriam desmoronar, dos grilhões que furiosamente se apertariam e das recriminações que sobre tal amor haveriam de cair, como bombas altamente destrutivas.

Mas o beijo deles foi tão doce, aquele primeiro e último beijo,  tão sincero, tão apaixonado, que se transformou numa prece sem palavras que vinha do mais profundo do sentir, a qual ecoou nos locais mais recônditos do infinito e cada um deles ficou com a ténue esperança de que um dia, envolvidos por um azul forte e límpido, já sem medos nem dores, pudessem finalmente repetir, numa qualquer outra dimensão, para o resto da eternidade, o muito que sentiram e desejaram, naquela tarde de verão, num parque arborizado da cidade em que se conheceram.

E, para além disso, e por muito contraditório que tal pareça, ambos aprenderam que, por vezes, a forma mais autêntica de se demonstrar o verdadeiro amor, é através da renúncia.

 

Faro, 19-11-2019

 

José Bento

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