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O MENDIGO

  • 17 de abr.
  • 13 min de leitura

As pessoas caminhavam lentamente e em pequenos grupos em direção à saída daquele local, onde ninguém vai por felicidade, e donde ninguém espera trazer mais do que a saudade e a tristeza que consigo carrega, quando lá entra.

Foram muitos aqueles que quiseram acompanhar à sua última morada, o corpo do homem que, na cidade, por muitos era conhecido pelo professor e, por alguns outros pelo poeta, considerando as quadras de tipo popular que rapidamente improvisava, e as quais quase sempre se encaixavam perfeitamente em situações do dia a dia, que todos bem conheciam.

O Sebastião Gonçalves era um desses acompanhantes. Apesar de estar entre todos os demais, ia sozinho, metido consigo mesmo, e de tal forma embrulhado na sua tristeza,

 que o brilho do sol do meio-dia daquela manhã primaveril não o iluminava, porque entre ele e a luz do sol havia uma nuvem de melancolia que não se conseguia dissipar.

Ali ficaram os restos físicos dum homem que, durante mais de trinta anos, tantos quantos aqueles que tinha lecionado, usara a sua profissão de docente, não só para instruir, mas também para educar, difundindo abundantes e boas sementes espirituais pela gente daquela cidade.

Quantos alunos do liceu local ouviram da sua boca aulas inflamadas, onde ele mergulhava fundo na história ou na filosofia, onde ele demonstrava como valia a pena afastar a espuma e penetrar na essência, e não deixar encandear-se pelos brilhos do superficialismo entorpecente, que, não raro, é oco e de pouca valia.

 Os seus princípios morais, dum homem com grandes valores no campo do amor e da solidariedade, embatiam normalmente contra a indiferença duma cidade que se reputava de bem instalada, desmotivada para ter na devida conta tudo o que representasse um mais aprofundado esforço para utilizar as ferramentas da razão e do coração, a fim de se alcançar patamares moralmente mais elevados e de maior felicidade.

Sentindo esse choque entre o que deveria ser e o que realmente era, entre o que a boa moral ditava e o que a gente praticava no dia a dia, o já saudoso professor colocava nas suas quadras populares, mas profundas e incisivas, as verdades que havia proclamado de forma mais detalhada, nos locais de docência ou nas reuniões de amigos, mas às quais ninguém prestara a devida atenção.

As quadras que lhe saíam belas e muito inspiradas, batiam à porta de mentes que as não queriam entender, mas que as ouviam.

Apesar disso, ele dizia que tudo tem o seu tempo e que a boa arte, por muito simples que seja, mas que contenha reflexos de verdade, de amor e de beleza, sempre terá, em qualquer tempo,  quem a aproveite, quem se sirva dela, como alguém se serve duma minúscula jangada que, apesar de pequena, é capaz de resgatar, fazendo a diferença entre o salvar-se e o perder-se.

 Essas quadras de sabor popular eram como pedras atiradas ás muralhas da indiferença daquela cidade onde ele tinha nascido, a qual muito amava e que, tanto quanto estava ao seu alcance, de tudo fez para ajudar na evolução da gente que a habitava.

Muitas vezes ele deixou dito que não se considerava um grande vulto de coisa nenhuma, mas que era alguém que tinha muito empenho em contribuir, ainda que modestamente, para derramar um pouco de luz nos becos onde a mesma ainda não conseguira entrar.

Afinal nós somos isso mesmo, pequenos elos na engrenagem global, onde podemos optar por ajudar a construir torrentes mais fortes de amor, por onde flua a solidariedade, ou cadeias fortemente saturadas de egoísmo, indiferença e maldade, por onde, muitas vezes flui a destruição.

Ele faleceu cedo, ainda sem atingir os sessenta anos, na flor duma vitalidade intelectual imensa, mas certamente corroído por desgostos profundos que na vida se lhe foram somando. Contudo, a bondade que a mãos fartas distribuía, o amor que a qualquer um prodigalizava, essas eram realidades que não podiam ficar ali confinadas a uma cova feita para os corpos que apodrecem e não para os espíritos que sobem alto e vão permanecer, continuando na sua rota de evolução e aperfeiçoamento.

Partiu desta vida, levando com ele os tesouros do espírito, aqueles que, como diz o Divino Mestre, os ladrões não roubam e as traças não roem, e os quais conseguira angariar e partilhar com os demais, graças ao seu grande empenho em prosseguir na senda da dedicação aos outros.

O Sebastião deixava ali o corpo dum bondoso colega e, acima de tudo, dum grande amigo, daqueles que existem poucos e que deixam marcas indeléveis de saudade e de perda.

Na sua forma de sentir o sucedido, o que ficara ali enterrado no meio daquela quietude, não era só o corpo do professor, nem do poeta, mas antes a prova firme e inabalável de que aquele amigo, de tantas centenas de horas de conversa cordial, de tantas provas de companheirismo e de solidariedade, não mais estaria disponível nesta vida para o escutar e lhe dar amparo, como tantas vezes já o tinha feito.

Desconhecia, contudo, o Sebastião que nós, quando saímos definitivamente do fardo carnal, ficamos ainda mais libertos e mais lúcidos para definirmos valores e para apoiarmos aqueles amigos que cá deixamos.

Ali ficava o corpo físico, aquilo que volta à terra para alimentar outras vidas, mas o espírito, a essência, o amigo e professor, esse viria, sempre que possível, para influenciar positivamente a vida daqueles a quem estava ligado pelo lindo e puro sentimento da amizade.

Quando saiu do cemitério, o Sebastião  viu, encostado a um muro ali existente, a cerca de vinte metros, o Tónica, um dos sem abrigo da cidade, de quem se dizia que, só por culpa sua é que estava naquela situação de miséria, que era um caso irrecuperável, que gastava na bebida e no tabaco o pouco dinheiro que angariava e que era uma das figuras incómodas da cidade, para políticos, que queriam demonstrar que ali  não havia pobreza e para  os polícias, que amiudadas vezes, de noite o mandavam ir deitar-se para outro lado, quando ele atravancava os bancos dos jardins ou as entradas de certos prédios socialmente mais relevantes.

O homem teria cerca de um metro e setenta de altura, era quase esquelético, aparentava ter mais de sessenta anos. As pontas dos dedos estavam amareladas de tantos cigarros que nelas já se tinham apagado e os dentes apodrecidos de tanto fumo e álcool, que já por eles tinham passado.

Todos podiam observar a desorganização que normalmente ele por fora apresentava, mas poucos pensariam que, por dentro dum homem assim em desalinho, poderiam estar feridas imensas, que lhe debilitavam o ânimo, porque a vontade não é como uma matéria que com as mãos se molda e da qual se tem a quantidade que se deseje, antes sendo algo  de invisível, uma imaterialidade que é condicionada por muitos fatores que não raro a debilitam e outras vezes a reduzem a quase nada, ao desejo de não ser, de não pensar, de nem sequer ter gosto para despertar no dia a dia.

Da vontade bem dirigida se fazem os bons líderes, os cientistas, os grandes artistas, todos aqueles que ajudam a humanidade a dar grandes passos no fazer da sua história, mas da falta dela podem nascer  os pedintes, quer aqueles que estendem a mão à espera duma esmola material, quer os outros que, sem pedirem esmola alguma, contudo necessitam urgentemente duma palavra, da mão protetora, dum carinho, duma afirmação de solidariedade, de alguém  que lhes diga que está ali e que se preocupa com eles.

Da falta de vontade nascem aqueles que, sabe-se lá muitas vezes porquê, estão na vida, mas é como se não estivessem, os dias passam sem objetivos, sem diferentes colorações, são todos cinzentos, são todos eles pedaços de tempo que não se distinguem, que passam só por passar; é esse tipo de tempo que é uniformemente sentido, seja sábado ou domingo, seja inverno ou verão, desabe a mais tremenda tempestade ou brilhe o sol mais radioso.

Normalmente, o Tónica vestia-se com desmazelo, a roupa suja, desajustada, aqui e ali salpicada de buracos, transportando consigo, nos dias mais frios, um velho capote que lhe servia de manta nas noites invernosas que ele passava, onde quer que houvesse uma entrada de prédio mais abrigada que lhe desse um teto e três abrigos laterais, já que uma das partes ficava sempre à mercê da intempérie que impiedosamente o fustigava.

A única refeição quente que diariamente comia era-lhe fornecida pela Santa Casa da  Misericórdia local; os poucos euros que angariava vinham-lhe das boas vontades que suscitava como arrumador de carros ou à porta das igrejas às horas da saída da missa, bem como ali, no local onde agora ele se encontrava, quando ele ia aproveitar o empenho daqueles que, por alma deste ou daquele defunto, lhe iam depositando na mão algumas  moedas de pouco valor facial, mas que, no somatório total, sempre lhe iam  permitindo comprar uma bifana e um copo de vinho, ou o tabaco para ir enrolando, que este vício não tinha ele conseguido ainda voluntariamente  deixar, ainda que, por falta de fundos,  amiudadas vezes o não conseguisse satisfazer.

O Sebastião notou, algo surpreendido, que naquele dia o Tónica vestia um fato, que era velho e amarrotado, mas era um fato, que talvez tivesse tanto tempo de feito quanto quem o vestia tinha de desfeito, mas que, apesar de tudo, lhe dava uma boa compostura

 de aparência que, habitualmente, ele não fazia por ostentar.

A certa altura, um empresário da terra que seguia um pouco à frente do Sebastião, o Alves Miranda, chegou-se junto do Tónica e estendeu-lhe uma nota de dez euros.

- Toma lá, Tónica, que é por alma do nosso professor.

Contudo, o sem abrigo, olhando fixamente para tão benévolo dador, disse-lhe serenamente:

- Sr Miranda, eu agradeço-lhe muito. Só Deus sabe quanta falta essa nota agora me faz. Mas, precisamente em honra do professor, eu hoje não estou aqui como mendigo.

O empresário recolheu a nota, certamente pensou que ali estava um pobre e ainda por cima, um mal-agradecido, e, sem uma palavra, passou a diante, ao mesmo tempo que atirava ao homem um humilhante olhar de desprezo.

Seguramente que, daquelas mãos, o Tónica não voltaria a receber o que quer que fosse.

O Miranda não havia logrado compreender que o Tónica era um mendigo, muito mais de afeto do que de dinheiro e que, apesar de ter a vida completamente estraçalhada, ainda tinha dentro dele uma pontinha de dignidade que, de quando em vez se levantava e o fazia afirmar-se como pessoa entre as pessoas, mesmo que o estômago magoado lhe continuasse a lembrar o quanto era carente daquilo a que outros já chamaram de vil metal, para que, minimamente pudesse comprar o alimento de que necessitava.

Naquele dia o Tónica não queria estender a mão a quem passava, queria ter a dignidade de ter acompanhado aquele seu grande amigo à última morada como pessoa idêntica às demais, ainda que muito sentisse a tortura da fome, situação esta que o Alves Miranda, por nunca a ter experimentado, desconhecia por completo.

O Sebastião também passou a diante, mas a atitude daquele necessitado que recusava uma boa dádiva em honra de alguém que já cá não estava, foi-lhe batendo por dentro; foi-lhe fazendo perguntas rápidas e incisivas, de tal forma, que ele começou a caminhar mais lentamente, e, cerca de cinquenta metros depois, não resistiu ao desejo de olhar para trás, para ver se o Tónica ainda lá estava.

E realmente lá permanecia, exatamente na mesma posição em que o vira antes, encostado ao muro, cabeça descaída, com um ar de desalento que fazia dó, com uma imobilidade que causava impressão.

Compreendeu então que aquele homem não fora até ao local do enterro, porque não tivera a coragem necessária para ver o corpo a descer à cova, e também por falta de coragem, ali ficava quase inanimado, amparado por um velho muro, como alguém que perdeu algo tão importante na vida, que a partir desse momento fica sem rumo, sem motivos para ir, sem razões para viver.

 E talvez por isso mesmo o homem ali ficava à porta dum cemitério onde não conseguira entrar, mas junto do qual se sentia enterrado.

E por tudo isto, e quem sabe se também pela influência benéfica que o professor já exercia, desde a espiritualidade, o Sebastião, que mal conhecia o Tónica, foi-se aproximando dele lentamente, e, a certa altura, pondo-lhe a mão no ombro disse-lhe:

- Diz-me lá, tu eras muito amigo do professor?

- Sim senhor, eu e o Armandinho fomos criados na mesma rua, jogávamos à bola no passeio, jogávamos ao berlinde e ao peão, quando a mãe dele fazia iscas para o almoço, ela convidava-me sempre para ir lá comer com o filho, porque sabia que eu gostava muito de iscas.

Andámos juntos na escola primária, fomos juntos para o liceu, só que eu, quando cheguei ao quarto ano, aborreci-me daquilo, nem sequer consegui acabar o ano, e fui trabalhar para uma oficina.

Mas continuámos sempre amigos.

 Quando casei, ele foi o meu padrinho de casamento e, quando nasceu o meu menino, ele foi das primeiras pessoas a quem eu fui dar a notícia.

E nisto as lágrimas começaram a escorrer-lhe de fio; a voz embargou-se de soluços, ele não conseguiu continuar a narrar fosse o que fosse mais, tirou do bolso um lenço amarrotado, e começou a enxugar os olhos.

- Calma, Tónica, todos nós ficámos com muita pena do professor, ainda que poucos tenham tido com ele as ligações estreitas que tu tiveste.

Anda, vem daí, vem até à minha casa, que é a pouco mais de duzentos metros daqui, que lá falamos mais tranquilamente.

A princípio o Tónica recusou, mas depois acedeu, e lá foi caminhando ao lado do Sebastião, tendo ambos, decorridos que foram alguns minutos, entrado na casa deste e tendo-se sentado à mesa da sala de jantar.

- Então diz lá, meu caro, estavas a falar de quando nasceu o teu menino e que foste contar ao professor, e depois?

- Depois foi um desastre, sr Sebastião; passados alguns meses, sem que eu soubesse porquê, a minha mulher deixou-me, foi para o norte, levou consigo a criança, mais tarde foi ter com uns familiares em França, e nunca mais vi o menino, que hoje já será um homem feito.

Perdi a mulher de quem gostava e perdi o meu filho, que era a luz da minha vida.

O Armandinho, quando soube disto deu-me todo o apoio, quase todos os dias vinha ter comigo, bebíamos um café juntos, incentivava-me a que não me fosse abaixo, mas eu não consegui e, pouco a pouco, fui perdendo o interesse pelo trabalho, fui-me entregando à bebida, até que o patrão me despediu e, pouco tempo depois, tornei-me naquilo que sou hoje.

A minha vida, a partir da altura em que aquela mulher me deixou, foi sempre a descer e, até que bati no fundo.

O Armandinho nunca deixou de me dar a mão. Disse para eu passar pela casa dele, de quinze em quinze dias e, apesar de ele não ter muitas possibilidades económicas, ia-me dando algum dinheiro.

Nunca mais me esqueço. Houve uma vez em que eu estava ali a ajudar a estacionar carros junto ao jardim central, quando ele apareceu e me disse:

- Tónica, mais logo vai jantar lá a casa, que eu tenho uma surpresa para ti.

Ele nessa altura vivia já sozinho, que estava separado da mulher. Pois ele apresentou-me um prato de iscas que era uma maravilha.

Até me vieram as lágrimas aos olhos.

A comida estava apetitosa, bebemos uns bons copos de vinho, e ele abriu-se comigo, como nunca o tinha feito. Ainda me lembro quando ele me disse já com lágrimas nos olhos:

- “Sabes, meu caro Tónica, quando nos tornamos adultos, apesar disso, não deixamos de ser crianças; somos apenas umas crianças grandes. Mas há alguns de nós que, mesmo sendo adultos, continuam a ser crianças pequenas, de tal forma débeis, que não conseguem suportar os grandes males que na vida lhes acontecem.

 Por isso eu compreendo bem que tu não tenhas conseguido superar bem o que te coube em má sorte. Eu sempre soube que, apesar de teres crescido, continuavas a ser uma criança pequena e tinhas necessidade de ter ao teu lado alguém que, em vez de te destruir, te amparasse e ajudasse a crescer.

Nem imaginas quantas vezes a mim também me apetecia deixar soltas as rédeas da vida; deixar que viessem acima os desgostos que me consomem e ficar encostado ao tempo, chorar dias a fio, lamentando as muitas punhaladas que já me têm atingido o coração!

Contudo, como tenho a sorte de ser uma criança grande, consigo ir andando, dar passo após passo, mas o sofrimento corrói, nós caminhamos, mas estamos todos doridos por dentro, parece que cada passo é uma dor, cada pensamento é um golpe, cada palavra é uma dolorosa lágrima.”

E nisto o Tónica fez uma longa pausa, e, tocando na cara com a sua mão direita, como quem está em busca de algum pensamento que se acha mais entranhado e difícil de verbalizar, disse:

- ó sr Sebastião, o Armandinho tinha razão! Eu tenho tantas vezes olhado para a minha vida, tenho-me lamentado da queda que dei, sinto-me um inútil, uma pessoa totalmente destruída, mas não consigo fazer melhor. A tristeza de ter perdido o meu casamento e o meu filho atingiu-me tão fundo cá dentro, que fiquei incapacitado de ter gosto para o que quer que fosse.

 A vida perdeu o interesse que eu nela tinha.

O Sebastião teve então a oportunidade de visualizar um mundo muito diferente do seu,

 assente em razões que ele nunca tivera e em cuja força destrutiva jamais tinha pensado.

A certa altura, pondo-se de pé resolutamente, como que tomado por uma ideia que de repente o acometeu, disse:

- Tónica, espera aí que eu volto já. Olhou para o relógio e já passava da uma e meia da tarde. Saiu de casa e nem se importou de deixar dentro dela sozinho e sem restrições, um homem a quem, normalmente, ninguém queria abrir as suas portas.

Pelo caminho foi-se perguntando como tinha sido possível que duas crianças que brincaram no mesmo passeio, que compartilharam a mesma alegria dum imaginário infantil despreocupado, vivido numa vulgar rua daquela cidade, afinal tanto se tivessem distanciado quanto à forma de encararem a vida, quanto ao grau de a compreenderem e quanto ao modo de fomentarem o seu próprio crescimento.

Pelo caminho foi pensando na enorme multiplicidade de sucessos e de insucessos, de golpes e feridas que transformam seres humanos socialmente idênticos em pessoas que se cruzam e já nem são capazes de se olharem, que vivem na mesma cidade, mas se ignoram, que fazem parte do mesmo país, mas friamente se excluem.

Voltou cerca de um quarto de hora depois, trazendo consigo o almoço para ambos.

Quando desembrulhou o que trazia, os olhos do Tónica brilharam, num misto de alegria e comoção.

 Ia comer novamente iscas, desta vez já não na companhia do Armandinho, mas na companhia de alguém que também queria ser seu amigo.

A vida fechara-lhe uma porta, mas abrira outra para compensar, pelo menos um pouco, aquela que se tinha fechado. E nesse momento o Tónica pensou que talvez o seu maior erro tivesse sido  não ter acreditado na vida, nas portas que se abrem, nos sentimentos que se renovam, nas pessoas que se aproximam, que nos  entendem, que nos  ajudam, que nos ensinam a sentir que ninguém é insubstituível, que a vida é sempre uma grande oportunidade para que as crianças pequenas passem a ser crianças grandes e para que as crianças grandes continuem a crescer cada vez mais, apesar de não perderem a pureza que tinham, quando ainda eram mesmo crianças muito pequenas. 

Sentiu-se então já com algum abrigo, aquele que lhe vinha de começar a ver um caminho, a ter uma esperança, a acreditar que a vida deve ser como um jogo que devemos ganhar sempre em prol da felicidade, e que tem de ser disputado até ao último instante.

Ergueu o seu copo e pediu ao Sebastião para que fizessem um brinde.

Este acedeu gostosamente.

- sr Sebastião, vamos brindar ao Armandinho, que, apesar de ter ido hoje a enterrar, o colocou a si no meu caminho para continuar o trabalho que ele iniciou comigo e que nunca conseguiu acabar, mas que agora tem um importante resultado que é o de me sentir com vontade de ser um homem diferente.

E pronto, eles brindaram, agora aquecidos pela esperança, agora unidos pela solidariedade, que ambos intuíram serem as duas enormes alavancas que podem levantar os caídos, tornar alegres os tristes, socializar os marginalizados e fazer crescer as crianças adultas, por muito pequenas e débeis que elas sejam.

 

 

Faro, 2015

 

José Bento

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