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O LIVRO DE RECLAMAÇÕES

  • 17 de abr.
  • 9 min de leitura

Naquela sexta-feira pela tardinha, o Óscar Bastos, eficiente executivo, dirigente de topo duma das mais importantes empresas do país, foi ao hipermercado para comprar uma prenda para o seu filho mais velho, que, nesse dia, completava vinte e três anos.

Depois de escolher o que pretendia, dirigiu-se ao local onde funcionava a caixa do estabelecimento, a fim de pagar, mas deparou-se com uma fila de oito pessoas, sendo certo que a moça que operava no caixa, uma jovem que não teria mais de vinte anos, se mostrava lenta no atendimento dos clientes.

À medida que a fila vagarosamente ia avançando, o Óscar ia ficando cada vez mais furibundo, devido ao tempo, que, no seu modo de pensar, ali estava a perder desnecessariamente.

Quando chegou à sua vez de pagar, ele disse com muito maus modos para a moça:

- Pessoas como você não deveriam trabalhar numa empresa destas.

A moça pediu desculpa e disse que ainda não tinha prática, porque havia pouco tempo que estava naquelas funções.

Ela estava aterrorizada com os maus modos daquele cliente, com os olhares demolidores que ele lançava sobre si, mas o Óscar, altivo, indiferente aos sentimentos dos outros, assumia ali a postura implacável do gestor empresarial que coloca a eficiência económica acima de tudo o mais e que já não se limita só a implementar essa eficiência na empresa que dirige, mas também nas empresas dos outros, onde não foi chamado para prestar qualquer cooperação tecnicista.

A moça ia-se desfazendo em pedidos de desculpa e o Óscar ia ficando cada vez mais arrogante, mais exigente, mais insensível, como que desfrutando intimamente do prazer de estar a conseguir aterrorizar, de estar a ver alguém a rastejar em busca da sua compreensão e do seu perdão profissional; ele que desconhecia o que era isso, o perdão, a compreensão; e logo ele que, segundo dizia, sempre cortava a direito e que se sentia lá no íntimo, como tendo a missão de expurgar o mercado de trabalho dos muitos incompetentes que nele enxameavam.

Naquela caixa duma grande superfície, naquela parcela de tarde, por uma volta do destino, estavam, frente a frente, a humildade de quem sabe que precisa de ajuda e a pede, e a arrogância de quem desdenha partilhar com os outros as suas maiores prorrogativas de saber, de poder e de opulência.

Encontravam-se ali a debilidade e a suposta força, o pedido de misericórdia e o coração que desconhecia o sentido desta palavra, a necessidade de amor e de compreensão e quem estava a muitas milhas de tudo isso, encerrando-se no seu mundo ilusoriamente blindado às tempestades da vida e do sentimento.

Estavam ali frente a frente, num dos possíveis cenários da vida, uma jovem, debilitada pela falta de recursos financeiros, vendo naquele trabalho a potente esperança para chegar a casa, no final do mês, e poder fazer desabrochar um sorriso no rosto da sua mãe doente, ao dizer-lhe que trazia ali o dinheiro que, pelo menos seria suficiente para que se pudessem sustentar, no mês seguinte; e um homem, materialmente bem colocado na vida, com mais do dobro da idade da jovem e que nunca soubera o significado de ter necessidades básicas a massacrarem lá dentro, sem meios de as satisfazer. 

O Óscar Bastos continuou com os seus maus modos e, uma vez feito o pagamento, pediu à moça que lhe desse o livro de reclamações, porque queria manifestar o seu desagrado perante os diretores daquele espaço comercial.

Ela, já desfeita em lágrimas, prevendo o seu possível despedimento e o agravamento da grande pobreza económica em que vivia, chamou o gerente de loja.

Este, algo constrangido pelo pedido do homem, solicitou-lhe que o acompanhasse ao seu gabinete, onde lhe daria o livro de reclamações e onde, mais tranquilamente poderia escrever a sua reclamação.

Depois do Óscar se sentar junto à secretária que o gerente lhe apontou, este entregou-lhe o livro e disse-lhe:

- Meu caro Senhor, você tem todo o direito de fazer a sua reclamação, mas, considerando aquilo que conheço desta empresa, a moça vai ser imediatamente despedida, até porque ainda está no período experimental.

Tanto quanto sei, esta jovem é o amparo da sua família constituída por ela e pela mãe, pessoa muito doente.

O Óscar não se demoveu dos seus propósitos, apesar do que lhe foi dito pelo gerente de loja.

Assim, ele dispôs-se a redigir a sua reclamação, tendo pedido bruscamente que lhe fosse dado o nome da moça.

Dizia ele, altivo, imperturbável, arrogante, tão sem alma como a caneta que empunhava para escrever o seu protesto:

- Pessoas ineficientes não devem trabalhar neste tipo de empresas.

Então o gerente de loja deu-lhe o nome da trabalhadora:

Ana Helena Varela Bastos.

Aquele nome fez acender uma luz que duma forma violenta agitou a mente do Óscar.

- Por favor – disse ele.

Poder-me-á dar mais elementos de identificação da moça, designadamente o nome dos pais?

O gerente, depois de alguma hesitação, até porque a identificação dos progenitores da funcionária nada tinha que ver com a reclamação a efetuar, ainda assim, concedeu em dizer os respetivos nomes:

- A funcionária é filha de Ana Helena dos Santos Varela e de Óscar José da Silva Bastos.

O Óscar estremeceu. Pousou a caneta e ficou de tal forma pálido, que o gerente de loja lhe perguntou se, por acaso, se estaria a sentir mal.

- Não, meu caro Senhor; mas já não quero fazer a reclamação.

Entregou o livro e apressadamente saiu.

Uma vez já fora da grande superfície, e com uma dor no peito que súbita e estranhamente o acometeu, sentou-se num dos bancos existentes no jardim que ali ficava de fronte, tendo ouvido uma voz que, vinda de lá do fundo da sua consciência, lhe disse:

- Olá meu crápula, então abandonaste a mãe dela, quando a miúda ainda tinha poucas semanas,

 permitiste que a criança crescesse sem o amparo dum pai; nunca sequer contribuíste com um único níquel para o seu sustento e agora queres tirar-lhe o emprego onde honestamente ela ganha o dinheiro para alimentar-se a ela e à mãe doente, muito provavelmente, pelos desgostos que tu lhe causaste?

Ele não teve resposta, mas intuitivamente sentiu que o nome que a sua consciência lhe chamou ainda era suave demais para a enorme torpeza que tinha cometido.

Mas a consciência continuou clara e implacável:

- Lembras-te certamente daquela moça alegre, bonita, cheia de sonhos, que trabalhava na pastelaria que ficava em frente do escritório onde tu ainda eras um simples economista.

Alimentaste o capricho de conquistar a moça e não te inibiste de lançar mão de todos os meios de persuasão que possuías.

 Eras um rapaz com boa aparência exterior, ostentavas uma instrução de maior nível do que ela e, por incrível que pareça, até ocultaste que já eras casado e que tinhas um filho.

A pobre moça acreditou na imagem que tu lhe passaste e começou a amar-te, pensando que serias o homem que ela há tanto desejava para marido.

Por amor ela se entregou, por falsas promessas de amor tu a seduziste, por amor ela se deixou engravidar e por falta de amor e de escrúpulos tu a abandonaste friamente a ela e à criança.

Acedeste a muito custo a dar o nome à bebé, sem que, todavia, alguma vez tivesses querido conhecer a menina.

E regista mais isto para as tuas considerações:

A mãe da miúda, apesar da grande pobreza económica em que sempre viveu, nunca te veio procurar, cumprindo escrupulosamente a promessa que tu lhe arrancaste, de se manter afastada, em troca de acederes a dar o nome à bebé.

Isto aconteceu naquela cidade do interior, a mais de duzentos quilómetros daqui. Lembras-te de todos estes factos?

Como não se havia ele de lembrar, se tudo aquilo correspondia à verdade e lhe era dito pela sua própria consciência, esse mar imenso de memórias onde tudo o que fazemos fica registado, apesar do aparente esquecimento que, por comodismo e fuga queremos lançar sobre os acontecimentos que nos perturbam. 

Nunca revelara nada disso à esposa, com medo de perdê-la; nunca dissera nada disso aos dois filhos que tinha dela, porque sempre quis passar-lhes a imagem de ser um homem impoluto que, realmente não era.

Fechara-se ao sofrimento da mulher a quem enganara e da filha que ajudara a trazer ao mundo, sem que alguma vez se tivesse preocupado em minimamente cumprir a sua missão de pai.

E agora estava ele ali a contas com o passado, derrubado sobre um banco de jardim pelo remorso que o entorpecia, tragando o horrível sabor do tempo que não retrocede e que não permite que, na altura que foi própria, se substitua o mal feito pelo bem que nos recusámos a fazer.

Arrependia-se agora de ter sido tão egoísta, mas tal arrependimento não eliminava o mal feito.

Contudo, estava ali, a pouco mais de cinquenta metros da sua filha, aquela a quem ele cruelmente queria ter tirado o emprego, mas nem sequer tinha a coragem de se apresentar diante dela e humildemente pedir-lhe que o perdoasse.

Ou seja, apesar de não poder fazer retroceder o tempo para evitar cometer o erro, ele estava ainda em tempo de começar a repará-lo, desde que tivesse a vontade e a humildade para o fazer.

E por estranho que pareça, ele havia recebido da sua filha o pedido de perdão, pelo simples facto dela não ser tão solícita quanto ele queria, no manejar da caixa do estabelecimento, perdão que ele não quisera conceder, quando a verdade é que ele é que lhe deveria pedir um muito misericordioso perdão pelo atraso em mais de vinte anos que ele tivera em cumprir com os seus deveres de pai.

Subitamente, o homem arrogante que, minutos antes, se recusara a perdoar uma simples falta de eficiência a uma jovem que ainda era inexperiente no posto de trabalho, estava ali amarrotado sobre um banco de jardim, qual mendigo, carecendo dum perdão muito mais profundo e complexo, que envolvia mais de vinte anos de fuga às responsabilidades de pai e, para além disso, que envolvia o facto de ter, com a sua maldade e astúcia, impedido que a mãe daquela moça tivesse encontrado o marido com que sonhava e que, muito possivelmente lhe iria aparecer na estrada da vida, considerando a jovem atraente que ela era. 

Levantou-se e, cabisbaixo, foi tomando o caminho do carro, ao mesmo tempo que um pensamento lhe batia naquela mente completamente em desalinho, e que lhe dizia que,

onde quer que estejamos, tenha decorrido muito ou pouco tempo, mas no momento próprio, a existência sempre terá forma de nos confrontar com os maus atos que cometemos, para que a nossa consciência seja implacável a demonstrar-nos como fomos egoístas e indignos, e para que possamos trilhar o caminho do arrependimento e da expiação.

Ele não o sabia ainda, mas a verdade é que todos os infernos, ainda que derivem dos factos mais hediondos, têm sempre uma porta de saída, a qual se vai abrindo com as chaves do amor, da humildade e da vontade em proceder à reparação do mal feito e ao auto aprimoramento.

Por sua vez, a existência, que se prolonga para além da morte física, e cujas leis funcionam, quer nesta dimensão quer na dimensão espiritual, e nas múltiplas reencarnações que possam ocorrer, procede sempre com uma admirável mestria, como acontece em todos os fenómenos regidos pelas Leis Naturais, que todas elas têm a paternidade Divina.

De facto, a porta da salvação está aberta para todos e cada um lá chegará, conforme o seu esforço e com mais ou menos quedas, mais ou menos enganos e mais ou menos tempo para trilhar o caminho certo, consoante o seu livre arbítrio.

Quanto mais graves forem os erros, quanto mais prolongados forem os comportamentos contrários ao amor, maiores serão os sofrimentos a enfrentar pelo respetivo infrator.

O ser humano pode violar até certo ponto as Leis Divinas, mas toda a violação terá sempre um limite, o qual constitui o ponto em que ele é trazido de retorno ao bem, desfazendo, um a um, os espinhos que aja criado para si e para os outros.

Nesse limite do mal, a dor agiganta-se, todos os fatores da existência se conjugam para que o infrator reconheça a infração e para que seja intimado a repará-la.

Aí, nasce muitas vezes um embate tremendo entre o infrator que não quer recuperar-se e a existência que o quer reabilitar, e então a dor assume formas cada vez mais profundas, mais difíceis, mais ríspidas, mais eloquentes até que, já cansado de sofrer, e iluminado pela potente luz do amor, todo o delinquente acaba por reconhecer o seu erro, sentindo-se um doente do espírito, que tudo quer fazer para recuperar a saúde.

Porque Deus a todos criou para a felicidade, a dor, como mestra paciente, mas sábia, golpeando nos pontos mais cruciais, obedecendo à lei de causa e efeito, estará com cada um de nós, na medida do

 necessário, para nos curar das insanidades, sendo tanto mais violenta, quanto menos nos esforçarmos por trilhar o caminho do bem.

Lá dizia o Divino Mestre:

“conhecereis a verdade e a verdade vos salvará.”

Quantos males deixaríamos de causar aos outros e a nós mesmos, quantos sofrimentos não ocorreriam, quantos séculos de peregrinação pelos espinhos da desgraça evitaríamos para nós, se nos interessássemos, em devido tempo, por conhecer a parcela da verdade ao nosso alcance, e por aplicar, na reta condução da nossa vida, os factos e princípios que a verdade contém.

 

Faro, 14-5-2021

 

José Bento

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