O AUTOCARRO DA FELICIDADE
- há 3 dias
- 2 min de leitura
Convidaste-me a subir para o autocarro;
Deste-me a mão, prometeste-me a tua vida;
Tinhas uma doçura tão apetecida,
Uma voz tão bela e enternecida,
Que apagava as cinzas do meu cigarro.
Disseste-me que tínhamos um lugar lá na frente,
Um lugar dos bons, daqueles mais confortáveis;
Que assim, teríamos as chances mais favoráveis,
Para desfrutar dum amor feliz e ardente.
Mas antes de subir contigo, vi uma criança,
Que, se eu subisse, não teria lugar,
Ficando perdida, por ali a vaguear,
Enquanto desfrutávamos da nossa bonança.
Vi também uma mulher de pele tostada,
Que carregava toneladas de mágoa.
Uma mulher pobre, só e desesperada,
De olhos mortiços, e rasos de água,
E que, se lá ficasse, seria maltratada.
Foi então que eu te disse que não subiria,
E dei o meu lugar à doce criancinha.
Mas tu não quiseste viajar sozinha,
E deste o teu lugar à mulher que sofria.
O autocarro partiu e ficámos desterrados,
Numa zona agreste, que nos abrasava,
Chorando uma alegria, que se adiava,
E, pouco a pouco, ficámos separados.
Mas o que poderia eu então fazer,
Se nunca consigo sentir-me feliz,
Contra a consciência que sempre me diz
Que fazer o bem é a razão do meu viver?
Talvez chegue um dia, outra viatura,
Onde mais ninguém precise de entrar.
Talvez já não seja então a altura
De ter o teu amor, para me alegrar.
Mas, ainda assim, subirei sozinho,
Sem flores, sem enfeites, mas confortado;
Com o calmo sorriso de quem está descansado,
Porque segue, com amor, o seu caminho.
Como eu gostava que fôssemos os dois,
Nesse autocarro da felicidade!
Mas estava escrito que só depois
É que chegará a nossa oportunidade.
Faro, 4-9-2023
José Bento
Comentários