O ABANDONO E O REENCONTRO
- 9 de mai.
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Aquele era definitivamente um dia dos tais.
Era um daqueles dias em que montanhas de emoções controversas e incandescentes queriam transbordar, passando ao consciente em golfadas de sofrimento e riso, de paz e culpa, de pequenez e grandeza, de dúvida e de fé.
Era nesse tipo de dias que o Jaime se sentia menino, vestindo um bibe tingido de esperança, bordado de vontade de aprender, permanecendo desperto ao colo dum adulto já largamente metido nos cinquenta anos, sendo então que mais se deitava para fora, ao mesmo tempo que ia mergulhando profundamente dentro de si.
Indubitavelmente, aquele era mais um dia marcado pela intemporalidade, pois não era relevante se era inverno ou verão, se era tarde ou cedo, se era antes ou depois, porque para aquele protagonista apenas contava, nessa altura, a vontade e o gosto, o choro e o sorriso, a pergunta e o desejo de a responder, a dúvida e a fé para a clarificar, a beleza e o desejo de desfrutá-la.
E diremos nós que não vale a pena arredondar muito as palavras, detalhar as ideias, pormenorizar os lugares, porque dias daqueles só quem os tem é que os entende, os goza e os suporta, os sofre e os louva, os deseja e os teme.
E foi assim que, nesse dia, à medida que a tarde descia e a profundidade do mergulho para dentro dele aumentava, a moldura exterior se ia adequando àquilo que lá dentro andava para ser descoberto e dito, ponderado e revivido, sentido e registado.
E certamente foi por tudo isto que o Jaime, ainda sem saber porquê, achou que só a natureza podia testemunhar o muito que dentro dele se convulsionava e, para que tal ocorresse, passou a andar lentamente por um caminho que então era de terra batida, o qual se inicia perto da Universidade do Algarve e segue em direção à ria formosa, às salinas e aos charcos onde normalmente ele se deleitava quando, na época própria, ali descansavam dezenas de flamingos, usufruindo da proteção da reserva da ria, e recolhendo forças para voos mais alargados.
Os minutos passavam e ele embrenhava-se cada vez mais na floresta, no silêncio, na distância que deixava o aglomerado urbano cada vez mais longe e, paradoxalmente, punha aquele caminhante mais perto de algo que a lembrança teimava em trazer-lhe à tona, para que se fizesse um ajuste de contas há muito adiado.
Foi nestas circunstâncias, que a mente lhe colocou ali ao lado o Spak, aquele cão boxer, de pelagem tigrada, dócil e de pura raça, que ele, no ano de 1999 comprou, ainda cachorro, numa loja de animais da cidade.
O Jaime ia caminhando, sorvendo o odor a eucaliptos com misturas de maresia, e o cão ia junto dele, correndo, ora atrás, ora adiante, mas tudo só na mente do homem, porque o canídeo já há mais de dez anos que deixara de estar vivo.
Lembrava-se o Jaime que o cachorro chegou pela primeira vez à sua casa e tudo se passou como se já estivesse em família, rapidamente se tendo tornado seu amigo, sempre disponível para o afeto, para as brincadeiras, para as corridas e as caminhadas e para as carícias,
nas horas do sol posto, quando o dono chegava a casa já moído pelo trabalho, necessitado dum carinho desinteressado, puro, espontâneo e leal.
E foi isso que aquele cão forte e ágil, inteligente e meigo, lhe deu, ao longo dos cerca de oito anos, durante os quais o dono quis desfrutar de todas as boas qualidades daquele animal, que ainda está qualificado como irracional, mas que já é detentor de muitos e bons atributos que alguns seres humanos, apesar de já terem entrado nos domínios da razão, infelizmente ainda não têm.
Mas o Jaime, para seu mal, durante o tempo em que o cão viveu consigo, ainda não havia aprendido que um cão não é um objeto, mas sim um nosso irmão, ainda na fase do instinto, mas já detentor de alguma inteligência e de sentimentos, uma criatura de Deus, tal como nós somos, um ser com corpo físico e corpo fluídico, que vai alternando entre reencarnações e estadas na dimensão espiritual, para ir subindo degraus no seu nível evolutivo.
Também nós já estivemos totalmente dirigidos pelos instintos, privados de livre arbítrio e, no transcurso de milhões de anos, por misericórdia do Criador, lá nos fomos elevando e, diga-se em abono da verdade, ainda hoje existem milhões de pessoas que praticam aberrações que nem o menos inteligente dos cães quer cometer.
Pois é; nesse tempo em que o cão viveu com ele, o Jaime ainda não tinha refletido naquilo que acima referimos, vivendo então sufocado por montanhas de matéria, as quais lhe preenchiam o tempo, as ideias, os desejos e até os afetos.
E foi por isso que, certo dia, quando achou que o animal lhe causava demasiado incómodo, porque nem tinha tempo para sair com ele, a fim de que o cão fizesse fora do quintal as suas necessidades fisiológicas, e nem tinha disponibilidade para limpar as que, obrigatoriamente ele fazia lá dentro, o ofereceu a um amigo, assim como se dá algo inanimado, tal como uma mesa ou uma cadeira, ou, talvez sendo mais preciso, como se dá um objeto de que nos queremos livrar, por nos constituir um estorvo.
O cão pressentiu antecipadamente aquilo que lhe estava destinado e, quando o Jaime o chamou para que saltasse para dentro da sua carrinha, ao contrário da solicitude que demonstrava das outras vezes em que tal acontecia, não queria entrar, tendo sido necessário que o dono o pegasse ao colo e, pressionando-o, o metesse no interior do veículo.
Durante o trajeto de cerca de dez quilómetros, o cão ia chorando com ganidos tais, demonstrando tanta dor, que o Jaime começou a interrogar-se acerca do porquê desta atitude tão estranha assumida pelo animal.
Quando chegaram à quinta desse amigo, onde o cão iria ficar, este recusou-se a sair da viatura, e teve de ser o Jaime a puxá-lo para fora e, tendo feito algumas carícias ao cão, conseguiu que este o acompanhasse, ainda que desconfiadamente, pelo trajeto de cerca de cem metros, até onde o novo dono se encontrava, já com uma corrente na mão, à qual o animal foi imediatamente amarrado.
O cão começou a tentar desvencilhar-se desesperadamente daquela prisão, mas não
conseguia, gania, esperneava, soltava como que um choro profundamente emotivo e constrangedor, o Jaime começou a comover-se, mas, cobardemente, preferiu virar as costas e, quando já ia a dezenas de metros de distância e lançou para o animal o seu último olhar, deparou-se com um olhar tão triste e expressivo que o cão lhe atirava, que jamais aquela cena se apagou da sua memória.
O Jaime foi-se imediatamente embora, mas o desespero do animal seguiu consigo.
Naquele último olhar do canídeo, o homem lia uma reprovadora mensagem que o apelidava de ingrato e cruel, de traidor e comodista.
Teve notícia de que o cão morreu cerca de três semanas após, por causa desconhecida, ao que lhe foi dito pelo novo dono do animal, mas o Jaime soube bem que a responsabilidade dessa morte recaía totalmente sobre a sua pessoa, porque compreendeu, aliás tarde demais, que o seu cão, o seu leal amigo, aquele animal que pôs em si todas as suas referências afetivas e toda a razão de ser da sua vida, não tinha conseguido resistir ao desgosto da separação e do cativeiro.
De quando em vez vinha-lhe tudo aquilo à ideia, o cão já adivinhando o seu trágico destino, ele, junto da sua casa, empurrando o animal para dentro da carrinha e depois para fora dela, lá no local escolhido para o abandono, o Jaime fazendo falsas e enganadoras carícias ao cão, para que o seguisse, já na quinta onde iria ser desprezado, o cão preso à corrente, chorando desesperadamente e olhando para si, num derradeiro pedido de socorro.
Tudo lhe vinha à mente, de quando em vez, mas ele fazia por esquecer, como se fosse possível que os nossos maus atos pudessem ser apagados por nossa vontade, assim como quem varre para fora de casa um qualquer lixo incomodativo.
O Jaime, quando levou a efeito o abandono antes mencionado, apesar de já bem entrado na vida, ainda estava muito verde, apesar de se julgar senhor de si, ainda era escravo dos seus enganos; apesar de manusear grandes valores na matéria, ainda desconhecia muito relativamente aos assuntos do espírito.
Mas também ele teria o seu tempo para ampliar horizontes, para deixar de temer a sua consciência e para fazer as pazes com vagas de remorsos que, não raras vezes engrossavam procelas, nas controversas facetas da sua mente.
Aquando da ocorrência do abandono acima descrito, se lhe pedissem para fazer uma apreciação acerca da sua vida, ele diria que se sentia um homem realizado.
Era proveniente da classe média da cidade; era saudável, tinha frequentado em Faro a instrução, até terminar o liceu e tinha concluído, com êxito, em Lisboa um curso superior de economia e finanças.
Instalara, em Faro o seu gabinete de contabilidade e rapidamente o mesmo começou a ser rentável, considerando os muitos conhecimentos que tinha na cidade.
Constituiu família, teve filhos saudáveis e de comportamento irrepreensível.
Tinha grupos de amigos com quem confraternizava com muita frequência.
Desfrutava de algum desafogo económico.
E, chegados a este ponto, perguntava-se ele, o que mais seria necessário para ser feliz?
Contudo, apesar da soma de tantos pontos positivos, ele sabia, por frequentes sinais que a sua consciência lhe ia dando, que algo lhe faltava e que a felicidade ainda estava ausente.
Quando chegava a esta conclusão, compensava-a com a afirmação de que não existem pessoas totalmente felizes e de que a felicidade, afinal, é um objetivo que todos têm, mas que ninguém alcança.
Poucos meses depois de acontecer o abandono anteriormente referido, a vida do Jaime começou a ser abalada por acontecimentos dolorosos que, um após outro, o torturaram, o fizeram buscar respostas e, através dessa busca, causaram o seu amadurecimento.
Alguns negócios em que investiu as suas poupanças descarrilaram; a sua família nuclear desintegrou-se, tendo levado a que ele conhecesse o divórcio, aliás o primeiro que ocorreu na sua família; o corpo começou a dar sinais de falta de saúde e as visitas aos médicos, que antes dos cinquenta anos eram extremamente espaçadas, passaram a fazer parte da sua rotina, tendo-lhe sido detetadas algumas anomalias fisiológicas que o obrigaram a usar diversos fármacos quotidianamente.
O Jaime começou a não conseguir ler satisfatoriamente as mensagens da vida e, não raro, dava consigo a perguntar-se sobre o porquê do sofrimento e qual o seu significado na vida humana, em si relativamente curta e tão transitória.
No fim de contas, sendo a dor algo que está repartida um pouco por todos nós, batendo aqui e a li com mais ou menos intensidade, mas toda a gente nela tendo reservado o seu quinhão, o Jaime só reparou que a dor existia, quando ela bateu demoradamente à sua porta.
Nessa altura, ele buscou respostas em filosofias materialistas, em romances de muita fama e forma, mas de pouca substância, em compêndios ditos de autoajuda, mas que vogam apenas à superfície, destinando-se a tornar rentáveis as edições e materialmente ricos os seus autores, em entretenimentos, em viagens, em reuniões de amigos onde se bebe e come muito, mas onde normalmente é quase proibido ter conversas sérias e profundas sobre a existência, enfim, em tudo isso ele buscou respostas e em nada disso achou alguma que o satisfizesse.
Certo dia, contudo, quando encontrou, por acaso, um seu amigo de infância que há décadas tinha emigrado, e quando, durante um almoço a dois teve oportunidade de lhe expor os seus problemas existenciais, as suas dúvidas, as suas dores, as suas ideias derrotistas sobre a vida e os becos intrincados e sem saída em que se perdia, esse amigo, depois de tudo ouvir paciente e atentamente, apenas lhe disse:
- Meu caro, tu és um homem inteligente e culto, tens todas as condições para achar as respostas que te faltam, mas, para tanto, tens de bater à porta certa. Procura Jesus Cristo.
O Jaime esperava por tudo, menos por tal sugestão e, por mais perguntas que, em seguida fizesse a esse amigo, a fim de que ele aclarasse o que dissera, ele mostrou-se irredutível.
- Não, amigo Jaime. Eu indiquei-te a porta a que podes bater, mas agora o resto do caminho só por ti é que pode ser trilhado.
Este amigo não vivia de angariar prosélitos para o Cristo que engrossassem uma multidão que se satisfaz com ritualismos exteriores, mas sim vivia tentando, por amor
aos outros, indicar àqueles que quisessem beber da fonte da felicidade, onde é que a deveriam buscar.
Ele sabia que ao Cristo só se chega com a vontade ancorada no vibrar do coração, e que todos lá podem chegar, se assim o quiserem, tendo bem presente aquela frase do Divino Mestre que consta do evangelho de Mateus:
“Pedi, e dar-se-vos-á; buscai, e encontrareis; batei, e abrir-se-vos-á."
Desde tal conversa, o Jaime interessou-se por buscar Jesus, leu os quatro Evangelhos canónicos, os restantes livros do Novo Testamento, aprofundou os seus conhecimentos cristãos através da leitura de bons e profundos comentários destes textos feitos por diversos pensadores e, quando menos o esperava, encontrou em Jesus as respostas que durante anos tinha
buscado e que nunca obtivera, e a razão para a vida física, como escola de aprendizagem, para que o ser humano possa entrar menos imperfeito e mais liberto na vida essencial, a do espírito.
Entendeu então que a dor é uma mestra e que sempre deriva das nossas imperfeições, mais próximas ou mais remotas, porque, perante a Justiça Divina, sempre funciona a infalível lei de causa e efeito, segundo a qual a semeadura é facultativa, mas a colheita é obrigatória.
Lembrava-se muitas vezes das palavras de certo Místico que lhe tocaram profundamente, o qual dizia:
“Se queres que Jesus venha santificar as tuas atividades, endireita os caminhos da tua existência;
regenera os teus impulsos;
Desfaze as sombras que te rodeiam e senti-lo-ás, ao teu lado, com a sua bênção.”
Desde que ele chegou a este ponto, a sua vida iluminou-se; o amor a Deus e ao próximo, que antes não tinha qualquer espaço destacado na sua forma de estruturar a vida, passou a ser o mapa essencial que lhe definia o roteiro, e, de quando em vez, ecoavam dentro de si estas palavras de Jesus que constam do Evangelho de João:
“conhecereis a verdade e a verdade vos libertará."
Por tudo isto, o homem que naquela tarde caminhava pela floresta deixou que viesse à sua mente a imagem do cão que ele, anos antes, tinha abandonado e, humilhando-se, pediu perdão ao animal e a si mesmo, reconhecendo o ato torpe que tinha cometido e sentindo-se já capaz para, sem arrogâncias nem medos, sem preconceitos ou vaidades, descer do seu pedestal, deixar de pensar-se sabedor e experimentado, reconhecer os seus erros e, com sinceridade, pedir os respetivos perdões.
Continuou a caminhada e foi pensando no quanto o seu cão sofreu, ao sentir-se desprezado, desrespeitado, amarrado a uma corrente, junto de quem por ele não tinha qualquer consideração.
Foi, à medida que caminhava, abrindo diversas portas na sua consciência e fazendo as pazes consigo mesmo.
Andou descontraidamente vários quilómetros, passou pelas salinas, até que chegou a um conjunto arborizado que está já perto do campo de golf, e sentou-se, aproveitando para descansar um pouco.
Enquanto esteve naquele local, passaram por ele, espaçadamente alguns carros que iam dar a volta lá mais adiante, pois que esse caminho não tem saída.
A dada altura ouviu um ganir aflitivo de cachorro. O local estava sem qualquer outra pessoa que não ele e não existiam casas nas redondezas. Seguiu aquele som comovente e, a cerca de trinta metros, encontrou, metido numa moita, um cachorro castanho, sem raça definida, que, pela aparência, não devia ter mais de três meses de nascido.
O cão buscava aflito quem o amparasse.
O Jaime pegou nele e observou-o com mais atenção.
Estava bem alimentado e não tinha sinais de maus tratos.
Certamente havia sido ali abandonado pouco tempo antes por alguém que se fazia transportar num daqueles carros que tinham passado por ele.
Um outro ser humano que abandonara um animal indefeso, o qual bem poderia ter-se embrenhado na floresta e vir a sucumbir de sede e fome poucos dias depois.
Naquele momento o Jaime sentiu que apenas poderia tomar uma atitude adequada que era a de levar consigo aquele cachorro débil e abandonado, e foi o que, carinhosamente fez.
Levou-o ao colo e, enquanto caminhava, ia pensando qual seria o destino que lhe daria.
Iria entregá-lo num canil?
Não, ficaria com ele, porque seria a forma de resgatar o mal que havia feito, anos antes ao seu amigo Spak.
Chegou a casa e apresentou o cachorro aos dois cães que já lá tinha.
à medida que os dias se passavam e o animal mais se ia acostumando à casa, ele ia sentindo que o Spak lhe lambia de novo as mãos com ternura e que tinha voltado a ser o seu leal e incondicional amigo, que o esperaria numa qualquer encruzilhada da existência, para que ambos fizessem juntos, com alegria, muitas caminhadas, nos vastos jardins do infinito, desfrutando, cada um no seu nível evolutivo, da paz e do entendimento, da felicidade de evoluir, amar e existir, sob a proteção da Potente e Amorosa Inteligência Divina, que ilumina os mais fortes, para que protejam os mais débeis, os mais evoluídos, para que auxiliem os menos adiantados e os mais sábios, para que a todos beneficiem com o seu conhecimento, tudo devidamente enquadrado na pauta do amor global, a qual vige na maravilhosa harmonia da orquestra da Criação.
Faro, 16-4-2026
José Bento
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