MEU AMIGO IDEALISTA
- 9 de mai.
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Conheci-o um dia, e apertei-lhe a mão;
Tinha uma voz profunda e muito cansada.
Ainda não tinha uma idade avançada,
Mas já cumprira dezoito anos de prisão.
Veio a revolução, veio a liberdade;
Ele foi solto, mas sem qualquer pedestal.
Poucos souberam da sua dignidade,
Falando de justiça e de liberdade,
perante um regime que nos fez tanto mal.
Gozaram, mas caíram, os donos do poder;
Os que lhe afogaram dezoito anos de vida.
Mas ele, com a sua fronte bem e erguida,
Respirou, triunfante a coragem de viver.
Meu amigo, foi pouco o tempo que falámos;
Eu era imaturo, quando me conheceste.
Mas ficaram em mim, as frases que me disseste,
Apesar das poucas vezes em que conversámos.
Não falaste, como é ser jovem e estar preso;
Como é dormir, abraçado a um ideal;
Como é crer no bem, como um impulso vital,
E como suportaste tanta dor e desprezo.
Não falaste da frustração que te ficou marcada,
Ao ver manchada a liberdade por que lutaste;
Ao ver suja a igualdade que imaginaste,
Porque a justiça não foi implantada.
Meu amigo, tão nobre e idealista,
Que honra eu tive de um dia conhecer-te!
Hoje já tenho maturidade para dizer-te
que os puros são queimados pela turba egoísta.
Quantos anos há que, sem prever, nos conhecemos?
Já lhes perdi a conta, meu amigo sofredor.
Hoje muito precisamos, mas já não temos,
Quem dê força a um ideal libertador.
Já findaram os processos inquisitoriais,
E as prisões políticas, ao abrigo da noite,
As confissões obtidas pelo açoite,
E as sentenças, só formalmente legais.
Só por isso, digamos que valeu a pena
O sofrimento desses que nunca se calaram;
Daqueles que nunca se intimidaram,
Perante a ditadura moralmente pequena.
Mas sei que temos muito que caminhar,
Até que o teu sonho seja realidade,
Até que as paredes deixem de ocultar
Tanta pobreza, dor e intranquilidade.
Mas agora são diferentes as novas grades;
Todos são livres de escrever e de falar;
Todos se podem reunir e manifestar,
Mas são bem escassas as suas liberdades.
As opiniões não se formam por decreto;
Há modos bem mais subtis de as formar.
Quem manda tem um jeito moderno e indireto
De fabricar o modo público de pensar.
Meu amigo idealista e tão coerente;
Meu querido defensor das liberdades;
Entendo hoje que as mais temíveis grades,
São aquelas que empobrecem a nossa mente.
Deu-me Deus ensejo de focar a tua vitória,
Bem como as tuas tão difíceis batalhas.
Eu sempre gostei de quem não deseja medalhas,
E de quem, sendo grande, não figura na história.
Faro, 6-9-2023
José Bento
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