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MEU AMIGO IDEALISTA

  • 9 de mai.
  • 2 min de leitura

Conheci-o um dia, e apertei-lhe a mão;

Tinha uma voz profunda e muito cansada.

Ainda não tinha uma idade avançada,

Mas já cumprira dezoito anos de prisão.

 

Veio a revolução, veio a liberdade;

Ele foi solto, mas sem qualquer pedestal.

Poucos souberam da sua dignidade,

Falando de justiça e de liberdade,

perante um regime que nos fez tanto mal.

 

Gozaram, mas caíram, os donos do poder;

Os que lhe afogaram dezoito anos de vida.

Mas ele, com a sua fronte bem e erguida,

Respirou, triunfante a coragem de viver.

 

Meu amigo, foi pouco o tempo que falámos;

Eu era imaturo, quando me conheceste.

Mas ficaram em mim, as frases que me disseste,

Apesar das poucas vezes em que conversámos.

 

Não falaste, como é ser jovem e estar preso;

Como é dormir, abraçado a um ideal;

Como é crer no bem, como um impulso vital,

E como suportaste tanta dor e desprezo.

 

Não falaste da frustração que te ficou marcada,

Ao ver manchada a liberdade por que lutaste;

Ao ver suja a igualdade que imaginaste,

Porque a justiça não foi implantada.

 

Meu amigo, tão nobre e idealista,

Que honra eu tive de um dia conhecer-te!

Hoje já tenho maturidade para dizer-te

que os puros são queimados pela turba egoísta.

 

Quantos anos há que, sem prever, nos conhecemos?

Já lhes perdi a conta, meu amigo sofredor.

Hoje muito precisamos, mas já não temos,

Quem dê força a um ideal libertador.

 

Já findaram os processos inquisitoriais,

E as prisões políticas, ao abrigo da noite,

As confissões obtidas pelo açoite,

E as sentenças, só formalmente legais.

 

Só por isso, digamos que valeu a pena

O sofrimento desses que nunca se calaram;

Daqueles que nunca se intimidaram,

Perante a ditadura moralmente pequena.

 

Mas sei que temos muito que caminhar,

Até que o teu sonho seja realidade,

Até que as paredes deixem de ocultar

Tanta pobreza, dor e intranquilidade.

 

Mas agora são diferentes as novas grades;

Todos são livres de escrever e de falar;

Todos se podem reunir e manifestar,

Mas são bem escassas as suas liberdades.

 

As opiniões não se formam por decreto;

Há modos bem mais subtis de as formar.

Quem manda tem um jeito moderno e indireto

De fabricar o modo público de pensar.

 

Meu amigo idealista e tão coerente;

Meu querido defensor das liberdades;

Entendo hoje que as mais temíveis grades,

São aquelas que empobrecem a nossa mente.

 

Deu-me Deus ensejo de focar a tua vitória,

Bem como as tuas tão difíceis batalhas.

Eu sempre gostei de quem não deseja medalhas,

E de quem, sendo grande, não figura na história.

 

Faro, 6-9-2023

 

José Bento

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