MANCHAS DE SANGUE NA MARGINAL
Quando tive a coragem e o desejo de ali voltar outra vez,
já tinham decorrido várias dezenas de anos desde que de lá tinha saído definitivamente.
Anos medidos às dezenas! Que peso, que dor, quantas perguntas e quantos sentimentos desencontrados se vieram encontrar comigo, naquela tarde!
Tanta distância temporal; tanto afastamento espacial, e, contudo, uma parte extremamente importante de mim, sem que eu o tivesse notado, ficara ali, e agigantava-se agora, aquando da apresentação do mesmo cenário, perante o velho edifício, a marginal, o mar ao fundo, as recordações cá dentro, a melancolia tamborilando mente a fora, tocando no sentimento, desprezando a razão e trazendo as emoções, evitando os porquês e apresentando apenas os resultados.
Como a memória é forte!
Como ela alimenta, dentro de nós, mundos que persistem para além daquilo que cremos que seja o nosso tempo, mundos que se estendem espontaneamente por sobre os tempos e espaços que percorremos, sobrevivendo às nossas subidas e descidas e ás pequenas épocas e idades que uma vida física pode albergar.
A memória; afinal o que seríamos nós sem ela?
Qual é o elemento se não ela que nos garante a nossa individualidade, que certifica que, realmente nós somos nós mesmos?
Naquele dia dum tardio regresso, o que encontrei foi um edifício decrépito, pedindo por misericórdia que o abatessem, certamente cansado dos verões e
invernos que ali se quedara sem utilidade, sem vida interior, sem qualquer esperança de que a sua velha estrutura pudesse algum dia, voltar a servir para o que quer que fosse.
O seu tempo havia passado definitivamente, a sua utilidade desintegrara-se pelas mudanças provocadas pela evolução das ideias sobre os procedimentos a adotar quanto a certas temáticas da educação e inclusão, o que levou ao abandono daquele imóvel.
Edifício que nasceu para formar e que agora aceleradamente se deformava, construção destinada a conter vida e que agora, sem ela, se tornava cada vez mais um albergue de morte e caducidade.
Aquela velha construção estava ali, à beira duma estrada movimentada e barulhenta, mas mantinha-se silenciosa, envolta em passado, desdenhando do tempo, indiferente ao agora que já nada para si significava, comparado com o muito que tivera oportunidade de presenciar, quando havia sido abrigo de esperanças e
de choros, de saudades e de desesperos, de quedas e soerguimentos, de incapacidades e das respetivas superações.
Continuava aquele edifício ali, com a marginal ao norte e o mar ao sul, o barulho dos carros que lhe açoitava a fronte e o marulhar das ondas que lhe suavizava as costas.
Para mim, aquele edifício foi um enorme e eloquente testemunho do esforço empreendido para valorizar aqueles a quem, normalmente a sociedade se desinteressava de atribuir valor algum.
Mas para quem nunca o conheceu devidamente, para quem nunca se apercebeu do muito de bom e de bem que dentro dele se fazia, ele talvez não fosse mais do que um empecilho que estragava a paisagem, um velho prédio mal conservado que nada tinha a ver com aquela zona bela e lançada ao progresso que ladeia a baía de Cascais.
Senti então, enquanto ainda estava parado no passeio em frente da sua porta de entrada, presenciando as muitas dezenas de carros que enchiam a estrada nos dois sentidos, que o significado emotivo das coisas só existe para quem se derramou sobre elas, ou deixou que elas se derramassem sobre si, para quem cruzou com as coisas momentos importantes da sua vida, para quem consegue retirar do inanimado da matéria as emoções que em dado momento ela ajudou a que existissem.
Quando assim é, uma parede pode ser um álbum de recordações, uma simples pedra pode despertar um enorme manancial de sentimentos, um velho edifício podia, naquele preciso momento trazer-me à tona nove anos de vida que foram mesclados de sofrimento e ao mesmo tempo de segurança, de busca e de crescimento, de amor puro e simultaneamente de muita carência dele.
Subitamente, ao reencontrar-me com aquele imóvel, vislumbrei no tempo que dentro dele vivi, o qual de rompante me entrava mente a dentro, o retrato do indivíduo extremamente controverso em que eu me tornei, buscando sempre algo mais nos caminhos da entrega e da ternura e, todavia, não aceitando com tranquilidade as partidas, as ausências, as solidões, a não existência duma zona estável de conforto, tudo isto consequências que agitam ou adoçam, conturbam ou acalmam a vida do insaciável buscador.
Afinal, eu sempre fora o marinheiro que em terra desejava o mar e que, uma vez no mar ansiava acostar-se ao porto de abrigo e desfrutar da sua tranquilidade.
Eu sempre tinha desejado abrir novas portas e, uma vez fechadas as antigas, por vezes a saudade delas açoitava-me, esfrangalhava-me, reduzia-me a um amontoado de dúvidas que nunca tinha conseguido esclarecer devidamente, bem como a um mar de carências que jamais se havia asserenado.
Mas aquele indivíduo que agora estava ali parado no passeio, ainda indeciso sobre se devia ou não entrar naquele velho imóvel que, todavia, ainda permanecia dentro de si, era bem diferente da criança que, sem decisão sua, lá fora introduzida há várias décadas atrás.
Essa criança sonhava; este indivíduo de agora já não era capaz de erguer os pés do chão, ao mesmo tempo firme e volátil da sua própria realidade.
Essa criança de então pintava o mundo de mil cores, apesar de pouco mais ver do que elas mesmas, mas ainda assim pintava-o dentro de si, sonhava com flores que iriam nascer, com amores que iriam abrasar, com abraços que iriam estimular e com poemas, não só feitos de palavras, mas também de ações que eram retalhos de vida edificante, sempre polvilhados de muito afeto.
Os poemas que tinham existido na mente dessa criança eram diferentes dos
normais que se dividem em estrofes, que se compõem de palavras e ritmos, da beleza do dizer enfileirado nos significados, porque os poemas inventados por essa mente infantil, e dos quais ela amiudadamente se nutria, eram profundos, complexos, completos e globais, contendo pedaços de vida onde havia acolhimento e felicidade.
Dizendo melhor, talvez não fossem só poemas, mas fossem filmes de conteúdos aprazíveis, que continham luz e som, pessoas que, sem preconceito amavam e que, por amor se entregavam ao prazer de ouvir, de entender, de ignorar preconceitos sem sentido e abrir-se à claridade da vida.
Tudo isso então nascia de fantasias que adornavam a mente duma criança, onde as pessoas se integravam no sentir umas das outras, para que, de tal simbiose, resultasse sempre mais bem-estar para todos.
Mas eram só fantasias, ainda que, nesse tempo em que elas povoavam a mente da criança, ela pensasse que elas poderiam vir a ser realidade.
Este homem de agora em que o menino se transformara era extremamente mais pobre, porque já passara o tempo em que os seus sonhos se deveriam ter cumprido e constatara que não se cumpriram, porque já via lá ao fundo algo meio indefinido que ele não sabia bem se era o fim ou antes um novo princípio, se era o morro onde poderia chorar as desilusões armazenadas ou se era antes a montanha verdejante onde de novo valeria a pena sonhar e ser sorridente, como aquela criança já havia sido, tendo esperanças incandescentes, impulsionadoras, eloquentes e luminosas, como aquela criança também já tivera.
Mantinha-se aberta a enferrujada porta exterior e, por isso, pude penetrar na zona frontal daquele prédio que, sobriamente, há muitos anos, me tinha acolhido.
Nós apelidávamos essa zona frontal do edifício de jardim, porque, nessa altura,
Lá se encontravam bem cuidados vários arbustos e bem tratadas algumas flores, que davam uma certa frescura à austeridade daquela construção datada dos inícios da primeira república.
Desci por um inclinado corredor lateral que se localizava do lado direito e fui ter ao pátio traseiro, onde nessa tarde se achava implantado na zona mais a sul, naquele ponto em que o pátio termina e a zona de falésia começa, um portão de ferro gradeado que deixava ver o mar, deixava que o barulho das ondas penetrasse mais no interior do pátio, tornando mais presente o imenso oceano que anteriormente quase nos passava despercebido, nos seus dias de calmaria,
por quanto o portão então existente era alto, de madeira, e sem quaisquer aberturas por onde a beleza marinha pudesse infiltrar-se no local onde tínhamos o nosso recreio.
À hora a que ali cheguei, o sol já se ia inclinando lentamente para o poente, o pátio estava deserto, todo o edifício estava abandonado, as paredes sulcadas por profundas fendas, as madeiras das portas e janelas completamente ressequidas e gretadas, as ervas selvagens cresciam um pouco por todo o recinto, ocupando os espaços que, há décadas, as pessoas tinham deixado de utilizar.
Até as aves, que antes nos brindavam com as alegres melodias do seu dia a dia, tinham todas partido, talvez por não quererem ser acorrentadas por aquela solidão
pesada, profunda, deprimente, que, de tão quieta que era, questionava, de tão calada que estava, oprimia, e que, por ser tão triste, com essa tristeza nos contagiava.
Tudo estava despojado da ordem de antigamente e dos apetrechos simples, mas duradouros que ornamentavam o nosso quotidiano.
Nem um simples banco ali havia para que me pudesse sentar e refletir tranquilamente sobre tantas emoções que me assaltavam, que vinham a mim em tão rápidos borbotões do sentir, que nem davam tempo a que a razão os analisasse.
Essas emoções invadiam-me em catadupas de imagens que brotavam sem que eu as pudesse conter, que se entrecruzavam, trazendo outras, muitos sentimentos à
mistura, muitas recordações que tinham ficado mais no coração do que no cérebro, muitas emoções que espontaneamente agora vinham à luz para que, ao senti-las, delas me conseguisse aliviar, guardadas que tinham ficado lá dentro, como que compactadas, à espera da hora exata de se tornarem percetíveis.
E vinham assim, em bandos, sem pedirem licença, umas para me chicotearem e outras para me impulsionarem; umas para me dilacerarem com dores que dificilmente se vão, e outras para me ampararem com forças que para sempre devem permanecer.
Fiquei ali a fazer algo que lá fizera anos a fio, passeando dum lado para o outro, banhado pelo sol que era neutro e suavizado pelo mar que era testemunha do muito que eu ali tinha vivido.
Veio-me então ao pensamento um dia de fevereiro de 1970, quando eu frequentava o quinto ano do liceu, quando estava na reta final para sair daquele instituto, quando fazia parte dum pequeno grupo de amigos que era unido, era alegre, era dinâmico e programava um futuro que se antevia difícil, mas produtivo, exigente, mas apelativo.
Mal sabia eu que o futuro tem tantas incógnitas, que programá-lo é mais um exercício que faz desenhos no desejo do que abre caminhos na realidade em que pretendemos que essa programação se repercuta.
Mal sabia eu então que aqueles muros filtravam tantas coisas hostis que desconhecíamos e que eram suficientemente potentes para tisnarem a clareza dos projetos que julgávamos serem viáveis e dos sonhos que pensávamos poderem ser transformados em boas realidades, num futuro bem próximo.
Mal sabia eu, nessa altura, que o meu conhecimento do mundo lá de fora era tão escasso que, ao deixar definitivamente aquela casa, teria de aprender a melhor forma de viver fora dela.
Mal sabia eu, digamos melhor, que nada sabia acerca do mundo que existia fora daquelas quatro paredes; nem dos seus preconceitos, nem dos seus relacionamentos, nem das suas exclusões, nem dos seus olhares mudos, mas flageladores, nem das suas barreiras, nem de tudo o mais que encontrei e que nem supunha que existisse.
Aquilo que eu sabia era que, ali dentro daquela instituição, alunos e professores, vigilantes e demais colaboradores, todos formavam uma equipa que agia harmonicamente, no sentido de, na medida do possível, criar nos alunos, capacidades que, por eles terem interrompida a visão, lhes ficaram muito afetadas.
E sabia também que essas capacidades vinham, que as crianças que ali tinham entrado começaram a crescer, não apenas no físico como no ser, no saber, no conseguir aceitar-se, com forças e sem derrotismos, porque contavam com pessoas que lhes diziam e que, mais do que isso, lhes exemplificavam, que a vontade pode fazer verdadeiros prodígios de reabilitação e de felicidade.
Durante esse prolongado pedaço de tarde que, nesse dia ali passei, passeando dum lado para o outro no pátio deserto da minha primeira escola agora já desmantelada, revi décadas de vida física que Deus me permitira viver, nesta reencarnação, e constatei como os maiores perigos para quem é deficiente visual não advêm dos obstáculos físicos, mas sim dos obstáculos psicológicos erguidos pelos preconceitos alheios.
Contudo, a sociedade tem avançado no bom sentido e, como todos sabemos, é mais fácil fazer autoestradas, construir edifícios, progredir em tecnologias de comunicação e de informação, do que desfazer preconceitos, dos mais variados tipos, desde os religiosos aos de raça, desde os políticos aos relacionados à inclusão de pessoas portadoras de deficiência.
Nessa tarde estranha por mim passada dentro do pátio abandonado da escola, da qual há muito tempo eu tinha saído, com dezassete anos feitos e com o quinto ano do liceu já completado, sem que, todavia, essa escola alguma vez me tivesse saído da memória, lembrei-me desse dia de fevereiro de 1970que agora me voltava à mente, impetuoso, integral, com toda a tristeza de que se revestira e com todas as marcas profundas que, ao longo da vida, me tinha gravado.
Continuava eu ali a caminhar dum lado para o outro, naquele recinto com cerca de quatrocentos metros quadrados, onde aos oito anos eu andava de triciclo, onde aos dez anos aprendera a patinar, onde aos doze anos aprendi a começar a sonhar e onde, aos dezasseis anos, me confrontei com a morte física de pessoas muito queridas, a qual interrompeu abruptamente os meus contactos com três amigos que me acompanharam ali dentro, em todas as fases, desde que éramos crianças, até àquela fase em que, apesar de ainda sermos adolescentes, já nos julgávamos adultos.
Não me perguntem porque é que, nessa tarde de regresso àquele velho edifício,
Entrei, pela primeira vez neste tema, quando já eram decorridos mais de trinta anos desde que os factos tinham ocorrido, quando eu já tinha passado de jovem
a homem vivido, de sonhador a homem caído no real, de indivíduo espiritualmente imberbe a quem tem feito múltiplas e várias tentativas para ser conscientemente elucidado.
Talvez não fosse eu a entrar no tema, mas antes fosse o tema a entrar em mim, a penetrar no meu consciente sem pedir permissão para entrar, ou melhor dizendo, e sendo mais preciso, certamente foram os factos que permaneceram sempre cá dentro e que agora, uma vez eu regressado ao local onde eles ocorreram e foram sentidos, vinham à tona, reclamando por serem revividos, cansados que estavam de, por tantos anos, eu os ter relegado a um falso esquecimento.
Lembrei-me então duma soalheira tarde de fevereiro do ano de 1970, havia seis alunos que iriam ser finalistas nesse ano letivo, porque terminavam ali o quinto ano do liceu e o Instituto Branco Rodrigues não tinha mais nada para lhes oferecer ao nível do ensino.
Tinham todos eles passado ali os últimos anos da sua vida, tinham ali transitado da meninice para a adolescência, tinham passado da fase das brincadeiras à dos sonhos e agora estavam prestes a deixar de ter aquela habitação, aquele mundo desenhado à medida das suas necessidades; iam brevemente entrar no desconhecido, no mundo lá de fora, numa sociedade que não estava feita, nem à sua medida, nem sequer a contar consigo.
Ali, naquele edifício antigo, fundado na segunda década do século XX, graças a um visionário e benemérito, que pensou que os deficientes visuais careciam tanto de educação e de cultura como de pão para a boca, que pensou que já era altura de dizer não à falta de visão duma sociedade que relegava aqueles que não viam para as suas margens, muitas vezes para a mendicidade, outras vezes para uma existência inútil e triste; pois foi ali, num pequeno edifício, de frente para a parte sul da estrada marginal que liga Cascais a Lisboa e de costas diretamente para o mar, ali onde S. João do Estoril já está perto de fazer fronteira com S. Pedro do Estoril, foi ali que ele edificou aquela escola que, durante mais de sessenta anos, ajudou tantas dezenas de jovens a construírem a sua realização pessoal, a acreditarem que não eram inúteis, a comprovarem que podiam trazer algo de bom para a sociedade, porque a falta dum dos sentidos, apesar de ser altamente limitativa, não prostrava por terra o ser humano, não lhe retirava a sua essência, a sua criatividade, a sua capacidade de realização e a sua beleza.
E era precisamente ainda ali, naquele início de 1970, que aqueles seis finalistas estavam a programar o passeio do seu final de curso, a agradável surpresa que o seu corpo docente lhes tinha preparado.
Rememorando isto e muito mais, eu ali continuava a caminhar dum lado para o outro, pisando pela enésima vez, as pedras daquela velha calçada que me conheciam tão bem como eu as conhecia a elas, companheiros que fomos de nove anos de intensa vitalidade, durante os quais, sobre elas fui caminhando quilómetros e quilómetros, em trajetos de cerca de vinte metros para lá e vinte metros para cá, como que a ir e vir nos problemas e na vontade dos resolver, nos sonhos e no desejo de os realizar, nas recordações e no ânimo de as enfrentar e retirar delas as melhores lições.
Estava eu ali, naquela tarde, no edifício já deserto.
Mas a outra faceta dele, aquela em que havia sido um local cheio de vida e de tudo aquilo que à vida humana está inerente, vinha-me à memória, como a provocar-me, como que a trazer talvez o último lamento daquela velha construção, a súplica em que ela me pedia que, sobre ela, eu dissesse tudo o que sabia e que era bem diverso e muito mais lisonjeiro, do que aquela decrepitude a que a edificação agora estava relegada.
É verdade.
Era um edifício antigo, mas cheio de vida, falto de conforto, mas com o calor suficiente para que abrigasse os sonhos e incentivasse o esforço de todos aqueles que ali se iam edificando.
Dentro daquela escola, soaram durante mais de cinco décadas, múltiplos pianos, violinos e outros instrumentos de cordas, tocando as mais belas peças de Chopin, Mozart, Beethoven e de outros grandes compositores, arduamente trabalhadas por aqueles alunos que tinham de as decorar, nota a nota, para irem ao Conservatório Nacional de Lisboa fazer o exame final do curso superior do instrumento; e quantos eles o concluíram com notas de distinção!
Ao invés de muitos outros colegas seus, eles não podiam estar com as mãos no instrumento e, simultaneamente, com os olhos na pauta, e tinham de trabalhar tudo à base da persistência e da memória.
Primeiro a pauta em Braille, depois as notas sorvidas pela mente, em seguida as mãos reproduzindo aquilo que anteriormente as mãos tinham podido captar.
O tato em vez dos olhos, mas tanto faz, era uma janela do cérebro que levava até ele as mesmas notas que a visão teria levado, se existisse.
Aqueles alunos desenvolviam as melhores técnicas dos respetivos instrumentos musicais, trabalhavam horas a fio, os clássicos ressoavam pelas diversas divisões onde se encontravam instalados mais de dez pianos, onde existiam violinos, violoncelos e contrabaixos, a beleza sonora adocicando a agrura dos rigorosos invernos, do mar bramindo lá em baixo e do vento uivando pelas frestas das janelas de madeira já desgastadas pelo tempo.
As melodias saíam com sentimento e qualidade de alunos brilhantes que, todavia, mais tarde, apesar de terem os seus diplomas dos cursos superiores dos instrumentos, iam para a vida ativa e tinham quase todas as portas fechadas, porque era assim mesmo, não era só necessário tocar bem, era necessário ler as partituras e poder executá-las de imediato, mas isso eles não podiam fazer, pelo facto dos olhos não poderem estar no papel, enquanto os dedos estavam no instrumento que tocavam.
Tinham de limitar-se à música ligeira, por muito bons que fossem na execução instrumental, tinham de tocar à noite nos diversos bares de Lisboa e, desta forma ganharem honradamente o pão do dia a dia.
Tinham de aprender amargamente, nas encruzilhadas da vida, como é duro ter de renunciar a uma boa carreira profissional, quando tudo tinham feito para poderem ser músicos de sucesso.
Mas esta era apenas uma das muitas renúncias que a vida lhes imporia, porque
outras se iriam sucedendo, nos diversos patamares duma existência que desconhecia o sabor suave das facilidades.
Claro que o esforço compensava, porque o saber sempre enriquece; claro que depois do curso algumas portas se lhes abriam, mas era também claro, e continuaria a sê-lo para as gerações futuras, que eram em muito maior número as portas que se mantinham fechadas.
Mas estes homens não se esqueciam da enorme força que haviam colhido dentro daquela instituição, dos conselhos dos seus professores, das amizades ali feitas de igual para igual, da autoestima construída, do sentido de dignidade ali edificado, e seguiam com firmeza, ultrapassando obstáculos lá fora, construindo uma vida a golpes de sacrifícios, muitas vezes de incompreensões, mas sem desistirem de ser os grandes precursores de princípios inclusivos que só décadas depois começaram a ser proclamados, mas nem assim têm sido devidamente cumpridos e socialmente interiorizados.
Também eu tive ali a minha dose de alento, de bons princípios ministrados por professores zelosos, alguns deles com as mesmas deficiências visuais que nós tínhamos e que, por isso, não nos davam apenas as lições do currículo escolar, mas falavam das horas amargas que passaram lá fora para que houvessem logrado sobreviver, passando a ser professores no mesmo colégio em que tinham sido admitidos como alunos.
Como me poderia eu surpreender ainda, naquela fase já adiantada da minha vida, acerca das barreiras que se colocavam aos deficientes visuais, se o próprio inventor do sistema Braille, o francês Louis Braille, chegou a ver preterida a divulgação da sua invenção no Instituto Valentin Haüy, pelo facto dos dirigentes de então terem entendido que esse sistema não tinha a suficiente valia para ser divulgado e implementado, na instrução dos deficientes visuais.
Como o jovem Luis Braille, que, sendo ainda adolescente, já tinha acabado de inventar o mais simples e completo sistema que permitia aos deficientes visuais lerem e escreverem, esse sistema que hoje pode integrar terminais de computador, com grande eficácia, que já faz parte do dia a dia em qualquer sociedade mais evoluída, estando nos rótulos de produtos farmacêuticos, de alimentação, em teclados de comandos da mais diversa natureza, como esse brilhante inventor, dizíamos nós, se deve ter sentido tão incompreendido!
E como ele deve ter agarrado todas as forças que tinha lá dentro para, passando por cima das incompreensões, saber que valia a pena desencadear a sua batalha de paz, de progresso e de cultura, porque havia centenas de milhões de pessoas que, em todo o mundo, ao longo dos tempos, iriam beneficiar daquele tipo de escrita que, utilizando retângulos onde podem ser colocados seis pontos, e fazendo as sessenta e três combinações que isso permite, iriam começar a sair do analfabetismo para a instrução, para a cultura, para a profissionalização e para a valorização humana.
Finalmente, um visionário, passando por cima da sua falta de visão física, no primeiro quartel do século XIX inventou, utilizando um material que não requer qualquer tecnologia evoluída, pois se resumia a uma pauta de metal onde o papel era introduzido, e a um punção para o ir picando, dizíamos nós, ele inventou aquilo que os sábios egípcios, hindus, gregos, romanos e da renascença não tinham logrado inventar, ao longo de milénios, tendo ele, com a sua descoberta, aparentemente simples mas absolutamente genial, ajudado a abrir os olhos da alma, não só àqueles que os não tinham saudáveis no corpo, mas também aos outros, que tendo-os perfeitamente funcionais, preferiram envolver os seus esforços realizadores em guerras, na construção de potentados, na expansão da vaidade e da ganância, sem alguma vez terem pensado que, melhor do que piedosamente lamentar e dar esmola aos deficientes visuais, era entregar-lhes a luz do saber e da capacidade de se sentirem úteis.
Ali, ouvindo as ondas do mar que lá em baixo suavemente embatiam, vieram-me à mente aquelas importantes palavras escritas por Louis Braille no seu diário:
“Se os meus olhos não me deixam obter informações sobre homens e eventos, sobre ideias e doutrinas, terei de encontrar uma outra forma.”
Faleceu novo, com quarenta e três anos, mas a invenção que, com amor e persistência,
concretizou, na década de 1820, ficará para sempre na memória e nas práticas da humanidade, como sendo uma das formas mais bem conseguidas de inclusão.
Muitas vezes, as pessoas incumbidas de grandes missões com vista à evolução do ser humano, não carecem de ter uma vida longa, porque vieram para abrir janelas de progresso e, uma vez isto feito, voltam ao mundo espiritual com a grande felicidade de sentirem a paz de quem cumpriu devidamente o dever a que se havia obrigado.
Eu continuava ali a andar dum lado para o outro, fazendo o mesmo trajeto que percorrera durante anos a fio, nos intervalos das aulas, quando a cabeça se me povoava de sonhos e de dúvidas, de anseios, de esperanças e de luzes que cintilavam no futuro duma vida, ainda na sua fase de começo.
Permanecera ali nove anos como estudante e, todavia, foi naquela tarde a única vez em que me encontrei sozinho naquele pátio.
Sozinho por não ter pessoas em meu redor e igualmente só por sentir que aquela realidade que dera fôlego à minha adolescência já se tinha desfeito por completo, tendo desaparecido muitos dos seus agentes e tendo-se desaproveitado muito do bom que ali se cultivou.
Lembrei-me do meu primeiro professor de piano, então já idoso, o qual tinha sido um dos primeiros alunos daquele instituto.
Ele conhecera bem o seu fundador, o Senhor Branco Rodrigues e também as grandes dificuldades económicas que então, todos sentiam lá dentro, para que fosse possível uma subsistência minimamente digna.
Este meu mestre já há muito tinha falecido, tal como outros professores que foram grandes vultos na formação de muitos daqueles que por aquela instituição tinham passado.
Ali, perante a desativação e o abandono daquela que foi a minha primeira escola,
senti-me como se fosse aquele emigrante que chega à sua cidade natal e verifica que a sua família já morreu, que a sua casa já foi destruída, que os seus amigos já se mudaram, que essa cidade ainda existe, mas já não é a sua, porque já não tem nada para lhe transmitir nem para o prender.
No fim de contas, senti nessa altura que estava fora do tempo, cavalgando num tempo qualquer que não era o que eu imaginara e que não era aquele que eu tinha desejado, enquanto era aluno e sonhador, dentro daquela instituição.
Senti-me a flutuar sem raízes, querendo encontrá-las, mas sem o conseguir, tendo laços afetivos que ainda me prendiam, mas que já não se podiam apegar a alguém que os sentisse e que a eles correspondesse.
Os passos sucediam-se, os meus sapatos caminhavam sobre aquela calçada velha, maltratada, juncada de ervas, deserta de pessoas, gravada por milhares de outros passos que só eu ali conseguia ler e de sinais que eu ainda conseguia interpretar, mas que brevemente até todos eles iriam desaparecer, os passos gravados, os sinais, os ecos distantes dos sonhos e dos esforços, dos projetos e das ilusões, todos os vestígios iriam para sempre sumir-se, quando aquele velho imóvel fosse destruído e desse lugar a outro mais resplandecente arquitetonicamente, onde outras histórias se iniciariam.
Mas as recordações vinham e eu deixava-me embalar por elas.
Ali houvera uma biblioteca constituída por milhares de volumes manuscritos em Braille, provenientes do trabalho realizado, durante mais de cinco décadas, por copistas,
fazendo aquilo que nos mosteiros da idade média tantos outros fizeram, antes que a imprensa tivesse surgido.
Mas aqueles copistas dali tinham uma atividade diversa; não copiavam letras por outras formalmente semelhantes; transferiam o que estava escrito no alfabeto comum para o alfabeto Braille, colocando ponto a ponto, porque cada letra neste alfabeto podia ter vários pontos colocados em diferentes posições, e não podiam existir enganos, porque cada ponto escrito a mais ou a menos modificava desde logo a letra que se queria colocar no papel, sendo certo que, cada ponto uma vez ali posto, já não podia ser corrigido.
Um ponto colocado erradamente podia inutilizar uma página inteira.
Páginas que eram brancas antes de serem escritas e da mesma cor ficavam depois de já conterem tudo aquilo que nelas se tinha vertido, porque ali as letras não tinham de ter uma cor que contrastasse com a do papel; as páginas escritas não se destinavam a ser percorridas por olhos havidos de conhecimento, mas antes por dedos, também eles desejosos de levarem à mente, cada vez mais informação e saber.
Este trabalho de transcrição para Braille tinha de ser muito rigoroso, requerendo muita paciência da parte de quem o executava.
Depois de cada livro assim transcrito, ele servia para todos aqueles que dele necessitavam; era lido por gerações de alunos, passavam pelas mesmas letras centenas de dedos, nas mais variadas circunstâncias e com os mais diversos propósitos e tipos de aproveitamento.
Cada livro ali era único, era a versão em Braille que existia, por ventura a única no país, provavelmente, em certos casos, a única existente no mundo da lusofonia.
Depois de subirmos os poucos degraus que conduziam do portão de ferro que ficava junto à estrada marginal, e finalmente, transpormos aquela pesada porta de madeira que dava entrada para um pequeno vestíbulo, começava um regime que não era de reclusão, porque ali ninguém cumpria qualquer pena, mas era certamente um rigoroso regime de encerramento.
Havia muitos que dali não saíam se não para passarem as férias do Natal, da Páscoa ou as férias grandes, e havia outros que nem para isso de lá saíam, porque as famílias se haviam desagregado e eles tinham ficado de fora, entregues à instituição que nunca os abandonava.
Era aquele um rigoroso regime de trabalho, das oito da manhã às oito da noite, de segunda a sábado, comandado pelo sino que estava instalado da parte de trás, junto ao refeitório, e que tocava para quase tudo, para o início de cada refeição, para o começo de cada aula, para o início e para o fim de cada intervalo.
Mas todos tínhamos consciência de que esse duro quotidiano era o preço a pagar por crescer no saber e por conseguir obter ali as competências que o Instituto nos podia entregar.
Nós, os finalistas daquele ano de 1970, também tínhamos entrado para ali alguns anos antes, ainda crianças, ainda chorosos, ainda apegados às nossas famílias, ainda receosos de enfrentar um ambiente que nos era totalmente estranho, em que a privacidade dos espaços tinha deixado de existir, em que em vez do quarto havia a camarata, em que quase nada tínhamos de nosso, porque até a roupa que diariamente se vestia era do Instituto, tanto pertencia esta semana àquele, como na outra semana podia ser distribuída ao outro qualquer, desde que as medidas fossem idênticas.
Ainda ressoa no mais profundo da minha alma aquele doloroso momento em que eu, estando no vestíbulo de entrada daquele instituto acompanhado pela minha tia Maria do Carmo, que lá me ia deixar, com a debilidade dos meus oito anos, me agarrei com firmeza à cintura dela e pedia-lhe desesperadamente para que não me abandonasse ali. Ela explicava que tinha de ser, havia uma empregada do colégio que estava presente e que também me tentava convencer a ficar, mas eu já tinha entrado em desespero, já estava fora de mim, já não tinha nem um vestígio de racionalidade, tudo era emoção descontrolada, eu gritava, as lágrimas corriam-me em catadupa, ela tentava desembaraçar-se de mim, mas, quanto mais o tentava, mais eu me apegava à sua cintura, que era a minha tábua de salvação, sendo essa a única ponte que me ligava ao meu passado familiar, ao mundo onde eu tinha vivido, a tudo aquilo que, para mim, nessa altura, tinha significado afetivo.
Por fim, a minha tia conseguiu ir-se embora e ficámos ambos, eu e ela com os corações dilacerados de dor, jamais aquele terrível momento se tendo apagado, quer da minha mente, quer da mente dela.
Várias décadas depois, tivemos oportunidade de ambos recordar aquele facto e nenhum de nós conseguiu suster as lágrimas, apesar dos muitos anos que, sobre tal acontecimento, tinham transcorrido.
Quando ali cheguei, em outubro de 1961, já lá estava o Tó havia alguns meses. Tinha mais ou menos a minha estatura; era um miúdo lourinho, era muito reservado, mas começámos a dar-nos bem e, pouco a pouco, ele começou-me a admitir na sua fechada esfera de intimidade.
Ao contrário dele, eu, por natureza, era um menino extrovertido, trazia a autoestima elevada, todos em casa me tinham tratado bem, tinham-me ainda por cima dourado a pílula sobre o colégio; tudo aquilo ia ser maravilhoso, um verdadeiro paraíso. Pouco a pouco, mas rapidamente fui compreendendo que a pílula, afinal, tinha cores bem menos atrativas do que essas com que ma tinham pintado.
Eu e o Tó fomo-nos fazendo amigos; tínhamos a mesma idade, os mesmos gostos, apesar de eu ser de Faro e ele de Trás-os-Montes, adotávamos brincadeiras muito idênticas, ouvíamos os contos radiofónicos dos cinco e metíamo-nos naquele enredo, ouvíamos os folhetins dos três mosqueteiros e, depois dos episódios, entrava a nossa brincadeira ali pelo recreio, recreando a novela no agir da nossa fantasia; era a espada de madeira que cada um tinha, eram os nossos punhos para nos defrontarmos a brincar, era, enfim, um mundo enorme que nós fazíamos crescer e expandir-se para além daquele pequeno recinto de calçada ladeado por muros altos, onde, da parte do sul, a pouco mais de dez metros de distância, mas lá em baixo, não raro se ouvia a voz bravia do oceano, pronunciando ainda mais a rispidez dos invernos.
Ali eu tive a boa sensação do que é viver entre pares, com pessoas que têm as mesmas capacidades que eu tinha, onde os jogos, por serem acessíveis a todos nós, possibilitavam a competitividade, o esforço para ganhar, para nos aperfeiçoarmos, a fim de cada vez jogarmos melhor.
Esse viver entre pares não poderia manter-se fora da li, no futuro que ali preparávamos, mas o facto dessas vivências terem existido naquele importante período de formação da personalidade, ser-me-ia extremamente vantajoso, para o futuro.
Nessa tarde de permanência naquele pátio deserto e abandonado, antevi que aquele edifício, dentro de poucos anos haveria de ser destruído, e que no seu lugar haveria de nascer um formoso edifício de apartamentos.
É assim mesmo, o tempo tudo transforma, a realidade a que aquele instituto dava suporte também se alterou, os conceitos subjacentes foram modificados e aquele velho edifício, à falta de vontades para ser qualquer outra coisa, certamente iria ser reduzido a nada, desocupando o terreno a que se tinha amparado durante quase um século.
E que bonito deve ser abrir a janela dum luxuoso apartamento e olhar o mar imenso, sob um claro manto de azul de verão que deve cantar todos os dias um significativo hino à beleza!
Quem lá morar não imagina as centenas de histórias reais que ali se viveram, os
enormes novelos de esperanças que, nos limites do velho edifício se derramaram, o muito que alunos e professores ali deram para que as barreiras sociais se tornassem menos difíceis e para que as discriminações fossem atenuadas.
Quem lá morar já não consegue ouvir os velhos pianos que estavam espalhados pela casa e donde saíam sonoridades envolventes.
Mas não faz mal, tudo tem o seu tempo; o Instituto Branco Rodrigues teve o seu e só quem lhe sorveu o ritmo, impresso no seu estruturado dia a dia, lhe pode entender o verdadeiro significado, sendo certo que, dentro de poucos anos, já ninguém cá ficará para rememorar e partilhar os turbilhões de fantasias e de vontades que aí se desenvolveram.
Eu e o Tó frequentámos a mesma turma, da primeira classe ao quinto ano do liceu, éramos parceiros de carteira, tínhamos um lugar perto um do outro na mesa do refeitório, as nossas camas estavam perto uma da outra na camarata, vivíamos rotinas muito idênticas, suportávamos juntos os frios invernos em que o mar bravio se despenhava contra a falésia quase chegando às paredes do instituto; usávamos as frias calças de cotim, que nos deixavam à mercê do calor que os nossos corpos pudessem gerar para aquecer aquilo que, por natureza era tão frio.
Mas os nossos mundos entrelaçavam-se, compartilhávamos sonhos, ilusões de crianças e mais tarde de adolescentes, esperanças muito verdes que, na maior parte das vezes nunca chegaram a passar disso mesmo.
Poucos meses depois, juntou-se a nós outro moço, que era natural de Moncorvo, o Vasco.
Era um moço muito simpático e sorridente, tendo sempre
uma luz acesa para dividir com todos os demais, um sorriso para levantar quem estivesse caído, uma palavra amiga, que flutuava revitalizadora por cima de qualquer mediocridade.
Rapidamente, passou a fazer parte do nosso grupo.
Era cerca de três anos mais velho, e estava num patamar de evolução cultural bem superior ao nosso.
As primeiras grandes citações de pensadores foi pela boca dele que as ouvi; o gosto pela poesia foi ele que mo despertou, ao ler-me poemas de rara beleza
e que eu, nesse início da adolescência, nem pensava que existiam e, diga-se a verdade, relativamente a alguns deles, nem sequer lograva compreendê-los por completo.
O Vasco passou a ser a luz intelectual do nosso pequeno grupo; tudo o que vinha de culturalmente mais inovador provinha dele; os básicos princípios de honra e de honestidade que me acompanharam durante a vida foi dele que os aprendi pela primeira vez.
Todas as ideias mais avançadas eram as suas e, certamente muitas vezes ele se sentiu desacompanhado, por estar rodeado de amigos ainda tão infantis.
Mas o substantivo certo era mesmo esse: éramos todos grandes amigos.
Para além da luz intelectual que ele nos trazia, também nos trazia a outra, aquela que os olhos conseguem absorver, porque o Vasco não era um deficiente visual total; ele seria antes um amblíope; ele via muito mais do que qualquer um de nós; ele sabia dizer-nos quando é que um vigilante entrava sorrateiramente na porta, ou se assomava à janela para escutar as nossas conversas, ele localizava algum objeto que nos caía inadvertidamente para o chão, ele era o nosso guia quando íamos passear e nem precisávamos de levar cada um a sua bengala, porque os olhos dele eram suficientes para que o grupo se deslocasse com autonomia e segurança.
E o que é facto é que o Vasco punha sempre de boa vontade essa sua maior visão ao serviço de todos nós.
Quão profunda é a minha tristeza, ao comparar a abissal distância que existe entre o empenho que ele tinha de ajudar os seus colegas e o individualismo egoísta que muitos dos agora jovens, que têm a idade que ele então tinha, vão transpirando por todos os poros, agitando auréolas de super-heróis que, todavia, desconhecem quão débeis realmente são.
O Vasco tinha esse condão de partilhar os seus olhos a tempo inteiro, fazendo-o com a naturalidade daqueles que são autenticamente bons, sem pedir nada em troca e sem quaisquer prepotências ou achaques de arrogância.
Pela boca dele, eu já conhecia a sua terra de nascimento, como se fora a minha própria terra, apesar de nunca lá ter ido.
Foi pelos olhos dele que muitas pessoas e diversos ambientes nos foram descritos.
Poder-se-á dizer que eu, o Vasco e o Tó éramos o núcleo essencial daquele pequeno grupo de amigos, todos do mesmo ano, todos frequentando a mesma turma, todos esperando sair do instituto naquele ano de 1970.
Tempos mais tarde, já na quarta classe, juntou-se a nós o Joel.
Na nossa camarata as camas agrupavam-se em beliches, cada um com duas camas.
A cama do Joel ficava por debaixo da minha.
Nunca nos incomodámos um ao outro.
Ele passou também a fazer parte do nosso grupo, era colega de turma, era colega de mesa, era colega de camarata, era mais um daqueles que, no sábado seguinte a essa sexta-feira soalheira de fevereiro de 1970, iria à serra da estrela.
Estávamos todos desejosos de tocar a neve; com exceção do Vasco, nenhum de nós ainda tinha podido sentir essa experiência.
Estávamos excitados; as aulas dessa sexta-feira já não tiveram outra matéria que não a da ida à serra da estrela; os professores iam connosco; as empregadas da cozinha estavam a fazer o farnel que garantiam que seria extremamente apetitoso.
Essa sexta-feira de que aqui falo, e que nessa tarde de solidão naquele pátio abandonado me tomou por completo, foi, até que soaram as dez horas da noite e a triste fatalidade aconteceu, um dia de alegria, de expectativa e de grande euforia.
Para além dos seis finalistas, iam outros alunos; diga-se que a gente do instituto ia na sua grande maioria, e já estava tudo devidamente arranjado, para que o autocarro da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa chegasse de madrugada e a todos transportasse.
Aquela sexta-feira demonstrou, com todas as letras, todas as tintas, todos os brutais contrastes e com todos os saberes que deles se podiam retirar, o quanto as situações são fugazes, quanto a estabilidade é meramente ilusória e quanto a permanência não passa duma mera miragem.
Aquele dia marcou com indeléveis traços, o romper definitivo de afetos, o terminar abrupto de vidas físicas, e o começo de situações dolorosas que se iriam prolongar, incontornável e indefinidamente na vida de algumas pessoas que depois desse dia não mais tiveram paz, não mais lograram preencher o vazio e não mais conseguiram superar o enorme desgosto que essa catástrofe lhes infligiu.
Cerca de um ano antes, devido ao nosso bom comportamento, à maturidade que demonstrávamos, à necessidade de que se fosse operando uma transição entre o ambiente recolhido do instituto e o ambiente aberto da sociedade que nos rodeava, o nosso corpo diretivo concedeu-nos uma liberdade, que considerámos de extremo valor e que saboreávamos como sendo uma conquista de grande importância.
Todas as noites, depois do jantar, tínhamos autorização para ir ao café durante cerca de uma hora.
Esta autorização foi dada apenas aos seis finalistas.
Foi-nos dito que nunca poderíamos chegar depois das dez da noite.
Junto à porta do instituto, a autoridade competente mandou pintar uma bem visível passadeira para peões, colocou a sinalética de que ali havia uma escola, mas a estrada marginal, no local era boa demais para que os condutores por ali passassem com a velocidade notoriamente mais abrandada.
Por outro lado, quem é que iria pensar que, numa sexta-feira, início de fim de semana, às dez da noite, houvesse uma escola que, naquele local retirado de qualquer centro urbano, ainda estivesse a funcionar.?
O nosso grupo ia quase todos os dias ao café pela noitinha, saíamos do instituto e, por orientação visual do Vasco, atravessávamos pela passadeira para o lado norte da marginal, e dirigíamo-nos para o lado direito, para S. Pedro do Estoril,
para frequentar o café do Sr Abílio que dali ainda distavam uns bons dois quilómetros.
Lá chegados, cada um pedia uma insignificância qualquer, normalmente uma bebida não alcoólica, e por ali ficávamos a conversar, sentindo-nos um pouco mais livres e ao mesmo tempo mais adultos e responsáveis.
Eu, o Vasco e o Tó fazíamos sempre parte desse pequeno grupo que ia diariamente ao café.
O Joel, até pelos poucos recursos económicos de que dispunha, é que raramente lá ia.
Mas nessa sexta-feira, talvez para dar companhia aos outros, talvez para nunca mais ter de voltar, talvez para obedecer a uma qualquer chamada do destino, ou por qualquer outro motivo cuja explicação certamente haverá, mas que não logro alcançar, ele foi com o Vasco e o Tó e eu também tinha a ideia de ir com eles.
Nessa Sexta-Feira a ida ao café tinha também o objetivo de comprarmos alguma coisa mais que nos permitisse juntar ao farnel que levaríamos para o passeio do dia seguinte.
Mesmo na hora em que já estávamos de saída, alguém me chamou ao telefone, dizendo-me que a minha tia Maria do Carmo estava ali, em linha, para falar comigo.
O Vasco, o Tó e o Joel estavam apressados, e ficaram impacientes:
- Afinal vens ou não vens?
Eu tive que decidir-me por não ir, porque queria atender o telefonema dela.
E assim foi, eles saíram, ouvi bater a pesada porta da rua, enquanto eu entrei para o gabinete da diretora, onde se encontrava o telefone e enquanto eles caminhavam apressadamente para a morte.
Ainda hoje a minha tia não sabe o quão importante foi esse telefonema; quantas madrugadas mais ele me permitiu viver, ao mesmo tempo de prazer e de turbulências, de perguntas e de quedas, de lágrimas e de junção de pedaços para que eu limasse muitas deformidades que manchavam o meu espírito e que, se eu tivesse voltado naquela altura para a vida espiritual, teriam ficado por retificar.
Hoje digo que o mais importante não foi o acréscimo de tempo de vida que tive desde aquele dia, mensurável em minutos, horas, dias e anos, mas sim o quanto esse acréscimo de vida física me permitiu crescer interiormente, o quanto pude esclarecer dúvidas e enganos, o quanto pude aprender, através da bondosa, sábia, mas pragmática mestra que é a vida, que eu tinha muito por corrigir, que tinha grandes obras a realizar no algo descoordenado edifício da minha moral, que esta reencarnação teria ficado extremamente incompleta, se tais correções não tivessem sido feitas, e se eu não me tivesse aberto ao amadurecimento, não só na instrução, mas, basicamente no edifício dos sentimentos, do amor e da fé.
Logo após o trágico acontecimento, e sendo eu ainda muito imaturo, cheguei a perguntar-me porque é que o meu anjo guia me protegeu e porque é que o anjo de cada um deles não fez o mesmo.
Mas a vida trouxe-me a resposta.
Hoje entendo bem que na lei divina não há ricos e pobres, protegidos e desprotegidos, beneficiados e prejudicados.
Certamente eu não fui, porque, se tivesse deixado esta vida física naquela noite, ainda não tinha aprendido nada de substancial; chegaria à espiritualidade quase
tão cheio de erros e vícios, como de lá tinha vindo cerca de dezassete anos antes.
Teria sido, pois, uma reencarnação pouco produtiva, porque eu não havia ainda tido a oportunidade de poder sofrer com os meus erros a fim de os emendar; precisava de cair muitas vezes para poder chorar com as minhas quedas, para poder ajoelhar-me e pedir a Jesus que me ajudasse a levantar, como tantas vezes o fiz e como outras tantas Ele me pegou pela mão e me levantou.
Eu precisava de humilhar-me, de despir a minha personalidade de preconceitos deformantes, de descer ao mais ínfimo, para que não restassem compartimentos cerrados em que a limpidez da luz da redenção ainda não tinha entrado.
É isso mesmo; eu necessitava de abri-los a todos e de deixar que se iluminassem com a fé, com a luz do amor, com o sentimento da justiça, com a resposta correta, com o destemor de quem não receia encontrar-se, de quem está disposto a ver integral a sua fotografia, mesmo com zonas de sombra, com pedacinhos mais obscuros e tentar clareá-los, tentar melhorar a sua imagem, não à custa de truques fotográficos, mas de aperfeiçoamentos custosos, que por vezes arrancam limalhas que estão
extremamente apegadas, que ao saírem deixam dores no seu lugar, ficando dentro de nós alguns vazios daquilo que era inútil, mas que, apesar de tudo, essas limalhas preenchiam.
Á medida que vamos vivendo, que a vida nos golpeia, mas que a fé nos levanta, que a matéria nos abafa, mas que o Amor de Deus nos ilumina, esses vazios vão-se enchendo com o gosto da renovação, das migalhas do homem novo que vão colocar-se nos lugares deixados por aquelas outras que o tornavam velho e inconsequente.
Foi certamente por isso que eu não caminhei com eles para a morte, nesse dia.
Talvez eu e eles estivéssemos em graus muito diversos de evolução; talvez os anos decorridos na reencarnação de cada um deles já fossem suficientes para que chegassem ao mundo espiritual libertos, íntegros, desvencilhados de algo que lhes pesava, suficientemente leves para que aí fossem recebidos nas instituições de luz e continuassem a sua evolução, já sem a necessidade de serem protegidos pelas paredes velhas, mas amigas daquele colégio, ou de saírem de lá para fora, meses depois, como eu saí, e suportarem montanhas de perguntas cujas respostas não eram entregues, se não através de mergulhos custosos em porções de vida tempestuosa donde, mais tarde, cada uma das respostas ia brotando.
Depois de ter atendido aquela chamada telefónica, desci ao andar de baixo, aprontei mais algumas coisas que tinha falta de levar no meu saco de viagem e, quando chegaram as dez da noite, subi para a camarata, preparando-me para me deitar e desejando reencontrá-los, para que me contassem como havia decorrido a ida ao café e que tipo de produtos tinham comprado para levarem no dia seguinte.
A camarata tinha amplas janelas para a estrada marginal e, quando já estava de pé junto
ao beliche em que ficava a minha cama, quando já me começava a despir, ouvi um demorado ranger de travões no asfalto, certamente uma travagem muito brusca e apertada e, no final dela um forte embate que produziu um som abafado e seco.
Não foi um embate noutro carro, não foi um embate numa parede, foi um embate em três corpos que foram projetados a vários metros de distância.
Foi o sangue que jorrou no asfalto da marginal, foram três vidas que ali ficaram ceifadas, foram três amigos quase irmãos que nunca mais voltaram.
Nessa noite, a cama que ficava por debaixo da minha, permaneceu desocupada e nunca mais alguém ali dormiria, enquanto eu fiquei no instituto.
Aqueles três lugares nunca mais foram preenchidos, nem na mesa do refeitório, nem nas aulas, nem nas conversas, nem nos projetos, nem no partilhar das esperanças, nem no meu coração ainda adolescente, ainda pouco definido, mas já tomado pelo longo e belo relacionamento que, durante tantos anos tínhamos todos compartilhado.
Ainda me lembro bem quando, logo após o embate, um dos vigilantes foi à janela e disse horrorizado:
- Os nossos rapazes.
Pouco tempo depois a notícia espalhava-se:
“Estão todos mortos.”
Levaram-me, dias depois à igreja onde jaziam os corpos de dois deles.
Foi a primeira vez que desmaiei.
Quando dei por mim, já me tinham retirado da igreja sem sentidos, e estava no exterior, sendo reanimado.
Aprendi então que também se pode desmaiar, pela intensidade do desgosto.
E foram todas estas imagens que me açoitaram naquela tarde em que eu passeava sozinho pelo pátio dum edifício abandonado, onde durante tantos dias eu tinha feito o mesmo, mas acompanhado pelos três amigos que se foram.
A dada altura vieram-me as lágrimas e chorei por eles que deixaram de estar presentes, pelo instituto que se desfez, por mim próprio que estava sozinho naquele pátio deserto e na vida, num vasto oceano em que eu navegava, por vezes sem norte e sem porto à vista, sem uma mão amiga que fosse segura, sem um local onde pudesse lançar a âncora e descansar dos golpes, das feridas, dos desgostos deglutidos em surdina, por de nada adiantar torná-los audíveis.
O sol brilhava cada vez com menos intensidade, arrumando-se tranquilamente à sua cama feita nos horizontes do poente, e senti que era chegada a hora de percorrer tudo aquilo pela última vez, de ter a sensação de mais uma despedida derradeira, porque, em breve, certamente já não ficaria ali pedra sobre pedra;
nem o edifício velho e em ruínas, nem aquele pátio repleto de ervas daninhas, nem os muros laterais que filtravam as hostilidades dum mundo que por vezes
até esquecíamos que existisse, nada ficaria para que eu viesse de novo ali encontrar-me com o passado, no local em que ele ocorreu.
Todas aquelas pedras tinham para mim um significado qualquer, mas todas seriam desagregadas, o conjunto ficaria desfeito, a obra do Senhor Branco Rodrigues, o nosso benfeitor, deixaria de existir como edifício sólido, erigido a pouco mais de vinte quilómetros de Lisboa, mas ficaria essa obra na alma das muitas centenas de pessoas, a quem foi entregue a luz do saber, do crescimento e da dignidade, sendo essa precisamente a essência do seu mérito.
Obrigado a ti filantropo, visionário, a ti que tomaste na mão a lanterna e iluminaste a vida daqueles a quem a ciência dizia que a luz não podia ser entregue.
Tu sabias que isso não era verdade, porque a luz não é apenas aquela que os olhos podem captar, mas existe outra muito mais forte e eficiente, que é aquela que chega ao fundo da alma.
É a luz do conhecimento, da dignidade, do amor e da fé, aquela que brilha mesmo no meio da noite mais escura; aquela a que Jesus Cristo se referia, quando disse que conheceríamos a verdade e ela nos libertaria.
Obrigado te digo eu em nome de todas aquelas crianças que se abrigaram na casa que tu mandaste construir, certamente com tantos sacrifícios, seguramente com tanto entusiasmo e empenho, crianças essas que ali ganharam alegria, ali tiveram apoio, ali obtiveram as ferramentas para crescer, sentindo-se úteis, tendo objetivos, sentindo a força da estima, a janela da dignidade e passando a ter a certeza de que a felicidade, apesar dos pesares, não lhes estava interdita.
Ali, ao abrigo da obra que meritoriamente edificaste, essas crianças transformaram-se em adultos que já tinham o arcaboiço necessário para deixarem aqueles muros e enfrentarem o mundo, podendo dizer que tinham um sentido físico a menos, mas que espiritualmente os tinham todos e que tinham as forças necessárias para serem homens plenamente úteis a si mesmos e à sociedade em que se integravam.
Saí dali, naquela tarde, com um misto de tristeza e de paz, dividido entre o desgosto e a tranquilidade, com a certeza de que outros visionários virão, que hão de saber acender o fogo da solidariedade e ajudar com empenho e carinho todos aqueles a quem a vida tenha debilitado, porque sempre houve, ao longo da história, quem se tenha elevado do centro da multidão, para mostrar um caminho novo, ao mesmo tempo luminoso e redentor.
Ao sair para o passeio, fechei com determinação e ternura aquela porta de ferro e
lembrei-me de que, ali mesmo em frente, no pavimento daquela marginal em que já tantos milhões de carros tinham passado desde aquela noite de fevereiro de 1970, ficaram grossas manchas de sangue de três amigos que não tiveram tempo de experimentar tanta coisa que, em conjunto tínhamos projetado.
Lembrei-me ainda de que, com eles, certamente morreu também um pouco, apesar de ter ficado vivo, aquele ser humano que vinha ao volante do carro que os atropelou e, para quem a vida nunca mais foi a mesma.
Ele que em muitos claros dias em que o sol brilhava e o azul do céu convidava à vida, deve ter visto nada mais do que a noite e o enorme fantasma da morte, agigantando-se desde uma estrada ensanguentada.
Que ele tenha a paz que merece, pois que, certamente, só uma infeliz hora o envolveu nesta situação dolorosa.
As manchas de sangue foram limpas do pavimento, mas jamais as consegui apagar do centro do meu coração.
Já passaram várias décadas; talvez nos venhamos a encontrar um dia qualquer,
numa outra dimensão, que já não recordo, mas que sei que existe; falaremos outra vez das nossas experiências, eu poderei contar-lhes quantas coisas inesperadas me aconteceram e quantas delas me tornaram ao mesmo tempo mais profundo, mais triste, mais desiludido, mais crente e menos débil.
Poderei falar-lhes da enorme falta que eles me fizeram e talvez dizer-lhes que as suas referências junto de mim teriam sido importantes, para que eu tivesse errado um pouco menos, porque no decorrer da idade adulta não é fácil encontrar amigos verdadeiros.
Poderei também falar-lhes da capacidade que eu então tinha de sorver o momento, a brisa que passava no agora, o cheiro da maresia que vinha falésia acima, o gosto das nossas conversas, as trocas dos nossos sonhos e poderei dizer-lhes ainda que já perdi muito disso, estando muitas vezes no hoje, com o peso do ontem ou o medo do amanhã.
Talvez lhes diga também que, não raro, me tenho sentido amachucado tal e qual aqueles papeis de rascunho que, por serem já inúteis, nós amaçávamos com as mãos e desprezivelmente atirávamos para o lixo.
E eles, o que é que me poderão contar acerca das suas existências?
Certamente dir-me-ão que lá, na dimensão espiritual, a riqueza que conta não é a que está na carteira, mas sim aquela que se consubstancia nos tesouros de que o Divino Mestre nos falou, os quais os ladrões não roubam e as traças não roem.
Talvez eles me ajudem a tirar muitas manchas que ainda irão comigo e que só mãos caridosas e muito amigas poderão atenuar.
Faro, 26-5-2019
José Bento
Nota:
Os nomes de algumas pessoas foram alterados, para preservar a sua privacidade e das suas famílias.
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