LÁ VAI ELA
Lá vai ela, andando, vida fora,
Com o dom de fruir e caminhar,
Com o gosto de viver e desfrutar
Do tempo, no passar de cada hora.
Lá vai ela passando por aqui,
No ritmo lento dum feliz passar,
Na tarde tépida dum bom vogar,
À tona do mar que há dentro de si.
Lá vai ela com os seus horizontes,
Que só ela sabe quão amplos sejam,
Quanto rejeitam e quanto desejam,
No correr tranquilo das suas fontes.
Mas eu, que no ontem enterro os passos,
Que no hoje sorvo alguma dor,
Fico carregando os meus cansaços,
Entre o cair, o crescer e o temor.
Eu vou caminhando entre alternâncias,
Entre os claros cumes da nitidez
Que me chegam do global das distâncias,
E refluxos densos de insensatez.
Eu, que jamais consigo vir à tona,
Que ando entre quedas e percalços,
Que circulo numa estreita zona,
Entre medos, uns reais e outros falsos.
Eu, que herdei cinzas no pensamento,
Que turvam o meu modo de discernir,
Que misturo o sorrir e o lamento,
Mas sempre louvando o existir.
Eu, que vou vivendo cheio de miasmas,
De apertos, desertos e decadências,
De Intranquilidades, dores e fantasmas,
Que me enredam, nas suas consequências.
Eu, que vou abrindo as minhas cortinas,
Que vou desvendando outras alturas,
Que tento cruzar as minhas esquinas,
Para intuir diversas lonjuras.
Eu, que, por vezes vou perdendo nexo,
Por traumas de muita intensidade,
Sinto no bem faixas do complexo
Traduzidas em boa simplicidade.
Vou sentindo universos do sublime,
Buscando rotas puras de ascensão,
Aceitando o arder que me redime,
Em prol de me ampliar a redenção.
Eu albergo o gosto de abranger;
A força que me leva à transcendência,
A qual brota intensa do meu crer
Que no global se contém a permanência.
Trilho longas sendas intemporais,
Onde correm hálitos da Divindade,
Onde, por amor, ando sempre mais,
No superar da minha exiguidade.
Como eu vou no roteiro do amar,
Perto de mim, mas longe do que quero,
Tendo a fé para me iluminar,
Para me dizer e me ensinar
A ser esse que eu ainda espero.
Faro, 16-9-2026
José Bento
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