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LEMBRANÇAS QUE O TEMPO NÃO APAGOU

  • 9 de mai.
  • 1 min de leitura

Recordo que, muitos dos que me deram a mão,

Quando eu ainda era uma criança,

Só tinham o duro trabalho, como herança,

Mas tinham tesouros de amor no seu coração.

 

Recordo aquelas mãos ternas, mas calejadas,

De pessoas que nunca aprenderam a ler,

Mas que tinham frases de coragem gravadas,

No sábio e puro livro do seu viver.

 

Recordo tantas crianças, sem sapatos,

Sorvendo o gosto duma escassa comida.

Éramos petizes, uns inocentes gaiatos,

Abrindo portas de vontade para a vida.

 

Hoje as crianças já não jogam ao peão,

Nem correm velozes conduzindo o seu arco.

Cada um de nós manejava o seu barco,

Entre a pobreza e a falta de atenção.

 

Dávamos cor ao que havia, nas brincadeiras;

Púnhamos esperança, dentro dos nossos lares;

Montávamos festas, em volta das fogueiras,

Alegrando as noites dos santos populares.

 

De manhã, passavam muitos carros de besta,

Trazendo tudo o que os campos produziam.

Soava a voz dos pregoeiros, que pareciam,

Bons arautos que anunciavam uma festa.

 

Muitos dirão que estes factos são velharias

Que ficaram retidas na minha memória.

Nada mais do que vulgares ninharias

Que foram tragadas pelo motor da história.

 

Mas aquilo que já hoje é passado,

Tendo formado a vivência de tanta gente,

Foi o campo fecundo, onde ficou cultivado.

Aquilo que viceja no nosso presente.

 

Agora as ruas vestem-se de asfalto;

Na cidade, há vários arranha-céus.

Mas o consumismo ofusca luzes do Alto,

E muita gente não quer ouvir a voz de Deus.

 

Faro, 28-1-2025

 

José Bento

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