HÁ PASSADOS
Há passados que deixam pesos dentro de nós,
Causando um barulho difícil e denso,
Gerando um desconforto muito intenso,
Incomodando com o doer da sua voz.
Há passados que são presentes a vida inteira,
Remexendo num caldo morno de tristeza;
Turvando-nos a decisão e a certeza,
Deixando brasas duma sofrida fogueira.
Há passados que agora nos fazem chorar,
Pondo cores escuras, no nosso existir.
Mostram-nos as dores do nosso tropeçar,
E as mazelas expostas do nosso cair.
Eu tenho passados desses na minha bagagem;
São ares tóxicos que me põem maldisposto;
São invernos que se instalam em agosto,
Perturbando o brilho da minha viagem.
Quando lembrava esses passados tinha medo;
Eles vinham a mim, e eu ficava partido;
Sentia-me torturado e perseguido,
Guardando-os num aparente segredo.
Mas certo dia, chegou-me a revelação;
Soltei os passados, para fazer o presente.
Tirei deles o melhor, para ser mais consciente;
Integrei o que aprendi, na minha construção.
Venham a mim, passados desta minha vida;
Podem falar-me das lágrimas que chorei;
Mostrem-me, sem mentir, cada dor por mim sentida;
Cada pedra que, por mim foi removida,
Para que surgisse o homem em que me tornei.
Faro, 10-3-2024
José Bento
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