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GOTAS DE SOLIDÃO

  • 17 de abr
  • 9 min de leitura

Eu e ela íamos andando de mãos dadas, por aquele caminho ladeado de eucaliptos que, nessa tarde soalheira de inverno nos pertencia por inteiro.

Já havia mais de seis meses que mantínhamos a mesma rotina de todas as quartas-feiras, almoçarmos no restaurante que dali não distaria mais de quinhentos metros e depois aproveitávamos, para caminhar mais de cinco quilómetros por dentro do bosque,

 mergulhando os sentidos naquela vegetação diversificada e aspirando a energia fresca que aquele pedaço de natureza nos transmitia.

Nesse dia o silêncio entre nós estava a prolongar-se mais do que era costume.

 Ouviam-se os nossos passos, par a par, no mesmo ritmo, pisando a terra juncada de folhagem seca, a minha mão esquerda entrelaçada na mão direita dela, mas até as nossas mãos estavam silenciosas, passivas, quase inertes, tendo-se temporariamente esquecido de ser vias francas de transmissão das vibrações que os nossos corações dimanavam.

ambos íamos caminhando descontraídos, mas cada um espalhando-se sabe-se lá por onde.

Diga-se em abono da verdade que eu não tinha ainda reparado na desusada duração do nosso silêncio, mas, pelos vistos, ela incomodou-se com isso.

- O que é que se passa contigo hoje Vicente?

Esta pergunta despertou-me abruptamente duma espécie de letargia em que me ia transportando. E não só me despertou como foi lá bem ao fundo e, de repente apercebi-me do caminho, do nosso silêncio, do cheiro dos eucaliptos que nos banhava e das mãos dela que começavam a transmitir alguma agitação fora do que era usual.

É verdade, e o que é que se estava a passar comigo naquele dia?

Não consegui de mim mesmo se não a resposta de que nada se passava que merecesse ser realçado.

Essa era a realidade que, perscrutando o meu interior eu podia captar, mas não era a dela em relação ao meu modo de proceder, em relação ao prolongado silêncio que nascera ali, entre duas pessoas que se encontravam para se darem e não para se encerrarem cada uma no seu presídio.

Aquele involuntário e anormal silêncio prolongar-se-ia, provavelmente, por muito mais tempo, se ela, do mesmo, não me tivesse feito emergir.

Eu já tinha aprendido por muitas lições que a vida me dera, que, tratando-se da vivência a dois, às vezes importava muito menos a minha realidade do que aquilo que a minha parceira dela pensasse.

 Já ia bem longe o tempo em que eu partia do pressuposto de que a verdade se impunha por ela própria, mesmo que fosse a verdade que ia dentro do meu pensamento e que não podia ser demonstrável de forma objetiva.

Aprendi que, na vida a dois, pelo menos no imediato, a verdade que vale é aquilo que cada um pensa em relação ao outro.

Mas, como que por instinto, houve uma pergunta que me saiu, apesar de momentos antes eu não ter qualquer pergunta para fazer.

E foi assim, como uma chispa que salta do nada, que eu lhe perguntei:

- Lembras-te há quanto tempo nos voltámos a encontrar, Carolina?

- Sim, foi naquele dia de maio, quando nos cruzámos na avenida central e ficámos ali grudados na surpresa e no prazer do reencontro.

- É verdade minha querida. Reencontrámo-nos cerca de trinta e cinco anos depois, ambos já com mais de sessenta anos contados. Estávamos sem companhia nas nossas vidas e em breve pensámos que seria bom cair nos braços um do outro, tal e qual o tínhamos feito algumas décadas antes.

Começámos a aproximarmo-nos, começámos a manter algumas rotinas em comum, cada um na sua casa, mas cada um de nós, contando com a presença do outro.

E assim se passaram mais de três anos.

- E o que é que achas disso? Não seria já a altura de darmos mais um passo, de ficarmos juntos todos os dias, de partilharmos uma casa e uma família?

- Isto disse ela, fitando-me fixamente e pondo uma grande ênfase no que dizia.

- Que lindo, minha querida. Foi isso que eu pensava quando em jovens jurámos amor um ao outro.

Eras uma linda moça, com os olhos castanhos mais bonitos que alguma vez já vi. Até então nenhum de nós soubera o que era viver junto com alguém em forma de casal e fazíamos, a toda a hora, planos nos quais essa união aparecia sempre com tonalidades muito brilhantes.

Mas, por muito pouco, desencontrámo-nos, cada um seguiu a sua estrada e, mais de trinta e cinco anos depois o acaso trouxe-nos à presença um do outro, cada um com o seu passado, cada um com a sua família, cada um com o seu crescimento e as suas ligações afetivas.

-  E depois Vicente, o que é que aconteceu connosco que impeça que façamos uma família?

De imediato não me surgiu a resposta, mas eu senti que ela existia. Afinal, ter alguém a meu lado que me falasse de família foi o que eu sempre tinha desejado; por algumas vezes tinha andado perto disso, mas nunca tinha atingido o pleno.

 Agora o que me assaltava, no fim de contas, era o medo de falhar de novo.

Se eu não conseguira formar uma família bonita e duradoura com as mulheres com quem tivera filhos, com quem vivera anos de pujança e juventude, seria agora que iria conseguir essa meta?

Mas ela insistiu.

- Então meu querido, o que dizes da minha proposta?

- Deixa-me que te responda com duas perguntas, Carolina:

- Tu sentes, muito sinceramente, que ainda és capaz de amar com a intensidade de antigamente?

Tu sentes que ainda és capaz de viver em prol da nossa felicidade?

Ela ia responder, mas eu interrompi-a de pronto:

- Não, não me respondas ainda; deixa esta conversa em suspenso, para que a retomemos na próxima semana, aqui, na nossa rotina das quartas-feiras.

A caminhada continuou, as mãos dela agora estavam mais quentes, mais acolhedoras, a voz dela mais melodiosa, a sua respiração mais descontraída.

Parámos junto a uma árvore frondosa que estava quase lá no fim do percurso e abraçámo-nos com força, beijámo-nos com desejo.

Naquele dia, quando nos separámos, senti que algo ia mudar; não sabia se era para nos aproximarmos mais ou se era para nos afastarmos de novo, quem sabe para que o acaso não mais nos fizesse encontrar.

Nessa noite senti, na minha casa de homem sozinho com paredes revestidas de várias relações conjugais começadas e outras tantas vezes desfeitas, com sofás outrora pequenos demais para darem assento aos que por ali andavam e agora tornados imensos para um homem que poucas vezes neles se sentava, pois é verdade que senti que havia gotas de solidão a caírem  de mansinho sobre os meus sentidos, sobre os meus medos, sobre os meus desgostos, sobre o meu agora e sobre o meu passado, ao mesmo tempo tão controverso e tão rico.

Senti que dentro de mim havia um feixe enorme de perguntas sem respostas, de indecisões, de dúvidas, de inquietações que ora me impeliam para a união, ora me afastavam dela.

 

Como de costume ela telefonou-me antes de dormir.

- Olá amor, passa uma boa noite e sonha comigo.

Eu poder-lhe-ia ter dito que sim, que sonhava com ela, não a dormir, mas enquanto estava bem acordado, que talvez tivesse sonhado tanto com ela durante anos a fio que nem tive a oportunidade de sonhar comigo mesmo.

Poderia ter-lhe dito que, no dia em que outrora nos separámos, nesse distante tempo dos sonhos de ouro, houve algo que se apagou na minha mente e que, ao mesmo tempo que se apagava explodia, como uma estrela que se desmaia e, ao adormecer torna mais agitado todo o mundo que ela iluminou.

Poderia ter-lhe dito que eu ainda estava muito débil, que aquelas famílias sucessivamente desfeitas a que, na totalidade eu me entregara, haviam deixado em mim um rasto de tristeza, de incapacidade e uma névoa de desilusão, que era tão densa que dificilmente se dissiparia.

Eu podia ter-lhe dito tanta coisa que, por medo ou por hesitação não lhe consegui revelar. Mas o dia estava marcado, afinal quem fizera as duas perguntas fora eu, quem tinha que dizer-me alguma coisa era ela.

Aquelas gotas de solidão magoavam-me, colocavam-me perguntas irrespondíveis, golpeavam-me o íntimo, como se fossem chicotes implacavelmente violentos.

Mas eu já sentira gotas de solidão muito piores, quando, naquela mesma casa, elas vagueavam entre um casal, girando, como bolas de ping-pong entre marido e mulher, espicaçando silêncios que nunca se quebravam e barreiras que nunca se rompiam.

Eu ainda tinha bem presente a dor que causa o cruzamento de dois silêncios que se embatem dentro duma casa, tornando-a num braseiro demolidor, num purgatório sangrento, num local pesado, que nos esmaga e encolhe, que nos tritura e machuca, tudo delimitado pelas paredes e pelo teto, amplificando o mal-estar, o abafado do ambiente, o estrondo do desespero.

Não, eu não queria voltar à solidão vivida a dois, que é uma filha perversa da solidão mais simples, mais direta, a qual é vivida por alguém no singular.

A solidão a dois enrola, mente, tritura, diz que estamos com outra pessoa, mas estamos tremendamente sós, diz que existe ali uma companhia, mas apenas existem dois corpos que estão perto, tripulados por almas que andam muito distantes.

A dada altura, quando hesitava entre o desejo de me deitar e a vontade de ficar ali desperto, sorvendo o silêncio, dei por mim a louvar a noite, como se ela fora ao mesmo tempo o calmante e a janela, a paragem e a potente saída, a pergunta e o começo da resposta, a prosa e o poema, o íman que nos chumba ao chão e as asas que nos permitem ligar o mais fundo de nós ao mais distante que peregrina no firmamento.

Dei por mim a reparar que aquela noite, em especial, tinha descido lenta, mas segura, doce, mas envolvente, calma, mas dinâmica.

Eu sorvia-a tranquilamente, a casa espraiava-se ao meu redor, num misto de indiferença e de ameaça, de peso e de libertação.

Ocupava-me, nessa altura, uma sensação que era antiga, mas que durante algumas décadas se apagara.

 Estava no centro da noite, construindo o dia, estava só, desejando, ao mesmo tempo, manter-me privado e dar-me por inteiro.

Sentia-me capacitado para entender a minha complexidade, ainda que jamais a conseguisse compreender de todo.

E onde estaria ela naquele momento?

Preparando a resposta às minhas duas perguntas, questionando-se sobre elas, ou pura e simplesmente dormindo tranquilamente embalada pelo normal fluir dos suaves equilíbrios de que naturalmente desfrutava?

Subitamente arrependi-me de lhe ter dado um prazo tão longo para as respostas.

 A criança que gostava de surpresas boas erguia-se incontrolável dentro de mim, incapaz de esperar mais um minuto que fosse.

Afinal eu não era imparcial naquela espera, sendo pelo contrário alguém que deseja uma determinada notícia, mas que, por outro lado, quanto mais se aproxima a hora de recebê-la, mais medo tem do seu conteúdo.

Mas qual seria afinal a resposta dela que eu queria ouvir?

A que nos transportasse para dentro dum casal, ou a que nos levasse para longe dele?

Fui-me deitar sem ter conseguido responder-me satisfatoriamente.

Os dias passaram, trazendo cada um deles dois telefonemas, o da manhã normalmente meu e o da noite normalmente dela, e trazendo também a tão esperada quarta-feira.

Chegámos ao restaurante quase ao mesmo tempo; ela vinha muito mais cuidada do que era costume; os cabelos pelos ombros dum castanho avermelhado, que apesar de provir da tinta, nem por isso lhes retirava a beleza; as unhas bem cuidadas, um perfume fresco e provocante, uma mulher cheia de força anímica que a transportava para além das idades, dos preconceitos, das coisas ínfimas e dos comentários vulgares.

Depois do almoço voltámos ao caminho; as mãos dadas, os passos a par, os eucaliptos e

o bosque, a conversa tépida e   o sol iluminando tudo aquilo, mais uma tarde de inverno envolvendo um casal que tinha a energia e a cadência do verão.

Foi quando chegámos àquela mesma árvore frondosa, onde na tarde da quarta-feira anterior, nos havíamos abraçado, que lhe perguntei:

- Então, meu amor, e as respostas que ficaste de me dar?

Ela, pondo-se de frente para mim, colocou-me a mão direita no ombro e perguntou, com firmeza e serenidade:

- Acerca do que é o amor, tu sabias mais, quando namorámos, na nossa juventude, ou sabes mais agora?

Aquela pergunta, aparentemente tão simples obrigou-me a refletir por alguns segundos, tendo-me passado pelos olhos da mente uma série de situações que espontaneamente se alinharam para que a resposta fosse possível.

- Não tenho dúvidas; sei muito mais agora do que sabia nesse tempo.

Ela sorriu com doçura e disse:

- Se eu te disser agora que te amo, estas palavras têm mais trinta e oito anos de valor,

 do que aquelas que eu te murmurava baixinho, naquele tempo, à saída do cinema, depois de termos assistido a um filme cor de rosa.

Se eu te falar de família agora, eu sei claramente o significado deste conceito, sei das suas diversas abrangências, das noites de pesadelo que a família pode provocar e também das manhãs agradáveis que nos pode trazer.

Entrega-te sem medo Vicente! A tua Carolina é agora muito mais capaz de te prometer amor intenso, para toda a vida.

Não tive nada para responder. A emoção agraciou-me os olhos com algumas lágrimas teimosas; abraçámo-nos de novo com desejo, beijámo-nos outra vez com lábios que prometiam e que, mais do que prometerem, confirmavam.

 enquanto o peito dela estava pegado ao meu, tive a nítida sensação de que muitas gotas de solidão se iam desfazendo, diluídas num leve e intenso fluido de amor que nos uniria, mesmo depois do instante em que qualquer um de nós tivesse de partir.

Mais uma vez consegui acreditar que o amor é possível, no quotidiano, entre duas pessoas, diminuindo distâncias, desfazendo solidões, trazendo relâmpagos de infinito, E impulsionando os seres para o crescimento, para o belo e para a bondade.

Embalado nestas ideias, mergulhei numa intensa paz, nesse momento.

Senti que se curavam as feridas do passado e deixei ao futuro o papel de me ensinar um pouco mais sobre o amor, pois que, as suas lições são tão imensas, como a própria existência em que se originam.

 

11-1-2019

 

José Bento

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