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AMOR, NÃO TE PERCAS DE MIM - CAPITULO IV

2 de ago.
19 min de leitura

CAPÍTULO IV  


Estávamos em julho de 2006, numa manhã quente de domingo, pouco passando das nove horas, quando o Daniel chegou à casa do Carlos para, de acordo com o previamente combinado, irem à Praia Verde, perto de Vila Real de Santo António.

De facto, eles encontravam-se, de quando em vez, amigos que eram de longa data e que, por morarem na mesma cidade, mais facilidade tinham de estarem juntos.

O Daniel tinha ajudado muito o Carlos a superar a situação difícil em que tinha ficado, depois da partida da Leonor e, por outro lado, também continuava a prestar todo o seu apoio a esta, que, por estranho que pareça, estava, nessa altura, em pior situação psicológica do que o marido.


O Carlos tinha enveredado pelo caminho de enfrentar com coragem a solidão, as causas dela, os seus efeitos, tudo sem subterfúgios, sem recurso a falsas moletas.

Tinha corajosamente ajustado as contas com o passado, reconhecendo as suas qualidades e defeitos e, na medida do possível, fazendo por superar estes últimos.

A sua forma prática de abordar a vida, que, antes da separação, era utilizada para gerir bem os factos cá de fora, passou ele a aplica-la, com sucesso, a debelar as tempestades que o devastavam por dentro. 


Apesar do casal estar separado há mais de um ano e meio, nenhum deles tinha pedido o divórcio, nem sequer feito quaisquer diligências, quanto aos bens comuns.

A casa de ambos continuava tal e qual a Leonor a tinha deixado.

Nem um nem outro havia tido coragem para, juridicamente, destruir algo que, dentro de cada um deles ainda tinha muita vida e beleza.

A boa semente é assim mesmo, apesar das tempestades, das tentativas de fuga, das arrogâncias do “eu”, do peso dos preconceitos, do tamborilar das culpas e do corroer dos remorsos, a boa semente continua a germinar, a trazer à memória o bem que do outro recebemos e também aquele que lhe demos, os momentos belos gerados a dois, as promessas de amor feitas, os beijos sinceros, os quais ficaram marcados na alma de quem os partilhou, enfim, a boa semente alimenta-se do amor, nasce nele e vive ao seu abrigo, porque o amor é a potente Lei Divina que a tudo e todos se impõe, mesmo que muitas vezes seja violada, mas por causa disso, nascem as dores e, mais cedo ou mais tarde, vem o perdão, aquele que damos a nós ~+mesmos e aquele que os outros nos dão, sendo certo que, com o perdão vem sempre a paz e a felicidade. 


O Fonseca já tinha ultrapassado o tempo da raiva relativamente à mulher e, com frequência dizia ao Daniel que gostaria que ela fosse muito feliz, apesar de duvidar que tal acontecesse, porque ninguém a amaria tanto quanto ele a tinha amado.

Repetiu isso outra vez, naquele dia, quando iam, no seu carro, a caminho da praia.

Carlos, mas talvez ela nem queira ter outra pessoa. Para que sejamos felizes não é necessário que vivamos com alguém.

- Sim, Daniel, e tu falas por experiência própria.

Seja como for, sozinha ou acompanhada, o que desejo sinceramente é que seja feliz.

Que todo o mal que eu lhe deseje recaia sobre mim.

Lá foram conversando, descontraidamente e, quando já estavam estirados sobre a areia, o Carlos disse:

- Sabes, eu que nunca tive jeito para a poesia, pois, imagina tu que, outro dia, até fiz um poema.

O Daniel riu gostosamente.

- Tu? Mas isso é muito bom. Acho que já aconteceu com muitos poetas tornarem-se mais inspirados, quando têm desgostos de amor.

E talvez também já tenha acontecido que o poeta estivesse adormecido dentro de alguém e que a dor o tenha despertado, para ajudar a iluminar os caminhos do alívio.

Mas mostra-me lá esse poema?

- Daniel, achas que eu ia trazer isso para aqui?

Quando chegarmos a casa prometo que te deixo lê-lo.

Dito e feito.

Passaram um ótimo dia de praia e, quando chegaram à casa do Carlos, o Daniel insistiu:

- Venha lá então esse poema.

Sentaram-se na sala, o Carlos abriu uma pasta onde tinha vários papeis, a maioria deles relativos às faturas e balancetes da sua empresa e, de dentro deles, retirou uma folha meio amachucada, manuscrita com a letra dele, com diversas rasuras, a qual entregou ao Daniel, para que a lesse.

Este, ao passar os olhos pelo título do poema, disse, mesmo ainda sem o ter lido:

- Que belo título meu caro Fonseca:

 “AMOR, NÃO TE PERCAS DE MIM.”

Depois disso, silenciosamente leu e releu as diversas quadras que compunham o poema.

Quando terminou a leitura pela segunda vez, solicitou:

- Meu caro Fonseca, podes-me dar uma fotocópia disto?

- Para quê, Daniel, isso não vale nada, foi só um desabafo.

Bem, seja como for, será que este teu amigo pode ter uma fotocópia deste belo poema?

- Está bem, se tu queres….

Ligou uma pequena fotocopiadora que ali tinha e entregou ao amigo a fotocópia pedida.

Conversaram ainda um pouco mais e, a dada altura, o Daniel despediu-se.

- Bem, meu caro Carlos, já passámos um bom dia de praia. Vou até casa, tomo um bom banho e depois vou até à baixa para espairecer.

- Força, homem, obrigado pela companhia.

Logo que chegou a casa, e mesmo antes de tomar banho, o Daniel telefonou à Leonor.

- Olá Daniel, que bom que telefonas, há mais de oito dias que não te deixas contactar.

- Não é por mal, amiga. Como sabes, sou muito avesso a andar com o telemóvel. É um bichinho de que me mantenho afastado, sempre que possível.

- Mas hoje lembraste-te desta amiga de infância; que bom!

- Não foi só hoje; lembro-me sempre de ti.

Mas tenho uma surpresa boa para ti.

- Então diz lá, homem, a minha vida há muito que precisa de surpresas boas.

- Mas esta não te posso dizer aqui pelo telefone.

Vou mandar-te para o email. 

- Está bem, fico à espera.

E assim terminou a conversa de ambos, naquele dia.





Capítulo V



Na terça-feira seguinte, já pela noitinha, o Daniel telefonou ao Carlos Fonseca:

- Olá Carlos, então como foi esse dia?

- Dir-te-ia que correu bem, se não tivesse havido tanto calor e se eu não tivesse tido que percorrer mais de duzentos quilómetros para visitar um bom cliente que tenho, no Alentejo.

Mas a visita correu bem e, portanto, nada a reclamar.

- Ouve lá; eu tenho de ir, na próxima Sexta-Feira a uma consulta médica, no hospital que fica lá no parque das nações em Lisboa. Não me está a apetecer ir sozinho. Será que queres ir comigo?

- Ó Daniel, um pedido teu é uma ordem. Vamos no meu carro?

- Não, meu caro Carlos. Quem convidou fui eu e, por isso, vamos no meu.

Então, aí pelas sete horas de sexta, estou na tua casa.

E assim terminaram a chamada. 

Na próxima sexta-feira, pelas sete em ponto, lá estava o Daniel a dar uma pequena buzinadela à porta do Carlos.

Este saiu de casa logo em seguida, e partiram rumo a lisboa.

Cerca das dez e trinta, o Daniel estacionou o carro no parque das nações.

saíram ambos, foram durante algum tempo juntos, tendo-se, a certa altura, separado, seguindo o Daniel em direção ao hospital e tendo-se o Carlos dirigido ao jardim existente na zona, que vai ladeando o rio por umas boas centenas de metros.  

Combinaram encontrar-se, dentro de uma hora e meia, à porta do centro comercial.

 O Carlos levava na mão um jornal que tinha comprado num dos quiosques por onde tinha passado, e fazia tenção de o ler, descontraidamente, frente ao Tejo, sentado num dos bancos ali existentes, numa sombra que o protegesse do quente dia de verão que se fazia sentir.

O sol, esplendoroso, brilhava sobre a mansidão daquele rio, testemunha que sempre foi dum povo que à beira dele assentou a sua capital desde o século XII, e que, saindo dele, se derramou pelo mundo.

Ali estava na frente dele o rio que testemunhara tudo, desde o início, desde que os cruzados o encheram de barcos para ajudarem D. Afonso Henriques a conquistar Lisboa, que  séculos mais tarde foi cercada pelos castelhanos, no tempo do Mestre de Avis e de Nuno Álvares Pereira, mas que não lograram conquistá-la, que ainda no tempo de D. João I viu os portugueses que passavam ao contra-ataque no norte de África, gente lusa outrora  em defesa face aos mouros, mas no século XV arremetendo contra eles,  mouros que lá ensinaram, no último quartel do século XVI,  os portugueses a não se meterem onde não eram chamados,  pagando Portugal bem caro por essa derradeira arremetida.  

O Carlos tinha diante de si o rio onde, imaginariamente habitavam as Tágides, as ninfas a quem camões pediu inspiração para escrever os Lusíadas, aquele rio que Almeida Garrett colocou em relevo, ao contar a tragédia do Frei Luis de Sousa, que se reporta ao tempo do Portugal meio perdido e profundamente humilhado.

Ali estava o Tejo donde partiram as caravelas para desvendar o mistério, sob o comando de Bartolomeu Dias, encarregado de passar o Cabo que, para ele foi das Tormentas, mas que para D. João II foi da Boa Esperança, donde zarparam Vasco da Gama, para chegar à Índia e Pedro Álvares Cabral, para chegar ao Brasil; esse rio que foi ponto de partida e de chegada dos portugueses que se fizeram ao mar e que, na medida do possível, o aprenderam a dominar, tendo ajudado a que todo o planeta se ligasse e começasse a ser conhecido da humanidade que o habitava, a qual passou a ter mapas globais, em vez daqueles muito restritos e imprecisos que tivera, antes que este nobre e sacrificado povo se lançasse no empreendimento das descobertas.


Era, pois, aquele o Tejo da história e da literatura que o Carlos tinha na sua frente, mas ele, nesse dia, não tinha qualquer interesse ou disposição para o olhar desse modo.  


Estava ali também o Tejo das canções: «Todos moram numa rua, A que chamam sempre sua, mas eu cá não os invejo; o meu bairro é sobre as águas, que cantam as suas mágoas E a minha rua é o Tejo.»


 Ainda na memória dos mais velhos ecoava a voz do José Viana, cantando magistralmente estas palavras.  


Ou então:


 «Canoa de vela erguida, que vens do cais da ribeira, gaivota que anda perdida, sem encontrar companheira.

O vento sopra nas fragas, o sol parece um morango; o tejo baila com as vagas a ensaiar um fandango.”



  A voz do Carlos do Carmo, interpretando um belo fado, como só um grande fadista o pode fazer.


Era esse o Tejo das canções, que vivia no quotidiano com os lisboetas, aquele rio onde milhões de olhos podiam mergulhar, seja para se lavarem das lágrimas produzidas por uma vida extremamente dura, seja para se limparem das poeiras geradas pelo bulício da capital dum país onde a esperança, não raro é desmentida por enormes obstáculos difíceis de ultrapassar, sobretudo pela multidão dos mais debilitados, económica e socialmente falando.


Mas ao Carlos, naquele dia descontraído, em que viera a Lisboa para acompanhar um amigo, o Daniel que tinha vindo por motivos de saúde, mas ele que tinha vindo apenas em passeio, não lhe interessava, nem o Tejo da história, nem o da literatura ou o das canções, bastava-lhe olhar descansadamente aquele lençol de água com o sol da manhã a torná-lo mais luminoso; os pássaros cruzando livremente os ares; os barcos, uns cruzando o rio e outros ali ancorados, balançando suavemente, conforme os impulsos das águas; as pessoas passeando por ali a pé, tranquilamente, cada pessoa com o seu mundo, cada mundo com a sua dose de problemas e prazeres, de esperanças e desilusões, de poderes e debilidades.


Sentou-se num banco frente ao rio, a cidade ficava atrás de si, mas não a olhava, sentia-lhe apenas o ruído, apetecia-lhe mais sorver a mansidão do tejo, muita água que lhe trazia ao pensamento coisas claras, a sua infância em Faro, junto à água da Ria Formosa. Nesse tempo fazia um barco de cortiça e punha-o a navegar, nele colocava todo o seu engenho e a sua bagagem, lá iam a esperança, a fantasia, a ternura, o amor, a vontade de viver, tudo navegando naquele barco de cortiça que ele não podia deixar que se afastasse muito da margem, pois de outro modo a corrente o levaria e ele havia de ficar sem saber onde iriam aportar tantas toneladas de sentimentos bons e de belas fantasias que o seu pequeno barco levava lá dentro.  


Subitamente, sentiu-se ali numa zona de fronteira entre o passado e o presente, naquele tipo de postura em que os olhos olham, mas vão deixando pouco a pouco de enxergar, em que o pensamento vai trabalhando com um ritmo cada vez mais lento, em que ele próprio se deixava trespassar pela luz, a de fora, mas também a de dentro, pelas ideias e pelas emoções.  


Ele transformara-se, por instantes, num rio por onde toda a sua vida passada ia navegando, em barcos de papel muito pequenos, mas apenas vinham neles coisas boas, flores, sentimentos belos, histórias bonitas, músicas agradáveis e pessoas que o amavam.  


Ele era criança e todos gostavam dele, ignorava o que era a cidade por dentro, da cidade apenas conhecia as formas exteriores das casas, das ruas, das pessoas, dos veículos, de tudo o que constituía a cidade no seu exterior.

 O que quer que fosse o coração da cidade, nesses tempos de menino, passava-lhe despercebido.

Ele então nunca tinha descoberto que casas iguais poderiam ter lá dentro pessoas diferentes e que, só por isso, também as casas ficavam diferentes, umas mais bonitas, outras mais feias, conforme o coração daqueles que as habitavam.  




Por segundos, a sua mente voltou ao tempo em que era criança e não tinha vontade de crescer, momentaneamente elevara-se acima do porquê de estar ali, a grandeza do momento sobrepunha-se ao antes e ao que se previa para o após.

 Agora estava com ele apenas a intensidade da emoção boa, que transformava tudo como se fosse um filtro mágico que produzia beleza e felicidade.

Não admira que esse passado bom lhe viesse à mente, para anestesiar os presentes maus que, sucessivamente, o vinham massacrando, desde que a esposa saíra de casa.


— Eu não te conhecia bem, ó poema, mas tu existes, derramas-te por tudo aquilo que me rodeia, estás no rio que corre ali adiante, no verde das plantas que enfeitam a manhã, no  brilho do sol que ilumina o dia, no olhar triste da pessoa que  passa e lamenta a carência da ternura, a falta de compreensão, o empurrão que a afasta do centro, do roteiro que ela acha  que será o normal, aquele que lhe traz a integração no grande coral de palavras dissonantes, mas que definem a sociedade que lhe serve de matriz e de que não quer sentir-se excluída.  


Ó poema, tu não precisas de rimas, nem sequer de palavras, tu brotas da beleza e estás aberto a quem tenha o desejo de entrar em ti e de, elevando-se pelas tuas asas, ir até ao país do mais pleno e profundo amor.


Teve então saudades da sua velha guitarra, companheira de tantos poemas postos na música, de quando ele a dedilhava, buscando harmonias cada vez mais belas, as quais, saindo dos seus dedos, permitiam que ele entrasse mais em si mesmo.

Tinha cinquenta e oito anos de vida física, mas, no mundo do espírito, ele sentia que o tempo não tinha passado, porque, sem dificuldade,  voltava ao tempo de menino, de jovem, de amante do amor, de gratidão pela vida ao Senhor dela, a Deus, de quem ele se tinha afastado por tantos anos, mas que agora lhe surgia, dizendo-lhe, no mais íntimo da sua consciência, que sempre tinha estado com ele, amparando-o nas quedas, confortando-o nos desgostos e ajudando-o nas iluminações, como Pai misericordioso que nunca deixa cair definitivamente nenhum dos Seus filhos, posto que a todos criou para a felicidade.

Pensou então que, numa fase mais pura da pureza, mais harmónica da harmonia, mais 

bela da beleza e supremamente amorosa do amor, talvez o tempo já não exista, porque desnecessário, conseguindo os seres extremamente depurados que aí tenham chegado, prescindir do tempo, como quem prescinde duma ferramenta que já se tornou inútil.

 

A certa altura, maquinalmente, abriu o jornal que tinha na mão e baixou os olhos para a primeira página.

 Vinham-lhe as parangonas, voltava ao presente, regressava o hoje da cidade, do país, do mundo; ia-se muito lentamente o encantamento, à medida que os olhos continuavam ali fitos naquela exposição de cores e de notícias.


 Sentiu depois que alguém se tinha sentado ao seu lado, mas não prestou atenção.

 Tantos bancos vazios, e logo tinha alguém de ir compartilhar aquele consigo.

Foi este o pensamento que lhe veio.

 Mas não se incomodou com isso. Estava calmo demais para que essa circunstância o pudesse perturbar.  


Os seus olhos continuaram pousados no jornal, o seu mundo estava tranquilo de mais

 para que valesse a pena lançar um olhar e ir verificar a imagem de quem tinha querido escolher aquele banco já ocupado.

 Talvez fosse uma criança para lhe pedir esmola, talvez um idoso solitário à espera de um pouco de conversa, ou, quem sabe, uma mulher de programa em busca de um cliente programável.  


Fosse quem fosse, não lhe apetecia levantar os olhos, estava tão bem consigo, que queria prolongar por mais alguns instantes aquela rara situação de profunda paz.


 A certa altura sentiu duas mãos de mulher, macias, suaves, apertarem as suas.

 Ergueu os olhos e viu dois olhos verdes pousados nos seus.  


— Leonor, tu aqui, como é possível? — disse ele com a admiração de quem não espera o que de repente vê, mas que intimamente sempre desejou que essa visão pudesse um dia acontecer.  


E não conseguiu dizer mais nada. Dos seus olhos começou a soltar-se uma torrente de lágrimas, cada vez mais densa, cada vez mais arrancada do fundo.

 Dos olhos dela desprenderam-se também gotas sentidas, um volumoso rio delas, que eram empurradas pela potente fonte do amor.

 As lágrimas de ambos convergiam para o mesmo local, caindo sobre as mãos deles, que já estavam unidas.

 Os olhos de ambos deixaram de ver, saindo deles lágrimas e mais lágrimas, mas eram todas de alegria, de amor, de prazer, de tudo o que é bom e que possa estar dentro de alguém.

Pelos olhos deles, o exterior deixara de entrar, as imagens com que ambos se governavam já não vinham da luz que os olhos veem, mas sim da grande reserva dela que os dois tinham dentro de si.

Depois abraçaram-se, sentiram o calor dos seus corpos, e, mais do que isso, o calor das suas almas que se entregavam, que se misturavam numa empatia maravilhosa que só o amor consegue inventar.

Ficaram assim, abraçados um ao outro, sem dizer nada, falando com as mãos, com os beijos, com os braços que os envolviam, falando de alma para alma, com toda a força e pureza do grande amor que os unia.



Não lhes interessava, naquele momento, saber qual era a tonalidade do ambiente que os rodeava, se sobre ambos caíam ou não dezenas de olhares, se o rio continuava ou não ali a correr da mesma forma e se os barcos estavam ainda ancorados como minutos antes, ou se passaram a mover-se.


Eles estavam alheios a tudo o que havia em seu derredor, à cidade, às pessoas que se moviam, aos carros que, nas muitas artérias da cidade, se cruzavam, às árvores que oscilavam batidas pelo vento, a Lisboa que vinha molhar os pés ao tejo e ao rio por onde corriam oceanos de esperanças trazidas por tantos olhares que nele se pousaram, desde a penumbra dos séculos.


Não lhes importava mais nada senão eles.

 Não se podiam ver nos olhos, porque esses estavam ocupados pelas muitas lágrimas que caíam, mas, paradoxalmente, viam-se intensamente nas almas.


Enquanto silenciosamente conversavam, de um para o outro fluíam os perdões e extinguiam-se as culpas, iluminando-se o mau passado pela luz esplendorosa do bom presente de que estavam a desfrutar.

 As mãos estavam ali libertas, quatro mãos de duas pessoas que eram estradas de ida e volta, por elas passando um trânsito imenso de emoções, de recordações boas e más, das boas para que se ampliassem e das más para que se extinguissem, de sonhos e

 de desejos, de perguntas que não buscam qualquer resposta, de respostas que não advieram de qualquer pergunta.  


Por essas quatro mãos passavam dois jovens, um em direção ao outro, agora eram mais jovens do que antes, porque sonhavam no plural com mais propriedade, tinham ido  buscar à vida as solidões e com elas tinham feito desejos de  companhia, tinham ido buscar aos sonhos as desilusões e com elas tinham construído outros sonhos em bases mais sólidas,  mas nem por isso eram menos sonhos, tinham os corações a  bater a toda a força, barcos aproados ao mar imenso da vida, do querer, do amar, do possuir sem aniquilar.

Em cada um deles vibrava possante, profunda, envolvente e muito bela, a grande festa sentida por duas almas que se amavam muito e que só mais tarde o descobriram, e que só depois de terem feito a descoberta, é que plenamente se encontraram.  


Descoberta das descobertas, que nunca outra para eles antes tinha sido tão plena e tão compensadora.

 As lágrimas dela talvez dissessem:  


— Meu amor, valeu a pena cruzar o caminho de ida e volta, valeu a pena reconhecer que te vesti por vezes a roupa  que te não servia, que me enganei, ao interpretar o muito amor que sentias, mas que a minha perceção insuficiente não lograva entender,  mas foi tudo por amor, talvez deturpado, mas era amor, talvez afogado por contradições nascidas nas minhas tempestades, mas acredita que era amor, queria-te  mais junto de mim, queria que voássemos para que não ficássemos sempre presos ao chão, queria que conseguíssemos estar juntos do louco puro e bom que permanecia no cimo da colina  e apontava um caminho diferente, com mais azul, com menos preconceitos que sujam a mente, tapam a luz e diminuem a estatura do homem.

Mas eu não via o quanto tu, na tua difícil batalha, estavas empenhado para me dar o suporte, a fim de que eu tivesse a capacidade de sonhar com a colina e com um mundo mais bonito.

Hoje sei que cada um de nós tem o seu ritmo e o seu campo, gosto de ti como és, aceita-me assim como sou, o amor é a senda por onde ambos transitamos em direção ao que é nosso, à nossa felicidade, à nossa comum elevação.

Cada um de nós tem a liberdade de voar pelos seus horizontes, mas o nosso amor é a árvore acolhedora onde podemos regressar e colher a paz, no descansar de cada subida.

Descobri que quando casámos apenas éramos aprendizes de nubentes, por isso não casámos naquela altura, apenas começámos a aprendera ler juntos o romance da vida, o nosso casamento é hoje, agora que tu sabes muito mais de ti e de mim, agora que eu conheço muito mais de nós os dois.  


E as lágrimas dele talvez dissessem:

 — Perdoa por não ter visto mais cedo caminhos que tu já vias, por não ter conseguido levantar um pouco mais os olhos do chão da minha luta, por não ter logrado ser mais amplo, mais empático e abrangente, por não ter lido tantas belas linhas que existiam no teu livro de amor, de sonho e de encantamento, por não ter entendido tantas profundas emoções que nasciam dos teus beijos, tantos mundos do espírito dos quais me mantive demasiadamente distante.

Vem, meu amor, que contigo as solidões acabaram, as perguntas de respostas complicadas deixaram de fazer sentido,

O mundo é mais belo, porque visto em conjunto pelos nossos sentidos, os do corpo e os da alma; quando era visto só pelos meus, nele percebia menos elevação e maravilha.


Mas quem disse tudo isto foram as lágrimas, porque as palavras não se atreveram a dizer coisa alguma, pois que elas são meros códigos, não raro limitadas demais para expressarem tudo o que a alma sente.

As lágrimas nasceram antes das palavras, antes que o homem soubesse falar já sentia, já chorava, já as emoções diziam muitas coisas que as palavras mais tarde tentaram reproduzir.


Por mais momentos que passassem, aquele em que se reencontraram ficaria sempre na memória deles, porque foi gravado a letras de ouro pela espontaneidade recíproca de duas pessoas que, tendo experimentado o afastamento, agora mais sabiam dar valor à união.


A certa altura, quando ela já se sentiu capaz de falar, ela disse:


Amor, quero ler-te algo que trouxe para ti.

Ele assentiu, enquanto ela retirava da sua malinha de mão uma folha que, cuidadosamente desdobrou.

Pensava o Carlos que a Leonor lhe iria ler algum poema que tinha feito para ele, como nos antigos tempos de namoro.


Contudo, ela, depois do acariciar, usando aquela voz suave que sempre a caracterizou, leu o seguinte:


AMOR, NÃO TE PERCAS DE MIM


Perdemo-nos em recantos da vida,

Separados por difíceis contingências,

Que agitavam duas existências,

Postas em diversos planos da subida.


Nesse tempo, eu não me conhecia;

Mas no que te dava, era verdadeiro.

Eu queria cumprir o que prometia,

Mas tinha de conquistar-me primeiro.


Puro, eu sonhava com a beleza,

Não sabendo como a preservar.

Era aquele ser que ama e reza,

Mas que se engana, ao praticar.


Sei que nos encontrámos fora de horas,

Quando eu mal acabara de cair.

Perdoa; vai dizendo onde moras,

Para que nos voltemos a unir.


Vou recompondo as minhas migalhas,

Apoiado na fé, mas também na dor,

Para dar-te alguém com menos falhas,

Que seja firme ao falar de amor.


Talvez um dia tenhamos um lar,

Que tenha o amor por viga central;

Onde quem se perdeu se possa achar,

Sentindo a luz dum nobre ideal.


Ou talvez eu chegue tarde demais,

Quando já não queiras ficar comigo.

Mesmo assim não olvido jamais,

Que foi bom descansar no teu abrigo.


O bem que fizemos sempre perdura,

No coração de quem o recebeu.

Eu ainda me banho na doçura

Do bem que a tua alma me deu.


Era o poema que ele tinha feito, o único da sua vida, do qual tinha dado uma cópia ao Daniel.


Depois de terminar a leitura, ela disse:


- Meu querido, que bonito, como as tuas palavras me tocaram no mais profundo da alma!

Como eu gostaria de ter feito um poema também para ti.

Mas para quê, se, no essencial, eu diria aquilo que tu aqui disseste?


Ali estavam eles, unidos, abrindo-se à beleza, lendo poesia, tal como tinha acontecido nos tempos de namoro.

Como a vida é sábia, permitindo que dois seres se reencontrem, mais firmes e belos, depois de, vagueando pelos intrincados trilhos da existência, se terem, um do outro, temporariamente perdido.

 

Entretanto levantaram os olhos e viram o Daniel, a alguns metros de distância, com a máquina fotográfica, que registou, momento a momento, este maravilhoso reencontro que ele tanto ajudou a que acontecesse.


Ele veio, sentou-se junto deles, mas, por alguns minutos ninguém disse nada, porque aquele momento era belo demais, para que as palavras o conseguissem traduzir.

O Carlos e a Leonor ficaram de mão na mão, de olhar no olhar, de coração no coração, sentindo o doce fluir da vida, do vento que lhes refrescava a cara, dos pássaros que lhes adoçavam a alma, do rio que lhes lavava os olhos e do amor que, enchendo-os de plenitude, os integrava no belo e profundo concerto da natureza.


Por sua vez, o Daniel, vendo-os assim tão felizes, sorvia o doce perfume da amizade, o qual amplamente o gratificava pelo reencontro daqueles seus dois amigos, que ele ajudara a que se transformasse numa boa realidade.


Amizade, expressão maravilhosa do ser,

Força global do subir,

Empatia no entender;

planta que não se cansa de florir.


Amizade, tu que te firmas sem papeis,

Que não pedes rituais para existir,

Que, sem falar de tempo, és eterna,

Pois quem alguma vez sentiu a tua essência,

Jamais consegue deixar de beber na tua fonte.


Tu brotas da pureza do amor e engrossas o luminoso rio do bem,

O qual se irá alargando, até que toda a humanidade nele se possa banhar.


Amizade, tu já existias antes das convenções

 e permanecerás depois de terem caído os preconceitos.


A certa altura o Daniel, desdobrando um papel que trazia na mão, olhando fixamente para o casal, disse-lhes:


- Aceitem o presente que este amigo trouxe para vocês.

E, sem mais delongas, leu em voz alta, este poema que dias antes tinha feito a pensar neles, seus grandes amigos de sempre:



 Feliz o porvir, quando já se possa dizer,

Que se respira, na terra, amor e perdão;

Que a gente constrói, com fé, a evolução,

Usando o mapa do bem, no sentir e saber.


Despertai, gente, para aquilo que permanece;

Dai mais brilho à luz que está na vossa essência.

Deitai fora aquilo que vos empobrece,

Enchendo de amor e fé, a vossa consciência.


A nossa vocação é eterna e global;

Não fixemos a alma em pesadas bagatelas.

O nosso espírito é imaterial,

Mesmo carecendo dos planetas e das estrelas.


Quando fazemos o mal, criamos cicatrizes,

Que se gravam no nosso corpo espiritual;

Que só curamos, vivendo na boa moral,

Mudando as más horas, em bons tempos felizes.


Nas vidas, escrevemos diversas histórias;

Algumas nos degradam, mas outras nos enobrecem.

Conforme as ações que as nossas mentes tecem,


Assim nos virão as misérias ou as glórias.


Tratemos o tempo, como uma grande riqueza,

Que devemos utilizar em nosso favor.

Nós existimos no oceano da natureza,

Onde só se navega bem, no barco do amor. 


Todos rejubilaram de contentamento e, cada um, à sua maneira, agradeceu a Deus por tantas bênçãos recebidas.

No coração deles ecoavam, firmes, doces, eternas, sábias e harmoniosas, aquelas palavras do Divino Mestre constantes do Evangelho de Mateus:

… “Bem-aventurados os misericordiosos, pois obterão misericórdia.


 Bem-aventurados os puros de coração, pois verão a Deus.


 Bem-aventurados os pacificadores, pois serão chamados

filhos de Deus.”




Faro, 16-7-2026



José Bento


FIM


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