AMOR, NÃO TE PERCAS DE MIM CAPITULO III
CAPÍTULO III
Quando um casamento destes se estilhaça, forma-se uma nuvem densa de farrapos dele que se espalham em derredor e nenhum dos ex-cônjuge fica imune ao seu impacto.
São farrapos que incomodam, que torturam e, sobretudo, que questionam.
Esses pedaços disformes, tóxicos e ativamente dolorosos, aos quais não se podem opor distâncias, paredes, portas ou janelas, não ficam apenas com aquele que permaneceu na casa deixada, mas abalam também com aquele dos dois que partiu.
Com a Leonor também foi assim; apesar de ter ido residir a centenas de quilómetros da casa que deixou, o casamento foi com ela, o Carlos, os bons momentos que viveram, as ofertas que, de quando em vez, para surpreende-la positivamente, ele lhe fazia, o quanto ele se esforçava para que tivessem bom nível de vida, materialmente falando, enfim, desiludira-se quanto a algumas das expectativas que tinha colocado no seu casamento, mas, de quando em vez, dava consigo a temer ter sido injusta ao ir-se embora, por não ter feito tudo o que devia e podia para que um casamento de mais de trinta anos subsistisse.
Sofria, enquanto permaneceu na relação conjugal, pelas lacunas que nela encontrava, mas penalizava-se agora também, fora dela, pelos sofrimentos que provocou e pelas saudades que já ia tendo do que tinha deixado; o marido, o cão, a casa, a cidade, os vizinhos e os amigos.
Ainda que tentasse repelir tais pensamentos, não raro era perturbada pela acusação que lhe era feita pela sua consciência, de ser uma desertora, de não ter honrado o compromisso que tinha assumido, perante Deus e perante o Carlos, de estar ao lado do marido, não só nos bons, mas também nos maus momentos.
Afinal, ela acusava-se a si mesma por não ter sabido pautar a sua vida pela Lei Divina do Amor.
Ele teria desistido da construção a dois, ou foi antes ela que interpretou o modo de ser dele, como equivalendo a tal desistência?
Será que ela se conseguiu colocar no patamar social dele, educado como rapaz, com menos detalhes, ao nível da ternura, do que o que acontecia, nesses tempos de juventude com a educação da generalidade das moças?
Será que ela conseguiu avaliar o muito que ele tinha de trabalhar, fora de casa, em condições bem mais difíceis do que as dela, para trazer os proventos que permitiram que eles tivessem uma vida economicamente desafogada?
E que desarranjos lhe teria feito a ele, na sensibilidade, a guerra na Guiné, a permanência em ambientes de extrema desumanidade, onde se mata para não se morrer, onde o guerreiro é obrigado a endurecer o seu interior, para se salvar, num campo de batalha em que, ou morres tu ou morro eu, onde falham as filosofias, as teorias mais belas, para se impor apenas uma prática brutal?
Quantas noites ela deu pelos pesadelos do marido, por ele a contorcer-se na cama aflitivamente, gritando, certamente estando a presenciar, enquanto dormia, cenas do mais bestial horror?
Ela docemente despertava-o, acariciava-o e ele acalmava-se, como se fosse uma criança aflita que tinha encontrado o colo da mãe.
Quantas vezes ela, ao sentir-se desiludida com o casamento, se fechou em si mesma, avaliando a situação apenas pelo seu próprio prisma, o da mulher incompreendida, da mulher não amada, da mulher que é muito sensível, muito culta, muito capaz de voar nos mais belos horizontes, mas que vive com alguém que não tem nenhum desses atributos?
Que passos deu ela, concretamente, para se despir dos seus preconceitos e para, com base no mais puro amor, dar ao marido, já não só as duas mãos do corpo, mas, muito mais do que isso, as mãos da ternura, da compreensão e da entreajuda, para que ele chegasse aos patamares culturais a que ela já tinha acesso?
Por que é que ela, ao sentir lacunas no seu casamento, não partilhou isso com o marido, a fim de que ele pudesse penetrar um pouco na mente dela e se pudesse questionar a si mesmo, fazendo na sua vida, as alterações que pudessem colmatar tais lacunas?
Por que é que ela se mostrava, como estando feliz com o seu casamento, quando, de facto, isso não correspondia à realidade?
A consciência dela falava-lhe, mesmo que o fizesse de forma desagradável, fazia-lhe estas e outras perguntas, às quais, não raro, ela não conseguia dar uma resposta satisfatória.
Talvez a sua consciência lhe tivesse feito também tais perguntas ainda antes da sua decisão unilateral de romper com o vínculo conjugal, mas ela foi-se fechando ao incómodo de analisar as questões que vinham do mais íntimo de si, as quais eram subterradas pela sua vaidade de se julgar a inocente mulher, culta e muito sensível, mas que não era amada pelo seu marido.
Soubéssemos nós que, em cada consciência, existe uma centelha da Divindade, a qual nos aponta o bom roteiro e nos critica, sempre que o não seguimos, e prestaríamos sempre muita atenção a essa bússola que já nasceu connosco e que nos acompanhará para sempre, onde geramos o nosso Céu ou o nosso inferno, onde todos os tons, os negativos e os positivos, são sempre devidamente equacionados e tidos em conta, para que entendamos as nossas faltas e busquemos os perdões de que necessitamos.
As tentativas que ela tinha feito antes de unilateralmente romper a relação conjugal, parnão ouvir a sua consciência, tornaram-se cada vez mais infrutíferas, há medida que mais tempo passava, desde aquele dia de novembro de 2004, em que se tinha separado do marido, porque, a partir de então, o facto estava consumado e havia alguém a sofrer com o seu mau procedimento.
Quando falava telefonicamente acerca disto com o seu amigo Daniel, este ouvi-a atentamente e ia tentando aconselhá-la da melhor forma que conseguia.
- Leonor, a nossa consciência sempre nos mostra o caminho do bem, ela foi a luz que o Senhor nos deu para que possamos seguir o bom roteiro, mas nós, infelizmente, não raro tentamos não a ouvir.
- Daniel, mas a minha consciência agora fala-me mais amiudadamente e, mesmo que eu o tentasse, já não a podia ignorar.
- Sabes, querida amiga, a consciência torna-se tanto mais audível nas críticas que nos faz, -quanto mais nos afastamos da Lei Divina do Amor, causando, com os nossos procedimentos, danos para os outros e para nós mesmos.
Quando ainda estavas com o teu marido, tu analisavas a vossa situação conjugal, mal ou bem, isso agora não vem ao caso, mas ainda não tinhas praticado qualquer facto que fizesse sofrer a outrem.
Tu eras a única vítima da errada análise que fazias dos sentimentos e do modo de pensar do teu marido, como aliás várias vezes eu te disse.
Ele amava-te, mas tu pensavas que não; ele continuava empenhado na vossa relação, mas tu entendias o contrário e, por isso, sentias-te vítima duma indiferença da parte dele, que realmente não existia.
Contudo, quando abandonaste o lar conjugal, dessa forma abrupta e inesperada como o fizeste, causaste muito sofrimento ao Carlos, sofrimento esse que se foi prolongando, à medida que os dias passavam, sendo verdade que ainda hoje as feridas que lhe causaste sangram dentro dele.
Daí que a tua consciência mais te fale, mais te chame à atenção, para que tu reanalises a situação e para que reavalies se o teu modo de agir foi ou não o mais adequado e, para além disso, porque o que mais agora importa é o futuro, para que constates se deves continuar no caminho de rotura que desencadeaste, ou se deves tomar caminho diverso.
Amiga, ninguém pode eliminar um mau passado, mas todos podemos começar hoje a fazer um bom futuro.
Leonor, toma bem atenção a isto:
ninguém se deve agarrar às culpas provocadas por condutas erradas que praticou, ficando aí no imobilismo, numa paralisia inoperante, num constante lamentar do seu passado, ou então numa teimosia de quem se agarra ao facto consumado e permanece nele, mesmo concluindo que agiu erradamente.
A melhor forma de alguém se reabilitar e seguir na construção da sua felicidade, é fazer do hoje o primeiro dia do bom percurso de quem,
tendo humildade para reconhecer os seus erros, tudo faz, com muita fé e sinceridade para os retificar.
O Senhor não quer a destruição do pecador, mas sim a eliminação do pecado.
Podes crer que, se nós viemos à reencarnação, é porque somos espíritos ainda muito endividados, com muitas fissuras de personalidade para retificar, pois, quem já se depurou, não carece de cá vir, a não ser que o faça com espírito de abnegação, por missão, para ajudar os demais, mas esses são uma minoria.
Aproveitemos o tempo de vida física que Deus nos concede para ajustar os nossos comportamentos à Lei do Amor, corrigindo aqui o que ainda nos for possível corrigir, porque, depois de sairmos desta vida, seremos admoestados mais veementemente pela nossa consciência, por termos desperdiçado a importante chance que nos foi concedida, através da reencarnação.
Nessa altura carregaremos o remorso de quem poderia ter dado importantes passos no roteiro do seu aperfeiçoamento espiritual, mas que, por inercia sua, ficou muito aquém do possível.
Sentir-nos-emos como sendo aquele aluno que frequentou uma boa escola, mas que desperdiçou o tempo de estudo, não tendo conseguido concluir com êxito o respetivo curso.
Pediremos então encarecidamente que nos seja dada outra oportunidade, a qual, todavia, poderá demorar muito tempo a que ocorra.
Leonor, nós somos viajantes em busca do amor, permanentemente convidados a seguir na estrada do bem.
Quanto mais amor, mais felicidade, mais paz, mais capacidade de captar a potente Luz Divina que brilha no Reino de Deus o qual, como Jesus nos disse, está dentro de nós.
Duma dessas vezes em que conversou com este seu amigo, ele enviou-lhe, para o email, um poema da sua autoria, o qual ela leu e releu e que lhe deu luzes e forças para ir adiante, no caminho do seu autoaperfeiçoamento.
“Não me faças julgar os teus comportamentos,
Quando nem os meus, por vezes consigo julgar.
São muito complexos alguns dos nossos momentos,
Havendo conexões difíceis de explicar.
Não me peças para julgar em causa alheia,
Quando da minha causa me sinto ignorante.
O nosso querer atual provém duma teia,
Que nasce no nosso passado bem distante.
Muito do que somos está no inconsciente,
Sedimentado na senda das reencarnações;
Ligando-se a tantos factos e tanta gente;
Comprimido entre alegrias e deceções?!
Fomos crianças, em lares que nos desampararam;
Fomos adultos, em tronos que nos envaideceram?
Já chorámos, pelas esmolas que não nos deram;
E trucidámos, com forças que nos entregaram.
Deus, que é imenso amor e sabedoria,
Não condena, nem absolve definitivamente.
Há um tribunal, no existir de cada dia,
Para que, cada um se julgue eternamente.”
- É verdade amigo Daniel, - dizia ela, de si para consigo, já na sua nova casa do norte de Portugal – esse tribunal é o da nossa consciência, é o tribunal que não está situado em qualquer edifício, não é constituído por juízes que nos apreciam a conduta em dado momento, quando tratam do nosso processo, mas que depois passam para outro processo e já deixaram de se manter no nosso.
Esse tribunal está dentro de nós, quando menos esperamos o tribunal chama-nos à atenção, seja de noite ou de dia, estejamos sós ou acompanhados, esse tribunal, a propósito do muito e do pouco, mostra-nos detalhadamente factos que se passaram connosco e os quais já tínhamos esquecido, dá realce a situações que reputávamos de somenos importância, mas que eram relevantes, tudo está no nosso processo, com todo o detalhe, não só o que foi exteriorizado, mas também aquilo que esteve no nosso pensamento, tudo consta nesse pormenorizado processo que está sempre em atualização, nos recessos da nossa consciência.
Esse tribunal não se pauta apenas pelas leis dos homens, mas, com muito mais justiça e profundidade, rege-se pelas leis de Deus, por isso ele aponta-nos desconformidades que, perante os tribunais dos homens não existem, mas que, perante a nossa consciência, são muito relevantes.
Porque a consciência vai beber as apreciações que faz das nossas condutas à muito sábia lei do amor, ela não nos condena para nos punir, mas sim com o objetivo de nos ajudar à elevação, através do autoaperfeiçoamento.
A Leonor, desde que tinha saído de casa ia-se confrontando com o tribunal da sua consciência, passando a compreender mais profundamente, por experiência própria, não raro colhida na mestria da dor, como é que tal tribunal funciona.
o elixir do tempo também vinha encontrar-se com ela, provocando o seu amadurecimento, levando-a a reconciliar-se consigo mesma, transmitindo-lhe a clarividência que a ajudou a reconhecer que o núcleo da sua personalidade estava ainda por desvendar, não estando a boa via para o fazer, no enganoso balão da vaidade que a dava como sendo a mulher superior, mas sim na tranquila senda da humildade, que intimamente a desnudava, mostrando-lhe que ela ainda era a pessoa que muito carecia de aperfeiçoar-se e de buscar, nos parâmetros da fé e do amor, os muitos perdões de que precisava e os outros que devia conceder.
Ela cada vez achou mais sentido naquele conselho que já nos vem da Grécia Antiga, o qual nos incita:
“Conhece-te a ti mesmo.”
Tal como acontecia com o Carlos Fonseca, a memória dela, sem lhe pedir licença, ia-lhe lembrando importantes trechos do seu tempo de casada.
Certa vez, estando ela já na sua nova morada daquela linda cidade do norte de Portugal, numa tarde primaveril do ano de 2006, veio-lhe à ideia que, num dia igualmente primaveril, mas do ano de 1997, pela tardinha, depois de ter saído da escola onde trabalhava, tendo deixado o carro nas proximidades da igreja do Carmo, foi a pé até ao centro de Faro, passeando calmamente pelas ruas pedonais que ali então já existiam.
Ia disposta a sorver a tarde, a luz, os odores da primavera que se afirmava; tinha necessidade de repousar a mente, deixando que o mundo circundante entrasse, mas sem que isso acelerasse o seu ritmo, o qual ela desejava que fosse completamente tranquilo e descomprometido.
Pelo caminho telefonou ao marido.
- Olá querida, ainda bem que me telefonaste; ouvir-te dá-me um pouco da paz que preciso agora.
Imagina tu que vou a caminho do escritório dum cliente que lá tem uma grande fatura para me pagar e já está atrasado mais de trinta dias.
É que são mais de quinhentos mil escudos.
Sinceramente estou nervoso, porque dizem que ele não está em boas condições financeiras.
- Imagino como te deves sentir, Carlos. Mas tem calma, porque tudo se vai resolver. Olha, eu vou dar uma volta pela baixa.
- Sim, querida, faz isso, distrai-te, que bem precisas e, pelo menos, que um de nós possa arejar e ter paz.
A chamada terminou e ela continuou, calmamente, o seu passeio, naquela bela tarde, em que a natureza apelava à paz, à amplitude e à harmonia.
Ela foi-se abrindo, foi permitindo que penetrasse dentro dela o mundo anónimo, que, ao de leve, lhe tocassem por dentro as muitas pessoas que passavam, os artigos que se expunham, as imagens das esplanadas ocupando a rua em frente dos cafés e repletas de gente a desfrutar duma bebida e do prazer dum belo fim de tarde, as andorinhas que cortavam o céu, o imenso azul que envolvia tudo e a gente que até ao azul se elevava, pelo olhar e pelo gosto de descansar na plenitude da bela cor do céu, tantas cores mais tristes que, provavelmente, cada um tivesse lá dentro da sua alma.
Os odores de flores e maresia misturavam-se, invadindo a cidade.
Entrou na parte pedonal da rua de Santo António, ali perto da pontinha e lá a foi percorrendo descontraidamente.
Ia ouvindo um som confuso de vozes, de pássaros, de carros ao longe, de músicas de ambiente que vinham de dentro das lojas, mas todos aqueles sons, ainda que dissonantes, nela produziam o efeito duma orquestra com profundidade, permanente, do princípio ao fim da rua, não se distinguia este ou aquele solista, não ouvia esta ou aquela voz que estivesse mais saliente, parecia que algum maestro tinha nivelado aquilo tudo, era a cidade de Faro, no seu centro, na sua zona nobre, em fim de tarde duma primavera que já caminhava para o verão.
Era aquele um mundo de cores, de caras e de calma, em que toda a gente aparentava
exalar felicidade, agradecimento pela vida e desejo de chegar ao futuro, ao dia seguinte, ao ano e se possível até ao sempre.
Sentia a Leonor que a primavera da natureza tinha também florescido dentro das pessoas que ali estavam.
Aquela seria, provavelmente, a hora que muitas delas tinham escolhido para se esquecerem de tantas dores que as atormentavam, de tantas preocupações que as consumiam, a hora para afirmarem, perante si mesmas, que queriam ser felizes e que tinham, pelo menos momentaneamente, a possibilidade de o ser.
Para alguns, aquele seria um breve tempo de coragem, mas, para outros, seria apenas uma curta e consoladora trégua.
Tudo dependia de cada situação concreta e do ponto de vista pelo qual a mesma era encarada.
Ela estava também dentro daquela orquestra da cidade, fazendo parte dum concerto que era pacifico, espontâneo, calmo, que massajava o interior de quem ia passando e transmitia apenas a mensagem dum tranquilo presente; olha, o ontem já passou, o amanhã não se sabe se chegará.
Para quem a observasse, também diria que ela estava feliz, descontraída, nada mais a ocupando do que sorver o sol do agora, nada mais querendo do que mergulhar o olhar no suave enredo que fluía, qual flor que expõe integralmente as suas pétalas, sem restrições, num tranquilo entardecer duma tépida primavera.
É assim, cruzamo-nos com os outros, com as cidades, com a natureza e fazemos a nossa própria avaliação daquilo que observamos, a qual, não raro interpreta erradamente a realidade que nos cerca.
Mas ainda bem que, em dadas circunstâncias, vemos pouco, ainda bem que os olhos dela, nessa tarde, não podiam entrar dentro das muitas pessoas que ali estavam, pois de contrário, a diversidade dos mundos a que teria acesso, os muitos problemas que descobriria escondidos por debaixo de sorrisos bondosos, não a deixariam ter o descanso pelo qual naquele dia ansiava.
Aquela tarde era mais um delicioso tempo de entrada em si, pela via enganosa da autovitimização que, desde há anos ela escolhia, como sendo a única boa.
Percorreu a rua Dom Francisco Gomes, tendo chegado ao jardim Manuel Bivar, onde o ambiente lhe pareceu muito agradável.
Apetecia-lhe respirar outros ares, olhar o sol que se preparava para descer no ocaso e sentir mais plenamente a força da maresia que uma leve brisa arrastava para dentro da cidade.
Tudo ali lhe falava de liberdade e ela estava desejosa de lhe sentir de novo a pujança, o ardor, o permanente desequilíbrio controlado que, tal como no andar, passo a passo, nos faz progredir, buscando um novo apoio.
A certa altura ouviu o dedilhar suave numa guitarra e foi-se aproximando. Quem quer que fosse ainda estava encoberto pelos muitos assistentes.
Aquele tocar lembrava-lhe o tempo de namoro, a guitarra que o Carlos trazia ao ombro e que, naquele mesmo jardim, tocava só para ela, dando acompanhamento a qualquer balada que lhe dedicava.
Aquela guitarra de hoje, fazia-lhe lembrar a guitarra de antigamente. Ambas serviam para lançar beleza, ajudar a que os olhos se desviem da poeira do bulício social, erguendo-se para a harmonia, falamos dos olhos da alma, já se vê, porque o que era importante na guitarra não era o que se via, mas o que dela soava e que conseguia chegar ao interior de cada um.
A guitarra dos seus tempos de namoro lá estava na arrecadação, sem cordas, tinha sido desprezada, o Carlos nunca mais tivera vontade e engenho para lhe dar uso, nem àquela, nem a qualquer outra.
Quando chegou a cerca de uns dez metros do local onde o músico se encontrava, pôde finalmente ver que se tratava dum homem que teria uns trinta anos, que tocava sentado numa cadeira que certamente lhe fora emprestada pelo dono do café que estava próximo, e que tinha no chão um pano onde, quem quisesse, poderia depositar algum dinheiro, fosse para demonstrar o bem-estar que a música lhe trazia, fosse para ajudar o músico, que também precisa de subsistir.
Perto dele, estava uma mulher sensivelmente da mesma idade, que pintava a pastel.
Tudo levava a crer que seria a sua companheira; provavelmente, ambos tinham como um dos valores fundamentais fazer beleza e propagá-la para os outros.
Enquanto faziam arte namoravam, porque ambos conseguiam namorar sem dizer palavra alguma, sem que os corpos se tocassem, sem que os olhares se cruzassem, mas sabiam que estavam a namorar, porque seguiam no mesmo rumo, na mesma linha de pensamento, tinham quebrado as grades de cada um, enleando-se um no outro sem prisão nenhuma.
À noite dormiam enrolados pela beleza que, durante o dia haviam concebido.
Era muito bom fazer amor debaixo daquele lençol invisível onde cabia o mundo inteiro e que cheirava a infinito.
O dinheiro existente no pano que estava no chão era para os dois e já lá estava uma quantidade considerável de moedas.
Era a conta deles, o seu pecúlio, era o pão de cada dia,
não colhiam os frutos que a natureza dava, como o fizeram os seus antepassados há dezenas de milhares de anos, mas experimentavam colher as dádivas dos outros, assim podendo ver até que ponto é que a sua mercadoria, que não ocupava espaço e que nem tinha preço fixado, era apreciada por aqueles a quem se destinava.
Não tinham país nem cidade, não tinham bairro, possivelmente nem casa, a sua rua era o mundo inteiro.
Contudo, aquilo que acima dissemos acerca do modo de sentir e pensar destes dois artistas de rua foi o que a Leonor mentalmente construiu e que ela foi buscar aos refolhos da sua imaginação e ao mundo cor-de-rosa que ela, apesar de já ser uma mulher quase a atingir os cinquenta anos e de já ter mais de vinte anos de casada, ainda queria puerilmente pintar dessa cor.
O que sabia ela das dificuldades daquele casal, das frustrações que qualquer deles sentia, exprimindo algumas delas para que o outro soubesse que existiam e calando outras, deixando piedosamente o outro cônjuge ausente de tal realidade?
Será que a mulher não estava já cansada de tanta pobreza e incerteza?
Será que o guitarrista não estaria à beira do desânimo, compreendendo, talvez tarde demais, que a sua arte era mal-entendida e, sobretudo, muito mal paga?
Será que aquela frase que o Carlos lhe disse, quando ela lhe falou de serem artistas de rua, mais de dez anos antes, em Barcelona, não continha uma leitura da realidade muito mais correta e madura?
Enfim, a verdade é que ela, naquela tarde de primavera de 1997, não pensou em nada disso e, devido a não se ter feito a si mesma algumas destas perguntas, pôde desfrutar positivamente daquele momento, enfeitando-o com o grande anseio de beleza que tinha lá dentro, apesar de, possivelmente, ela já poder escassear nos dois artistas que então a inspiraram.
Ficou ali, entre os assistentes, comovida, sentindo as recordações que lhe vinham de tempos idos, das quais ela e o marido, em conjunto, foram protagonistas, que reputava de muito belas,
chorando os sonhos que se abafaram, tragando o tempo que deslizava com sofrimento e agora lhe sabia demasiadamente a inutilidade.
Ficou ali a sentir-se envelhecer rapidamente, precisamente naquele mesmo jardim onde há poucos anos era jovem, namorada, quando ainda tinha um olhar que sorvia toda a claridade e quando, para tudo e todos retribuía alegria e esperança.
Como às vezes somos os grandes inimigos de nós mesmos, tapando com a tristeza a flor da alegria, sobrecarregando-nos com situações deturpadas que não existem, plantando desnecessariamente a dor nos imensos horizontes da felicidade!
Ela não havia ainda descoberto que a alma jamais envelhece, antes sendo verdade que, se aproveitar devidamente o tempo, só pode é ganhar maturidade e beber um pouco mais daquela tranquilidade que caracteriza as almas felizes.
Por isso, se alguém se sente envelhecido por dentro, deve revisitar-se, deve analisar mais profundamente os parâmetros pelos quais enxerga o seu existir, pois algo na sua mente está em crise, pedindo uma solução que só a própria pessoa pode providenciar.
A certa altura, aquele músico cantou uma canção que lhe era familiar, era uma daquelas que ela mais gostava, quando ainda era estudante do liceu. «o louco sobre a colina», popularizada pelos Beatles.
A Leonor chorou, mais para dentro do que para fora, mas aquela melodia, as palavras atiradas com energia e doçura pelo cantor de rua, deram-lhe alento e, pela primeira vez, ela pensou que poderia estar sobre uma colina e ser louca, porque não inserida na torrente por onde a pretendiam arrastar.
Apetecia-lhe mesmo internar-se na sua loucura boa, estar sobre a colina e ver muitos verdes,
azuis e todas as demais cores que talvez mais ninguém visse.
Sentiu o desejo de ser mais livre, alguém que parte em busca de si, da resposta, do sonho feito luz, do sol feito abraço, da consumação da ternura
nos confins de qualquer lugar que talvez só exista mesmo dentro de alguns de nós.
Apetecia-lhe subir à colina e falar de verde, de amor, de entrega, de firmeza no compromisso, se precisas eu estou contigo, se estás débil conta comigo, se agora não sabes por que caminho deves ir, podes dispor de mim para te ajudar, se sentes ódio retira-o de dentro de ti, porque é uma espada que se vira contra ti mesmo, o desejo de destruição que tens é tempo perdido, mesmo que te tenham feito muito mal perdoa, se não conseguires amar quem te ultrajou, ao menos desliga-te dessa pessoa, passa de largo, mas não percas tempo no ódio, porque em cada dia que o sol nascer, deves ter a alma límpida para sentir o amor, para amar tudo o que está à tua volta, quando a noite cair deves estar em paz contigo e com os outros, para poderes levantar os olhos e ver o brilho do firmamento, para poderes ouvir os belos sons da noite, entrando profundamente em ti.
Mas talvez muitos dissessem:
— Mas tu és louca, porque é que te estás a dirigir a mim, se não me conheces?
Porque é que me estás a dar conselhos se, da vida, afinal, ainda poderás saber menos do que eu?
— Isto que faço não é loucura, diria ela, é amor, a loucura está aí em baixo, no carreiro de milhões de formigas que não conseguem olhar para a minha colina e sentir este verde que se pode ver mesmo sem olhos, sentir esta música que se pode ouvir mesmo sem ouvidos.
Se quiseres, sobe também a esta colina, e tu, e mais tu, e todos vocês, subam para aqui, transfiram a cidade para a colina, se os homens tivessem feito isso em Atenas não tinham mandado envenenar Sócrates, mas. Ao invés, teriam embarcado com ele rumo a princípios mais nobres.
Se o tivessem feito em Jerusalém não tinham mandado
crucificar Jesus de Nazaré, o espírito mais Sábio e mais Puro que alguma vez esteve na Terra, porque teriam conseguido ver que ele, pela palavra e pelo exemplo, nos ensinava o princípio de todos os princípios, a lei de todas as leis, o amor, que envolve, que dá segurança ao ser humano, a segurança de ser perdoado se errar, de ser compreendido, se divergir, de ser ajudado, se fraquejar, de bater a qualquer porta e ser bem recebido; esse amor que dá a qualquer pessoa o dom de se alegrar com as alegrias dos outros, de se sensibilizar com as tristezas alheias, de se sentir como sendo a parte do todo, irmã da flor, do pássaro e do mais pequeno dos seres da criação.
O amor que nos eleva, que nos sublima, que nos sintoniza com Deus, a Inteligência Universal donde o mais perfeito amor promana.
Jesus que trazia a chave para o mundo melhor e que, apesar de ter sido fisicamente morto, nos comprovou que a morte não existe, porque a vida continua mais resplandecente, na dimensão espiritual, para todos aqueles que lá chegam acompanhados pelos tesouros dos Céus.
Jesus que não deixou que essa chave se perdesse, pois que ficou guardada no coração de muitos que ainda hoje o seguem, porque, seja onde for, por maior que seja a opressão e a obscuridade, existe sempre um coração que vibra pelo amor, que o guarda lá dentro como sendo o mais rico de todos os tesouros e que é capaz de se sacrificar por ele, mesmo sofrendo a maior das dores, a mais degradante de todas as privações.
Jesus que, mesmo após ter sido fisicamente eliminado, apareceu resplandecente a Paulo de Tarso, às portas de Damasco, logrando transformar um dos mais implacáveis e ardorosos perseguidores do cristianismo nascente, num dos seus mais esforçados defensores.
Se os homens tivessem subido à colina em Roma, não teriam deixado que o perverso Nero mandasse queimar os cristãos, fazendo deles tochas para, à noite, iluminarem os seus jardins, onde decorriam as festas da degradação e do vício, tendo-os culpado injustamente pelo grande incêndio de Roma ocorrido no ano 64 da nossa era, mas tendo esse constituído apenas
o primeiro dos muitos martírios infames, aos quais os pacíficos seguidores de Jesus foram sujeitos, enquanto o império romano existiu.
Contudo, aqueles mártires e heróis, escrevendo páginas do mais puro amor e da mais luminosa fé, por terem os ensinamentos de Jesus Cristo bem acesos no coração, preferiram apagar-se na vida física, mas exemplificar aos demais, e para sempre, o quanto é importante ter um bom ideal, dar-se por ele e dar-se pela salvação da humanidade, essa multidão de gente que constitui a nossa família global, apontando eles o caminho da vida eterna.
Se os homens tivessem subido à colina em Londres, não teriam deixado que Henrique VIII mandasse matar Thomas Moore, o homem que, já naquele tempo, quando apenas se falava de escravos e senhores, de ricos e de pobres, de ganâncias e de guerras, teve a veleidade de escrever sobre um sonho bom, concebendo a ilha da Utopia, que falava duma sociedade mais justa, sem necessidade de exploradores e de explorados, de opressores e de oprimidos.
Se tivessem subido à colina na Lisboa do século XVI, não teriam deixado morrer Camões na miséria, pela pouca importância que então deram à sua obra, a qual continha poesia da mais genial, de entre aquela que alguma vez um ser humano concebeu.
Se os cristãos tivessem subido à colina, na Roma dos Papas, teriam visto que o Vaticano se fechou à luz Divina, quando criou o tribunal do santo oficio, apto, ávido e legalizado para queimar os tidos por hereges.
Os cristãos teriam visto, do cimo dessa colina, que a luz que vem de Deus entra espontânea e pura, traz vida e não morte e, por isso, ninguém tinha o direito de matar o seu semelhante, invocando o Santo Nome de Deus.
Do cimo dessa colina, os cristãos teriam dito aos santos padres de então que eles poderiam ser padres, mas que não eram Santos, que a Santidade não se adquire pela nomeação, nem pela riqueza ou pelo fausto, que a Santidade é um Dom e ninguém a concede, apenas se conquista, que não se vê, apenas se sente e se pratica, que não é nada que os homens possam comprar, mas apenas um estado de alma que se acende no amor e se traduz sempre na prática do bem.
Se os homens tivessem conhecido a colina e a ela tivessem subido em Paris de finais do século XVIII, não teriam mandado executar Luís XVI e Maria Antonieta, não teriam aprisionado os seus dois filhos, ainda crianças, vindo um deles a falecer, na prisão, vítima dos maus-tratos de que foi alvo.
Esses falsos revolucionários não teriam sentido a necessidade de juncar de sangue as ruas da capital da França com milhares de mártires, porque teriam compreendido que a verdadeira revolução é a que se opera nas ideias e nos sentimentos, não carecendo de ser afirmada pela violência desenfreada, desonrosa e cruel.
Se os homens tivessem subido à colina na Alemanha do século XIX, não teriam deixado de compreender que Beethoven foi génio duas vezes, porque conseguiu compor música da melhor, mesmo quando tinha grande dificuldade de a ouvir cá fora, apesar de a continuar a ouvir nitidamente, dentro de si, conseguindo elevar-se acima do flagelo e fazer ecoar para todo o sempre aquilo a que alguns chamam o hino da alegria, mas que foi composto por quem tinha tantos motivos para estar profundamente triste.
E são as sinfonias a soarem, fortes, profundas, arrancadas duma alma que, certamente, estava sequiosa de porquês, e venha o terceiro andamento da nona, triunfal, a orquestra, as vozes, a beleza condensada nas sequências sonoras, nos contrastes, tudo saindo da alma dum compositor que estava cheio de sons, apesar de ver o sino da igreja a abanar com os toques do badalo e ele não conseguir ouvir o retinir do metal no metal.
Quantas lágrimas. Agora os olhos viam o sino que badalava, o cérebro ouvia as orquestras que imaginava, o homem estava com a mente cheia de beleza e produzia-a para os seus semelhantes, regia a orquestra pela pauta, mas, quando terminou a sinfonia e vieram os aplausos, ele não os ouviu, apenas soube que estavam a acontecer, porque lhe acenaram.
— Maestro, volte-se para o público e veja, ponha os olhos nisso, desculpe lá, o mais importante não é ver mãos a baterem, mas antes ouvir-lhes o soar do aplauso, mas, meu caro maestro, a natureza tem destas coisas, e para os heróis como você, tanto faz ser com os olhos ou com os ouvidos, ou sem ambos, esses heróis estão acima de tudo, é um exemplo que a humanidade deve ter sempre presente para nunca deixar que se apague a chama da coragem, da fé, da beleza e do progresso.
Se as multidões tivessem subido à colina na Alemanha dos anos trinta do século passado, teriam visto que Hitler era um louco, um dos espíritos mais perversos que alguma vez a humanidade teve entre si, e tê-lo-iam aprisionado, antes que ele pudesse mandar eliminar tantos milhões de inocentes, ele não escondeu nada, no livro que escreveu anos antes dizia tudo, falava sobre o elogio da guerra, a proclamação da raça superior como princípio básico em nome do qual todas as atrocidades poderiam ser levadas a cabo, o ódio contra os judeus que era o pronuncio para os exterminar, portanto era só ter lido, era só ter relacionado as coisas, mas os alemães não quiseram subir à colina, por isso toda a Europa desceu às profundezas do horror.
Venham para aqui, subam a colina, a vida de cada um parece longa, mas é curta, cada um pensa-se como um grande valor, mas apenas tem um valor relativo, na grandeza da criação.
Venham para aqui poderosos do mundo, vocês estão num pedestal, mas nem por isso deixam de fazer parte da multidão que manejam, mas não amam, que exploram e governam, mas que não sentem, porque os vossos corações não se abrem para os problemas que vos rodeiam, para as lágrimas que se derramam, para as aflições que se sofrem,
quando as pessoas querem dar de comer aos filhos e não têm dinheiro para o comprar, quando querem um cantinho para poderem habitar condignamente e não têm quaisquer meios para obterem casa própria ou arrendada.
Olhem que esse pedestal é frágil, vêm as eleições e lá se vai o poder, abre falência a empresa e lá se vão as riquezas, os criados, os bajuladores, vem a doença incurável e lá se vai o homem que, dias antes, arrotava poder e alardeava sabedoria.
Ela sentiu, nessa altura, que gostaria de ser uma artista de rua, sem programa definido, sem vínculos que a prendessem a uma rotina predeterminada, sem barreiras na capacidade de amar. Apetecia-lhe partir, derramar-se pela terra inteira, ir de cidade em cidade, viver no imediato, colocar-se em qualquer praça e lançar beleza para a multidão, apenas com o desejo de que essas ondas de harmonia tocassem os corações dos que passavam e os ajudassem a abrir uma nova janela onde despontasse algum rasgo de luz, transmitindo um modo positivo e edificante de encarar a vida.
Quando a canção acabou, aproximou-se daqueles dois artistas e colocou no pano uma nota de cem escudos.
Eles agradeceram tão valioso donativo, que era fora do comum; mas só ela podia avaliar quanto maior e mais importante tinha sido a dádiva que eles, sem que o soubessem, lhe tinham entregue.
Nesse dia primaveril de 2006, cerca de nove anos volvidos, tudo aquilo lhe passou pela mente, nítido como se tivesse acontecido no dia anterior.
Mas agora havia uma tonalidade diversa que ia tingindo aqueles factos.
Houve uma voz dentro dela que, para além do mais, lhe transmitiu esta significativa mensagem:
Leonor, tantas ideias belas e boas, tanto amor pelos outros, tanta luz que pensavas poder espalhar em teu derredor e, no fim de contas, faltava-te dar aquele passo, que para ti era o mais importante de todos eles, ou seja, iluminares-te a ti mesma.
Leonor, tu nem imaginas quantos líderes políticos e quantos líderes religiosos, ao longo da história, inflamaram as multidões com discursos cheios de ideias e palavras belas. Contudo, não se preocupavam em colocar na sua própria vida a substância que nos discursos aconselhavam aos outros.
Lançavam palavras que não se amparavam no exemplo, propagando para fora a beleza e o amor que não tinham dentro de si.
Mas, para além de lhe ter feito saber aquilo que acima referimos, a consciência dela continuou a reanalisar a situação.
Que ideias tão inspiradoras e elevadas que lhe vieram, há nove anos, a propósito de ter presenciado aqueles dois artistas.
Contudo, o marido não pôde desfrutar da beleza que eles transmitiam, porque ele estava embrenhado numa missão que poderia ser crucial para a empresa de que ambos, ele e ela, desfrutavam.
Aliás, se não fossem os bons proventos que essa empresa gerava, ela não teria tido a oportunidade de ter deixado cem escudos no pano daqueles dois artistas.
Teria colocado algumas poucas moedas, de pequeno valor, tais como as demais que lá já estavam.
O marido estava em busca de não ficar sem várias centenas de milhares de escudos que tinha na mão dum cliente, que, provavelmente não lhe queria ou não lhe podia pagar.
O marido, naquela precisa tarde em que os factos supra narrados ocorreram, não podia pensar no cimo da colina, na beleza, no azul, no ir por aí sem compromisso, no quanto é maravilhoso viver com plena liberdade, ao sabor do dia que vem e das dádivas de cada um.
Ele sabia que, na vida dum empresário, ou se ganha, por vezes muito, ou se perde, por vezes tudo, nada havendo de garantido, não sendo aconselhável que alguém se enrede em ficções, por mais belas que elas sejam, porque a realidade económica
é extremamente pragmática e objetiva.
O Carlos não tinha ninguém que lhe garantisse o salário no final de cada mês, os subsídios de férias e de natal, os pagamentos das ausências por doença, enfim, ele vivia numa guerra permanente, apesar do país estar em paz, guerra essa que se fazia nos meandros da concorrência, dos rácios económicos, das apreciações bancárias, dos almoços em que, mais que para comer se vai para não perder o cliente, enfim, o marido, sem que ela o soubesse e nem sequer o suspeitasse, era muito mais escravo do que ela e, mais do que ela, tinha a necessidade de travar a sua batalha da libertação, no campo dos teres, para que ambos não sucumbissem nos dois campos, o dos teres, mas também o dos seres, porque ninguém se sente bem, quando os meios de subsistência estão muito mal.
Lembrou-se ela ainda de que, a quando do telefonema que tinha feito ao marido e de que acima falámos, ele lhe deu boas energias, desejando-lhe uma boa tarde de paz, enquanto ele ia mergulhado na sua difícil guerra.
Mas a consciência continuou a recordar-lhe esse dia primaveril de 1997.
Quando à tarde ambos se juntaram, em casa, ela não se lembrou de lhe perguntar se ele tinha ou não logrado receber essa importante quantia, porque isso lhe passava ao lado, pois que ela era a mulher que se julgava sobre a colina, mas que gostava de viver cá em baixo, na rica mansão construída com a muita dádiva do marido, o qual tinha de andar mourejando no carreiro das formigas que ela tanto abominava.
Ela, nessa primaveril tarde de 1997, era a pessoa que tinha assumido um compromisso, como mulher casada, como mãe de família, como esposa, a qual desfrutava dum nível de vida a cima da média, mas que desejava não ter compromisso nenhum, ainda que gostasse de ter acesso a tudo de bom que da matéria lhe vinha e que fluía do compromisso que o marido continuava a cumprir com amor.
A consciência demonstrava-lhe claramente que ela tinha andado muito longe do altruísmo que tanto alardeava.
Ela, que falava em respeito pelos compromissos, tinha desdenhado daquele que tinha assumido, diante do altar, no ano de 1974, numa das igrejas de Faro.
Ela, que falava em vida liberta, ao sabor do que cada dia desse, sentia-se bem, enquanto foi funcionária pública, a receber o seu salário mensal sempre pontualmente pago e a desfrutar de todos os bons rendimentos que da empresa lhe advinham.
Ela, que tanto falava de empatia, deixou, por um ato seu unilateral, a debater-se entre vagas duma dolorosa solidão, o homem com quem tinha vivido cerca de trinta anos e deixou em sofrimento o cão, em relação ao qual se tinha assumido, como sendo a sua zelosa dona.
E, no fim de contas, com muita clareza, perguntava-lhe a consciência, nesse primaveril dia de 2006:
Leonor, afinal, desde que saíste da tua casa, em Faro, e já lá vai cerca de um ano e meio, o que é que fizeste que te tivesse realizado?
Onde é que estão a tua colina e o teu verde, a tua liberdade, a tua beleza e a tua capacidade de a pôr em prática, posto que nunca lograste transformar em realidade o teu sonho, apesar de teres quebrado os teus compromissos, aos quais tu atribuías as causas para todos os teus males?
Leonor, as palavras bonitas só se tornam realmente belas, quando são concretizadas, através do bom exemplo.
Recorda as palavras de Jesus Cristo escritas no Evangelho de João, pelas quais somos incitados a que nos amemos uns aos outros, como Ele nos amou.
De facto, ao romper unilateralmente o seu compromisso conjugal, ela ainda não tinha entendido que a pessoa realmente livre não é aquela que rompe displicentemente os compromissos, mas sim aquela que os rega com a sua entrega, transformando-os em fonte de felicidade para si e para os outros.
Por isso, a pessoa liberta não precisa de subir à colina, para se afastar dos demais, mas opera no seu ambiente a iluminação, para que os outros possam desejar compartilhar consigo da boa liberdade, a qual tem por alicerce o mais belo e profundo amor.
A pessoa liberta não quer subir sozinha, não quer lograr sentar-se confortavelmente instalada nos jardins do seu paraíso, sabendo que existem muitos sofredores que se debatem nas tormentas do seu inferno.
A pessoa, liberta pela iluminação do amor, ganha uma enorme empatia, entristece-se com o sofrimento dos outros, é assim como o pai ou a mãe que não se sentem bem, enquanto os seus filhos não entram em casa e se resguardam das agruras das tempestades, no amparo da sua companhia.
Mas a verdade é que, naquele dia primaveril de 2006, o tempo começava a fazer nela a sua obra de amadurecimento, com muitas passagens pelas dúvidas e pelas dores, atuando sempre da forma sábia para a qual está por Deus programado.
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