AMOR, NÃO TE PERCAS DE MIM CAPITULO II
CAPÍTULO II
Quando o Fonseca despertou, nessa manhã de sábado de 2006, há muito que a noite tinha cedido o lugar ao dia, o sol já ia alto, o relógio já tinha badalado as onze horas.
Ele tinha a cabeça pesada, com uma ligeira dor, sentia-se como se fosse alguém que, a dormir, tivesse levado uma grande sova, quer no corpo, quer na alma.
Estava amolecido, não lhe apetecendo ter qualquer atividade.
Ficou satisfeito por estar a iniciar um fim de semana.
Telefonou para a loja, falou com um dos vendedores, o cláudio, deu algumas instruções e disse que já lá não iria, pelo que se despediu, com um até segunda.
A princípio estranhou ver ali aquele intruso, aquele atrevido que nunca fizera parte do seu círculo de relações.
Mas, pouco a pouco, foi-se lembrando da véspera, da forma como o cão tinha entrado em casa e do porquê de ali ter ficado.
Mas não se foi recordando apenas disso, lembrou-se também da tempestade da noite anterior, daquela que assobiava lá fora e da outra, muito pior e mais agressiva, que o tinha massacrado por dentro.
Sentia-se vazio, cansado, mas estava mais tranquilo e mais harmonizado consigo mesmo.
Certamente que, ao dormir, a sua mente terá feito um importante trabalho que, enquanto ele estava desperto, não lhe tinha sido possível efetuar.
Talvez isto seja uma frase batida, talvez as mudanças repentinas num homem que já está quase a completar cinquenta e oito anos não sejam muito críveis, ou pelo contrário, também se pode dizer que \só uma pessoa que está no seu processo de amadurecimento é que encontra razões para mudar de horizontes e de atitudes.
Seja como for, o que é verdade é que o Fonseca daquela manhã era um homem diferente do da véspera, já mais reflexivo, mais atento a torrentes de pensamentos e estados de alma que antes lhe passavam despercebidos, e com menos medo de se questionar e de, sem reservas ou melindres, se ter de responder.
Também se poderá dizer algo que é plenamente verdadeiro: o sofrimento não é sempre um mal, pois, para quem o queira enfrentar no bom sentido, ao dilacerar, regenera, ao fazer doer, amacia e ao fazer chorar, ajuda a que uma pessoa se dispa de muito lixo que o sufoca, impedindo o seu autoconhecimento e o seu progresso, no respetivo roteiro evolutivo.
O sofrimento, se enfrentado no bom sentido, consegue esculpir brilhos dentro de nós, retirando limalhas, trazendo-nos humildade, lavando-nos na fé e impulsionando-nos para dar passos decisivos, a fim de que logremos obter perdões de que muito necessitamos e também, para além disso, a fim de que concedamos os perdões que de nós dependem e dos quais outros tanto precisam.
Perdoar; que atitude tão necessária à limpeza da alma que é essa!
Quantas pessoas ficam amarradas a outras, só pelo facto de se recusarem a perdoar, permanecendo a remoer ódios, ressentimentos e desejos de vingança!
Bem nos incitou Jesus, ao ensinar-nos a orar, a que pedíssemos ao Pai que nos perdoasse, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido.
Naquela manhã, ao contrário do que sucedera no dia anterior, o tempo estava bonançoso, o sol brilhava em todo o seu esplendor, era um daqueles dias de primavera em pleno janeiro, mais bonito porque chega depois da borrasca e deixa que o sol ilumine energicamente um azul límpido e forte dum céu que ontem era escuro e hoje convidava a que os olhos se levantassem para ele e mergulhassem na plenitude da sua cor, recebendo dela o muito de bom que o azul celeste nos consegue transmitir.
Ontem o mau tempo ajudava à tristeza, mas hoje o bom tempo convidava à paz e à esperança.
Abriu a porta e chamou:
- Pastor, vai lá fazer as tuas necessidades e desempenhar a tarefa de guarda, que tanto te agrada.
E ao pronunciar o nome do cão, veio-lhe à ideia que talvez fosse mesmo dum pastor que a sua alma necessitasse, como ovelha desgarrada que andava perdida do bom rebanho, do bom caminho e dos bons valores.
Pensou então no Daniel Brito, que não sendo pastor, todavia era um ser humano maravilhoso, muito ponderado, muito conhecedor dos meandros do espírito e sempre disponível para ouvir os amigos, quando era para tal solicitado.
Pois sim, o Carlos tinha muita necessidade de conversar com ele acerca da tempestade que lhe devastava o íntimo, o que faria, logo que a oportunidade surgisse.
Sabia-lhe bem que fosse sábado. Começava ali mais um fim de semana, uma pausa de dois dias nos afazeres profissionais, a qual lhe vinha mesmo a calhar, a fim de que pudesse estar mais disponível para se ouvir a si mesmo e para buscar muitas respostas que ainda lhe faltavam.
Constatava agora mais nitidamente que as tempestades cá de dentro não são como as que varrem o céu, apesar de terem ambas em comum o facto de serem tempestades e de, ao mesmo tempo que convulsionam também arejam e limpam.
Contudo, as tormentas do íntimo não vêm nesta ou naquela estação, não escolhem tempo, nem espaço, nem oportunidade, desencadeiam-se e permanecem enquanto existirem os fatores que as causaram.
Delas não nos podemos abrigar no conforto da casa, fechando portas e janelas, porque elas estarão connosco, onde quer que estejamos, fazem parte de nós, são um alarme que toca cá dentro e que indica que algo está mal e pede por ser resolvido.
Muitos de nós sentimos esse alarme, mas fazemos de conta que ele não existe; quanto mais ele retine, mais o queremos abafar; quanto mais ele se torna incomodativo, mais arranjamos barulhos cá fora que abafem o bom barulho que dele, lá de dentro, nos provém.
O Carlos Fonseca concluiu, nessa manhã, mais claramente do que alguma vez o tinha podido
constatar, que ele tinha sido desses, dos que tentaram não ouvir os alarmes que, repetidamente, anos a fio, lhe tocavam no íntimo, tendo ele gerido a sua vida, como se tudo ficasse cá fora, não dando passos no seu interior, não se perguntando acerca dos porquês da existência, acerca da qualidade dos seus sentimentos e pensamentos e, já agora, também acerca da qualidade da sua relação conjugal.
Aquilo que a Leonor fazia demasiado, nem sempre no bom sentido, tentando avaliar o seu matrimónio a propósito de tudo e de nada e culpando a relação conjugal pelas suas frustrações pessoais, o Carlos fazia de menos, dando essa relação por adquirida, por estável e boa, dispensando-lhe apenas o tempo que lhe sobrava da gestão da sua vida comercial.
No fim de contas, silenciosamente e sem se darem conta disso, ambos se iam separando afetivamente, ela por ir aumentando a sua frustração e ele por ir paralisando as suas iniciativas, no sentido de dar mais de si ao seu casamento, que reputava de bom e suficiente.
Precisou, naquele momento, de sentir uma réstia de família, de se alimentar desse substrato bom que afetivamente havia construído ao longo de mais de trinta anos e, por isso, lembrou-se de telefonar para a filha.
Teve saudades de ouvir aquela voz que tantas vezes tinha enfeitado os seus dias, transmitindo-lhe muita felicidade.
Não resistiu ao impulso e ligou-lhe. A conversa foi de circunstância. Ela estava de saída, ia almoçar fora com o marido, e, apesar da Sara o não ter dito expressamente, ele entendeu perfeitamente que, naquela altura, a moça não tinha tempo para falar com o pai.
O que o deixava preocupado e pesaroso, é que ela nem teve tempo naquela ocasião, nem o tivera noutras em que ele a tinha procurado e sempre tinha sentido, da parte dela, uma frieza que muito o entristecia.
Afinal, a sua filha, o rebento que ele tivera tantas vezes ao colo, a menina para quem ele tinha transferido muitas das suas expectativas em busca de realização pessoal, também tinha partido, não só fisicamente, mas também no afeto.
Nova família, marido, filho ainda de tenra idade, sogros, novos amigos, profissão próspera, tantas coisas boas, tantas alterações, que não lhe deixaram espaço para a relação afetiva com um pai que, até então, estava plenamente convencido de lhe ter dado tudo o que podia e devia.
Ele sentiu-se mais só, depois de desligar o telefone, do que se sentia antes da chamada se ter iniciado.
Lembrou-se ele então de que a sua filha, mesmo depois de tomar conhecimento da partida da mãe, mesmo sabendo o muito que o pai tinha sofrido com isso, não teve a iniciativa de lhe telefonar, para lhe dar um pouco de conforto.
No entanto, se a situação fosse diferente, se fosse ela que tivesse sido abandonada pelo marido, o Fonseca faria tudo o que estivesse ao seu alcance, iria ter com a filha no primeiro avião, se necessário, para lhe prestar a sua ajuda, para lhe dar o seu carinho, como fazia, quando ela, ainda criança, caía no chão e começava a chorar, apressando-se ele a erguê-la e a confortá-la no seu colo.
Pela primeira vez, ele disse para consigo: — Não tenho nada. Nem mulher, nem filha, nem pais, nem qualquer pessoa da minha família que, afetivamente, me sirva de referência.
Foi uma constatação que o deixou extremamente magoado, que lhe tocou lá no fundo, como se fosse um golpe muito doloroso e que o fez ter uma sensação inteiramente nova, mas brutalmente desagradável:
Sentiu-se abandonado, repudiado e extremamente pobre.
Mal sabia ele que, de lá da dimensão espiritual, quer os seus progenitores, quer os da Leonor, derramavam ondas de muito amor sobre ambos, pedindo ao Senhor que os iluminasse, para que a felicidade voltasse a tingir de belos e perfumados tons a vida daquele casal desnecessariamente desunido.
Depois de ter ido à cozinha, onde preparou e bebeu um café, regressou à sala e sentou-se junto à grande mesa de madeira maciça de castanho, que estava no centro da sala, com os cotovelos apoiados nela e o rosto apoiado nas mãos, ali tendo ficado imóvel, minutos e minutos que se sucederam perante a sua incapacidade de tomar qualquer decisão para abandonar aquela posição de aparente inatividade.
Mas a sua mente trabalhava e, pouco a pouco, ele foi sendo espetador dum filme que passou a desfilar no cinema da sua memória, do qual ele era um dos atores principais e, simultaneamente um espectador obrigatório, filme esse que não precisava de qualquer outro ecrã senão daquele que existia dentro de si.
Os olhos estavam cerrados, mas ele via passar diante deles uma pelicula que representava pedaços da sua própria vida, dos tempos em que era moço e tinha pais, tios, amigos e vizinhos; dos tempos em que encontrou a namorada, que mais tarde ficou
sua esposa durante décadas e que lhe deu a filha, esta que ia crescendo, todos integrados numa família, todos unidos por um laço perfumado de ternura, invisível, mas forte, silencioso, mas que lhe era essencial.
Contudo, o que ele sentia, nesse sábado de 2006, era o vazio, protagonizando ele a história dum homem triste e desamparado, dentro de uma casa grande demais, subterrado por mobílias, tapetes, ativos e passivos, mas despojado de pessoas que, com ele pudessem mergulhar no passado e que em conjunto, pudessem sentir algo em comum.
Pela primeira vez, considerou-se muito pobre, extremamente miserável, apesar de ter a loja, muito dinheiro no banco e prestígio social.
No fim de contas, naquele dia, ele sentiu-se um sem abrigo, mesmo tendo uma linda moradia, mesmo podendo, se quisesse, hospedar-se no melhor hotel de Portugal ou do mundo.
A Sara iria almoçar fora, pujante de vigor, desfrutando de laços afetivos dos quais ele não fazia parte, estrela com luz própria num universo feito de estrelas como ela, porque era todo interligado por longas teias afetivas, ainda que forjado em montanhas enormes de fantasias, de suposições, de expectativas que, por vezes, existem só dentro de nós, apesar de pensarmos que são partilhadas também com as pessoas a quem as estendemos.
É tudo um misto de realidade e de sonho, de sentimentos desenvolvidos em diversos graus e sentidos, tudo provocando encontros ou desencontros, alegrias ou solidões.
Ele também já tinha vivido nesse tipo de mundo, já tivera luz própria, já medira tudo pela intensidade da ternura, da paixão, do desejo, do sorriso ou do choro, mas tudo sempre temperado pela esperança, ancorada numa autoestima muito elevada.
Também ele já pusera expectativas muito brilhantes no seu núcleo familiar, na sua filha, na sua esposa e, no entanto, nessa manhã, ali estava sozinho, involuntariamente separado de ambas, amargando o desencanto das ilusões que se desfizeram.
Como a nossa mente é capaz de colocar brilhos nas opacidades, de colocar muito amor onde, por vezes, apenas existe a indiferença!
Entretanto, continuou ali colado, uma parte à cadeira e a
outra à mesa, de olhos fechados, deixando de ver o que vinha de fora e vendo cada vez mais o que lhe ia por dentro. E foi assim que se deixou progressivamente inundar por um pedaço de passado que, quando tinha sido presente, já fora dos mais gratificantes da sua vida e que agora se tornava num dos mais dolorosos.
Lembrou-se ele, então, de que houve um dia de janeiro, um daqueles dias que compuseram um ano de fim de milénio que se convencionou chamar de 1974 da nossa era, em que dois jovens, ele perto de completar vinte e seis anos e ela prestes a cumprir os vinte e quatro, protagonizaram aquilo que ambos então pensaram ser um dos acontecimentos mais importantes das suas vidas.
E talvez não se enganassem, porque a união assim de duas pessoas deve sempre ter uma grande relevância. O engano pode ter sido apenas na dose de felicidade esperada, bem como na respetiva duração.
Mas, neste ponto, influiria muito a forma como cada um deles iria abordando a vida nos sucessivos dias que teriam para viver em comum e, quanto a isso, nenhum podia ser profeta na vida do outro, adivinhando-lhe o futuro, como até, na sua própria vida, tal profecia seria difícil de fazer com acerto.
A relevância do acontecimento era tanto maior, quanto é verdade que, durante os belos tempos de juventude e namoro que precederam esse dia, os noivos foram criando, por ação do meio e de si próprios, as melhores expetativas quanto a esse
novo estatuto social, sempre visto como um passaporte para a felicidade.
Nesse dia, eles fizeram aquilo que muitos de nós fazemos, ao menos uma vez, no curto período das nossas existências físicas: deram o nó, como diz o povo, contraíram matrimónio canónico, como dirão os mais letrados.
Pois foi, eles encontraram-se numa das igrejas de Faro, a sua cidade natal.
Mas não vale a pena descrever aqui se a igreja tinha este ou aquele estilo arquitetónico,
Se tinha esta ou aquela localização, o que importa é que era uma igreja católica, com todos os rituais e ensinamentos sobre o casamento que aí se ministram.
Nesse dia por eles tão desejado e por todos os convidados tão festejado, eles queriam-se um ao outro, olhavam-se e viam no outro o tudo que a vida pode dar para que um homem e uma mulher possam ser felizes.
De facto, nessa igreja, nesse dia, eles trocavam olhares e sorrisos com uma intensidade tão grande e com tanto brilho, que talvez nunca mais tivessem logrado acender uma luz tão potente, nos anos que compartilharam casa, cama, bocados de vida, esperanças e desilusões.
Não lhes importava avaliar se a assistência era muita ou pouca, se os ramos de flores eram bonitos, se o sacerdote falou bem, se a cerimónia era ou não um sucesso.
Aquilo que valia, naquela altura, para cada um deles, era o outro.
Olhavam-se nos olhos e viam do outro o coração, a alma, o pensamento, os sonhos, tudo se revelava naquelas duas janelas abertas unicamente na direção do outro, então o mais que tudo, a certeza do amor pleno; a fonte da felicidade, no agora e no depois, indo mais além, também no sempre.
E o que mais querem dois jovens do que serem felizes?
Esse conceito, o de felicidade é já muito difícil de definir e ainda mais de ser concretizado no dia a dia da existência, mas todos o perseguimos como sendo o alvo supremo de qualquer vida.
Também não admira que assim seja, porque a felicidade deve ser aquela situação em que todos os fatores de nós estão em harmonia, em que o sorriso é espontâneo, em que o ar sabe bem, em que a dor está ausente, em que o passado não pesa, em que o presente é belo e o futuro não assusta.
É evidente que o senhor padre falou de amor, leu trechos alusivos ao momento, houve fotografias, houve beijos e abraços, houve tudo aquilo que costuma haver nos casamentos deste tipo.
Mas para além disso tudo, houve também dois jovens que estavam emocionalmente incendiados e que acreditavam piamente que poderiam ser um do outro para a vida inteira e servir-se mutuamente de amparo na felicidade, na descoberta, no bem, mas
igualmente no mal, como o sacerdote fez questão de realçar, porque a igreja sabe, com um conhecimento que lhe vem do fundo dos séculos, que o mal vem sempre, em maiores ou menores doses, e que não há casa nenhuma em que ele não bata à porta de quando em vez, sendo certo que é precisamente nas situações de mais dolorosas dificuldades que o amor tem as maiores e mais sublimes oportunidades de demonstrar o quanto é verdadeiro.
Naquela igreja, nesse importante dia, perante Deus, perante familiares e convidados, eles prometeram ser um do outro, nos bons e nos maus momentos, prosseguindo objetivos comuns, sendo sinceros e fiéis um para o outro, respeitando sempre aquele compromisso que ali, num templo cristão, voluntariamente assumiram.
Que riqueza poderá ser maior do que adquirirmos alguém sem pagar quantia alguma, adquirir por ato voluntário daquele que se entrega, adquirir por amor, por aquela força que vem de dentro, que dá cor ao gesto, ao tempo, ao colar de lábios e ao aperto dum abraço.
Ter o outro pela conquista, para a vida inteira, mas sem recurso a quaisquer outras armas que não as do amor!
De facto, falou o sacerdote que era para a vida inteira, falaram os convidados, falaram eles, os noivos, e, mais do que falarem, pensaram, sentiram e desejaram essa prisão vitalícia, eterna mesmo, se possível.
Naquele dia, eles comprometeram-se a amar-se mutuamente, no mais amplo significado desta palavra, para sempre.
Este compromisso não ficou apenas registado nos livros canónicos e nos livros do registo civil, mas, ainda mais do que isso, ficou registado nas linhas eternas das suas duas almas.
Por isso mesmo, para além do que estivesse escrito em quaisquer livros, para além daquilo que este ou aquele pudesse aduzir futuramente a favor ou contra o comportamento de cada um deles, no que se reporta ao seu matrimónio, o compromisso que assumiram estava gravado na alma de ambos e a respetiva consciência apontaria com rigor, a cada um deles, quais os atos e quais as omissões que tivesse praticado e que contrariassem o compromisso livremente assumido.
Era, pois, certamente por isso, que o Carlos Fonseca estava a contas com a tempestade que já descrevemos e que a Leonor, ainda que provavelmente em nível diverso, também seria advertida pela sua consciência, pois que, perante um compromisso tão importante, tão amplo
e tão duradouro, normalmente as culpas, em maior ou menor medida, são mútuas, ao quebrá-lo.
Mas a verdade é que eles não pensaram em nada do que acima dissemos, quando deram as mãos, ainda que seja verdade que se quiseram comprometer mutuamente para toda a vida.
Eles sentiam que aquele circuito fechado a dois era suficiente, podia chegar ao mundo inteiro, podia afrontar todos os medos e iluminar todas as noites.
E de facto assim seria, se ambos continuassem no mesmo acorde harmónico que, naquele dia os uniu.
O problema aparece, quando as duas vidas entram em dissonância, quando pelo menos um deles se esquece de harmonizar-se com o outro e quando esse outro não consegue reconhecer que o cônjuge está em queda e, por isso, é urgente dar-lhe a mão, para que a harmonia se restabeleça e o amor não se danifique duma forma irreparável.
Naquele dia, não tinham pressas; ao pé um do outro começava e acabava o mundo.
O poema estava ali, com eles, não era necessário escrever coisa alguma, porque todas as palavras trairiam o real.
Eles eram autênticos, não precisavam de pensar os dizeres ou de rebuscar os gestos, a ternura fluía-lhes dos olhos, dos dedos, dos lábios, de tudo o que são pontos visíveis de
dois corpos apaixonados e prestes a entregarem-se pela primeira vez; jovens, acreditando que a vida ainda há pouco começou e que ainda falta muito para acabar.
Nesse tempo de total enamoramento, o que não lhes faltava era o desejo, a vontade de sorver o outro, de lhe tomar os olhares, os lábios, as mãos, o corpo e o sumo, a vida e tudo aquilo que o outro tenha que possa ser tomado, até, quem sabe, o pensamento.
Contudo, esse mantém-se por lá, no seu refúgio, sempre de janelas abertas aos seus horizontes, mas imprevisível para o momento seguinte, teimosamente irrequieto, agitado, por vezes, por brechas de personalidade que nem o próprio sabe que existem.
Eles também não conheciam quão tortuosos são os caminhos de transformar duas pessoas, cada uma com o seu passado evolutivo, com as suas próprias carências e com os seus anseios, por forma a que ambos cheguem a um consenso quanto ao roteiro comum a seguir e que a ambos beneficie.
Eles não sabiam ainda que cada um deles tinha uma história que ia muito para além do momento em que, nesta vida, tinha nascido, história essa que se fora construindo na lonjura dos milénios, com permanências, alternadamente na dimensão espiritual e na dimensão física, através de sucessivas reencarnações, em corpos ajustados às necessidades do respetivo carma, quais instrumentos aptos a aprimorarem o espírito ao qual, temporariamente serviam de traje.
E por isso mesmo, as suas tendências e debilidades já vinham das lonjuras, as necessidades de aperfeiçoamento poderiam ser muito diversas relativamente a cada um deles, porque o seu inconsciente não se tinha formado apenas a partir deste renascimento, sendo certo que tudo isto mais exigia o aprofundamento do amor, com todos os bons frutos que ele produz, a fim de que conseguissem cumprir devidamente o compromisso que tinham acabado de contrair.
Se eles tivessem pensado nisto, talvez tivessem feito diversas perguntas a si mesmos, talvez tivessem encarado aquele dia com menos brilho, ou, pelo contrário, talvez tivessem, a partir daquele dia, tornado muito mais resplandecentes as suas vidas.
Bem, tudo são hipóteses que não passam disso, porque o que é certo é que eles não pensaram em nada relativamente às suas histórias anteriores e nem sequer em quaisquer dificuldades que futuramente pudessem ocorrer.
Valha-nos isso, sem dúvidas ou questões, e apenas com tonalidades positivas, aquele foi um grande dia na vida deles, e nem toda a gente tem a sorte de usufruir de, ao menos, um grande dia na sua vida.
Mas, naquele sábado de 2006, o Carlos formulou uma pergunta que nunca fizera a si mesmo:
- E porquê casar numa igreja católica?
Não o poderiam ter feito no registo civil?
A resposta veio imediatamente.
- É que o casamento na igreja é mais bonito, por ser mais imponente o templo, muito mais amplo, e por aí existir o órgão, para que seja tocada a marcha nupcial.
Esta resposta, dada por ele mais de trinta anos após a celebração do seu matrimónio, era honesta, porque revelava a verdade daquilo que ambos tinham então sentido.
Mas, infelizmente para eles, esta resposta revelava também que aqueles dois jovens, ao estarem na igreja, perante o altar, recebendo o sacramento do matrimónio, não se aperceberam de que estavam num local onde as pessoas devem ir para manifestar a sua fé, para elevarem a Deus os seus corações e para pedirem ao Senhor a Sua Luz e a Sua proteção.
Eles foram à igreja por formalismo, mas não pela substância; foram pelo costume e não pela crença.
Por isso, eles não se deram conta de que, na parte espiritual daquele templo, estavam seres humanos que, na dimensão do espírito, os amavam e que pretendiam ajudá-los a ser felizes.
O sacerdote, ao casá-los falou de Deus, mas as mentes dos nubentes continuaram só postas na terra, não tendo eles conseguido sentir que, para se chegar ao Senhor, necessário se torna ultrapassar os bloqueios da matéria e penetrar no mundo do espírito.
Tal como eles, em conjunto não elevaram as suas almas a Deus, aquando do seu matrimónio, igualmente continuaram ambos só com os olhos postos na matéria, durante a sua vida de casados, sendo certo que a oração em família nunca foi algo que tivesse sido incentivado e existisse no seu dia a dia.
Quando nasceu a filha, linda e saudável, quando o Carlos conseguiu comprar a loja, para bem da família, quando o casal conseguiu comprar o terreno, mandar construir a moradia e mobilá-la, tudo para bem da família, quando a Sara terminou o seu curso, quando, noite após noite, eles se deitavam, culminando dias plenos de saúde e de realizações profissionais, enfim, em todos os momentos bons e marcantes da vida do casal, nenhum deles se lembrou de propor ao outro que, em conjunto, elevassem a mente humildemente ao Senhor, em casa ou na igreja, ou onde quer que fosse, e agradecessem a Deus tantas bênçãos recebidas.
Porque eles não desenvolveram, nem em comum, nem individualmente, a bênção da fé, porque não elevavam convictamente, no seu dia a dia a mente a Deus, recorrendo à
prece, eles deixaram de ser tão humildes quanto o deveriam ser e deixaram de estar ligados à boa espiritualidade, tanto quanto o poderiam e deveriam ter estado.
Porque eles, apesar de se dizerem cristãos, nunca se deram ao trabalho de ler nem sequer um dos quatro evangelhos, nem qualquer um dos outros livros do Novo Testamento,
porque relegaram para um plano muito secundário a construção dos Tesouros do Céu, passaram os muitos anos do seu casamento, embriagando-se, cada um à sua maneira, com os tesouros da terra, com o centralismo do “eu”, num sentir limitado que não teve em conta que esta vida física não é um fim, mas apenas um meio, tendo por objetivo o aperfeiçoamento do espírito, para que cada um consiga entrar, na vida eterna, em melhores condições morais do que de lá veio.
Porque eles não refletiram nos ensinamentos do Divino Mestre, os quais nem sequer buscaram conhecer, não se foram questionando, no dia a dia, acerca de quais eram as suas próprias debilidades morais, sendo certo que aquele que não busca algo, só por acaso o poderá encontrar.
Mas o Fonseca continuava, ainda que a contragosto, nesse sábado de janeiro de 2006, a rever aqueles pedaços de vida que, apesar de já há tanto terem passado, ainda estavam tão presentes dentro dele.
Depois do casamento dos noivos, houve a festa dos convidados, com os noivos sempre presentes, sempre solicitados, com o bater dos talheres para que houvesse um beijinho, e mais outro, e mais outro, enfim, tantos quantos os convidados pretenderam que eles dessem em público.
O beijo começou ali a perverter-se, porque exigido.
Eles, porém, nessa altura, ainda não deram por isso.
Vieram a descobrir, cada um por si, muito depois, que houve centenas de beijos que foram dados sem profundidade, pelos motivos mais diversos e que nada tinham a ver com a globalidade empática daquele primeiro beijo que os uniu ao saírem da adolescência, que os tornou namorados e com tantos outros que deram, em privado, quando os dois corações ainda batiam na mesma sintonia.
Mas também cada um deles veio a constatar, já depois de separados, e com alguma tristeza, que
houve muitos beijos bons que ficaram por dar e que teriam sido tónicos extremamente importantes, para que a relação mais se fortalecesse.
Contudo, no dia do seu casamento, eles eram o centro daquele pequeno mundo e não lhes fazia falta qualquer outro.
Dos convidados vinha algo de comum:
«Parabéns, parabéns, dá cá um beijo, dá cá um abraço, isto é um grande dia», enfim, tantas coisas deste tipo costumeiramente ditas em alturas similares.
E á noite, como é que seria á noite, perguntavam alguns mais maliciosos, porventura alguns que já não conseguiam ter esperanças em noite nenhuma; eles, os noivos, nem pensavam na noite, porque ela iria acontecer naturalmente.
Já se haviam unido, estavam mutuamente enamorados, como é que iria ser a noite?
Ali não existia a impotência. Eram jovens, saudáveis, ardentes, os dois corpos eram ainda mal conhecidos um do outro; todas as fantasias eram ainda possíveis, o desejo galopava naqueles olhares, naquela forma de agarrar, no colar daquilo que era palpável e no mais que era só sentimento.
À noite viria o despir, o encontrar de dois corpos pela primeira vez, que naquele tempo muitas mulheres ainda não prescindiam de chegar virgens ao leito matrimonial e os homens sacrificavam muitos meses ou anos de desejos, tantos quantos os que duravam o namoro, para poderem usufruir daquele momento ímpar de sentirem o corpo dela a pertencer-lhes, a abrir-se pouco a pouco, a nascer nos seus braços para o sexo pela primeira vez, numa mistura extremamente bem conseguida de fluidos e sensações inesquecíveis.
A primeira noite em comum deles foi uma dessas, foi bela, marcante, doce, criativa, prometedora de muitas outras, trazendo a certeza de que a paixão boa seria tão grande quanto aquelas duas vidas o quisessem, e eles queriam o tudo, o infinito, o sempre, a união permanente e cada vez mais profunda.
A vida a dois começava ali, todas as promessas eram legítimas, porque sinceras, ainda que, possivelmente, não pudessem todas elas ser cumpridas.
Não foram ao Brasil em lua-de-mel, nem sequer ao norte de Portugal, como então era uso dos menos dotados de recursos económicos, porque, realmente, os dinheiros não abundavam.
Eles provinham de famílias de parcos haveres, já tinha sido uma grande aventura para os pais de ambos pagarem as despesas da boda, pois que, diga-se em abono da verdade, os novos compadres quiseram caprichar na abundância, convidou-se tudo quanto eram familiares e amigos, e que não falte nada, venha tudo do bom e do melhor, tendo o banquete decorrido num dos restaurantes mais reputados da zona.
Só os pais dos noivos podiam avaliar quantos anos de poupanças estavam a ser derramadas sobre aquelas mesas, nos copos cheios múltiplas vezes e assim trocados por outros igualmente cheios, só pelo gosto de variar, para saborear e dizer se a reserva do Douro seria melhor do que a de Borba ou de Reguengos, para se atestar de palavra dada, se aquele champanhe que veio à última, teria mais qualidade do que aquele cujas rolhas estouraram, aquando do primeiro brinde.
Tudo valia a pena, porque era em honra dos noivos. O momento era de felicidade, eram bem empregues os cobres aforrados em tantos momentos de restrições, em tantos encolhimentos de não se comprar isto ou aquilo.
A juventude daquele tempo ainda não se tinha deixado enredar nas malhas do consumismo, tendo bem presentes os sacrifícios económicos que iam sendo feitos pelos seus progenitores, para que, lá em casa, nada faltasse no dia a dia.
Os jovens de então davam muito e pediam pouco.
Era este desfile de ricas imagens, emolduradas em fortes tonalidades sentimentais, que ia passando pelos olhos cerrados do Fonseca, cerca de trinta e dois anos depois, como se fosse um filme desenterrado das brumas dum arquivo empoeirado. Mas o filme trazia vida, fazia recordar, e ao lembrar-se de tudo aquilo, ele já não sorria como então, não se sentia o centro das atenções como naquela altura tinha sido, não se sentava no carro da esperança como naquele mágico dia o fizera, mas sentia-se relegado à solidão, na frigidez duma sala quase desabitada, incapaz de levantar o rosto das mãos que já estavam molhadas pelas lágrimas que pouco a pouco teimavam em soltar-se.
E por mais que isso o incomodasse, o filme continuava a correr.
Aquela primeira noite passaram-na eles num dos mais luxuosos hotéis da zona de Albufeira.
A sofisticação do hotel não lhes disse muito, porque o mais requintado de tudo era o desejo; eles estavam de olhos e corações postos um no outro, de mentes voltadas definitivamente na direção do outro, que agora já não era outro, era, como tinha dito o senhor Padre, o mesmo que cada um deles, porque duas pessoas se transformaram numa só.
Isto em teoria, pois claro, porque as duas pessoas continuavam a existir, distintas uma da outra, não só no físico, mas também no seu modo de ser, sentir e pensar.
Ao saírem da igreja, no dia do seu casamento, eles passaram a ver-se integrados num mundo diferente, que antes era particular de cada um deles, mas que, a partir daquele dia, passou a ser mais amplo, integrando também o outro.
Restava saber como é que cada um dos recém-casados iria enquadrar, na sua mente e na sua forma de proceder, esta nova realidade.
Mas isso só o rodar do tempo, nas tortuosas estradas da vida, é que o iria demonstrar.
Ao chegarem ao hotel onde iriam passar a primeira noite, eles ficaram finalmente sós, dentro dum barco que teriam de saber governar, para o mal e para o bem de ambos.
Era um barco que estava longe de ser simples, porque era feito de realidades diversas, ideais, sentimentos, emoções, desejos, fantasias e também de coisas mais palpáveis, corpos, teres e trajares, e tudo isto inserido no mar da vida cheio de canais estreitos, de ondas e correntes traiçoeiras, de estatutos sociais, laborais, familiares, tudo muito complexo, mas, para bem deles, nessa primeira noite, ainda não sabiam nada disto.
No dia seguinte, saíram do hotel, a conta já fora paga pelos padrinhos; a festa formal acabara ali.
Restava saber se eles conseguiriam prolongar, no dia a dia da relação conjugal, essa outra festa, a do amor pleno e incondicional, isso que deve ser o sumo, a trave mestra, afinal, a essência da união que tanto haviam buscado.
— Amas-me muito? — perguntava a Leonor a cada momento, só pelo gosto de ouvir a resposta do Carlos.
— Então não te havia de amar, minha querida? Tu és tudo para mim.
Ela não perguntava porque tivesse dúvidas, mas porque aquela resposta já esperada era melódica, soava-lhe bem na alma, causava-lhe uma vibração positiva e um enorme êxtase que lhe percorria todo o ser, dando-lhe confirmações que a estimulavam, tonalidades que a tornavam mais confiante e supremamente mulher.
Eles eram felizes; isso lia-se-lhes no que diziam e no que não era necessário dizerem.
Após aquela noite, a letras emotivas, luminosas, inolvidáveis, promissoras e compromissadas gravadas dentro de cada um deles, veio o dia seguinte.
Foi-se a igreja, a festa, o hotel, ficaram dois jovens ao lado um do outro, de malas na mão a caminho do carro, de malas na mão a entrarem no pequeno apartamento que conseguiram tomar de arrendamento algumas semanas antes.
Diga-se, em abono da verdade, que o salário dele era consumido pela renda do apartamento e que, apenas do vencimento dela, como docente, eles podiam esperar tudo aquilo que minimamente duas pessoas têm necessidade para viver.
Antes não era assim. Eles comiam e dormiam na casa dos pais, o dinheirinho que ganhavam era só para os gastos próprios. Dava para poupar, para derreter numa ou noutra extravagância de quando em vez.
Agora, no dia seguinte, a festa começava por ser outra, a de governarem muito bem os escudos, para que chegassem até ao fim de cada mês.
Quando meteram a chave à porta e ela se abriu, a Leonor disse:
— Que bom entrar, é aqui a nossa casinha.
Pronto, dizemos nós, e pela nossa casinha, pela nossa vida, pelo nosso amor, por tudo o que era nosso, porque agora eles falavam sempre na primeira pessoa do plural, já valia a pena fazer todos os sacrifícios e meter ombros a todos os empreendimentos que fossem bons para o casal.
Eles nem sabiam bem avaliar, naquele tempo, o quanto eram ricos, quão grande é essa fortuna da esperança, do amor correspondido, da fantasia boa e da ternura, da dádiva pelo gosto de se dar, do querer que eu e tu estejamos em sintonia e nos misturemos,
tanto quanto é possível duas pessoas unirem-se, mas que seja um querer que vem de dentro espontaneamente, sem ancorar-se no favor ou na obrigação, um querer que dá felicidade e que a ambos beneficia.
É esse um querer que rebenta cá do fundo, das zonas de nós que de repente se iluminam e que nem sabíamos que existiam, e que nos faz ter tanta vontade, que as barreiras desaparecem, as distâncias ficam curtas, as estradas ficam largas e o universo fica plenamente inundado pela beleza que brota do mais profundo do nosso ser.
Esse querer, que se consegue manter ereto, mesmo com as dificuldades, que nos traz o desejo de ajudar a levantar o outro, mesmo quando ele esteja muito enterrado por quebra da sua autoestima, mesmo quando ele esteja debilitado por percalços que chegaram à sua vida,
Esse querer, que não regateia sacrifícios, lança as suas raízes naquela realidade invisível, intocável, redentora, que não pode ser objeto de apropriação nem de venda, que é o puro amor, que serve de base ao bom desejo, ao dar-se sem favor nem contrariedade, ao sentir-se feliz chorando, se necessário, para que o outro possa sorrir.
Do amor, iluminando o imo do nosso ser, brota a chama que faz querer, que dá significado à vontade, aquela essência mágica que origina os beijos bons, as palavras bonitas e melódicas, os abraços sinceros, a sobreposição dos corpos, das vidas, dos sacrifícios, o aceitar das minhas restrições propositadas em prol das tuas liberdades que, apesar de serem só tuas, eu sinto como se fossem minhas também.
Ao falarmos desta história de amor, do tempo em que ambos ainda estavam numa bela sintonia, de quando, já casados, entraram pela primeira vez na sua casinha, vem-nos à ideia aquele poeta que disse:
“O amor correspondido é tão bonito,
É tão profundo, tão terno e tão pleno,
Que, mesmo no coração que seja pequeno,
Lança estradas de paz e de infinito.
Este amar assim gera uma sintonia,
Um desejar, um conseguir, uma plenitude;
O recolher do sentir duma companhia,
Que nos apoia, com prazer e com virtude.
Quem ama assim lança flocos de alegria,
Cimentando o esplendor duma comunhão.
Cada um toma o outro, pela mão,
Para que ambos escrevam a mesma poesia.
Quem ama assim sempre se dá inteirinho,
Tendo por seu bem, o bem da outra pessoa;
Segue com outrem, sulcando o mesmo caminho;
E se algum erra, o outro sente, mas perdoa.
O amor assim vivido gera conformidade,
Alimentando-se da sua boa consonância.
Porque intemporal, o amor não tem idade;
E porque imenso, para ele não há distância.”
Mas voltemos aos nossos personagens.
Era aquele o primeiro dia a dois de muitos outros, dum romance que eles queriam que fosse sempre de páginas cor-de-rosa, mas que, quem sabe, a vida se encarregaria de tingir algumas delas de cinzentos escuros, pesados e angustiantes.
O filme do passado que, sentado junto daquela grande mesa, o Carlos, nesse sábado de janeiro de 2006, estava a vislumbrar, era realista, não ocultava nada, mesmo que doesse, tudo lá constava.
Um dia, e já decorria o ano de 1975, a Leonor chegou-se junto dele e disse-lhe: — Sabes, amor, estou grávida.
Esta simples frase gerou uma torrente de alegria a dois; o brilho incrementou-se e sentiram, naquele abraço que deram depois desta revelação, aquele calor que já se ia desmaiando e que, na sua plenitude, talvez só tivesse existido nos primeiros meses de vida em comum.
Mas o bebé era um forte desejo de ambos. Foi a alegria do casal, dos pais, da família e dos amigos.
Aqueles meses de gravidez foram duma entrega incrivelmente forte.
Os cuidados que ele tinha com ela, os pequenos gestos, tudo revelava que ele estava radiante.
Quando a filha nasceu, bem, foi, para ambos, um verdadeiro delírio de prazer, um maravilhoso acontecimento que lhes proporcionou uma satisfação plena.
O Carlos foi ao hospital visitar a esposa e a bebé, poucas horas depois desta ter nascido e, na noite seguinte, convidou os amigos mais íntimos para festejarem o nascimento da sua menina, a Sara, que assim pai e mãe logo quiseram que se chamasse.
De facto, havia motivos para festejar, porque a menina era escorreita, grande e linda, tanto quanto uma recém-nascida o pode ser.
Foi essa a segunda grande oportunidade daquela vida a dois, foi a segunda vez em que o filme se tornou mais colorido, mais bonito, mas por pouco tempo, diga-se em abono da verdade.
Ele passava os dias, de segunda a sexta-feira, num intenso trabalho profissional, chegando a casa já cansado.
Esse trabalho era tanto mais esgotante, quanto é verdade que o seu salário base era muito baixo e que só do ganho de comissões pelas vendas feitas é que ele podia aumentar substancialmente os seus proventos.
Quanto mais vendesse mais ganhava e, se nada vendesse, nada ganhava, para além do magro salário base.
Por outro lado, o trabalho de vendedor era um trabalho de muito stress, porque havia
que envidar árduos esforços para convencer os possíveis compradores, não só a quererem comprar, mas a preferirem comprar àquela empresa em que ele trabalhava.
Por sua vez, depois de adquirir a loja, através do empréstimo bancário que contraiu, ele ficou com uma enorme responsabilidade que impendia sobre si, pois agora já não era só o vender, era o gerir a empresa, era ter muito cuidado relativamente ao crédito concedido, para que não se tornasse incobrável e, por outro lado, existiam as prestações do empréstimo, as quais se venciam todos os meses e que, pontualmente tinham de ser pagas.
Quantas vezes estava ele em casa, mas com o pensamento nos problemas da sua empresa, porque não sabia ainda se determinado cliente iria pagar na manhã seguinte, a fim de que ele solvesse, com o banco, as suas obrigações.
Não foram raras as vezes em que ele pensou de si para consigo, que talvez tivesse feito mal ter comprado a loja, porque, em vez de melhorar de vida, do ponto de vista da sua paz interior, cada vez estava mais em guerra.
Por sua vez, ela, para além de ter de arcar com o seu trabalho profissional, tinha a seu cargo quase exclusivo o de cuidar da menina, a qual, ao sair do seu emprego, ia buscar à casa da ama.
Ele não tinha sido educado para estar em pé de igualdade com a mulher no cuidar da filha, para além do seu árduo trabalho que já referimos, pelo que ela começava a sentir-se descontente, por interiorizar que ele era comodista e que não a ajudava, como devia.
Mas a verdade é que ele já chegava tarde e a más horas, muitas vezes completamente extenuado e fortemente preocupado, não sendo por falta de amor que deixava de prestar esta ou aquela ajuda.
Ela, por seu turno, tinha um horário de trabalho bem mais curto do que o dele, tendo livres os fins de semana e os períodos de férias escolares, pelo que, no íntimo dele, existia a perceção de que a repartição de trabalho entre ambos, no que dizia respeito aos encargos domésticos, estava a ser justa.
No que concerne à Sara, findos os primeiros anos, ela cada vez se tornou mais autónoma, pelo que a mãe, nesse aspeto, cada vez teve menos trabalho com ela.
Ou seja, a rotina, o repetir de dia após dia de muito trabalho, quer para um, quer para o outro, foi tirando brilho ao casamento, certamente porque o diálogo entre eles não foi incentivado, por forma a eliminar os desentendimentos que, sobretudo ela, ia armazenando dentro de si.
Ele estava satisfeito com o seu matrimónio, não tinha defeitos a pôr na mulher, mas ela, ao sentir-se sobrecarregada de trabalho e ao constatar que o marido não permanecia junto de si,
tanto quanto ela tinha fantasiado, começou a interiorizar que ele não a amava com o entusiasmo dos primeiros tempos de casados.
Desta forma, muito lentamente, ela foi deixando de ver nele o homem ideal que sonhava ter como cônjuge, não dando os passos que podia ter dado, para ajudá-lo a ser mais cooperante e a moldá-lo, na medida do possível, ao tipo de marido que ela gostava que ele fosse.
Ela sentia-se bem com os proventos aumentados que lhes advinham da atividade intensa dele, mas não conseguia avaliar o quanto esse forte empenho retirava ao seu esposo a disponibilidade, quer de tempo, quer psicológica, que ela queria que ele tivesse.
A Leonor, como funcionária pública, por completo alheia ao espírito de luta que ele tinha de empenhar na sua atividade comercial, passou a colocar defeitos nos sentimentos dele, defeitos esses que, de facto, não existiam.
E daqui nasceu o desencontro.
Por um lado, o marido que, fora de casa, tudo fazia para aumentar o património da família, pensando que essa era a melhor forma de demonstrar amor pela sua mulher e pela sua filha.
Por outro lado, a esposa que se sentia incompreendida, que deixava de sentir-se amada e que se colocava numa posição de vítima, degradando, dia após dia, ano após ano, a sua autoestima e o seu apego à relação conjugal.
Foi desta forma muito silenciosa que o casamento deles se encaminhou para a rotura unilateral, tendo a mesma como pressuposto o contraste entre um homem que à sua maneira, continuava a amar muito a sua mulher, mas esta que não se sentia amada e que, por isso, começou a suportar o casamento, cada vez mais como uma tortura.
Como o diálogo poderia ter, a tempo estancado estas feridas!
Como a prece em comum, feita com fé, e habitualmente, os teria ligado à boa espiritualidade e lhes teria dado a iluminação que, durante tantos anos lhes faltou e que, no fim de contas, tantos e tão desnecessários sofrimentos lhes teria evitado.
Como teria sido importante que, ao longo dos mais de trinta anos que viveram juntos, ela tivesse repetido várias vezes aquela pergunta que lhe tinha feito, aquando da saída do hotel onde passaram a primeira noite de casados, indo ambos a caminho da sua casinha:
- Amas-me muito?....
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