AMOR, NÃO TE PERCAS DE MIM - CAPITULO I
NOTA DO AUTOR
Se me pedissem para sintetizar aquilo que abaixo está escrito, diria que se trata dum curto romance de amor e amizade, que tem por base a análise de mais de trinta anos da vida conjugal dum homem e duma mulher que, no seu casamento puseram, aquando da sua celebração, as mais belas expectativas, mas que, ao se confrontarem com os marasmos da rotina, muitas vezes se afastaram do diálogo, da comunhão afetiva e, por causa disso, tiveram de enfrentar tempestades íntimas muito difíceis de suportar.
A certo ponto do romance, referindo-se aos dois principais personagens, o autor diz o seguinte:
E daqui nasceu o desencontro.
Por um lado, o marido que, fora de casa, tudo fazia para aumentar o património da família, pensando que essa era a melhor forma de demonstrar amor pela sua mulher e pela sua filha.
Por outro lado, a esposa que se sentia incompreendida, que deixava de sentir-se amada e que se colocava numa posição de vítima, degradando, dia após dia, ano após ano, a sua autoestima e o seu apego à relação conjugal.
Bem, mas para que o enquadramento deste curto excerto possa ser plenamente entendido, necessário se torna empreender a leitura desta obra que, sendo de ficção, tem o seu conteúdo regado por múltiplas fontes da realidade.
Diria também que, apesar do autor ter dado o devido relevo ao enredo, ele dedicou-se muito mais a penetrar na forma de estar e de sentir das personagens, tentando conhecê-las, desvendar as suas motivações, as suas dores e alegrias, as suas ilusões e desaires, os seus desejos e afetos, por forma a compreender expectativas que, em certo tempo, elas não conseguiram ter por realizadas e os perdões que, durante o seu processo de amadurecimento, tais personagens lograram dar e obter.
Será que este romance pode interessar a jovens, na casa dos vinte anos?
Direi que ele tem muito interesse, quer para os jovens, para que ponderem em diversas vicissitudes que podem afetar o seu futuro casamento, e desta forma evitem enredar-se em situações causadoras de sofrimentos desnecessários, quer para quem já esteja em idades mais avançadas, quem sabe, para ajudar a explicar pedaços do passado conjugal que ainda se encontrem a fazer danos lá no íntimo, clamando por serem plenamente entendidos, ou para clarificar o presente, ajudando a edificar um futuro que, para o casal, seja dum perfumado bem-estar.
Por último, diria ainda o autor que agora, em meados de 2026, ele reconhece que os dois romances que antes escreveu apenas foram rascunhos que fizeram parte do seu processo de maturação artística, sendo pressupostos essenciais das prosas e poesias que logrou criar a partir de 2014.
por isso, tais romances, apesar de conterem algumas boas prosas e algumas ideias válidas, não logram que o autor, presentemente neles se reveja, motivo pelo qual não serão aqui republicados.
Deixo aqui dito que, relativamente a tudo quanto vou criando, o faço com o único objetivo de promover a beleza, as boas ideias, os bons sentimentos, pautando-me, na medida das minhas próprias insuficiências, mas sempre com muita sinceridade, pelo que consegui apreender dos ensinamentos de Jesus Cristo, que, tanto quanto penso, contêm o mapa da boa evolução espiritual da humanidade e, por conseguinte, da senda para a sua felicidade.
Agradeço imensamente aos amigos que, desde a dimensão espiritual, através da inspiração, muito me ajudaram a construir esta obra.
Que este romance ajude a erguer e não a destruir;
A clarificar e não a confundir;
A difundir o amor e não a incentivar o ódio.
Que o Senhor nos abençoe e nos ilumine.
CAPÍTULO I
Estávamos no ano de 2006, no final dum dia frio e chuvoso; era um daqueles dias em que nos apetece chegar a casa rapidamente ao cair da noite, despir o fato, vestir o pijama e o roupão, sentir a casa quente, abraçar a esposa e dizer-lhe:
— Já viste mulher, que dia horrível foi este?
— É verdade marido, parecia que a noite nunca mais chegava.
— Agora é tão bom, estamos aqui no nosso aconchego, já pode chover, já pode soprar o vento; mas é verdade, e os miúdos já estão em casa?
— Já sim, marido, chegaram encharcadinhos, mas já mudaram de roupa.
Pois foi num dia destes que esta história começou. O diálogo de há pouco, não sabemos
quem é que o teve, imaginamos que foi o diálogo de muita gente que, nessa noite, naquela cidade algarvia, chegou a casa e tinha alguém com quem conversar; tinha uma família unida lá dentro, não importa se era grande ou pequena, mas era uma família boa.
Era certamente uma família em que uns se interessam pelos outros, vivem debaixo do mesmo teto material, mas estão também todos abrigados debaixo do mesmo enquadramento afetivo.
As derrotas ou as vitórias de cada um deles importam aos demais; a casa não está completa enquanto o último não entrar.
Às vezes a comida é escassa, o dinheiro é detalhadamente contado e não sobra, mas o que é de um é de todos, a noite avança e todos dormem harmonicamente, esperando terem, no dia seguinte, um bom despertar em conjunto.
Aquele dia invernoso era impróprio para os que não têm abrigo, seja o abrigo do teto, que esse aquece o corpo, seja o abrigo do afeto, que esse não deixa que a alma caia no desânimo e se arrefeça.
Era esse um dia de tempestade, clamoroso, escuro, intimidatório, daqueles que a natureza nos manda todos os anos uns quantos, e cada um lhe reagiu como pôde, alguns achando que até era bom um dia desses, as pessoas juntavam-se mais dentro de casa, a esposa podia fazer um jantarinho de grão, daquele à algarvia, que para além do grão de bico tem a carne, a batata doce, os enchidos, o aroma da hortelã, enfim, que fumega sobre a mesa e penetra no estômago, com a capacidade de dissipar todas as fomes e quase todos os frios.
Nesse tal dia de janeiro de 2006, era sexta-feira e a noite tinha acabado de cair sobre Faro, a cidade mais ao sul de Portugal que, nesse tempo de inverno, é, ano após ano, a capital dum distrito em época baixa, com saudades dos milhares de turistas que no passado verão o visitaram e que, para além de saudades, deixaram no Algarve, consideráveis quantias, que foram alimentando os orçamentos de todos aqueles que do turismo se beneficiam.
As nuvens cobriam a cidade, tendo já começado a descarregar uma chuva moderada, mas contínua, a qual se tornava mais incomodativa, considerando as rajadas de vento que se faziam sentir.
Nessa tal sexta-feira de que falamos, logo que soaram as sete da tarde, as duas empregadas do estabelecimento prepararam-se para deixar o trabalho, encerraram a caixa, arrumaram alguns produtos que tinham sido mostrados ao último dos poucos clientes que lá entraram naquele dia e, de sorriso nos lábios, a mais faladora delas, a Lucília, perguntou ao patrão:
— Podemos ir embora, Sr. Fonseca?
Ele estava sentado lá para o fundo da loja, numa pequena divisão que lhe servia de escritório, absorto em faturas, umas para pagar e outras para receber, e, sem levantar os olhos daquilo que estava fazendo, disse:
— Podem ir e fechem a porta. Até amanhã.
Pelo tom da voz e pelo tipo das palavras, as moças compreenderam logo a mensagem: era para abalarem já e sem o incomodarem mais.
Elas assim o fizeram, até porque, no seu modo de sentir, aquela era a melhor hora do dia de trabalho, precisamente a que assinalava o seu final.
Também elas tinham o desejo de chegarem a casa o mais rapidamente possível, aquecerem-se, despirem-se do barulho do dia e, jovens que ainda eram, sentirem-se mais mulheres no silêncio da noite.
Por outro lado, desde que a esposa o tinha deixado, achavam elas que o patrão andava mais nervoso, mais azedo, mais metido consigo e menos de bem com a vida.
Depois que elas saíram, o Carlos Fonseca ficou naquele escritório, analisando a papelada por quase duas horas.
Normalmente, gostava de estar sozinho naquela loja, fora das horas de expediente, a trabalhar, indo pela noite dentro.
Aquele ambiente era-lhe familiar, ali tinha passado grande parte da sua vida ativa, tudo aquilo que, nessa noite ali se encontrava viera da sua iniciativa, da sua força, da sua perspicácia e do seu poder organizativo.
Aquela loja era o seu valioso troféu.
Ele começou como vendedor de materiais de construção civil, logo que terminou o sétimo ano do liceu.
Quando foi para a tropa, interrompeu por cerca de quatro anos essa carreira.
Sofreu as agruras da Guiné, em guerra de subversão e, enquanto lá estava, a esperança de regressar são e salvo foi o seu alimento espiritual de cada dia, aquilo que lhe dava força para cumprir uma missão tão ingrata, quanto perigosa.
Foi, pois, com grande alegria, que, numa certa manhã ensolarada, desceu do navio no cais de Alcântara, em Lisboa, contando despir em breve, e para sempre, o uniforme militar.
Lá no cais esperava por si a namorada, a encantadora Leonor, que lhe dera os lábios desde os dezasseis anos e que, depois, pouco a pouco, lhe foi mostrando outras formas dela mais íntimas, moldadas em muita pureza e ternura, assim como lhe foi fazendo muitas promessas carregadas de amor e cheias duma tendencial eternidade.
Lá estavam também os pais dele, que lhe deram a vida, o sustento, a formação e um ambiente de carinho, que tinha feito dele um ser humano pleno de segurança e de capacidade de realização.
Para assistir ao seu desembarque, não faltaram também os pais dela
que, por solidariedade para com ele e por amor pela sua filha, não quiseram deixar de estar presentes nesse momento de alegria familiar.
Nesse dia, para além destas pessoas para si tão significativas, esperava também por ele um futuro que se anunciava repleto de coisas boas, promissor de realizações gratificantes, porque ali desembarcava então um jovem saudável que trazia consigo a força dos vinte e poucos anos, desfrutando de todas as bênçãos a que só a juventude consegue aceder.
Aquando daquele desembarque, o Carlos não via só o cais, o rio, uma parte de Lisboa e as pessoas que alegremente esperavam os que acabavam de chegar.
Ele via também aquilo que um jovem saudável e de tropa feita podia vislumbrar naquela altura:
Flores, muitas flores, das mais variadas cores e formas, umas reais e outras imaginadas, mas nem por isso estas eram menos belas do que as outras, nem por isso menos detentoras das fortes fragrâncias que apelam ao gosto de viver intensamente, à força, à sensualidade e ao bom crédito que damos ao nosso futuro, o qual, quando somos jovens, ainda que por vezes ilusoriamente, sentimos que está completamente na nossa mão e que está ao alcance da nossa capacidade proceder à realização de tudo o que pensamos que tal futuro deva ser.
—Ainda bem que chegaste, aqui já não há a guerra dos tiros, aqui a guerra faz-se no meio da paz, mas apesar de tudo, se foste bom guerreiro lá, tens muitas possibilidades de empregar as tuas energias na guerra daqui.
Contudo, o bom guerreiro de lá não se conseguia apagar dum momento para o outro, porque não fora impunemente que ele tinha visto perderem a vida, em seu derredor companheiros que, ainda momentos antes de serem atingidos, eram tão jovens e saudáveis quanto ele, cheios de projetos e sonhando com o mesmo tipo de flores que ele via, em Lisboa, no seu desembarque.
Não é sem traumas e sobressaltos que um jovem, por obrigação, passa da paz para a guerra, dos bancos do liceu, para os campos de batalha, que troca a caneta e os livros pela espingarda e pelas balas, pela necessidade de afinar a pontaria, pelo objetivo último que é o de matar o inimigo, quando na família e na escola sempre lhe tinham ensinado que a vida é um bem essencial a preservar, pois que dela dependem todos os direitos e bens que, na dimensão física, em que estamos, a cada pessoa são atribuídos.
Por tudo isso, e pelo muito mais que ele viu e sofreu, mas que não podemos detalhar aqui, as mazelas desse guerreiro de lá teimavam em permanecer na memória do jovem que desejava ardentemente que nada daquilo tivesse sido verdade, que se esforçava para se esquecer que já tinha visto cair outros homens depois dos seus disparos, que tinha estremecido com o troar dos morteiros de 60 mm, ou com os tiros das espingardas automáticas kalasjnikov que os militares do PAIGC então já possuíam, permanecendo o Carlos Fonseca firme no campo de batalha, mas sempre pensando que uma das próximas vítimas poderia ser ele e pedindo a Deus que, se assim fosse, não o deixasse cá ficar gravemente mutilado, como ele tinha visto outros companheiros seus, que depois eram relegados para os hospitais militares, quais aves que antes voavam e a quem lhes cortaram as asas, quais cativos sujeitos a prisão perpétua, escondidos da população, para que não conhecesse os horrores da guerra nem o mísero estado em que alguns regressavam.
Foram milhares de jovens que, dum momento para o outro, perderam as bênçãos da juventude plena, deixaram de ver só o positivo da vida, tendo que suportar altas e difíceis barreiras, as quais restringiram para sempre os seus horizontes, antes tão vastos como os da maioria, sem o peso limitativo da disfunção física ou psíquica que a guerra, com a sua gama de atrocidades, lhes impôs.
Foram muitos homens que, depois de retirados do campo de batalha, nem assim recuperaram a paz, porque tiveram de continuar uma guerra sem tréguas, quantas vezes na solidão do eu feito em farrapos, e que só cada um deles consegue descrever quanta dureza tem tal combate, essa espécie de luta cruel em que o inimigo está dentro de nós, lacrimejando pelo desastre, pela saudade do que se foi e já não se é, e pelo medo de se ter perdido definitivamente a possibilidade de ser feliz.
Passam eles então a essa nova forma de estar em que os outros tantas vezes se afastam, em que a Pátria se cala, em que os valores balançam, em que os porquês ficam sem nitidez e sem capacidade de suporte, em que os objetivos que antes tinham ao seu alcance deixam de ser realizáveis, em que os horizontes subitamente se reduzem e em que o homem, ainda despreparado para acolher a catástrofe que sobre si se abateu, fica, não raro esmagado perante uma sociedade que o utilizou, mas que depois se nega a compreendê-lo e incluí-lo.
A guerra nacional acabou, os antigos inimigos passam a ser amigos do peito, os interesses que eram inconciliáveis passam a ser convergentes, mas há milhares de homens que ficam, de forma vitalícia, com a guerra debitada na sua conta, e sem que lhes seja permitido convencionar a sua própria paz.
Pena foi que, antes da guerra ter começado, os dirigentes de ambas as partes não tivessem logo compreendido que a guerra nada resolve, antes sendo verdade que tudo agrava e que a paz é o único caminho para o bem-estar do ser humano.
O Carlos trazia aldeias inteiras a arderem dentro dele; o fogo destruindo palhota após palhota, os gritos, não dos terroristas, mas dos aterrorizados, mulheres, crianças, idosos, todos perecendo naqueles braseiros ateados por mãos adestradas para a guerra, sedentas de sangue, expressando toda a brutalidade de qualquer ser humano, quando se transforma numa máquina de destruir., não só casas e carros, teres e haveres, mas também os corpos dos seus irmãos de espécie e os sonhos que os seus detentores queriam transformar em belas realidades.
Pois é mesmo verdade; ao desembarcar naquele cais, ele era um homem empurrado entre realidades contraditórias, porque via muitas flores que lhe apontavam o futuro, mas também trazia consigo muitos espinhos que lhe lembravam o passado.
E naquele mesmo navio existiam outras flores, para serem apenas colocadas nos caixões que seriam desembarcados um pouco mais tarde, quando já quase ninguém estivesse no cais, quando a alegria dos que chegaram vivos e sadios já tivesse terminado a distribuição de beijos e abraços e restassem apenas uns quantos para testemunharem a faceta mais triste da guerra, seja daquela ou de qualquer outra, que se traduz sempre na perda de vidas humanas, porque é para destruir que as guerras se fazem, destruir bens, relações, esperanças, sentimentos bonitos, e, pior que tudo, destruir pessoas que, por causa das guerras, ficam a meio do caminho, deixando esta dimensão da existência antes do tempo que supostamente seria o seu.
Eram moços e pensavam chegar a velhos; muitos deles, antes de irem para a guerra, chegaram a casar-se, a ter filhos, deixando famílias em chagas vivas que nenhuma medalha condecorativa consegue sarar.
Os senhores da guerra decidiram por eles, encurtando-lhes a vida.
Os donos do poder contaram o número de cabeças que seriam envolvidas na guerra e essas cabeças tiveram de ir.
Se não fossem, esses homens seriam gravemente afetados na mesma, como traidores, como desertores, como qualquer outra denominação jurídica que esses senhores inventariam, porque eles são hábeis a manobrar as leis, os mais insignes juristas dos países trabalham sempre para eles, aperfeiçoando conceitos e realizando os julgamentos, por forma a que o direito, afastado da sua boa raiz, a qual devia embeber-se sempre no amor e na justiça, possa, ao invés, transformar-se num instrumento normativo de opressão, num colete apertado de normas cingido ao pescoço de uma maioria que sente o seu peso, mas não consegue descer ao fundo das causas e desmontar os mitos que as suportam.
Quando ele desembarcou, já Salazar tinha caído do poder, o ditador que, sentado ao leme em Lisboa, permaneceu de ouvidos e olhos fechados a todos estes horrores das guerras coloniais; ele que trazia o crédito de nos ter salvado da II grande guerra, a qual foi mundial, mas que não teve perspicácia para evitar a guerra nacional, extemporânea e, por natureza, imprópria para ser vencida.
Então, da boca do ditador frágil, mas armado em forte, surge o momento em que, com aparente firmeza disse: «Para Angola e em força».
Primeiro para Angola, mas depois para a Guiné e Moçambique, o ditador mandava, o regime estava com ele.
Salazar, um \homem de firmeza frouxa, porque é sempre fácil mandar para a guerra os filhos dos outros, derramar o sangue que não nos corre nas veias, gerar os gritos que não conseguimos ouvir, provocar as lágrimas que não pretendemos fazer secar e causar os desgostos e aflições que não nos afetam.
Salazar que mandou os portugueses para uma guerra que já tinha a nossa derrota por certa, num tempo em que todas as potências coloniais europeias já estavam a descolonizar e a arrumar devidamente os seus países, enquanto os nossos homens iam arder, por catorze anos nas matas africanas, perdendo vidas, sofrendo incapacidades, gerando desgostos e desgraças, só para que se prolongasse um pouco mais esse propalado engano de que Portugal se estendia do Minho a Timor.
Portugal então ostracizado pela comunidade internacional, por ser um país colonialista;
o último país europeu a deter um império colonial, enquanto a ditadura lá ia resistindo sedeada em Lisboa e amparada pelo seu aparelho repressivo.
Talvez Salazar nunca tivesse ido a nenhum daqueles desembarques, ou, se lá foi, certamente não esperou pela fase mais triste, essa em que, do navio, descem os amputados e são desembarcados os corpos dos falecidos.
Também é concebível que ele tivesse conhecimento de todas essas dores e tristezas,
mas que ainda assim permanecesse orgulhoso, uma vez que aqueles mancebos teriam morrido pela Pátria, porque certo tipo de políticos perdem a noção do valor da vida de cada um e tudo sacrificam com base na invocação do amor à pátria, a qual, contudo, não
reclamava mortos e feridos, mas antes a competência dos políticos seus governantes, para saberem resolver atempadamente situações extremamente delicadas, por forma a que elas se não transformassem em problemas dolorosos de resolução tanto mais difícil, quanto mais seja feita sob pressões da mais diversa natureza.
Feridas que a ditadura do estado novo deixou que gangrenassem, até que tudo viesse a explodir após a revolução dos cravos, já com limiares de resolução muito mais apertados.
Na Guiné tinha o Carlos deixado alguns amigos, indivíduos naturais de lá que faziam parte da tropa local, que estiveram consigo nas batalhas, que davam a vida com bravura também pela Pátria, sem que soubessem bem que pátria era essa, pois que da parte europeia dela nada conheciam.
Mais tarde, quando tocou a descolonizar, muitos deles não puderam embarcar para Portugal, ficaram lá abandonados, deixados à mercê daqueles contra quem haviam lutado.
Por isso, vieram alguns deles a ser assassinados, já indefesos, apelidados de traidores pelos outros que, do outro lado da barricada, lutavam pela Pátria Guineense.
Pobres desses guerreiros, que ficaram sem Pátria alguma, porque foram abandonados por Portugal e rejeitados pela Guiné, onde nasceram, e que julgavam defender, quando, no campo de batalha, denodadamente expunham a própria vida.
Desta traição para com esses bravos militares e de outras traições pouco divulgadas, não poderia saber o Carlos naquela altura, porque ainda algum tempo havia de decorrer até que os cravos enfeitassem uma revolução, até que novos políticos tomassem os lugares dos outros que do poder foram apeados e até que a Pátria se encolhesse de tal forma que deixasse indefesos tantos que, sendo seus filhos, e tendo nela acreditado, nela não encontraram amparo algum.
Ó Pátria que tu criaste, Afonso Henriques, que tu seguraste, Mestre de Avis, que tu perdeste, ó Sebastião, que tu reencontraste, ilustre duque de Bragança, quão necessitada estás tu hoje de que Luís Vaz de Camões venha de novo e, desta feita, demonstre, com aquele engenho e arte que apenas ele tinha, que, do fundo da humilhação causada pelos teus maus governantes, ainda pode renascer a grande luz Lusitana, sem necessidade de batalhas travadas com armas mortíferas, mas antes servindo-se de boas lutas, nos campos do saber, do amor e da inclusão.
Ó Pátria nobre e bela, lança-te de novo no mar das descobertas, em prol da dignidade do ser humano, da fraternidade que una todos os povos do planeta, da ciência só aplicada no bem, e em prol da fé em Deus, que é todo Bondade, Sabedoria, Poder e Misericórdia e donde nos provêm todas as bênçãos.
Ó Pátria, faz jus aos luminares da espiritualidade que tanto te amaram, ao Santo António, que dizem ser de Pádua, mas que nasceu e se criou em Portugal, à Isabel de Aragão, que, para além de ser rainha também foi Santa, à rainha D. Leonor, que criou a benemérita
obra das Santas Casas da Misericórdia, a S. João de Deus, a S. João de Brito e a todos aqueles que, olhando para os Céus, desde Portugal, derramaram rios de bondade na terra.
Ó Pátria, inspira-te neles e demonstra que a política e o amor não têm de fatalmente andar separados.
Nesse desejado e belo porvir, o saber destituirá o obscurantismo, a solidariedade substituirá o egoísmo, a competência e o desejo de bem servir iluminarão os governantes, a pena atuará em vez da espingarda, a palavra cordial destronará a força bruta, o direito far-se-á com base na justiça temperada pelo amor e pela moral, e a nova humanidade há de renascer da esperança,
do bom saber, da bondade e também das cinzas provenientes dos bons sonhos que se queimaram e dos sofrimentos que foram desnecessariamente causados, mas que originaram os perdões dados pelas suas vítimas e a recuperação para o bem dos seus algozes.
Ó Pátria, ouve a voz daquele poeta incógnito que, por tanto te amar, assim falou:
Vamos lançar as caravelas,
Num novo mar por abrir,
Desvendar novas janelas,
Onde o sol é mais brilhante,
E nasce sempre no porvir.
Vamos sulcar caminhos novos,
No sentir e no saber,
Abraçar os outros Povos,
E viver em português,
Para quem quiser entender.
Mas voltemos ao nosso personagem, porque vai ser com ele e com alguns outros, que conviveremos, no desfilar das muitas ideias e frases que ainda nos separam do final deste romance.
Outra faceta do Carlos era a da sua ligação à música. De facto, aos dezassete anos, houve um amigo que lhe ensinou a fazer alguns tons na guitarra, coisa pouca, mas
eram as bases e ele tinha vontade e jeito para aquilo.
Daí por diante, era ele que aprendia por si próprio e em permuta de conhecimentos com os demais nisso interessados, pois que, nesse tempo, não existia em Faro, qualquer estabelecimento de ensino que tivesse a aprendizagem da guitarra como disciplina.
Aos dezoito anos, com mais quatro colegas, formaram um conjunto musical, entusiasmados pelos ritmos da música pop dos anos sessenta, tocando, mal pagos, pelas salas de baile da região, mas sempre com o sonho dum dia poderem ter o dinheiro e as fãs em quantidade, como tinham os Beatles ou os Stones.
Quando era a música «fast», cantava-se em inglês, quando eram as mais lentas, lá vinham também algumas francesas ou italianas, mas o cantar em português para a juventude que era o seu público, nesse tempo, era quase um pecado.
Estava ainda longe a chegada do Rui Veloso, com o seu Chico Fininho e o rock português que, apesar de vir com décadas de atraso, demonstrou à juventude deste país que o seu idioma, mesmo sem a doce forma de pronunciar dos brasileiros, também tem musicalidade, seja no rock, seja fora dele.
Antes de ir para a tropa, já o Carlos Fonseca ocupava os fins de semana a ganhar uns magros escudos, tocando até altas horas da madrugada como viola ritmo nesse conjunto.
Ele já tinha perdido a conta de quantas segundas feiras chegou ao trabalho, pela manhã, cansado das noitadas passadas a tocar, no fim de semana anterior, tendo muito mais desejo de dormir, do que de vender azulejos, pavimentos ou sanitas.
Mas esse dinheiro que na música se ganhava, na música se derretia, pagando ele a prestações o instrumento e a fraca aparelhagem de cinquenta watts que o servia, mas que, na altura, já todos diziam que era uma das melhores existentes na região.
O Fonseca e os seus companheiros de conjunto começaram a assinar letras de câmbio, quando eram ainda muito jovens, para que os vendedores dos instrumentos, o Adelino, sedeado em Loulé e o Vítor Coelho, sedeado em Faro, as descontassem no banco e lhes entregassem aquelas aparelhagens que faziam as delícias
deles e do público, já com câmara de eco rudimentar de fita para as vozes ou reverberação para as guitarras elétricas.
Todos eles tocavam muito mais pelo amor à música, pelo gozo que dava produzir um bom som e tocar lindas canções, do que propriamente pelo objetivo de alcançarem um ganho económico.
A malta do conjunto aguardava que ele chegasse da tropa para o integrarem de novo e para com ele tentarem voos mais altos.
Todos eles, ao abordarem a sua atividade musical, de músicos não profissionais que eram, viviam muito duma fantasia extremamente distante da realidade, não tendo compreendido, talvez precisamente para que o sonho fosse mais bonito, que Faro não
era Londres e que Portugal não era, no panorama musical, comparável aos Estados Unidos da América.
Passados dez dias desde que havia chegado a Faro, já ele estava a tocar numa matiné numa das sociedades recreativas da região, reforçando consideravelmente a qualidade do respetivo grupo musical e tendo oportunidade de satisfazer o gosto ao dedo e á voz, posto que, segundo diziam os seus admiradores, mas com mais ênfase, as suas admiradoras, ninguém cantava como ele “A Casa do Sol Nascente, em inglês da América, naquela sequência que começava em lá menor, e que por aí seguia em dó maior, ré menor, fá maior, etc, conseguindo ele ter extensão de voz para entoar os graves e os agudos que a canção requer.
Logo que passou a civil, o Carlos procurou o mesmo patrão, o qual o recebeu de braços abertos.
— É de gente como tu que eu preciso!
— disse-lhe o Ramos com um sorriso de orelha a orelha.
Então, para o Carlos, a guerra passou a ser outra, sem espingarda, mas com astúcia, sem balas, mas com palavras que convenciam a clientela, e rapidamente ele se tornou no vendedor mais credenciado da empresa, naquele em quem o patrão mais confiava para as missões difíceis.
Aliás, o Fonseca sempre gostou do risco; estava logo na linha dianteira, quando se tratava de vencer qualquer desafio.
Talvez por isso, na guerra, por ser sempre dos primeiros na linha de combate, foi atingido por
uma bala que o feriu de raspão na perna direita, mas não lhe fez mais danos, tendo-lhe proporcionado quinze dias de hospitalização na Guiné e uma curta estada em Portugal, para férias, onde os amigos o receberam como se fosse um herói.
Contudo, a família, ao vê-lo partir de novo para a Guiné, chorou, não só de saudades, mas ainda mais de apreensão, pois se outra bala o encontrasse, poderia causar-lhe danos muito mais severos ou, porque não dizê-lo, poderia tirar-lhe a própria vida.
Todavia, após despir definitivamente a farda, a Guiné ficou a fazer parte do seu passado, ainda que, por muntos anos, lhe permanecesse na mente, causando danos e formulando questões que ele ia empurrando para zonas da consciência onde ele pensava que se tornariam menos incomodativas.
Ainda na primeira metade da década de setenta, quando o Algarve aceleradamente se transformava, quando as amendoeiras, as figueiras e as alfarrobeiras cediam lugar aos aldeamentos turísticos e o cimento se propagava por toda esta região, quando muita gente debandava dos campos, quando muitas das pequenas hortas começavam a ser abandonadas, deixando de fazer jorrar do chão e do trabalho os produtos que chegavam frescos, no dia seguinte aos núcleos urbanos mais próximos, quando as pessoas acreditaram em receitas milagrosas que viriam do imobiliário e do turismo, quando as edificações nasceram mais rapidamente e em maior número do que as árvores, pois nessa altura, nesse tempo de crescimento e convite à aventura, tínhamos aí em plena atividade o músico e o vendedor de materiais de construção, que poderia sair de casa de manhã na sua carrinha sem o receio de encontrar uma emboscada ou uma mina pronta a deflagrar,
logo que o carro lhe tocasse, e que, normalmente, traria, no final do dia, mais um punhado de negócios bem conseguidos.
Por outro lado, porque era músico, o Fonseca sabia embalar melhor os clientes, usando com mestria, na venda dos materiais de construção, os conhecimentos arranjados nas andanças musicais.
As notas da pauta, na sua mente, ligavam-se perfeitamente às notas de banco e, durante pouco mais de três anos depois de vir da tropa, tocou simultaneamente nas duas bandas, na das vendas e na das danças.
Por fim, as notas de banco avolumaram-se no seu íntimo, tendo ele dito aos companheiros de música que já não tinha tempo para ir aos ensaios e que nem sequer a mulher já encarava muito bem passar os fins de semana sem ele, pois que, aos fins de semana, de noite ia tocar e de dia ficava a dormir.
Talvez a história da mulher como impedimento não passasse de desculpa, ou talvez fosse mesmo verdade, mas seja como for, esse foi o argumento que ele invocou para deixar o conjunto.
Tudo tem o seu tempo, e o tempo dele, na música, terminara por ali.
Dali por diante, seria vendedor por inteiro durante o dia de trabalho, mas não seria
Aquele marido ideal que a sua esposa gostaria que ele fosse, talvez porque ela elevasse muito a fasquia, exigindo dele aquilo que ele não tinha condições para lhe dar.
Mas isso são assuntos mais complexos que, ao longo deste romance, serão abordados, ainda que não dilucidados por completo.
De facto, caudalosos rios de tinta ainda hão de correr até que se consigam clarificar devidamente as muitas obscuridades que surgem nas relações conjugais, onde tantas vezes se nutrem sonhos que nunca poderão ser realizáveis e onde se sofre por se buscar o que nunca ali poderia ser achado.
Talvez um desses conceitos que muito se busca, mas que nunca se consegue achar concretizado duradouramente em alguém, é o do cônjuge ideal, uma vez que nenhum dos esposos é perfeito e que as expectativas de cada um deles quanto ao outro, normalmente são diferentes.
O cônjuge ideal, como ficção que é, depende da mente que o imagina, muitas vezes com base nas suas próprias falhas e carências.
Mas, se aceitamos como certo que a pessoa perfeita ainda não existe na terra, porque é que existirá o cônjuge ideal?
Por outro lado, ao buscarmos noutrem o cônjuge ideal, deveremos sempre perguntarmo-nos se, para a pessoa que está connosco na relação, nós seremos o seu cônjuge ideal.
Estamos certos que a resposta honesta a esta questão nos iluminará a mente e o coração, dando-nos amor e forças para continuarmos a edificar um casamento cada vez mais inclusivo, mais belo, mais tolerante, subindo ambos os cônjuges, com a ajuda um do outro, apesar da rotina do dia a dia, os degraus da evolução espiritual, nos bons trilhos do aperfeiçoamento, mesmo sabendo que a ficção do cônjuge ideal ainda está longe de se transformar em realidade.
Fazendo isso, tendo a humildade para burilar as nossas arestas e o amor suficiente para ajudar o outro a que elimine as suas, vamos transformando o ideal em realidade e vamos acendendo, cada vez mais, dentro do lar conjugal, as luzes da dádiva, da tolerância, da entreajuda e do perdão, que todas elas se alimentam das boas e potentes energias geradas na inesgotável fonte do amor.
Com o passar dos anos, sobretudo pelo grande esforço que despendia na sua vida profissional, no afã de elevar o nível económico seu e da sua família, o Carlos passou a dedicar a maior parte do seu tempo à luta fora de casa, perante os clientes, os credores e os devedores, os bancos, os fornecedores, enfim, ele levantava-se bem cedo pela manhã e, normalmente chegava a casa já depois das oito da noite, entregando-se por completo nessa outra batalha, sem exércitos nem quarteis, sem tréguas nem facilidades, balançando nas tormentas da concorrência, com um misto de perícia e sofrimento, tudo em prol do triunfo económico, que ele via sempre como um bem, não só individual, mas também familiar.
Só que, diga-se em abono da verdade, esta sua atitude não era interpretada pela sua esposa, como sendo uma luta em prol da família, mas sim como sendo um afastamento progressivo do tipo de casamento que ela tinha idealizado.
Deste desencontro entre duas expectativas geradas em tipos de educação e ambientes profissionais muito diferentes, resultou, para cada um deles, uma postura diversa, quanto ao que deveria ser o quotidiano individual de cada um e da sua relação conjugal.
Por um lado, a dele que sabia que só pelo árduo trabalho é que podia triunfar em prol da família, e, pelo outro, a postura dela, que se sentia afetivamente desamparada e incompreendida.
Desta forma, e porque, apesar de viverem na mesma casa e dormirem na mesma cama, não tiveram a habilidade de interpenetrar os seus mundos, deixaram eles que se fosse gerando, pouco a pouco, a deterioração dum matrimónio que tinha tudo para ser uma fonte de felicidade para ambos.
Ela exercia a sua profissão de docente do ensino básico, ligada à função pública, com salário certo, sem sobressaltos, onde tudo podia ser relativamente bem programado e não conseguia compreender o ambiente profissional em que ele estava inserido, onde nada podia ser tido por conquistado, onde o cliente que se ganhava hoje se poderia perder amanhã, onde a fonte de receitas era incerta, podendo ser excedentária ou
insuficiente, sendo certo que as despesas tinham de ser pagas e, sobretudo, os compromissos bancários e com os fornecedores tinham de ser pontualmente honrados, sob pena da subsistência da empresa ficar em risco.
Quando completou os setenta anos, o Ramos disse que já não queria continuar à frente do negócio. Não tinha filhos a quem deixar o que quer que fosse e o que tinha já era mais do que bastante para ele e a esposa passarem uma vida regalada.
Nessa retirada, feita ainda a tempo de passar descansadamente o tempo de vida que lhe restava, não querendo estar agarrado ao comércio até ao momento da sua morte física, o Ramos provou que era um homem de bom senso.
Pôs o estabelecimento para trespasse e, ao ver o letreiro na porta um dia que lá chegou, o Carlos Fonseca ficou nervoso.
Ele sentia aquela loja como fazendo parte de si. Muito do que ali havia proviera do seu esforço e de ideias que ele sugerira ao patrão.
Ver aquilo tudo ir parar à mão de outro qualquer, era algo que o deixava extremamente triste.
Procurou o patrão e desabafou com ele, tendo-lhe dito que gostava de ser ele o novo dono da loja, ainda que não tivesse o capital suficiente para pagar o trespasse.
— Não faz mal, meu caro Fonseca, eu confio em ti, vai ao Banco, pede aos teus pais que sejam teus fiadores e, se não conseguires um empréstimo que cubra todo o preço, pagas-me o resto a prestações.
Estávamos então no verão de 1983, e o Carlos, poucas semanas antes, havia completado trinta e cinco anos.
Com este voto de confiança que o Ramos lhe dava, ele encheu-se de coragem, falou com os pais, falaram todos com o gerente do Banco, que era amigo da família, e lá ficou o Carlos Fonseca a ser o novo patrão daqueles que até ali tinham sido os seus colegas de trabalho, tendo levado cerca de dez anos a pagar o preço dessa aventura.
No dia em que pagou a última prestação, em julho de 1993, ficou até mais tarde na loja, sozinho, tocando em tudo, prateleira a prateleira, produto a produto, respirando o ar que se vivia dentro daquele espaço que era seu, e gozando alguns momentos do prazer que lhe transmitia a veste de herói da sua luta, do seu objetivo, do seu inebriante projeto de vida.
Quanto ao seu casamento, ele tinha-o como sendo algo de estável, algo que era para durar até ao fim da vida, porque ele gostava muito da esposa e pensava que ela também gostasse muito dele, tendo ambos uma filha encantadora.
Ele sentia-se como um herói, não só por ter a loja, mas também por ter a mulher e a filha e por saber que a luta que ele desenvolvia era em prol dos três, pois todos os benefícios que ele pudesse conseguir da sua atividade comercial iriam revertendo em favor da família, podendo a mesma desfrutar dum nível de vida que, do ponto de vista económico, era muito superior àquele que teriam, se ele tivesse continuado a ser um simples empregado por conta de outrem.
Nessa altura, o Fonseca já há anos que trilhava um caminho perigoso, aquele que o aproximava mais das coisas do que das pessoas, mais dos números que dos sentimentos.
É verdade que o seu trabalho era em prol de toda a família; é verdade que era um trabalho muito intenso e desgastante, mas também era verdade que ele se tinha deixado
absorver quase por completo pela busca do triunfo material, relegando para um plano muito secundário o incentivar do diálogo com a esposa, o exercitar a relação afetiva e o tentar descobrir quais eram os gostos dela e o modo de os satisfazer.
Nesse já distante passado, quando no verão de 1993 terminou de pagar o custo da loja, olhava em derredor e sentia-se bem, era um homem realizado.
Tinha uma esposa adorável em casa, a sua querida Leonor, que o satisfazia por completo como esposa, porque ela exigia pouco e dava muito, porque ele sentia que continuava a ser a grande estrela do universo dela.
Ela era a dona de casa, a mulher de referência que sempre estava presente para tudo, quando ele queria.
A Leonor era a esposa que o empresário de sucesso podia apresentar sem se envergonhar disso, em qualquer reunião de amigos ou mesmo em qualquer almoço de negócios, quando os outros levassem também as suas mulheres.
Ela cumprira, e com juros dobrados, todas as promessas que lhe tinha feito, tendo-lhe já dado uma encantadora filha, a Sara, que, então, já estava a terminar o secundário.
Nesse já distante ano de 1993, tendo a loja paga, o Carlos sentia-se no auge do vigor e da felicidade, tal e qual ele a concebia.
Era pleno, sentia que podia chegar onde quisesse, naquela cidade onde tinha nascido e se criara e onde, desde há cerca de dez anos, se tinha estabelecido por conta própria, estando suportado, tanto quanto ele pensava, por uma família nuclear sólida e feliz.
Contudo, cerca de treze anos volvidos, o homem que visualizamos nessa sexta-feira chuvosa a que acima aludimos, já difere muito daquele que vitoriosamente celebrava o terminar do pagamento da loja.
Apesar de, neste início de 2006, ele, economicamente estar bem mais consolidado, o que sentia, nesse nubloso final de sexta-feira, não era o topo da montanha gratificante do apogeu, mas antes o chão duma caverna obscurecida pela tristeza, que a todo o custo tentava disfarçar.
E que diferenças existiam entre essa fria sexta-feira de janeiro de 2006 e o quente dia de julho de 1993 em que celebrou efusivamente a sua vitória?
Tais diferenças essenciais não eram as exteriores, porque é natural que o julho seja bem mais quente do que o janeiro, no hemisfério norte.
As diferenças a que nos reportamos repercutiam-se dentro dele, convulsionando-o como se fossem um cismo permanente, golpeando-o e trazendo à tona presságios do mais clamoroso e sofrido insucesso.
Digamos mesmo que a maior semelhança entre esses dois marcos na vida dele era a própria loja, que era a mesma, ainda que com menor potencialidade de crescimento, porque agora a concorrência era mais feroz e o mercado dava algumas mostras de inibição.
Mas os factos negativos que, entretanto, tinham ocorrido na vida dele eram de tal forma significativos, que a loja já estava longe de conseguir ter o brilho suficiente para iluminar, tanto quanto seria desejável, a autoestima do seu proprietário.
O pai e a mãe dele tinham falecido nos últimos quatro anos; a sua Leonor, mais recentemente, cansara-se de sentir-se preterida por ele, considerando-se uma mulher só bem casada socialmente, mas com um casamento que, sob o ponto de vista dela, estava em derrocada dentro do lar, e, por isso, tinha partido, sem que ele lhe soubesse o paradeiro.
Deixou apenas, ao que constava, e como único rasto seu, uma procuração com plenos poderes nas mãos duma amiga, para que tratasse de tudo, inclusivamente do divórcio.
Naquele distante verão de 1993, o Carlos sentia-se a crescer, pleno, capaz, ágil e realizado. Mas, nessa pesada sexta-feira de inverno de 2006, sentia-se a descer até ao fundo duma solidão aflitiva, demolidora, triste e dificilmente suportável.
Depois da partida da mulher, foi-se progressivamente implantando no cérebro do Fonseca um potente sinal vermelho, um poderoso alarme que lhe anunciava um desastre, algo de humilhante e tão sinistro que ele ainda não descobrira bem qual seria a sua real dimensão, mas a sensação de mal-estar tornava-se-lhe cada vez mais obsessiva.
Já não sabia bem se era pelo facto de ser obrigado a encarar a divisão da sua invejável fortuna, ou se era antes por ter de passar noites e noites sozinho, sem poder chegar a casa e aconchegar-se junto da mulher, como antes o fazia, para restaurar forças, compensando as que tinha perdido, no combate lá de fora.
— Querida, estava cheio de vontade de chegar ao quentinho da nossa cama, vim tarde porque estive com uns amigos a concluir um negócio, mas o meu desejo era estar aqui contigo.
Continuas linda, continuas a ser o grande amor da minha vida.
Fosse como fosse, agora, sem a mulher para lhe preencher os vazios, cada vez se ia
sentindo mais debilitado e possuído por uma fadiga, que nunca antes havia experimentado.
Por outro lado, a sua filha, essa menina que se enlaçava no seu pescoço quando ele chegava a casa e que lhe fazia despertar ternuras belas e infindáveis, essa sua flor que ele tanto tinha acarinhado, para que crescesse saudável e generosa, tornara-se mulher, completou o curso de Economia em Lisboa, foi para Inglaterra, a fim de frequentar o mestrado numa universidade mundialmente famosa e, em prol disso, ele aplicou com gosto parte das suas economias.
A Sara por lá arranjou colocação, marido, um bebé e amigos.
Tinha trocado, com gosto, Portugal pela Grã-Bretanha, a pequenez de Faro pelas
grandezas de Londres, o idioma de Camões pelo de Shakespeare, a vastidão dos horizontes da ria formosa, resplandecendo ao sol, pela estreiteza do Tamisa, embrulhado num denso nevoeiro.
Tinha vindo a Portugal, numa curta visita, por razões de trabalho, havia cerca de um ano, mas nunca mais cá pusera os pés.
Ligava para o pai, de quando em vez, mas de fugida, sem grandes enlaces ou aprofundamentos.
Contudo, ele era capaz de jurar, poucos anos antes, que a filha via nele a sua grande estrela.
Mas também as estrelas mudam de lugar, os seus admiradores mudam de opinião, e agora o Carlos Fonseca não se achava com brilho suficiente para ser a estrela de ninguém.
Ele desconfiava que ela sabia onde é que a mãe se encontrava, até talvez morasse perto dela, em Inglaterra, mas isto eram só desconfianças suas, porque a Sara, quando ele lhe perguntava pela mãe, respondia laconicamente que nada sabia do seu paradeiro.
O Fonseca ainda não se tinha dado conta de que há muitos casos em que os filhos, depois de muito terem recebido dos seus pais, carinho, sustento, suporte para os estudos e todas as facilidades económicas que, por amor e por vezes com grandes sacrifícios, os progenitores lhes disponibilizam, batem asas, logo que encontram o seu novo ninho e, não raro, só conseguem avaliar o quanto eram amados pelos seus pais e o quanto lhes pagaram isso com a moeda da indiferença, quando eles ocupam essa posição e começam a cumprir, em relação aos seus próprios filhos, o normal ciclo da vida.
Nessa altura, quando os filhos, sem explicação, se desligam afetivamente deles, dando a
entender, por atos e por omissões, que não incluem os seus progenitores no patamar dos seres mais queridos, é então que, esses que agora se sentem na posição de progenitores abandonados, se recordam que fizeram o mesmo àqueles que os trouxeram a esta vida.
Pensássemos todos que a existência se rege sempre pela Divina Lei de causa e efeito, cuja aplicação tem por consequência a de que cada um colherá inevitavelmente, conforme a semeadura que haja feito, e teríamos mais cuidado ao lançar, na conta da vida as nossas condutas, pois que a plantação é facultativa, mas a colheita é sempre obrigatória.
Ao falarmos disto, vem-nos à memória certo poema pouco divulgado, no qual se reflete a realidade acima descrita, onde se pode ler o seguinte:
“O amor natural dum pai ou duma mãe
Traz consigo sensações tão boas e bonitas;
Emoções tão profundas e tão benditas,
Que sempre nos ensinam o caminho do bem.
Pelos filhos, mesmo as más horas são bem passadas;
Sentimos, como nosso, o doer das suas dores;
Eles acendem em nós, preciosos amores;
E vamos sempre aplanando as suas estradas.
Pelos filhos, nunca sentimos cansaços;
Temos frases próprias, para os amparar.
Se choram, cá estamos, para os consolar;
Eles têm abrigo, no aperto dos nossos braços.
Pelos filhos, acendemos lindas estrelas,
Para enfeitarem as noites dos seus sonhos.
Para eles, inventamos histórias belas,
Para que se elevem aos cumes mais risonhos.
Pelos filhos, muitas vezes fomos crianças,
Para entender o débil ser que renasceu.
Por eles, andamos entre a Terra e o Céu,
Pondo neles as nossas melhores esperanças.
Assim os vamos amando, mesmo que não entendam;
Falamos de bem, mesmo que não queiram ouvir.
Às vezes arriscam, acabando por partir,
Ficando longe dos pais, que por amor, os defendam.
Quanto demos de nós, para que felizes, crescessem!
Por vezes calámo-nos, realçando os seus brilhos.
Durante anos, esperámos que percebessem
Que mais lembrariam os pais, com lições dos seus filhos.”
De repente, o Carlos desligou-se das faturas, olhou para o relógio e viu que já passava das nove da noite. Se continuasse por ali, já não arranjaria jantar em lado nenhum.
Fechou a porta do pequeno escritório á chave, ligou o alarme da loja, apagou as luzes, encerrou a porta da rua e dirigiu-se para o carro, que estava estacionado a poucos metros dali.
Dentro de dez minutos, estaria no restaurante da Madalena, onde já era familiar, posto que, desde que a esposa tinha abalado, lá jantava quase todos os dias.
Agora era familiar no restaurante, porque pagava, porque era um bom cliente.
Não era assim há tempos atrás, quando era familiar em casa, porque tinha família, porque alguém o esperava, não pelo dinheiro, mas pelo amor.
Ele estava corroído por um grande desgosto, porque se sentia incompreendido, por quanto, apesar de tudo ter feito quanto estava ao seu alcance, na sua maneira de ver, para ter uma família feliz ao seu lado, tinha sido abandonado, quer pela mulher, quer pela filha.
Essa família do antes era o seu suporte afetivo, ele podia não estar frequentemente a telefonar para a mulher para dizer que a amava, poderia não ser muito exuberante no mostrar dos sentimentos, mas o que era verdade é que o amor pela mulher e pela filha sempre tinha crepitado dentro dele, mesmo que, por vezes, o não tivesse demonstrado tanto como o poderia ter feito.
No restaurante, quantos mais clientes lá fossem, menos se notava a sua ausência.
No seu lar de antigamente, ele não concorria com a quantidade; não era uma entre muitas outras pessoas; era o marido, o pai, aquele por quem a mulher e a filha esperavam para acrescentar algo mais à fonte de carinho que elas mantinham a gotejar permanentemente, para que todos nela matassem a sede de afeto, de apoio, de complementaridade e de entreajuda.
Enquanto conduzia pela cidade molhada, quase deserta e mal iluminada, envolto por uma chuva branda que embatia nos vidros do BMW, estava mais voltado para dentro de si do que para fora, fazendo o estritamente necessário para fluir no pouco trânsito existente, mas sendo tomado por uma torrente de pensamentos que lhe causavam uma sensação de desconforto e de abandono.
Ao volante do carro, conseguia controlar a viatura, mas como timoneiro de si mesmo, achava-se cada vez mais incapaz de se dirigir a porto seguro.
O herói começava a sentir-se, pela primeira vez, um vencido, as suas vestes de prosperidade iam-se pouco a pouco rasgando, tudo com muita dor e com muita resistência da sua parte, porque o herói não queria deixar de o ser, apesar de cada vez mais sentir que, de facto, já o não era.
Dentro dele formavam-se vagas sucessivas, nascidas no mar tempestuoso das emoções, que embatiam de encontro à máscara por si posta, qual couraça, em torno da alma dum homem que se sentia traído, que ficara sem retaguarda, quando pensava que ela estava segura, que se via no meio dos destroços da construção afetiva que, à sua maneira tinha logrado fazer e que, dum momento para o outro, se desfizera.
O soldado que, na Guiné, não vacilava no campo de batalha, defrontava-se agora com uma luta muito difícil, perante um inimigo que não lhe surgia diante dos olhos do corpo, mas antes que o atacava nos mais íntimos recessos da mente.
Tal como no campo de batalha, lá em África, ele queria a todo o custo resistir aqui, em Portugal, perante os danos causados pelas bombas que caíram no seio do seu ambiente familiar.
Ele levou décadas a construir dentro de si e a alimentar, na fonte da sua personalidade, aquela imagem de herói, de homem materialmente bem-sucedido na vida, porque sentia que esse perfil era o que melhor se adequava ao Fonseca, que proviera de família humilde, mas que hoje estava conceituado na cidade, como sendo um dos comerciantes mais prósperos da praça.
Será que ele tinha dado demasiada importância aos teres e haveres?
Mas, se ele não tivesse travado, com ânimo e denodo, a luta que travou, como é que tinha pago o empréstimo ao banco?
Como é que poderia ter adquirido a loja e tê-la feito prosperar?
Como é que poderia ter mandado construir e mobilar a bela moradia onde se instalou com a mulher e a filha e da qual ambas tanto gostavam?
Estas eram perguntas que lhe surgiam, nessa noite, para darem justificação a quem dela carecia, a quem não queria sentir-se condenado, sem apelo nem agravo, com culpa exclusiva, pela decisão de rotura que a mulher tinha tomado, pouco mais de um ano antes.
Era toda esta tempestade de factos e questões, umas para as quais ele tinha respostas satisfatórias e outras para as quais esse tipo de respostas não surgia,
tudo dependendo do ponto de vista pelo qual se encarasse a vida,
era esta tormenta, pois, que se agigantava na alma dum homem que, por estar tão ocupado por dentro, mal reparava no trajeto por onde seguia o grande carro em que se transportava.
Ele buscava achar as bases do herói, do homem de sucesso, do vencedor, do indivíduo que, pelo seu esforço e pela sua capacidade de trabalho e de convencimento dos outros, tinha chegado ao topo, mas a abalada da mulher, a casa que, dali a pouco, para mais uma noite difícil, o esperava sem ninguém, apontavam-lhe a imagem de alguém que estava a descer perigosamente para o resvaladouro dos vencidos, dos miseráveis e dos sem abrigo.
Ele sentia-se como sendo aquele comandante que, no campo de batalha da vida, seguiu, olhando em frente, na batalha em prol do bem-estar da família, porque estava seguro de ter uma retaguarda que o ia acompanhando na árdua luta que travava, mas que, a dada altura, quando olha para trás, vê que está sozinho, que está desamparado, porque aquelas duas pessoas por si muito amadas, as quais constituíam o seu suporte afetivo, desertaram, deixando-o a sangrar, sujeito aos golpes que lhe vinham da frente, da sua ocupação profissional que era exigente, e aos golpes que lhe surgiam de trás, provenientes da solidão e da vulnerabilidade que o desfazer da sua retaguarda lhe causou.
+Finalmente, estacionou o BMW a cerca de vinte metros do restaurante;
abriu a porta do carro, abriu o guarda-chuva, porque, apesar da curta distância, não lhe apetecia molhar a cabeça, trancou a viatura, e lá foi em busca do jantar.
Uma vez entrado no restaurante, deparou-se apenas com duas mesas ocupadas, já em final de refeição, e, ainda antes de se sentar, foi cumprimentado pela Madalena, a filha da dona da casa, uma jovem sorridente, alta, com um perfil extremamente agradável e sempre com um sorriso acolhedor para o cliente, que ali se sentia familiarmente recebido.
Era ela quem fazia o serviço das mesas.
— Já estava a estranhar de não o ter cá hoje — disse ela com aquele jeito espontâneo e intimista que a caraterizava.
— Olha que estive indeciso em vir ou não vir.
De facto, preciso de jantar, mas parece que não me apetece nada em concreto.
Não sei se quero peixe, se quero carne; estou num daqueles dias de má boca, Madalena.
Nesta altura, aproximou-se deles o Toino, o pai da Madalena, o especialista das brasas, um homem afável e corpulento, daqueles que estão mesmo bem no posto que ocupam,
porque um corpo tão avantajado não se cria apenas com copos de água e caldos de galinha.
Dirigindo-se ao Fonseca, ele disse:
— Esta semana tem sido completamente desgraçada. O temporal não tem deixado que os homens vão ao mar; na praça não há nada que se aproveite.
— Então, mas o que é que me sugeres, Toino?
— Talvez umas boas costeletas de borrego grelhadas. Tenho ali umas que são uma verdadeira especialidade!
— Pode ser, meu caro, mas não vale a pena uma dose muito grande, que hoje estou com pouco apetite.
Enquanto as costeletas se grelhavam, o Fonseca foi bebendo uma garrafinha pequena dum vinho tinto do Douro, que era o seu preferido, foi-se sentindo mais aquecido, quer por dentro, pelo vinho que entrava, quer por fora, porque a lareira da sala estava acesa e sentia-se junto duma família.
É certo que não era a sua, era a família do Toino, que, para além dele, era constituída pela sua esposa e por mais três filhos, duas moças e um moço, todos ainda solteiros.
Contudo, esse ambiente afetuoso, familiar, em que todos estão unidos por um laço que é muito mais belo e forte do que o vínculo meramente profissional, transmitia-lhe o aconchego de que ele precisava no final de cada dia, porque se não fosse o facto de entrar ali naquela sala dum restaurante familiar, passaria muitos dias, semanas e meses, sem sentir família nenhuma.
Ali, ele, enquanto tivesse dinheiro para pagar e fosse um assíduo frequentador, não era um simples cliente. Era o Sr. Fonseca, aquele cliente habitual dos jantares, aquele cujos gostos todos os que trabalhavam naquele restaurante já conheciam.
Nunca se deveria deixar acabar o vinho de que o Sr. Fonseca gosta e, quando se fazia o ensopado de borrego ou o pargo assado no forno, devia-se contar sempre com a dose do Sr. Fonseca, que essas eram comidas que ele não dispensava.
Mas naquela noite, ele estava mais metido consigo do que era habitual.
Havia tempestade lá fora, a chuva continuava a cair ininterruptamente, ouvia-se o barulho dos pneus dos carros a deslizarem pela estrada encharcada, mas havia outra tempestade muito pior que era aquela que o golpeava por dentro.
Mas que mal-estar era esse?
O Carlos Fonseca sempre tinha encarado a vida duma forma muito pragmática e direta, nunca tinha necessitado de grandes mergulhos nele próprio, nem de se debruçar sobre filosofias complicadas.
Aquilo que ele sempre tinha gostado, efetivamente, era da prática.
Como vender, como convencer, como gerir uma empresa, como conservar o crédito bancário, como prever as crises económicas para não sucumbir com elas, como evitar os maus clientes e cativar os bons.
Quando lhe perguntavam, enquanto jovem, quais eram as habilitações literárias que tinha, ele respondia que era formado em letras, daquelas que vão ao Banco e geram liquidez.
Quase sempre isto causava um franco sorriso no seu interlocutor.
Nas horas de lazer, as suas leituras ficavam-se pelos jornais e, normalmente, evitava os longos artigos de opinião.
O primeiro e último romance que leu foi A Cidade e As Serras, do Eça de Queirós, mas porque a tal tinha sido obrigado, enquanto estudante do liceu.
E que seca foi para ele aquela leitura, que lhe tinha retirado a vontade de ler qualquer outro livro de ficção.
- Romances, com histórias inventadas, para quê, dizia ele, se a realidade é tão rica?
Mal sabia o Fonseca que nas boas ficções existe sempre uma substancial dose de realidade e que, através das lentes do artista, através dos desbloqueios emocionais que a boa arte consegue realizar, as pessoas logram iluminar recantos da sua realidade que ainda permaneçam obscuros.
De facto, a realidade é muito rica, mas, por vezes, nós somos muito pobres nas perceções que dela temos.
Parece, à primeira vista, que este seu modo de pensar se coadunava pouco com a maneira de encarar a vida, por parte de alguém que já tinha sido músico.
Mas isso fora há já muitos anos, na idade dos encantos, quando o jovem mantinha dentro de si muito do adolescente que tinha sido, quando o manto da pureza era eficiente para quebrar quaisquer frios, quando ele ainda estava invadido por belos sonhos, quando a rotina profissional ainda não havia tisnado a mente do músico, quando os sapatos do bom ideal podiam ajudar a subir qualquer montanha.
Diga-se em abono da verdade que, nos últimos tempos de permanência no conjunto, ele já tocava mais pelas notas de banco do que pelas da pauta.
Certa vez, o Sérgio, um colega do grupo, apelidou-o de mercenário, dizendo-lhe que,
ultimamente, quando o ouvia a tocar guitarra, tinha a impressão de estar a ouvir funcionar uma fábrica de azulejos.
O Fonseca mandou-o à fava e disse que mais valiam dez caixas de azulejos daquelas que ele tinha para vender, do que todos os discos e livros que o Sérgio tanto se orgulhava de possuir.
O Fonseca foi músico, fazia-o por gosto, amava a música, daquela que é fácil de entender, daquela que entra em nós, mesmo sem que nos apercebamos, dessa que nos põe a cantar espontaneamente, mas, fora disso, nunca foi de aprofundar muito qualquer forma de arte, tal como, pelo menos conscientemente, nunca foi de aprofundar muito as matérias relativas ao espírito.
Talvez o principal motivo que tinha levado a Leonor a separar-se dele, fosse o facto de não se sentir amada, tanto quanto ela gostaria de ter sido.
Só que ele amava à sua maneira. Não sabia expressar com palavras muito rebuscadas o seu sentimento, não enfeitava esse amor com ramos de flores que, de quando em vez mandasse à mulher, ou com outras manifestações exteriores que, socialmente, rotulam alguém de ser um romântico.
Talvez se tenha esquecido algumas vezes de que o dia 14 de fevereiro é o dia dos namorados, mas, de facto e de verdade, lá no fundo do seu coração, a Leonor continuava a ser a mesma princesa a quem ele tinha pedido namoro, aos dezoito anos e com quem ele queria permanecer para o resto da sua vida.
E por tudo isso, ele se sentia tão golpeado no íntimo e sentia-se injustamente abandonado.
Poderia ter tentado arranjar, entretanto outra mulher, porque, para alguém, com a boa aparência que ele ainda tinha e com o seu bom nível financeiro, isso não seria difícil, mas ele tinha prometido a si mesmo que, naquela casa, nenhuma outra iria entrar, como esposa, porque, no seu coração, pelo menos intuitivamente, o lugar da Leonor continuava intocável.
Mas naquela chuvosa noite de sexta-feira de que estamos falando, adensava-se dentro de si, contra a sua vontade, uma violenta tormenta que muito o magoava, cujas causas ele, apesar de já ter identificado, não conseguia debelar.
O Fonseca tinha-se acostumado a lidar bem com o que lhe vinha de fora, mas não era bom a tentar curar as feridas que lhe doíam lá dentro.
Enquanto o jantar não lhe era servido, vieram-lhe à memória as palavras que o Daniel Brito, um amigo comum de juventude dele e da Leonor, várias vezes lhe disse:
- Amigo Carlos, a felicidade, normalmente anda longe das luzes da ribalta e dos brilhos da matéria, preferindo viver no tranquilo país dos bons sentimentos.
“Cuidado Carlos, que o tempo é uma graça que Deus nos dá, para que o empreguemos a fazer o bem, conquistando os verdadeiros tesouros, que são os do espírito.”
E tantas vezes o Daniel, em várias conversas lhe dizia coisas deste tipo, que o Carlos já o achava repetitivo e, por vezes, interrompia-o, dizendo:
- Bem, Daniel, deixa lá isso, que já sei essa música do princípio ao fim.
Mas aquelas frases provenientes desse comum amigo dele e da esposa, daquele amigo que os ajudara no namoro e que sempre os tinha apoiado em tudo o que podia depois do casamento deles, nessa noite, brotavam-lhe, impetuosas do fundo da mente, pedindo para serem, não só ouvidas, mas, muito mais do que isso, devidamente analisadas.
Mal sabia o Carlos que, ao falar com a Leonor, o Daniel lhe dizia algo bem diferente:
“Leonor, não queiras ver no teu marido aquilo que ele não é, nem nunca foi.
Ele nunca gostou de poesia como tu, nunca foi amante da leitura de boas obras, nem de ficção, nem das outras, ele não se interessa por história ou por filosofia, mas nem por isso ele deixa de ser uma ótima pessoa e de te amar muitíssimo.
Não faças ensombrar o vosso matrimónio com nuvens que não existem.
Ele não te impede de seguires a tua via de crescimento espiritual.
Faz o mesmo em relação a ele, ajudando-o no que puderes.
Se achas que, em virtude da tua cultura mais vasta e mais elaborada, consegues ver algo que ele ainda não consegue, tenta ajudá-lo, com o saber de quem ama, mas não com a arrogância de quem impõe.
Amiga, se é verdade que ele tem muito a aprender contigo relativamente à teoria, também é verdade que tens muito a aprender com ele, quanto à prática.
Vocês têm diversas formas de abordar a vida, mas, se conseguirem englobar essas diferenças na unidade do amor, podem ser muito mais completos e felizes.
O Daniel tinha a idade da Leonor, conhecia desde criança, porque residira na rua dela.
Ele nunca se casou, apesar de ter mantido algumas relações de namoro.
Dizia que o grande amor dele ainda não tinha chegado e, muito provavelmente, pela idade que ele já tinha, não seria nesta vida que iria chegar.
O Daniel era professor do secundário, muito dedicado ao conhecimento e, por ser amigo do casal, por conhecer bem as características de ambos os cônjuges e, bem assim, pelo facto da Leonor, com alguma frequência, falar com ele acerca das lacunas que sentia no seu casamento, ele ia dando um retoque aqui e ali, ora num, ora no outro, para tentar evitar a desarmonia que, desde há anos, pressentia como cada vez mais iminente.
Ele sabia onde é que a Leonor tinha ido residir, apesar de ter dito ao Carlos que desconhecia isso por completo.
Uma vez acontecida a separação, o Daniel ia trabalhando, separadamente com cada um deles, tentando aproximá-los, porque sabia que, afastados um do outro, ambos eram desnecessariamente infelizes.
Entretanto, as costeletas vieram; na verdade estavam muito boas.
O Carlos rematou a refeição com uma salada de frutas e, depois de pagar, preparou-se para se dirigir para casa.
Antes de se levantar da mesa, olhou em volta e sentiu que não lhe apetecia sair dali.
Se fosse possível, passava da mesa para um sofá, perto da lareira, e ficava naquela sala, vendo o fogo a espalhar a luz e o calor que, naquela noite lhe faltavam.
Pediria ao Toino para manter o restaurante em funcionamento a noite inteira, mesmo que lá não fosse cliente algum, deixando as luzes acesas, a lareira a crepitar, ficando ali o Toino e o resto da sua família a darem-lhe companhia.
Talvez assim a tempestade que lhe agitava o íntimo se fosse embora e o calor daquela família conseguisse dissipar o frio que o corroía até ao ponto mais nuclear da alma.
Mas não, isso não era possível.
O Toino, a sua esposa e os seus três filhos iriam passar dali, do seu local de trabalho, para o seu lar, para o seu local de descanso, todos juntos, todos ligados por qualquer laço que era bom, mas que ele já não mantinha com ninguém.
Ainda que a esposa se zangasse com o Toino, de quando em vez, para que ele fosse menos mole, para que ele se levantasse mais cedo, a fim de estar no mercado, para poder comprar os melhores produtos; ainda que qualquer um deles refilasse com os demais, o tal laço bom e invisível existia, eles estavam juntos e sentiam-se aconchegados.
Se um tivesse uma dor, os outros sentiam-na, se um apresentasse uma cara menos alegre, os outros preocupavam-se com isso, tudo fazendo para que a alegria voltasse àquele rosto turvado de névoa.
Finalmente decidiu-se, tinha de ser, tinha de ficar só consigo mais uma noite, tinha de sentir o seu laço, que era áspero, que magoava, que, não tendo ninguém mais a quem se prender, se enrolava apenas em si mesmo, tudo com muita dor e com uma boa dose de desespero, parecendo-lhe ter dentro de si uma corrente com espinhos, que ia girando e que, quanto mais girava, mais o fazia sofrer.
Esse laço moldava-se na grande carência de aconchego afetivo que ele sentia e na dor aguda que tal carência lhe provocava.
O seu laço dava voltas e voltas, mas não encontrava ninguém que o quisesse receber e vinha cravar-se nele, com um sabor amargo a sofrimento ensopado em solidão.
Tinha dinheiro, prestígio no mundo empresarial, mas não tinha, como nos tempos da sua juventude, a menina que vem e que beija o herói e ambos acreditam, num filme a cores, vivido na riqueza do real, que vão ser felizes para a vida inteira.
É verdade, nesses tempos de pureza e simplicidade, de amor e de encantamento, ele já tivera o filme e a menina, a esperança e a energia, a paixão e o desejo, mas agora não tinha nada disso.
Tinha uma vida vazia de afetos e uma casa que, já tendo sido um lar resplandecente, lhe parecia, nessa fria noite de janeiro, um lugar sombrio e extremamente triste.
Era uma casa sem surpresas e, por isso, tal e qual a deixara quando dela tinha saído nesse dia de manhã, assim a encontraria, agora já noite cerrada.
Abriu a porta que dava do restaurante para a rua, continuando a chuva a cair abundantemente.
Dali até casa ainda distavam uns bons mil e quinhentos metros.
Não lhe apetecia enfrentar aquela noite sozinho, mas não havia qualquer outra opção.
Em termos de companhia e de mal-estar, aquela noite iria ser idêntica à anterior, à de uma semana atrás, à de um mês, à de um ano antes.
Desde que a Leonor tinha partido, as noites passaram a ser solitárias, numa cama larga demais para dar dormida apenas a uma pessoa, numa casa de dois andares, com seis quartos, quatro casas de banho, cozinha espaçosa, uma ampla sala de estar, para além da garagem, da piscina e do jardim.
Era a casa do sucesso que ele tinha mandado construir com tudo o que havia de melhor no que concerne a materiais de construção civil, porque disso percebia ele, e a Leonor fizera questão de a mobilar a rigor.
Dinheiro era o que, então, não faltava ao casal, e, enquanto se constrói e se mobila uma boa casa, há outras coisas essenciais das quais, por vezes nos esquecemos e que até dá jeito que nos não lembremos delas.
Mas, naquela noite, ele sentia-se extremamente débil; quando entrasse em casa sentiria uma tristeza que o amedrontava.
Era nisto que ia pensando, enquanto o carro se dirigia para a urbanização de luxo em que a moradia se situava.
Era um pavor enorme da solidão, pensava ele. Mas, talvez aprofundando melhor, o medo que ele realmente estava já a sentir dentro do carro e que aumentou ainda mais quando ficou encerrado dentro da sua torturante casa, era o de se confrontar com um sentimento de perda, não só de pessoas e de tudo o que de bom elas representavam, mas também de tempo, um sentimento que falava de passado e, provavelmente, de muitos passos dados na direção errada.
-De facto, ele era ainda saudável, ainda bem parecido, com dinheiro para comprar o que quisesse e respeitado no meio em que vivia.
Na balança social, ele estava no prato mais favorecido, como aliás sempre desejara estar.
A pessoa que estava emocionalmente à beira do colapso, naquela noite de janeiro, tinha sido voluntariamente construída por ele, ano após ano, opção sobre opção.
Ele tinha desejado ser um herói à sua própria escala, e dentro da tábua de valores que perfilhava.
efetivamente, o herói foi nascendo pouco a pouco e ele sentiu-lhe os prazeres, cada vez que tinha conseguido alcançar algum dos seus objetivos.
Mas, naquela noite, a mulher a menos no lar, ou melhor, um lar desfeito, era algo que estava completamente fora dos planos que tinha imaginado.
Era essa uma perda importante, com a qual se defrontava e se debatia, mas ele não estava preparado para perder, tanto mais que não se identificava como culpado no que tinha acontecido.
Ele tinha projetado a sua vida, incluindo nesse projeto a sua esposa, vista e posta à sua maneira, avaliando o bem-estar do casal com as medidas que eram as suas, porque não tinha quaisquer outras.
Se ele foi um bom marido, se nunca faltou com todo o conforto em casa, se nunca andou com outras mulheres, se trabalhou duramente, para que a família tivesse todo o bem-estar material, como é que se explicaria que a mulher se tivesse ido embora?
Será que se tinha apaixonado por outro homem?
Enfim, estas e outras perguntas iam perpassando na sua mente, mas sem que pudesse obter qualquer resposta satisfatória.
Se lhe tivessem perguntado acerca da sua felicidade dois anos antes, ele diria que era um homem feliz, plenamente realizado.
Só que, nessa altura, a menina do filme ainda estava lá em casa. Ela preencheria todos os espaços vazios, mesmo aqueles que existissem dentro dele.
Ele queria e ela dava, ele falava e ela ouvia, ele pedia uma sugestão e ela interessava-se pelo assunto e dizia o que pensava, ele vinha tarde, mas ela aguardava-o, ele precisava dum gesto e ela estendia-lhe a mão, o resto do corpo e a ternura.
Por tudo isso, ainda mais ele sentia a sua falta e menos encontrava uma explicação para a sua ausência.
Depois de entrar em casa, o Fonseca foi acendendo todas as luzes das divisões por onde passava.
Ligou o aquecimento central, para que a casa ficasse mais aconchegante, ligou a televisão da sala e instalou-se no sofá, tendo pegado no comando e começado a divagar pelos canais disponíveis.
Não conseguiu ficar em nenhum deles mais de cinco minutos.
As notícias, os canais de música, os de cinema, nada, naquela noite, lhe agradava.
No fim de contas, o que ele queria era apagar a solidão, mas tudo aquilo que tinha em casa não era o material adequado para isso.
A solidão vinha da alma dum homem em crise, duma carência de afeto e de companhia que se fazia sentir como sendo a necessidade mais premente e que mais urgentemente deveria ser satisfeita.
A luz de que ele então precisava não podia ser produzida pelas lâmpadas lá de casa, nem pelo ecrã da televisão, nem pela grandiosidade material de tudo o que o rodeava.
O que ele queria não estava ali, tinha partido definitivamente, e ao partir levara o brilho, o conforto, a esperança, a alegria, tantas coisas imateriais que agora lhe apareciam como sendo riquezas inigualáveis, mas junto das quais ele tinha passado anos a fio, talvez sem lhes dar o devido valor.
E se fosse possível entrar na máquina do tempo, conseguindo que aquela noite não fizesse parte do mês de janeiro de 2006, mas antes do mês de janeiro de 1993, ou de qualquer outro mês perto deste?
Quando ele entrasse em casa, a mesma já estaria aquecida, porque a Leonor tinha cuidado disso.
Se fosse fim de semana, ou tempo de férias, a Sara estaria lá, normalmente com a aparelhagem ligada no quarto, ouvindo as canções que lhe agradavam, irradiando aquela alegria contagiante e pura que só a juventude consegue transmitir.
Possivelmente, a Leonor teria convidado os pais dele para irem lá jantar, que era uma surpresa que ela lhe fazia tantas vezes.
Ele, quando ali chegasse, era realmente recebido como um herói, mas sem que a posição social, os teres e os haveres tivessem a ver com isso. Era tudo amor puro, eram sentimentos sinceros e verdadeiros daqueles familiares que então o rodeavam.
Sentir-se-ia confortado, mas nem se teria dado conta da forte realidade afetiva que estava subjacente a tal receção. Era tudo gratificante, mas extremamente fácil para ele.
Naquela moradia, nesses felizes, mas distantes tempos, o vencedor das batalhas diárias do comércio e da boa reputação social podia descansar de todos os combates que o dia lhe tinha trazido.
A meiga esposa lavar-lhe-ia as feridas, todas elas, as do corpo e as da alma.
Nesta noite de janeiro de 2006, o tempo do herói social ainda continuava vigente, mas o do herói eleito por motivos que só o coração conhece já havia passado, e ele duvidava que pudesse voltar a bater-lhe à porta de novo.
Agora ele começara a dar-se conta, talvez tarde demais, de que a outra veste de homem bem-sucedido, a da permuta afetiva, era mais importante do que a do homem socialmente bem colocado.
Mas ele constatou também, nessa noite de que aqui falamos, que estas duas vestes não eram incompatíveis, se ele e a esposa as tivessem sabido harmonizar.
— Porque é que me deixaste, Leonor? — perguntou ele, de alta voz, várias vezes, naquele final duma sexta-feira tempestuosa.
Ela não pôde ouvir tal pergunta e, mesmo que a tivesse ouvido, ainda não teria a boa resposta para lhe dar, porque ela própria ainda estava a caminho de descobrir as razões da sua partida. Naquela altura ainda prevalecia, na mente dela, a afirmação que, ao separar-se, tinha expressamente feito, por escrito, ou seja, a de que nunca mais voltaria.
Mas se há palavras perigosas para o ser humano, porque imensamente extensas quanto ao seu significado, essas são duas:
“sempre” e “nunca.”
Portanto, deixemos que a roda da vida faça os seus aperfeiçoamentos, que coloque tudo nos seus devidos lugares e, a seu tempo, virão sempre as claridades da justiça, do amor e da verdade.
Entretanto, aquela sexta-feira desembocou no sábado, a madrugada desenrolava-se lenta e tristemente, a manhã ainda estava longe, as paredes daquela casa pareciam muralhas opressivas, diques que o enclausuravam, fronteiras intransponíveis entre um presente, que irradiava debilidade, e um passado que exalava o vigor duma autenticidade mergulhada em torrentes de amor e esperança.
Cada vez mais o Fonseca se sentia menos capaz de controlar a desordem que ia dentro dele, que lhe originava uma dor muito intensa, que lhe despedaçava o peito, que o reduzia a pedaços desconexos e humilhantes, os quais o empurravam para um abismo onde ardia um fogo tenebroso que avivava erros, opções mal tomadas, palavras em má hora pronunciadas e outras desconfortavelmente omitidas, tudo misturado à culpa e ao remorso, ao querer que o tempo retroceda e ao constatar da impossibilidade de que tal aconteça.
Ele estava invadido por uma amargura corrosiva e, como pano de fundo de tudo isso, por um ecoar permanente do ruído da solidão, que invade, que toma tudo, que se instala e não tem hora para partir, que destrói impiedosamente e não tem um tempo para acabar.
Onde estás tu, Carlos Fonseca?
Talvez no cabo da vida, no ponto em que nos apetece voltar, em que sentimos que o nascimento ocorreu há tão pouco tempo, em que constatamos que cinquenta anos não
foram mais do que cinquenta dias, em que concluímos que a escola da vida muito ensinou, mas nós, por descuidada distração, pouco conseguimos aprender.
Infelizes daqueles que não se apercebem de que o tempo é uma preciosa dádiva de Deus, a fim de que o aproveitemos, com vista ao nosso aperfeiçoamento espiritual.
Felizes os outros, esses que dão muito valor ao tempo para a edificação do bem, esses que já reconhecem que os bons tesouros, os essenciais, são os do espírito, os quais as mãos não tocam, os olhos não veem, mas que, se os soubermos conquistar, nos acompanham, mesmo quando toda a gente se vai embora, ou quando somos nós, no cumprimento de ordens irrevogáveis da vida, que nos temos de afastar de toda a gente que nos rodeia, seguindo esses tesouros connosco nas árduas, mas compensadoras sendas da sublimação, integrando-nos no todo, dando-nos sensações de conforto e amplitude e aproximando-nos cada vez mais de Deus.
Entretanto, sentado num dos sofás da sala, o Carlos Fonseca foi lançando os olhos em derredor.
Ali estava um jogo de copos de vidro de Murano que tinha adquirido, aquando duma visita que fizeram a Veneza.
Ele, por saber que a esposa gostava daquele tipo de trabalhos, ofereceu-lhos com muito carinho.
Terá sido no final da década de setenta.
Nessa altura ele ainda não era o empresário, era ainda o empregado do Ramos.
Passeando junto aos canais, entrando nas gôndolas e deslizando docemente nas águas calmas daquelas ruas tão diferentes, eles ainda namoravam, apesar de já serem casados.
Nesse tempo ele ainda conseguia encontrar dentro de si o guitarrista que beijava com ardor aquela linda mulher que tinha ao seu lado, e que era apetecível a qualquer gondoleiro, a aferir pelos olhares devoradores que eles lhe endereçavam.
Na parede da sala, por cima da televisão, estavam dois quadros pintados a óleo que ela havia
comprado, numa das vezes que foram a Barcelona, a dois artistas de rua que pintavam nas Ramblas.
Isso tinha acontecido em 1993, quando ele acabara de solver o empréstimo que tinha contraído para pagar a loja.
Era agosto, as Ramblas às nove da noite estavam cheias de gente, os restaurantes espalhados por todo o lado estavam a abarrotar de clientes, os artistas de rua mostravam as suas habilidades, arte livre, não raro gratuita, gente que tinha pouco de seu mas que dava tudo, talvez para ver os sorrisos do público, talvez para ouvir os aplausos plenos de entusiasmo de centenas de pessoas que, diante dum copo de cerveja, desfrutando da brisa estival que lhes deslisava pelo rosto, mergulhavam na beleza, esqueciam o último inverno, o emprego, os desaires dos negócios, quem sabe os desgostos duma vida a dois mal sucedida e, livremente, essas pessoas entravam dentro dos artistas, deixando que os artistas entrassem dentro delas.
Lembrava-se da Leonor lhe ter dito:
— Querido, e se tu fosses apenas um artista de rua, um guitarrista, um cantor que estava ali a entregar música a quem passava, e eu junto de ti, quem sabe, a declamar um poema, podia ser em português, em espanhol ou em catalão, púnhamos o pano no chão e vivíamos do que desse.
— Pois é, meu amor, mas provavelmente não íamos hoje dormir ao hotel, talvez dormíssemos no carro, talvez nem encontrássemos um local para tomar um bom banho.
E ambos se riram.
Nessa altura a Leonor já sentia que a relação deles devia mudar, em Barcelona já não namoravam tão ardentemente como em Veneza e, mal sabiam ambos, que aquela proposta pueril que referia o guitarrista e a moça que declamava poemas junto dele, era o apelo semiconsciente duma mulher que ainda acreditava no seu casamento, que o queria salvar, mas que não sabia como; que queria que ambos voltassem aos tempos duma mais plena autenticidade, do amor puro e simples, da completude, mas não conseguia acertar com a via que permitisse tal regresso.
Nas Ramblas, vendo os artistas que se haviam desembaraçado das âncoras pesadas que lhes tinham tentado impor, a Leonor soltou a emoção, sentira-se ave, por instantes, voando sobre Barcelona, saindo mediterrâneo adentro e tendo como único destino o gosto de ir, permanentemente ir, ao sabor da vida e prolongadamente voar impulsionada pelo amor, sulcando vagas num mar bonançoso de sonhos, de desejos, de vibrações daquelas que nos fazem sorrir sem que saibamos o porquê, daquelas que nos dão felicidade, fazendo-nos crescer no mundo belo e imenso do espírito.
Ela sentia então, ainda que o não soubesse explicar, que ambos tinham uma premente necessidade de saber conciliar o ter com o ser, os fugazes brilhos da matéria com os eternos esplendores do espírito, o poder opressivo da rotina com o dinamismo edificante e libertador do amor, do qual a alma tanto carece, para que possa infinitamente crescer.
Nesse agosto, em Barcelona, ambos de mãos dadas e de olhos ainda postos um no outro,
deixando-se penetrar pela muita beleza que os rodeava, lá, desligados das rotinas da sua vida profissional em Faro, eles estiveram a um pequeno passo de reacender o brilho da sua relação, se qualquer deles tivesse conseguido olhar, não só para o seu mundo, mas também para o mundo do outro, tendo o desejo e a coragem de examinar a construção afetiva por ambos edificada, pondo em causa, por tal vislumbre, sem medo de se defrontar com erros e obscuridades, os resultados obtidos, no intuito de os melhorar.
Eles podiam ter regressado da Catalunha com malas feitas a dois, cheias de ideias novas, as quais aproveitassem o muito de bom que haviam edificado e se despojassem do que fosse prejudicial, dando mais alento àquele enlace que ambos desejaram que fosse pleno de felicidade, num já distante janeiro de 1974.
Contudo, a verdade é que tal não aconteceu, nem nessa altura, nem nos anos de vida em comum que se lhe sucederam.
Mal sabem muitas pessoas que a arte feita pelo bem, falando a linguagem da beleza e do amor, da pureza e da harmonia, consegue penetrar nas almas e descerrar portas há muito bloqueadas, trazendo para a senda da felicidade aqueles que se encerravam nas águas turvas do infortúnio.
Todavia, naquela noite de janeiro de 2006, o Carlos Fonseca talvez desse tudo o que possuía, para ter a mulher de volta, mesmo que ambos tivessem de dormir numa tenda de campismo, mesmo que ele voltasse outra vez a trabalhar por conta de outrem, mesmo que tivesse de dar uma reviravolta integral ao seu modo de ser e de pensar.
Ele sentiu que, na comunhão com a sua esposa, tinha falado a menos de amor, que tinha silenciado injustificadamente, e por muitos anos, esse belo sentimento que ainda borbulhava intensamente dentro de si.
Num dos cantos da sala, existia uma pequena vitrina com umas miniaturas de cristal que ela tinha comprado numa das lojas de Faro.
Ia adquirindo hoje uma, dali a um mês outra, porque era com as sobras do seu salário de professora que lá ia fazendo as suas coleções de objetos, todos eles exprimindo harmonia e beleza.
Aquela casa era de ambos, mas só nos papéis, porque tudo ali dentro tinha o espírito dela; cada objeto simbolizava um momento, um sorriso, uma troca de olhares, o rosto dela a resplandecer e a tentar iluminar o dele com a chama da harmonia que dimanava do seu doce modo de ser.
Aquela casa tinha as paredes, o chão e o teto feitos dos materiais que ele bem conhecia,
mas tinha o conteúdo moldado numa outra fibra forjada no íntimo, na beleza que ela enternecidamente cuidava e a qual, por períodos demasiadamente longos, ele, mesmo sem o sentir, se tinha descuidado de manter bem acesa dentro de si.
A sua permanência naquela moradia começava a ser uma tortura, porque se sentia ali cada vez mais um estranho, um homem perdido no meio de muitas recordações que outrora foram belas e que agora lhe causavam sofrimento.
Teve então necessidade de regressar à música, à sua amiga de juventude, a qual lhe deu tantas horas de emoções boas.
Dirigiu-se à estante em que guardava os CDs e escolheu um deles, que colocou a tocar.
A dada altura, depois dum universo de sons provenientes dos sintetizadores, que traziam opacidade e nervosismo, talvez significando a compressão do ser humano pelas máquinas materiais e mentais por ele criadas, ouviu-se na aparelhagem o soar de muitos relógios, daqueles de pêndulo, espalhando uma profusão de notas musicais diversas, escutando-se em seguida, o passar do tempo marcado por uma guitarra em surdina, também um coração a bater bem ritmado, a percussão a desferir pancadas sobre a tortuosa escada da vida e o entrar do piano e das guitarras elétricas pouco a pouco, tudo numa das mais emblemáticas e das mais bem conseguidas composições dos Pink Floyd.
Toda aquela música ia penetrando profundamente dentro dele com empatia e, ao mesmo tempo, com brutalidade, arrancando bocados de si, ferindo, era a voz do vocalista, era a guitarra elétrica flutuando no espaço com muito eco e alguma distorção, e depois vem o piano; acordes calmos que incitam à reflexão, à interiorização, ao prelúdio de algo que ainda não se imagina o que seja.
Mas, subitamente, vem uma entrada de bateria, o intensificar da parte instrumental, surgindo, então, abruptamente, das zonas do nada, ou talvez dos universos do tudo, como que a flutuar por sobre a música de suporte, uma voz de mulher que canta sem letra alguma, sem dizer uma única palavra, mas grita, exprime desespero, torna-se, naquele momento, sua irmã na dor e sua companheira no lado mais escuro da lua.
A cantora molda a voz ao sumo da alma, percorre a escala, dos graves aos agudos, passa pelos meios tons, dividindo-os em milésimos, em oscilações que só as almas carentes conseguem entender, utiliza a música como uma linguagem e como uma terapia, como um som, mas também como uma visão, como uma mensagem que vai para além do que já se sabe e que apenas é penetrada pela intuição do sentir.
Aqueles gritos entravam dentro dele, dizendo-lhe o essencial, sem necessidade de quaisquer palavras.
Era assim mesmo, de igual para igual, de sofrimento para sofrimento, de desespero para desespero, isso mesmo, só gritando, porque as palavras seriam todas curtas para indicarem a dimensão catastrófica da dor que o afligia.
Enquanto ela canta, o baterista vai fazendo rufos nos timbalões, os quais sublinham a dimensão do sofrimento e a luta para o enfrentar.
O Carlos Fonseca estava no fundo do poço, mas queria sair, sentia-se esmagado pela vida, mas queria respirar, estava no centro da noite, mas queria ver o sol, estava no fogo do sofrimento, mas queria a redenção.
Não, não pode ser verdade, o jovem que se acompanhava à guitarra não pode ter morrido, o soldado que dava a vida por qualquer companheiro não se pode ter deixado tisnar de tal forma pelos excrementos de obscuros preconceitos, que tenha
perdido a noção do verde e tenha ficado incapaz de olhar para si mesmo e sentir alegria por isso.
Naquela noite, o sofrimento que ele não conseguia dominar, misturado com o desejo de operar uma profunda mudança interior que o dominava a ele, faziam com que, ao escutar os Pink Floyd, experimentasse uma sensação de acalmia e de saudade.
Aquela canção trazia-lhe gratas recordações de um tempo em que não tinha tempestades a massacrá-lo por dentro e em que experimentara profundamente o que era a felicidade.
Nesse tempo de juventude já tão longínquo, não tinha qualquer passado que o fizesse sofrer, e ainda não tinha vestido qualquer armadura que lhe ficasse pesada de tal forma,
Que subterrasse tanta beleza que, espontaneamente brotava do seu âmago, a propósito de tudo e em qualquer momento.
Naqueles tempos de juventude, a coroa de herói que lhe assentava bem e que lhe bastava era o aplauso depois de cada música que o conjunto interpretava, era a vibração do público, era quando lhe diziam, por satisfação com a arte que ele executava:
«Carlinhos, és mesmo o maior.»
Nesse distante passado, contentava-se com a carrinha velha em que o conjunto carregava os instrumentos, de quando em vez avariada, e que só pegava depois de quase todos descerem e a terem de empurrar.
Quando ouvia o Zeca Afonso cantar o Bairro Negro, ele sentia a tristeza que deveriam
ter aqueles meninos a que a canção se referia.
Quando estava na Guiné, ele ainda era capaz de emocionar-se e de fazer brotar da guitarra rios de esperança que os outros militares absortos sorviam, desejando o regresso, a liberdade de voltarem para as suas terras e de não terem necessidade de disparar qualquer bala, sonhando todos eles com o momento em que deixassem de estar com o cheiro da morte perto de si, quando ainda os anos eram verdes e tudo os impelia para a vida.
Nesses tempos de sonhos, de dádiva e de juventude, não era necessária a mansão, porque se dormia com calor em qualquer lado, mesmo quando, depois de uma atuação até de madrugada, havia que esperar o comboio da manhã seguinte para voltar para casa, suportando, na estação, o frio cortante da noite.
Nessa altura, ele era um fazedor de beleza, contentava-se com isso, vivia em prol disso, tal como todos os elementos do grupo.
O dinheiro que ganhavam era investido em criar mais beleza, comprar melhores instrumentos, os últimos discos que saíam, aparelhagens mais sofisticadas.
O importante, para eles, era o público, a malta do conjunto dava-se por inteiro.
Quando ele dizia ao pai que investia na música o que nela ganhava, o pai não percebia aquela lógica, apreciava o conjunto como se aprecia uma atividade comercial.
- Se esses instrumentos que tu tens já são suficientes para conseguires contratos e ganhares dinheiro, para que é que vais comprar outros?
É uma parvoíce, meu filho!
Mas ele sentia, nessa altura, que não havia recompensa maior do que chegar ao próximo baile de finalistas do liceu ou da escola e apresentar o conjunto na melhor forma. Até porque naquele tempo, em que
cada conjunto musical não ganhava, num baile desses, mais do que três mil escudos, era possível à comissão de finalistas contratar dois ou três conjuntos para que não existissem tempos mortos, e cada conjunto queria ser considerado o melhor pelos mais críticos e conhecedores de entre os assistentes.
Nesses tempos de juventude, ele dependia afetivamente apenas de si mesmo.
Mas, nessa terrível noite de janeiro de 2006, ele tinha deixado uma boa parte de si com a Leonor, tendo investido nela o seu afeto e as suas expectativas de vida.
Pouco a pouco, e mais do que ele se tivesse apercebido, a Leonor integrou-se nele, no seu sentimento, na sua completude, nos pilares que balizavam a sua felicidade.
Contudo, ela abandonou a casa de ambos, tendo deixado um bilhete onde, laconicamente escreveu:
Não esperes mais por mim, porque não vou voltar.
Se pretenderes tratar alguma coisa para a qual necessites da minha assinatura, fala com a minha amiga, a Paula Gomes.
Isto aconteceu numa noite de novembro de 2004, ou melhor, tinha sido nessa noite que ele tinha lido o bilhete, ao chegar a casa, porque ela deve ter saído logo pela manhã.
Ou seja, a mulher que falava em nome de ambos, da nossa vida, do nosso casamento, da nossa casa, da nossa filha, do nosso futuro, da nossa cama, do bom que era ter as nossas mãos entrelaçadas, de repente vai-se, e, implicitamente diz-lhe que tudo o que era a dois deixa de o ser, que o nosso amor acabou, que a nossa relação de cerca de trinta anos teve, por vontade dela, sem qualquer aviso prévio, sem qualquer outra justificação, nesse dia, o seu final.
Mas trinta anos não são trinta dias.
Trinta anos foram muitos milhares de dias em que ele se focou nela, em que ele sentiu tudo, tendo-a sempre como a pessoa essencial que ancorava a família que ele tinha ajudado a construir, o seu complemento, a outra metade de si, como ele dizia, porque muitas vezes, ao referir-se a ela, falava na sua cara metade.
A princípio, o que estalou nele foi a revolta, foi a indignação, foi o sentir-se traído e humilhado, tal como alguém que é deitado para o lixo, depois de outrem de se se ter servido.
Nos meses seguintes foi-se acalmando, foi tentando racionalizar as coisas, foi falando com o Daniel, amigo de ambos, tentando que este lhe dissesse onde é que estava a amiga, porque queria falar com ela pessoalmente, mas este sempre reafirmava que não sabia.
- Então Daniel, e tu que nos conheceste desde jovens, que assististe ao nosso namoro, que estiveste no nosso casamento, que és padrinho de batismo da nossa filha, o que é que achas disso?
Será que eu merecia uma coisa destas?
- Meu caro Carlos, não ponhas as coisas no plano da culpa, do merecer ou do não merecer.
Ninguém é juiz de ninguém, a não ser os que têm essa difícil tarefa por profissão, mas, ainda assim, esses, muitas vezes, desejariam não ter de julgar.
Cada um vai fazendo, na vida, aquilo que pensa que é melhor para si e para os outros, ou, muitas vezes, quando o egoísmo se agiganta, nem sequer pensa nos outros, vai fazendo só o que julga ser melhor para si e, não raro, a pessoa dá certos passos difíceis e engana-se, mais tarde arrepende-se e dificilmente se perdoa pelo mau passo que deu.
Eu sei que tu, segundo a tua bitola, foste um bom marido.
Ao ouvir isto, o Carlos reagiu com irritação.
- Segundo a minha bitola? Então afinal fui ou não fui?
Meu caro Carlos, se eu perguntasse aos muitos alunos que já passaram pelas minhas turmas se eu fui ou não um bom professor, provavelmente aqueles a quem eu aprovei diriam que sim, mas os outros, os que não lograram passar de ano, diriam que não.
E, possivelmente, quer uns quer outros teriam alguma razão, porque eu soube ir ao encontro das necessidades daqueles que aprovaram e não soube fazer o mesmo relativamente àqueles que, por não terem logrado aprender as matérias, não passaram de ano.
- Sabes, nas relações humanas as coisas passam-se de forma muito diversa do que acontece nas ciências exatas.
Em matemática, não há dúvidas de que dois mais dois são quatro. Mas, ao nível das relações entre as pessoas, por vezes nós pensamos estar a fazer o melhor e, para a outra pessoa, estamos a ser insuficientes e tal acontece, por vezes, porque essa outra pessoa também não está a avaliar a situação da melhor forma e também não está a fazer o seu melhor.
Tudo isto é muito complexo, meu amigo.
Acredita que a Leonor deve ter levado o coração a arder num fogo muito intenso e doloroso, quando ela, por sua iniciativa desfez uma relação a dois de cerca de trinta anos, mas deixou intacta a sua casa, com todas as mobílias, quando não fez quaisquer artifícios, como muitas vezes acontece, de ir às vossas contas bancárias e deixá-las despidas.
Repara, meu amigo, a bola agora está mais do lado dela, que tomou a iniciativa e, neste tipo de casos, quem toma a iniciativa, por vezes, sofre muito mais do que quem a tem de suportar.
- Mas será que ela tem outra pessoa na sua vida?
- Não, isso não, ela, ao ir-se, disse-me que não tinha ninguém, mas que sentia a necessidade de ficar sozinha, sabe-se lá porquê, sabe-se lá por quanto tempo.
É isso, meu bom Fonseca; dá tempo ao tempo, e, como diz um velho fado que também deves conhecer, “que o tempo corre e não cansa, e eu não perdi a esperança de te ver chorar por mim.
- Estás louco, Daniel, e o que me importa a mim se um dia ela se arrepende e chora por mim.
Isso é problema dela, porque quem faz o que ela fez saiu definitivamente da minha vida. Não tem volta, percebes?
tu achas que alguma vez eu aceitaria o seu regresso?
Mulher que me faz isto uma vez, não volta a fazer a segunda.
O Daniel pôs-lhe fraternalmente a mão no ombro e voltou a dizer-lhe:
- Meu caro, dá tempo ao tempo.
E a conversa ficou por ali.
Mas, no fim de contas, se a partida da Leonor tinha ocorrido mais de um ano antes, por que razão veio esta noite tão difícil naquela sexta-feira de janeiro de 2006?
Talvez porque aquela noite não foi a primeira a ser difícil e, por outro lado, porque o Fonseca, mesmo sem ter seguido o conselho do amigo de dar tempo ao tempo, foi visitado, dia a dia, pelo maravilhoso elixir do tempo, que transforma a raiva em perdão, a violência em brandura, o agir precipitado num conter-se em reflexão, e, dizemos nós, o tempo transforma o que pensávamos ser impossível naquilo que entendemos ser absolutamente bom e natural.
Soubéssemos todos nós, em difíceis encruzilhadas da nossa vida, utilizar bem o tempo, e não nos envolveríamos em múltiplas e complicadas teias que nos enredam, causando-nos sofrimentos e danos, desvios e atrasos, quedas e difíceis esforços para nos levantarmos de novo.
Nos muitos dias que haviam decorrido entre a saída dela de casa e aquela martirizante noite, ele, sem o querer, dava consigo a pensar na situação, em busca de razões para o que tinha acontecido e vasculhando os lugares mais recônditos da sua mente, para detetar as suas culpas no sucedido.
É uma tendência de quase todos nós a de buscarmos culpas ou desculpas para os nossos insucessos, quando, de facto, muitas vezes eles não ocorreram porque tivéssemos tido influência nisso.
Na vida há uma teia muito complicada de mentes que coexistem, que se encontram e por vezes se ajudam, mas que outras vezes se magoam, que em muitas situações passam ao lado umas das outras com total indiferença e irrelevância, mas que noutras interferem no viver alheio, mesmo que a pessoa afetada nada tenha feito para que tal aconteça.
Os milhares de milhões de mentes que constituem a população física da terra estão em diversos patamares de evolução, tendo cada uma delas o seu longo passado, o seu nível educacional, as suas carências e os seus anseios, a sua tábua de valores e o seu modo de atuação para lograr os seus objetivos.
E a tudo isto somam-se os milhares de milhões de mentes que estão na terra, mas na dimensão espiritual, as quais normalmente não se veem nem se ouvem, mas que se conectam às suas mentes afins na vida física, umas vezes por bem e outras por mal, conforme seja o tipo de afinidades em causa.
Por isso Jesus Cristo dizia que o nosso tesouro está onde estiver o nosso coração e, por conseguinte, conforme o nosso tesouro esteja no bem, ou se degrade no mal, assim teremos as companhias do mundo espiritual que ficarão afins connosco, ajudando-nos a subir, ou empurrando-nos para descer.
Ressoam ainda os conselhos fundamentais do Divino Mestre, escritos no Evangelho de Marcos, que tantas vezes ignoramos:
“Olhai, orai e vigiai.”
Foi também Jesus quem nos ensinou a pedir ao Pai Celestial que não nos deixe cair em tentação, mas que nos livre de todo o mal.
Quem se serve da oração, no seu dia a dia, encontra o modo de se colocar em sintonia com as mentes que, no mundo espiritual lhe querem bem, protegendo-se das outras que lhe desejam o mal.
De facto, as mentes de lá são como as de aqui, umas que se regozijam com a felicidade alheia, mas outras que preferem, por este ou por aquele motivo, constatar que os outros estão a debater-se nas malhas do sofrimento.
Mas quem é que, no seu dia a dia, tem a oração como o alimento essencial da alma, o qual nos faz tanta falta como a água que nos mata a sede do corpo?
Não era o Carlos Fonseca, que apenas olhava para a terra, a fim de empregar os seus melhores esforços e saberes no gerir da sua empresa, que tinha vontade e tempo para, pelo menos durante alguns minutos por dia, levantar a mente para o Céu.
No que diz respeito à Leonor, ainda que ela se dissesse cristã, ela rezava ao Senhor nas horas de aperto, mas esquecia-se amiudadamente de o fazer naquelas outras e muitas, em que o aperto não existia, dando assim espaço para que mentes perversas, de lá da outra dimensão, as quais conheciam bem os pontos vulneráveis da personalidade dela, a influenciassem, servindo-se de falsas imagens que elas lhe sugeriam, as quais assentavam bem na sua vaidade, fazendo-lhe crer que ela era a mulher incompreendida, a mulher muito sensível, muito culta, a pessoa superior, acima da média, e que até seria um desperdício de tempo estar com um marido que nada mais via do que números.
Eles, no fim de contas, por omissão negligente de ambos, mantiveram o Cristo quase sempre ausente do seu lar, no qual, por ser tão próspero do ponto de vista material, por ser tão beneficiado no que tange à saúde física das pessoas que nele habitavam, a entrada Lhe foi negada, por anos e anos a fio.
Eles desconheciam que o fator essencial da tentação que nos leva ao descaminho está dentro de cada um de nós, está nas debilidades de personalidade que temos, sendo isso sabiamente aproveitado por quem deseja o nosso insucesso.
Na busca de culpas próprias ele ia-se perguntando e respondendo:
- Será porque não viajávamos tanto como ela gostaria?
Sim, muitas vezes houve em que ela me pediu para que tirássemos umas férias e viajássemos, algumas vezes eu cedi, mas outras não o pude fazer, porque a empresa requeria a minha presença assídua.
Ela tinha as suas férias sempre em tempos mais ou menos certos dados pelo Estado, no Natal, na Páscoa, no Verão, o patrão dela pagava sempre, ela podia desligar-se totalmente da escola, mas eu, mesmo quando estava no estrangeiro, sempre deixava o meu contacto aos vendedores, para que falassem comigo, porque havia faturas a cobrar, havia decisões a tomar sobre dar ou não certos descontos, enfim, nunca houve um dia de trabalho em que, estando nós em viagem, não me contactassem por várias vezes.
Ela nem podia dar valor a isto, porque nunca viveu nesta luta tremenda do comércio.
Quantas vezes eu estava na cama e já estava preocupado com o dia seguinte, porque não sabia se aquele cliente que lá tinha um crédito grande para pagar o iria fazer.
Talvez eu tivesse escolhido o modo de vida errado.
Devia ter deixado o Ramos trespassar a loja, ficava ali a trabalhar como vendedor, mas depois tinha de suportar os maus humores do novo patrão, as suas más decisões, tinha muito menos dinheiro ao fim do mês, talvez nem tivéssemos possibilidades económicas para mandar a Sara estudar para Lisboa e, sem dúvida nenhuma, ela não teria ido para Inglaterra, para fazer esse tal mestrado que tanto dinheiro me custou.
Mas, enfim, nunca conseguimos adivinhar o futuro.
Se ela tivesse ficado em Faro, se tivesse por cá tirado um curso e tivesse casado com um moço daqui, certamente eu não teria perdido o seu convívio.
Mas tudo eram hipóteses lançadas sobre o passado, numa inutilidade de desgastes, esforços e tristezas.
Pobre homem, já com cinquenta e sete anos de idade, prestes a completar os cinquenta e oito, que, nessa temível noite de janeiro de 2006, tentava desesperadamente fazer inverter o sentido da roda do tempo, mesmo sabendo de antemão que tal é impossível.
Mas tinha sido por aquele rapaz entroncado, de ombros largos, de cerca de um metro e oitenta de altura, de cabelos e olhos castanhos, que mal tinha completado dezoito anos, um moço vigoroso, de rosto sobre comprido e bem delineado, com um raro brilho nos seus grados olhos, que aparecia de quando em vez nos intervalos das aulas do liceu de guitarra ao ombro, que a Leonor se tinha apaixonado.
Ela era, nesses belos tempos, uma linda menina de dezasseis anos, com cerca de um metro e sessenta de altura, seios já bem salientes, pernas quase esculturais, de rosto
Maravilhosamente belo, olhos verdes e cabelos dum castanho fascinante.
Era considerada uma das mais bonitas do liceu, mas, ainda assim, ela não sabia se conseguiria ser devidamente correspondida por aquele moço que era conversador com todas e por muitas pretendido.
Ele rapidamente percebeu o fraquinho que a miúda tinha por ele e, porque a achava atraente, em poucos dias já lhe tinha tomado os lábios, o coração, e, mais do que isso, ela havia-lhe prometido amor para sempre.
Mas nesses bons tempos, ele ainda tinha a alma suficientemente liberta para falar, com entusiasmo e sem sombras, daquilo que efetivamente sentia por ela.
Era amor, era uma vibração boa, estava apaixonado por aquela princesa e, para cúmulo da sorte, ela também estava apaixonada por ele.
Sempre que podia, ele ia esperá-la ao liceu e desciam a avenida de mãos dadas, falando muitas vezes só com as mãos e os olhos, cheios de desejo, de amor e de beleza.
De quando em vez, ele levava a guitarra, sentavam-se num banco do jardim Manuel Bívar, olhando a relva, as flores, o espelho de água que estava próximo, os barcos que lentamente balouçavam na pequena doca, ficando aqueles jovens namorados totalmente alheios a quem passava.
A dada altura, ele cantava-lhe a última canção que estivera a ensaiar com o conjunto.
Benditos anos esses!
Tudo o que havia dentro deles era beleza, era harmonia, era o desejo ancorado no amor, era o sonho de construírem um casal feliz e de se darem em prol dum mundo melhor.
De cada um deles brotavam ramos de emoções boas que lançavam raízes nos jardins da espontaneidade, do sentimento puro, da paixão edificante, era vida ainda em começo, esperança de tudo conseguirem através do amor, era o percecionar dum presente tranquilo e harmonioso, já salpicado de sonhos que projetavam um futuro à semelhança do maravilhoso hoje que a vida quotidianamente lhes entregava.
Neles existia o apego à beleza que nascia duma realidade que valia por si, que soava a positivo, a capacidade de realização, mistura de desejo e de infinito, acorde de céu e de sol, poesia feita de azul e de mar.
Nesse tempo eles ainda não conheciam o quanto os esforços para ganhar o pão de cada dia e o peso da rotina podem deixar menos libertas as almas, levantando-lhes obstáculos que dificultam que se alimentem permanentemente de amor e que o consigam espontaneamente exteriorizar.
Enquanto jovens, eles tinham as necessidades materiais todas garantidas pelos seus progenitores; chegavam à mesa e as refeições lá estavam; buscavam em casa o que necessitavam para a vida do dia a dia, nada lá faltava, mas nem sequer sabiam quantas horas de trabalhos os pais tinham despendido, para que tudo fosse fácil para os seus filhos.
Por isso, o horizonte de cada um deles estava mais disponível para entender o outro e para lhe manifestar aquele amor que ainda não teve de prestar provas, perante os exames difíceis que, não raro, a vida prepara aos seres adultos, já entregues ao seu próprio governo.
Nesses distantes tempos do seu namoro, o universo de cada um deles estava só preenchido por pensamentos bonitos e por emoções agradáveis, porque as agruras da vida ainda os não tinham visitado.
A Leonor era muito sensível, gostava de todas as formas de arte, adorava ler e rabiscava, quase todos os dias, frases extremamente bonitas no seu diário e, de quando em vez, oferecia-lhe um poema que ela tinha escrito pensando nele.
A relação deles nasceu pois assim, pobres no ter, mas muito ricos no sentir.
Ele adorava esses poemas, ainda que nunca os tivesse sabido criar, ainda que nunca se dedicasse a ler livros de poesia.
Mas eles gostavam um do outro, tal e qual ambos eram.
Nenhum deles exigiu ao outro que mudasse o que quer que fosse.
E por isso o amor entre eles era belo, nenhum tinha de mostrar o que não era, ou de fazer sacrifícios para ser aquilo que não desejava ou que não podia ser.
Quando qualquer deles regressava a casa, depois dumas horas de namoro, tinha a vida inteiramente preenchida pela imagem do outro.
Era a imagem percecionada pelos olhos e a outra, que não se via, nem se tocava, mas que ficava a povoar o sentimento, invadindo todas as zonas da mente, causando desejo, entusiasmo e um profundo bem-estar.
Nesses recuados tempos, ele pouco mais tinha de seu do que a guitarra barata em que tocava e, todavia, era tão rico!
A dada altura, ele lembrou-se de que, junto ao álbum das fotografias que ambos guardavam do seu namoro, estavam alguns dos poemas que ela lhe tinha feito e dedicado.
Naquela noite fatídica de novembro de 2004, ao ler o bilhete dela em que o despejava da sua vida, ele teve uma vontade enorme de acender a lareira e queimar toda a papelada que lá tivesse, a qual recordasse os bons momentos de ambos.
Ele queria queimar fotografias, postais com paisagens que estavam rabiscados por ambos, poemas dela, enfim, o Carlos Fonseca, sob a onda da raiva, queria que o fogo consumisse tudo aquilo que lhe causasse recordações dessa mulher que lhe tinha prometido amor para a vida inteira e que, duma hora para a outra, tinha reduzido a cinzas tais promessas.
Ele queria usar o fogo para a apagar da sua mente, sem se dar conta que o que está lá dentro não se elimina com o fogo cá de fora.
Mas depois foi-se acalmando e algo, dentro de si, lhe dizia que não trilhasse esse caminho.
Nessa noite de janeiro de 2006, estava contente consigo mesmo, por ter conseguido resistir àquela primeira tentação.
Foi então buscar o álbum, com tristeza, mas já sem raiva, foi olhando, fotografia a fotografia e, junto duma das páginas, preso a ela com um clip, lá estava um belo poema que ela fez, pensando nele, escrito com a letra dela, sendo certo que tal poema lhe provocou uma emoção muito boa, quando a Leonor lho ofereceu, certa tarde, estando ambos sentados num dos bancos do jardim da Alameda João de Deus, em Faro.
Ele levou uma cópia desse poema consigo para a Guiné e, quando lá o lia, sentia nele um bálsamo bom que lhe dava calma e esperança, acabando sempre por soltar as lágrimas, as quais brotavam duma fonte onde se fundiam sem mácula, o amor e a saudade.
No papel estavam desenhadas várias flores, pela mão dela.
Ainda lhe parecia sorver o doce perfume que o papel exalava, quando ela lho deu.
Não resistiu a lê-lo de novo.
O MEU HINO DE ALEGRIA
Amar-te é pousar o coração,
Na aurora dos teus lábios,
Sentindo os teus dedos sábios,
Tocando na minha emoção.
Amar-te é um poema muito urgente,
Uma canção bem orquestrada,
Uma ave que voa em frente,
Olhando para toda a parte,
Ao romper da madrugada.
Amar-te é soltar a fantasia,
Deixando-a voar bem liberta,
Até que ela canta e desperta
Uma empolgante melodia.
Amar-te é um sino a vibrar,
Na igreja dos sentidos,
É um constante abarcar
De horizontes indefinidos.
Amar-te é uma viola que soa,
Lá no cume da existência;
É o nascer duma lagoa,
É uma planta que rebenta,
No centro da inteligência,
Alastrando aos quatro ventos,
E que explora e que inventa
A vida do dia a dia.
Amar-te assim como eu faço,
É escrever compasso a compasso,
Um grande hino de alegria.
Faro, 10-5-1967
Terminou de ler o poema, mas não conseguiu evitar as lágrimas.
Em dado momento disse para consigo:
- Meu deus, como é que um grande amor pode destruir-se dum momento para o outro!
Depois, espontaneamente, num suave murmúrio, questionou:
- Leonor, o que é que aconteceu, para que eu tivesse deixado de fazer parte do teu hino de alegria?!
Ficou em silêncio por alguns segundos, como quem espera a resposta que já sabe que não virá.
Antes de fechar o álbum, disse ainda:
Princesa da minha vida, vê tu como são as coisas, de tanto ter querido alegrar-te, hoje és o fado da minha tristeza.
Estas palavras esbarraram de encontro àquela edificação material que fisicamente o abrigava,
mas claro está que não obtiveram a resposta consoladora de que a sua construção espiritual carecia, para se acalmar.
À medida que a noite ia subindo rumo à madrugada, o ânimo do Fonseca ia descendo, até níveis altamente perigosos, gerando no íntimo daquele empresário que, durante décadas se tinha recusado a olhar detalhadamente para dentro de si, mares de angústia, onde se sentia quase a naufragar.
A chuva caía abundantemente lá fora, a ventania fustigava as árvores do jardim, e, a dada altura, ouviu um forte embate na porta da rua.
A princípio assustou-se. Quem é que o iria ali procurar tão fora de horas e numa noite daquelas?
O embate voltou a ouvir-se, mas não era o som de qualquer mão a bater na porta, era antes um corpo que se arremessava contra ela repetidamente.
Meio hesitante, percorreu o caminho que o conduzia do sofá até à porta da rua e, quando a abriu, entra-lhe de rompante em casa, todo molhado, o Pastor, um corpulento cão rafeiro, de pelagem castanha, com cerca de oito anos de idade.
Nada pôde fazer contra esta intromissão e fechou imediatamente a porta.
Este cão tinha sido oferecido, ainda muito cachorro, à Leonor por um amigo comum. Ela adorava o animal, que, todavia, nunca tinha gozado da simpatia do marido.
A dona pusera-lhe o nome de Pastor, por o achar rústico, silvestre, irreverente, mas enérgico e, quanto à irreverência e energia, também o que seria de esperar se não isso mesmo, dum cachorro com cerca de três meses, tantos quantos ele contava, quando ela o recebeu.
— Para quê um cão, filha, é só trabalho, é só prejuízo, vai roer tudo, vai fazer buracos no jardim, vai espalhar excrementos por todo o lado.
Mas estas advertências do marido não foram suficientes para que ela rejeitasse o animal. De facto, a Leonor, nessa altura, sentia-se muito sozinha.
A filha já não estava em casa, devido à saída de Faro, para frequentar a universidade.
O Carlos passava longos períodos fora do lar, não só durante o dia, mas também durante algumas noites.
As refeições em conjunto nem sempre ocorriam.
Ela sentia-se perdida numa grande casa, onde os dias, na avaliação que ela deles fazia, se sucediam monotonamente, todos sem alma, sem esperança e sem brilho.
A Leonor estava então já há alguns anos a trilhar um caminho muito perigoso e desgastante, que a conduzia à autoflagelação, considerando-se a esposa incompreendida, a mulher muito culta e sensível que vivia com um homem terra a terra, a mulher que desfrutava do bom nível económico que lhe advinha do trabalho desgastante do marido, mas que via nele um entrave à sua felicidade.
Contudo, em vez de exteriorizar perante o marido as suas frustrações, ela continuava a mostrar-lhe a falsa imagem da esposa feliz com o casamento.
Ela, no seu íntimo, foi apondo, pouco a pouco vários defeitos no Carlos, o qual passou da posição de agente do seu bem-estar, a um causador da sua tortura.
Mas ele, na sua essência, não havia mudado, continuando a ser a mesma pessoa por quem ela se apaixonou, só que mais desgastado pelos anos e menos disponível para falar do amor que ele continuava a sentir por ela, indisponibilidade essa que lhe advinha das cansativas exigências que a vida lhe trouxe no tratar com a matéria, e as quais ele não soube coordenar devidamente com as necessidades de continuar a lidar bem com o espírito.
Pelo facto de ela precisar de encontrar fora de si os incentivos que lá dentro lhe faltavam, aquele cachorro irrequieto, cheio de força anímica, foi um tónico bom, uma alteração que lhe fez bem, uma companhia com quem podia repartir a muita ternura que tinha para dar.
O Fonseca, porém, declarou secretamente guerra ao Pastor.
Quando chegava a casa e o animal lhe vinha lamber os sapatos, dava-lhe um ligeiro pontapé, sem que a mulher visse, para que o raio do cão o deixasse em paz.
O animal demorou algum tempo a compreender, mas, passadas algumas semanas, também se cansou de apanhar pontapés e passou a ignorá-lo, não o reconhecendo como dono.
Por sua vez, a Leonor tratava o cão com todo o desvelo; comprou-lhe uma casota confortável e instalou-a num recanto do jardim.
Nunca lhe faltava com a melhor comida, com a escovagem e com as idas ao veterinário e nem sequer com o passeio diário pelas ruas da urbanização.
O animal retribuía-lhe com um enorme carinho.
A sua dona era a sua estrela, o seu guia, o seu grande ponto de referência. Por isso, quando ela partiu, o cão deitou-se dias a fio sobre o tapete da porta da cozinha daquela casa, que era normalmente o local onde, de manhã, a dona lhe aparecia, tendo ficado aí
a latir dia após dia, consumindo-se de tristeza, afogado na dor, mergulhado num enorme pesar, esmagado por este tipo de sentimentos que, nesse campo, nos cães às vezes são bem mais profundos do que em certos seres humanos.
Após a partida da mulher, o Fonseca pretendeu que tudo continuasse como antes, com exceção da presença dela que, como ele dizia aos amigos e conhecidos, só faz falta quem está. Quem não está é como se não existisse.
Mas as coisas não eram assim tão simples e, ao contrário daquilo que ele poderia pensar, quanto mais o tempo passava, mais a imagem da Leonor estava presente no seu espírito, não para lhe dar conforto, mas antes para lhe trazer inquietação.
Se o cão lhe era indiferente, enquanto a dona estava ali em casa, com igual indiferença continuou a ser tratado, depois dela se ter ido embora.
Se não fosse a empregada de limpeza, que se condoeu da situação do Pastor e o foi confortando e lhe foi dando de comer, ele teria falecido poucos dias depois da partida daquela pessoa que tinha sido a sua fonte diária de ternura.
E talvez fosse isso o que, instintivamente, o pobre do cão pretendia, porque tinha deixado de receber os carinhos que davam significado ao seu alegre dia a dia.
Mas porque motivo quis o Pastor, naquela noite invernosa, debater-se contra aquela porta, para entrar numa casa onde bem sabia que não era desejado?
Talvez o animal tivesse arremetido contra a porta por ter frio, ou talvez por estar sozinho e querer, num último rasgo de insistência, um pouco de companhia que voltasse a dar significado à sua vida de cão abandonado há mais de um ano.
A verdade, porém, é que, naquela noite, ele avançou decididamente casa adentro e colocou-se sobre o tapete daquela sala aquecida, compartilhando-a com um homem que não lhe inspirava qualquer amizade.
Ali ficaram então, dois seres vivos, pertencentes a diferentes espécies, tendo em comum, o estarem ambos sofrendo por causa duma mulher que dera luz àquela casa e que, por razões que só ela conhecia, ou então que pensava conhecer, depois os tinha deixado completamente às escuras.
O Fonseca aproximou-se do cão, que estava junto da mesa, acariciou-lhe a cabeça e disse-lhe com uma voz carinhosa que jamais tinha utilizado para falar com aquele animal:
— Então, Pastor, desculpa lá as vezes que te tratei mal. Mas olha, mal ou bem, foi comigo que ficaste. A tua dona, pelos vistos, não se cansou apenas de mim, mas de ti também. Senão, tinha-te levado com ela.
Sabes, Pastor, as mulheres são umas ingratas.
A partir de agora tens de ser meu amigo. Somos os únicos habitantes desta casa.
Bem, já valeu a pena, dizemos nós; o Fonseca falou de amizade, reconheceu que, na desgraça, às vezes até o mais débil ser nos pode ajudar e que, entre a guerra e a amizade, bem mais vale esta última.
Ele estava já muito cansado, mas não iria para a cama nessa noite.
Deitou-se num sofá de três lugares que ali existia e chamou o cão para junto de si.
— Anda cá, meu velho. O cão aproximou-se dele, deitou-se junto ao sofá e o Carlos pôs-lhe a mão cansada sobre a cabeça, foi-o acariciando e, pouco a pouco, adormeceu.
O cão não guardava rancores, soube-lhe bem aquele aconchego e rapidamente seguiu o dono, deixando-se adormecer também.
A madrugada ali foi entrando dia a dentro, e, naquela ampla divisão, apenas se passou a ouvir o oscilar do paciente pêndulo do grande relógio de sala, o seu badalar, hora após hora, cumprindo escrupulosamente a finalidade para a qual foi criado, e a respiração de dois seres vivos, dormindo bem próximos um do outro, os quais, apesar de hoje pertencerem a espécies diferentes, já há dezenas de milhões de anos deverão ter provindo do mesmo tronco, herdeiros que são dos muitos seres que morreram e que, antes disso foram passando o testemunho para que a vida, em variadas formas, se pudesse ir mantendo e aperfeiçoando neste planeta.
Comentários