ALMAS CAÍDAS
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Encontro à noite, nesta cidade já calma,
Um reunir de enganos e de ilusões.
Passo junto dum homem, com febre na alma,
Ardendo no álcool das suas frustrações.
Ele está deitado, num banco de jardim,
Dormindo, já bêbado, só e desanimado.
Tem por teto, o manto do céu estrelado,
E por companhia, uma tristeza sem fim.
Ali dorme um homem velho, que foi menino;
Que, enquanto jovem, teve bons sorrisos,
Quando sonhava entrar, em muitos paraísos,
Mas que vive num inferno, cruel e pequenino.
Ali está ele, deitando fora a vida,
Como quem gasta a chama duma cigarrilha.
A solidão é sua mãe e sua filha,
Mas o vinho que bebe não lhe cura a ferida.
Há um homem caído, mas outros indiferentes;
Vai-se afogando, mas outros passam de lado;
Foi rico de planos, mas dorme com os indigentes;
Teve muitos amigos, mas vive isolado.
Desfolhou o complexo baralho do afeto,
Mas só tirou para si, a carta errada.
Nas voltas do jogo, um dia ficou sem nada;
Mesmo tendo alma, trataram-no como objeto.
Ele não quis soltar-se dos grilhões que o prendem;
Das suas fraquezas e dos seus receios.
Ele está entre esses que não compreendem
Que ninguém deve viver, pelos ritmos alheios.
Ele pode levantar-se, mas mais se enterra;
Podia ser mais forte, mas ainda não quis.
Compraz-se na lamentação que o encerra,
Num manto de tristeza, que o faz infeliz.
E assim, mais uma vida se vai gastando;
E mais um homem, por si, se vai destruindo.
Ele podia ir-se das cinzas levantando,
Mas é um fraco que, no abismo, vai caindo.
Passo por ele e sinto melancolia;
Quem me dera erguê-lo, com o toque da mão.
Sinto que não cruzarei os portais da alegria,
Enquanto haja almas, arrastando-se no chão.
Faro, 12-8-2025
José Bento
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