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ALMAS CAÍDAS

  • há 3 dias
  • 2 min de leitura

Encontro à noite, nesta cidade já calma,

Um reunir de enganos e de ilusões.

Passo junto dum homem, com febre na alma,

Ardendo no álcool das suas frustrações.

 

Ele está deitado, num banco de jardim,

Dormindo, já bêbado, só e desanimado.

Tem por teto, o manto do céu estrelado,

E por companhia, uma tristeza sem fim.

 

Ali dorme um homem velho, que foi menino;

Que, enquanto jovem, teve bons sorrisos,

Quando sonhava entrar, em muitos paraísos,

Mas que vive num inferno, cruel e pequenino.

 

Ali está ele, deitando fora a vida,

Como quem gasta a chama duma cigarrilha.

A solidão é sua mãe e sua filha,

Mas o vinho que bebe não lhe cura a ferida.

 

Há um homem caído, mas outros indiferentes;

Vai-se afogando, mas outros passam de lado;

Foi rico de planos, mas dorme com os indigentes;

Teve muitos amigos, mas vive isolado.

 

Desfolhou o complexo baralho do afeto,

Mas só tirou para si, a carta errada.

Nas voltas do jogo, um dia ficou sem nada;

Mesmo tendo alma, trataram-no como objeto.

 

Ele não quis soltar-se dos grilhões que o prendem;

Das suas fraquezas e dos seus receios.

Ele está entre esses que não compreendem

Que ninguém deve viver, pelos ritmos alheios.

 

Ele pode levantar-se, mas mais se enterra;

Podia ser mais forte, mas ainda não quis.

Compraz-se na lamentação que o encerra,

Num manto de tristeza, que o faz infeliz.

 

E assim, mais uma vida se vai gastando;

E mais um homem, por si, se vai destruindo.

Ele podia ir-se das cinzas levantando,

Mas é um fraco que, no abismo, vai caindo.

 

Passo por ele e sinto melancolia;

Quem me dera erguê-lo, com o toque da mão.

Sinto que não cruzarei os portais da alegria,

Enquanto haja almas, arrastando-se no chão.

 

Faro, 12-8-2025

 

José Bento

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