A SALVAÇÃO
Conta-se que certo aprendiz, tendo questionado o seu mestre sobre qual seja um conceito
adequado de salvação, na perspetiva do cristianismo, obteve dele esta curta, mas
esclarecedora resposta:
“Salvar é, sobretudo, regenerar, instruir, educar e
aperfeiçoar para a Vida eterna.”
Ao ler isto, veio-me à ideia aquele importante ensinamento
de Jesus, que consta do Evangelho de Mateus, 6:19-20-21, no
qual, duma forma tão eloquente que só duma Mente Divina
poderia provir, nos é dito o seguinte:
“19Não ajunteis tesouros na terra, onde a traça e a
ferrugem tudo consomem, e onde os ladrões minam e
roubam;20Mas ajuntai tesouros no céu, onde nem a traça nem
a ferrugem consomem, e onde os ladrões não minam nem
roubam.21Porque onde estiver o vosso tesouro, ali estará
também o vosso coração.”
Quantas vezes, de amigos e conhecidos meus que, estando já
na casa dos setenta, naquela fase do viver em que todos
intuímos que, mais dia menos dia, a vida do corpo físico se
vai, quantas vezes, dizia eu, deles ouvi desabafos deste
teor:
- Afinal, esta vida é um engano, é uma desilusão!
Tanto que trabalhámos e tudo cá fica.
Na maioria dos casos, este tipo de frases até provém de
pessoas formalmente cristãs, que os pais as levaram à pia
batismal, que fizeram, na infância a primeira comunhão e
que, de quando em vez, por altura de alguma solenidade
assistem à missa na igreja.
Mas, infelizmente para essas pessoas, as palavras do Divino
Mestre acima transcritas nunca lhes chegaram ao mais íntimo
da alma.
Esses nossos irmãos nunca entenderam que os tesouros da
terra devem ser conquistados com o intuito de serem apenas
tesouros da terra, mas como um meio para, também através
deles, ajuntarmos mais tesouros nos Céus.
E por não terem querido ou sabido entender isto, essas
pessoas não interiorizaram que a morte do corpo físico, a
qual não tenha sido provocada pelo próprio, não é senão
uma grande e gloriosa oportunidade para que entremos na
dimensão espiritual, na vida eterna, onde já deveremos
contar com os tesouros que juntámos nos Céus, que foram
aqui acumulados por nós através do nosso trabalho de
elevação moral e, por isso, esses tesouros, porque fazem
parte do nosso melhorado modo de ser, transitam connosco
para o além-túmulo, como riquezas que aí nos serão
extremamente úteis e confortadoras.
Por outro lado, visto que, ao trabalharmos na terra para
acumular tesouros nos Céus, fizemos o bem a muita gente que
guarda em relação a nós uma profunda gratidão, ao chegarmos
à dimensão espiritual, muitas dessas pessoas lá estarão
dispostas a retribuir-nos, em solidariedade, aquilo que por
elas aqui fizemos.
E aqueles que ainda cá ficarem após a nossa partida, por
terem sentimentos de gratidão em relação a nós, não
deixarão de elevar a Deus, em nosso favor, a sua sentida
prece, a qual muito nos beneficiará nos horizontes do
grande além.
Digamos ainda mais isto:
Por não terem querido interiorizar a importância de se
acumular tesouros nos Céus, dando aos tesouros da terra
apenas a sua limitada dimensão de precariedade, muitas
pessoas assistem à morte do seu corpo físico, mas ficam
espiritualmente agarradas aos tesouros da terra, em
situação de grande sofrimento, circulando pelas casas,
pelas empresas, pelas propriedades rurais, pelos locais
onde exerciam poder e onde se sentiam relevantes, mas sobre
os quais já não têm qualquer domínio.
Essas pessoas recém-falecidas sentem grande dor, ao
constatarem que não são percebidas por aqueles que passaram
a deter aquilo que antes lhes pertencia, e ao compreenderem
que as suas decisões deixaram de ter qualquer importância,
relativamente àquilo que consideravam como sendo os seus
amados tesouros.
Falam, mas não são ouvidas, tentam agir sobre a matéria,
mas não o conseguem e, por vezes, passam muitos anos num
permanente sofrimento, em solidão, adotando atitudes
insanas, as quais lhes acarretam graves distúrbios.
Bem nos disse Jesus que onde estiver o nosso tesouro, aí
estará o nosso coração.
Aqueles que levaram os ensinamentos do Cristo muito a
sério, ao transitarem para a dimensão espiritual,
desapegam-se dos tesouros da terra, deixam cá tudo o que é
de cá e passam a viver, na dimensão celeste, com
felicidade, como membros da grande família de irmãos que
todos somos perante Deus, desfrutando cada um, dos seus
tesouros dos Céus, que sempre estarão iluminados pela
inquestionável fé no nosso Criador e pelo mais puro amor
para com os semelhantes.
Quem percorre a sua vida acumulando tesouros nos Céus está
sempre disponível para deixar os tesouros que tem na terra,
logo que essa seja a vontade do Senhor, porque sabe que
tudo aquilo de que aqui desfrutamos, como tesouros da
terra, nos é concedido por empréstimo Divino, para que
impulsionemos o nosso crescimento espiritual.
Faro, 16-5-2026
José Bento
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