A ROTINA
- 17 de abr.
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Naquele dia, como era habitual durante a semana de trabalho, levantei-me pelas sete horas já cansado, apesar de ter dormido bem a noite inteira.
Levantei-me com o ar de quem não espera nada de novo do dia que começa, de quem não tem mais nada empolgante a alcançar, de quem vai para mais uma repetição, para uma rotina sem interesse, para uma monótona espera pela noite.
Levantei-me como quem deseja que rapidamente venha a hora de deitar-se outra vez,
para sorver mais um pouco de liberdade, ansiando pela hora de chegar a casa e de poder pensar que agora estou no meu canto, no local onde ninguém me vai importunar, tendo pela frente mais uma noite para me refugiar junto de mim, do que gosto de pensar, do que me vem de dentro e eu gosto de sentir.
Sim, é verdade que eu gosto de sentir a noite, a cidade baixando o seu ruído, o mistério do escuro por cima dela, a imaginação voando num espaço sem empecilhos, sem chamamentos inoportunos, um corpo descansando sem horários, um homem entregue à sua globalidade, perguntando-se pelas razões de se sentir torturado com o dia a dia, quando, afinal deveria estar grato por cada amanhecer, com saúde bastante para desfrutar da vida.
Levantei-me, pois, com o desejo de ficar deitado; saí de casa com o desejo de ficar nela;
dirigi-me ao trabalho com a vontade de estar de férias, de não abordar nenhum dos processos que me esperavam, de não despender nem mais um pingo de energia naquelas coisas que, no fim de contas, me sustentavam economicamente.
Ia pela rua tranquilamente, como quem não tem pressa nenhuma de chegar ao lugar para onde se dirige e, sem querer pensava em tempos distantes, quando eu tinha a ilusão de que, compondo uma bela canção podia mudar um bocadinho do mundo, quando eu tinha quase a certeza de que haveria alguém que compreenderia as minhas palavras, as minhas intenções e que se sentia bem com elas, e que se sentiria bem comigo, e que queria que partilhássemos juntos essas ideias, esse modo de vida, essa ternura que eu nesses belos tempos, exalava por todos os poros; esse gosto de viver, essa invenção do belo que me preenchia os vazios, que triunfava nos meus impasses, que iluminava os meus cantos obscuros, que transformava tudo em luz, em razão de ser, em algo de transitório, mas que tendia para o eterno e infinitamente puro.
Era esse meu amor aos demais e à beleza, plasmado na minha suposta faculdade de criar, que se iria expandir no oceano da harmonia, da maravilhosa essência, que tornaria olvidáveis todos os sofrimentos e felizes todos os seres.
Ia eu assim, carregado afinal da monotonia de quem sente que o passado era muito mais atraente do que o presente, de quem não espera já qualquer surpresa boa e se limita a cumprir o tempo, a fazer, mas sem objetivos claros que dinamizem, que entusiasmem, que tragam energia e se encham dum ideal em cada atitude, em cada plano, em cada atenção despendida.
Ia eu assim débil, desinteressado, queixoso do que pretendia ter tido, mas que não conseguira ter, pressionado por ideais não atingidos, derrotado por experiências destrutivas e por pessoas que me tinham mostrado uma face mais sofrível da humanidade que, nos tempos dos sonhos e da juventude eu jamais pensava que pudesse existir.
É verdade; ia eu assim, mas ainda podia ir, estava inteiro, o facto de estar desencantado com o confronto entre o que sonhara e o que de facto tinha alcançado demonstrava que a luz ainda se mantinha acesa, que a sanidade mental ainda se mantinha boa, que eu, apesar de não ter saído da base da montanha ainda conseguia vislumbrar um bocadinho do seu cume.
Ia levado pelos meus pés, carregado de anos, mas ainda tendo a capacidade física e psíquica para os suportar.
Ia carregado de sinais que me amachucavam por dentro e me envelheciam por fora, que me mostravam o hoje sem brilho, sem crédito, sem apoio e sem fé, desvendando-me um pouco do amanhã emparedado entre saudades e solidões, entre desilusões e tristezas, entre um eu que se lamenta e o outro que se não conforma.
Ia eu praguejando contra o tempo, sem ter ainda percebido que o tempo é uma preciosa riqueza posta por Deus à nossa disposição, para que nos possamos ir livrando das imperfeições, e para que consigamos ascender a patamares de maior abrangência e felicidade.
Ia eu assim, e enquanto eu ia, havia uma cidade inteira que ia comigo, que se levantava para enfrentar mais um dia, cada pessoa com o seu drama, ou com as suas expectativas, cada um com o seu projeto ou a sua desilusão, com a sua fé ou com a sua descrença, com o seu sentido de estar ainda a entrar ou com a frustração de estar já de saída, sem jamais ter conseguido entrar devidamente.
E foi assim, enquanto eu ia sem esperança nenhuma para um trabalho que todos os dias me esperava, que tu apareceste dobrando uma encruzilhada daquela rua principal em que tantas vezes nos havíamos encontrado há dezenas de anos.
Dirigiste-te a mim, porque se não o fizesses eu não te reconheceria.
Como os anos te haviam carregado de rugas, de deformidades, de pontos exteriores, que revelavam inúmeras horas de sofrimento e de má convivência com o quotidiano!
- olá Joel, - disseste tu com um misto de alegria e surpresa por me encontrares ali, àquela hora.
- olá Mabel, há tanto tempo que não nos víamos.
Cumprimentámo-nos com um beijo e, depois de breves palavras meio desordenadas que me atiraste, senti que te fazia falta desabafar um pouco. Sugeri que nos sentássemos a tomar um café numa esplanada que estava ali perto, e tu aceitaste.
Enquanto o café não vinha, foste desenrolando espontaneamente uma série de histórias tuas, foste falando sem que eu te perguntasse o que quer que fosse, foste deitando para fora muito daquilo que te sufocava e que contribuía para a tua notória destruição.
À medida que falavas eu ia pensando como tu já foras tão bonita e como agora já não o eras, como tu já foras atraente e agora apenas inspiravas um sentimento que se aninhava entre a pena e uma vontade de não ouvir tanta coisa trágica, tanto azedume, tanto lixo mental, entupindo totalmente a vida duma mulher que eu conhecera ainda em menina e para quem sempre esperei que a vida trouxesse flores garridas e atraentes.
Talvez a vida as tivesse trazido, mas talvez tu as não tivesses querido aceitar, fechando as portas que se te foram abrindo, desperdiçando as tantas oportunidades que surgiram e que foste ignorando.
Mas quem sou eu para saber disso, das portas que tu fechaste, das oportunidades que eventualmente desaproveitaste, de tanta coisa que te transformou, durante as dezenas de anos em que estivemos distantes, numa mulher que em nada conseguia fazer transparecer a linda menina que já tinhas sido, e que ficara a preencher com uma imagem doce e equilibrada o álbum de recordações da minha juventude.
Quem sou eu para saber algo de ti, quando a verdade é que a mim próprio tanto me desconheço!
Nessa altura lembrei-me quão mais compreensivos e carinhosos nós seríamos, se conseguíssemos ver em cada adulto maltratado, pleno de revolta e de raiva, aquela criança doce e cândida que outrora nele habitou!
Tu lamentaste os dois divórcios que te aconteceram,
os três filhos que tiveste, um do primeiro casamento e dois do segundo, mas que nenhum deles agora queria estar de bem contigo, o mais velho, porque saíra ao pai e ficara com ele, desprezando a mãe, o mais novo porque também saíra ao seu pai e também desprezara a mãe e a filha do meio, que tu não disseste a quem saiu, mas que ficou contigo, e que, todavia, segundo dizias, era melhor que não tivesse ficado, porque se tinha envolvido na droga, tinha uma vida desgraçada e tornava miserável a tua própria vida.
Tu falavas e eu pouco podia fazer mais do que ouvir-te e, provavelmente o que mais te apetecia era mesmo que eu te ouvisse.
Bebeste o café, mandaste vir outro, não sei se pelo gosto de o beber ou se pela vontade que tinhas de que eu ficasse ali a escutar-te, prolongando-se assim aquele momento que notoriamente te estava a fazer bem, porque tinhas encontrado um amigo de juventude que, ao contrário de muitos outros que passaram pela tua vida, estava disposto a dar-te toda a sua atenção e a brindar-te com a mesma amizade sincera de sempre.
Amizade sincera!
Que precioso, mas tão escasso bem, que lenitivo para tantas dores, que apoio para tantos soerguimentos e como eu e tu nada sabíamos disso, nos tempos em que andámos juntos pelas carteiras do liceu!
Enquanto ias falando, ia-me apetecendo despir-te, não para fazer sexo contigo, mas para te meter numa banheira e lavar-te toda, dando-te um banho que perfumasse o teu corpo já tão debilitado e, se possível, que entrasse na tua mente completamente em desalinho.
Gostava de retirar de ti o cheiro a sofrimento, a casas destruídas, a lágrimas amargamente choradas e por ninguém compreendidas, a milhares de cigarros fumados em busca duma tranquilidade cada vez mais distante, a anos de frustração, de esperanças renovadas e pouco depois perdidas.
tudo isto eram cheiros que estavam em ti, que enchiam o teu corpo e a tua mente, que se exalavam das tuas palavras e as tornavam duras, amargas e afiadas como se fossem setas disparadas em todas as direções;
cheiros agressivos e ácidos, que em nada faziam lembrar a menina de outrora, que, sem colocar perfume algum, mesmo assim cheirava a todas as flores que existiam no mundo.
Gostava de meter a mão na tua vida e tentar organizá-la, gostava de trazer-te de novo aos lábios aquele sorriso inocente com que sempre iluminavas as salas do liceu, mesmo quando todos estávamos oprimidos pelo teste que ia começar e para o qual não estávamos devidamente preparados.
Gostava de dar-te outra vez o gosto pela vida, de devolver-te a chama que tu derramavas por quem te rodeava e que trazia uma imensa frescura, capaz de limpar quaisquer feridas, de eliminar quaisquer pesadelos, de tornar ridículas todas as frustrações.
Gostava de poder passar uma borracha que apagasse tantos insucessos que enfrentaste, ao longo duma vida agitada; mas isso não estava de todo ao meu alcance.
Mas valia a pena dar-te atenção, valia a pena dizer-te que podias contar comigo, valia a pena fazer-te saber que tinhas um amigo verdadeiro, daqueles que vêm da juventude, aquela fase da existência, em que as amizades nascem mais bonitas e que conseguem perdurar até ao final da vida.
O nosso encontro terminou, ficaste muito mais tranquila, demos os contactos um ao outro; e, daí por diante, fomo-nos telefonando e encontrando com alguma regularidade.
Talvez te pareça estranho, mas aquele nosso encontro não foi apenas importante para ti.
Não sei porquê, mas a verdade é que nunca mais me levantei com o desejo de ficar deitado, nunca mais saí de casa com a desilusão de não ter algo de entusiasmante para fazer, nunca mais me desencantei com o facto de não ter conseguido mudar nenhuma parte do mundo com qualquer das minhas canções.
Comecei a ver que os meus objetivos continuavam válidos, que o cume onde brilhava a luz da beleza continuava ainda lá à minha espera, e que o peso da minha rotina provinha de mim, de eu só olhar as ruas da cidade e não o céu que se estende azul por cima delas;
de apenas olhar o meu trabalho e não os trabalhos de tantos outros que necessitariam dum pouco de conforto que uma palavra minha lhes podia transmitir;
de eu fechar as minhas portas e navegar apenas no meu mundo restrito, sem sequer perceber as vibrações do mundo mais largo que esbatiam contra a minha teimosia em não as querer sentir.
Passei a entender, com muito mais significado as palavras de Jesus Cristo, que incitam ao serviço, onde quer que ele se mostre necessário; esse trabalhar em prol dos outros, pois que, auxiliando, seremos auxiliados.
Passei a compreender que o mundo estava ainda ali pedindo para que eu ajudasse a transformar o mal em bem, o mau em bom, o desespero em esperança, a descrença em fé, o desconhecimento em saber, e o sofrimento em felicidade.
Mas, para que eu desse essa minha colaboração, não era preciso que eu fosse famoso, que alguma das minhas canções se transformasse num êxito mundial.
O mundo estava ali ao alcance dum ser incógnito que era eu, mas que poderia acender pequenas luzes à sua passagem, as quais iluminassem e dessem mais sentido às vidas que consigo se cruzassem.
Descobri então que eu, sem ainda o ter notado, tinha estragado a minha vida com a vaidade, com o julgar-me mais do que realmente era e, por isso, pretender mudar o mundo começando por cima, sem conseguir ter a humildade suficiente para ir lá em baixo fazer aquilo que todos dizem que é comezinho, mas que, normalmente, ninguém quer fazer.
Afinal, eu não era um artista falhado, mas sim um artista envaidecido, o qual tinha mantido o seu piano fechado, à espera que se abrisse o passeio da fama, quando a verdade é que todos os dias passavam por mim centenas de pessoas, que faziam parte da enorme plateia da vida e que precisavam da beleza das minhas ideias, da doçura das minhas palavras e do carinho das minhas mãos.
Eu não tinha até então entendido essa expressão do Divino Mestre, quando dizia que muitos últimos serão primeiros e que muitos primeiros serão últimos.
Com a desorganização da tua vida, ajudaste-me a organizar melhor a minha e por isso te fiquei imensamente agradecido, ainda que nunca o venhas a saber.
Faro, 1-8-2019
José Bento
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