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A QUINTINHA DA RAMADA

  • 17 de abr
  • 43 min de leitura

Pouco passava das nove horas naquela manhã de maio, em que o aquecer do tempo ainda era suave, mas em que a primavera exibia docemente toda a sua pujança criativa, quando o engenheiro Rui Gomes entrou pelo portão da quintinha da Ramada e percorreu o caminho de cerca de cinquenta metros que o conduziu ao terreiro que ficava de fronte da casa grande, aí tendo estacionado o automóvel azul escuro de gama alta em que se transportava.

Saiu do carro, olhou em volta e, ao contrário do que esperava, não lhe apareceram, nem o Martins, nem a mulher, que ali eram caseiros há mais de quatro décadas.

Por perto, esgravatavam alguns galináceos; as árvores de fruto existentes, mais para consumo próprio familiar do que para fazer negócio, estavam bem tratadas.

O sultão, aquele grande rafeiro preto com riscas brancas, pachorrento de mais para que pudesse ser considerado um guarda, veio para junto dele,

 abanando o rabo e mostrando aquela enorme língua, disposto a lamber-lhe as mãos.

- Vá lá, ó cão pateta, não me sujes com essa baba imensa – disse o Rui com um leve sorriso nos lábios.

-  Onde é que estão os teus donos?

Claro que o cão não pôde responder, mas, no fim de contas, aquela foi a forma como se estabeleceu a saudação do homem para o cão, dando a este a retribuição afetiva que lhe garantia que aquele visitante estava em empatia consigo.

Ali respirava-se quietude, mas não era só isso; havia como que um fluido acolhedor que saudava o recém-chegado, que lhe dava a agradável sensação de que entrara num local que o esperava, que estava preparado para o acolher, num local onde ele não era um mero estranho, mas onde se sentia o principal convidado.

Talvez muitos duvidem disso, mas os lugares guardam, gravado no fluido universal, tudo o que lá se passou, o bom e o mau, a felicidade e a dor e, a seu tempo, tudo isso é respirado por quem lá se encontrar.

Soubessem as pessoas disso, e sempre expeliriam bons pensamentos e sentimentos elevados, fé, bondade, amor, clemência, caridade, perdão, os quais agem como

 perfumes espirituais que ficam a dar odores tonificantes aos lugares por onde passamos.

O engenheiro Rui pegou no molho de chaves que tinha no carro e dirigiu-se à porta principal da casa grande, tendo-a aberto.

Apesar de velha, a casa estava em bom estado de conservação, porque ele ali gastara alguns cobres, cerca de doze anos antes, quando lhe fora adjudicada a quintinha, nas partilhas que fizera com a sua irmã.

Em tempos mais recuados, nunca tinha feito questão de ter aquele imóvel, tinha-se desapegado dele ainda em jovem, quando fora estudar para Lisboa e por lá ficara a construir a sua vida, porque na terra não havia qualquer hipótese suficientemente compensadora de carreira para um recém-licenciado como ele, que conseguira obter boas notas e que se sentia cheio de ideias e de dinamismo.

Diga-se a verdade que, naquele tempo de juventude, ele se tentara desvincular de tudo o que era passado; o presente era o que imediatamente lhe interessava e sempre com a mira de construir um bom futuro.

Nessa altura ele desvalorizava muito tudo o que não fosse capaz de produzir uma boa carreira, um bom ganho económico e uma confortável posição no tecido social.

Contudo, à medida que a idade foi avançando, as raízes da infância, por estranho que pareça, foram-se tornando mais relevantes, e o engenheiro, amiudadas vezes dava consigo a viajar, em pensamento, até à quintinha, aos primeiros anos da sua vida, aos afetos que lhe serviram de berço e que nunca mais ele encontrou outros que fossem tão profundos, tão fortes e tão autênticos.

Ali tinham brilhado, durante a sua meninice e adolescência as estrelas que mais luz afetiva deram à sua vida, luz essa que advinha de pessoas para quem ele tivera um grande significado, sendo certo que essa luz se foi apagando, à medida que tais pessoas iam deixando a vida física, levadas pela roda do tempo que, na hora certa, sempre se faz sentir, colocando tudo nos seus devidos lugares, e ajudando a atribuir significados a pessoas e factos que, anteriormente quase passavam despercebidos.

Foi, pois com alegria que aceitou a proposta que a irmã lhe fez de que ele ficasse com a quintinha, recebendo ela as respetivas tornas.

Percorreu o interior da casa, os quatro quartos mobilados com camas de ferro ainda do tempo dos seus avós, a sala grande que tinha ao centro uma mesa de madeira para dez pessoas, tão pesada quanto antiga, com cadeiras também de madeira e desconfortáveis, tendo pendurada numa das paredes, numa moldura de madeira envidraçada, uma fotografia dos seus avós maternos, representando o que eles eram, enquanto estavam na casa dos quarenta, estando ladeados pelas suas duas filhas, então ainda moças.

Aquela família que a fotografia representava tinha espelhada nos rostos a imagem da força, da felicidade e do amor que a todos ligava.

O engenheiro pensou, de imediato, que deveria levar consigo aquela fotografia, logo que deixasse de ter domínio sobre aquela casa, mas, por incrível que pareça, mentalmente não encontrou um lugar onde a mesma pudesse ser colocada, no grande apartamento onde vivia, em Lisboa.

Em seguida passou à grande cozinha onde as mulheres da casa, umas patroas e outras empregadas, nos bons velhos tempos de apogeu daquela propriedade, faziam a labuta, preparando as refeições para todos, patrões e empregados, visitas e amigos, porque todos comiam à mesma mesa e sem distinção de menu.

Naquele dia, depois de ter entrado naquela casa, donde realmente nunca conseguira sair por completo, concluiu claramente que a vida lhe foi ensinando, pouco a pouco, com o tipo de mestria que só ela possui, que as raízes de cada um têm um inestimável valor, que só o sentimento é que o consegue ler e explicar.

Tirava agora esta conclusão, talvez tarde demais, à beira que estava de romper definitivamente com o lugar físico onde tantas recordações belas que lhe enfeitaram a infância foram realidade.

 Como se sentia grudado àquele local a que, todavia, tão pouco tempo dedicava!

Naquela quietude, mais se lhe apertou o coração, ao lembrar-se da missão que agora ali o trazia.

De facto, foi naquela casa que ele nasceu, sem médicos nem enfermeiros, sem meios de diagnóstico ou de ajuda especializada, há pouco mais de setenta e cinco anos.

Tinha nascido com o mesmo tipo de assistência com que nasceram milhões de seres humanos, nas dezenas de milénios que o antecederam.

 Nascera saudável, fora ali um motivo de alegria para todos, como também poderia ter nascido com algum grave problema e, nesse caso, seria um dia que, por um mau motivo, ninguém mais haveria de esquecer naquela família.

O bom e o mau, o sim e o não, o positivo e o negativo são estados que estão tão perto uns dos outros, que basta às vezes um segundo, um esquecimento, um engano, uma má coincidência, uma deficiente interpretação dos factos, e tudo se transforma.

Mas não é assim só com o nascer; é assim durante a vida toda, apesar de muitas vezes nem pensarmos, quando vamos por estrada direita, quão pouco nos separa do abismo e; por outro lado, quantas vezes os abismos estão connosco para que, superando-os, aprendendo a dar-lhes significado e a sair deles, consigamos ficar mais inteiros.

Nesse tempo, a quintinha da Ramada era um local pleno de vida, sendo aquela casa o coração daquele pequeno mundo.

Ali viviam então os seus avós e as suas duas filhas e ali nasceram os netos, por ser o lugar mais acolhedor que a família tinha e onde melhor todos se podiam apoiar uns aos outros.

Em volta daquela casa, espalhavam-se outras mais modestas, umas que então eram para empregados, outras para animais ou para armazenamento dos géneros produzidos e das alfaias.

Ali, pessoas e animais conviviam, no dia a dia, cooperavam, as vacas produzindo diariamente o leite, que lhes era extraído duas vezes por dia, as mulas sempre dispostas a puxar o arado, o engenho da nora, ou as carroças, que eram o meio de transporte por excelência, as galinhas que iam pondo os ovos e que, de quando em vez iam abastecendo as panelas, os porcos, que eram alimentados com a comida que sobrava e com os produtos que a quintinha produzia, e que tinham a sua matança programada, normalmente, por altura das festas natalícias, para que se fizessem os enchidos e para que a banha e o toucinho ficassem, como reserva de alimento, para todo o ano.

O estrume produzido pelos animais era depositado a não mais de cinquenta metros das casas, mas o cheiro não incomodava, era algo que as pessoas tinham interiorizado, como sendo o resultado da atividade pecuária e agrícola que tinham e era o fertilizante que, na altura própria, seria espalhado pelas terras, para que pudessem produzir mais e melhor.

Foi ali que, sendo ainda muito criança, o Rui começou a saber distinguir as flores umas das outras, pelo cheiro, pela cor e pelas formas; as rosas, os cravos, os malmequeres, as flores das acácias ou das amendoeiras.

Lembrou-se que a sua querida avozinha gostava muito de rosas e que tinha ali umas com o melhor cheiro que, alguma vez ele sentiu.

 Foi naquele pequeno mundo, pois, que    ele começou a ser gente e viveu as primeiras boas experiências, que jamais se haveriam de apagar da sua memória, as quais o prendiam, com correntes fortes de afeto, ao local onde pela primeira vez vira a luz do sol e onde sentira o envolvimento da ternura de tanta gente que, nos tenros anos da sua infância e na sua adolescência, ajudara a moldar a sua personalidade.

Nesses longínquos, mas belos tempos, as pessoas que o rodeavam derramavam ternura sobre ele, para o apoiarem no crescimento, qual planta, que, carinhosamente alguém vai regando, para que se fortaleça. E tal como recebia amor dos outros, assim ele espontaneamente o retribuía.

Contudo, depois de ser adulto, depois de constituir família e ter a esposa e os filhos a quem ele deu afeto, tal como tinha recebido nos seus primeiros tempos de vida, ele não voltou a sentir-se querido e amado da mesma forma em que isso tinha ocorrido, enquanto viveu naquela casa campestre, onde, entre todos, existia a simplicidade do dar e do receber desinteressadamente, só pelo gosto de amar, só pelo prazer de ser amado.

Certamente por isso, a vida foi-lhe ensinando que aquele mundo não mais o deixaria de acompanhar, para seu conforto e sua completude.

aquele ambiente vinha-lhe à mente de quando em vez, nas circunstâncias mais díspares; e o que é certo é que, sem saber porquê, mesmo quando estivera longe, trabalhando do outro lado do equador, esporadicamente recordava-se de fragmentos daquilo que ali tinha vivido, de palavras que ali ouvira, de sonhos que, dentro dos limites da quintinha, o fizeram voar, impulsionado por flocos de fantasia, viajando para tantos mundos belos, onde só a sua imaginação de criança podia chegar.

Agora que a estrada da sua vida já era longa e que, tanto quanto as estatísticas demonstravam, já se aproximava do final, o Rui compreendia que, fora daquele ambiente familiar, ele jamais havia encontrado afetos tão puros e tão autênticos, apesar das relações afetivas que tinha constituído e que continuava a alimentar.

Por tudo isso era absolutamente justificável que a sua alma voltasse ao que havia sido belo, pujante, puro e altruísta.

Ele viveu naquela quintinha o período da sua vida em que foi mais dependente, mas em que mais amor recebeu.

Voltou a entrar num dos quartos e, melancolicamente, sentou-se na cama que aí permanecia.

Ainda ali estava, numa pequena mesa existente num canto daquela divisão onde havia sido o quarto dos seus avós, e que fora trazida de Fátima, uma Nossa Senhora de loiça, com um terço que lhe pendia das mãos, em frente da qual a sua avozinha acendia religiosamente todas as noites uma lamparina de azeite, e, ao acendê-la, rezava para que a Mãe do Céu a todos protegesse, consciente de que, para a fragilidade humana, só a mão de alguém de outra dimensão, e com mais poder, poderá servir  de amparo.

Como ela expressava com convicção a sua fé!

 Como ela acreditava tanto naquela Mãe, que ela não via, mas que sentia presente como se a sua imagem lhe entrasse pelos olhos dentro a cada instante, como se a acariciasse suavemente, como se essa Mãe do Céu lhe estendesse sempre a sua mão bondosa, garantindo-lhe a luz em tantas horas de aflição, o apoio em tantos momentos de desespero e a orientação segura em tantas encruzilhadas confusas que a vida lhe ia apresentando!

Ao contrário do que certos religiosos dizem, em desabono da adoração às imagens, a sua avozinha não adorava a imagem de loiça, mas sim a Mãe do Ceu que ela representava.

É assim como alguém que vê a fotografia dum ente querido e se deleita em vê-la, não porque adore o cartão em que está impressa, mas sim, porque ama aquela pessoa que ali está fotografada.

Foi ali que ele aprendeu a amar e respeitar a Mãe e o Pai do Céu e, em certos apertos que teve na vida, algumas vezes se havia recordado daquela imagem, da lamparina acesa a noite inteira, e, apesar de ser o engenheiro que em público era racional, matemático, apegado aos milagres da tecnologia e aos ditames da ciência, a qual, diga-se de passagem, por limitações suas, não conseguira jamais provar que Deus existe, ele rezava com fé, com humildade, perante aqueles Seres Espirituais que se habituara a sentir desde menino.

De facto, ao ensiná-lo a rezar, enquanto ele era criança, a sua avozinha, mulher sem estudos, sem outra cultura e filosofia que não aquela aprendida nos trabalhos e derrames da vida, abriu-lhe a janela da mente para um mundo que os sentidos físicos não detetam, mas onde estamos inseridos e que muito nos influencia e donde podemos extrair enormes riquezas, que é o mundo do espírito.

Vinha-lhe agora à mente aquela noite quando, estando ele na sala de espera do hospital de Santa Maria, lhe deram a trágica notícia de que, devido ao aparatoso acidente de moto que sofrera, o seu filho mais novo estava entre a vida e a morte.

Saiu completamente desorientado, e, apesar da noite estar fria e ventosa, ele andou pelas redondezas horas e horas, caminhando só por caminhar, sem saber para onde ir, como quem busca uma resposta, uma solução, um amparo, uma pequena palavra que seja.

A certa altura, já cansado, sentou-se, em plena madrugada, na escadaria do edifício da Reitoria, ali em plena cidade universitária, pôs a cabeça entre as mãos e chorou convulsivamente.

Por momentos, fora-se o engenheiro, o técnico, o chefe, o empresário, o professor temível, o homem de lógica e procedimento implacável, tendo tudo isso sido substituído por um vazio enorme, por um sentimento de impotência que o esmagava, perante a catástrofe que ameaçava desabar sobre si e trazer uma desordem dolorosa a uma vida até então tranquila e bem estruturada.

Contudo, lembrava-se agora que, num dado momento, apareceu-lhe diante dos olhos precisamente aquela bela Imagem da Nossa Senhora e a sua avozinha, acendendo a lamparina diante dela.

Então ele pediu, desceu do seu orgulho e pediu ajuda, pediu com o coração nas mãos, e, com todas as forças do seu ser, ele suplicou, como nunca antes tinha suplicado a quem quer que fosse, pedindo   pelas melhoras do seu querido filho.

Ele despiu-se das suas vestes científicas, tecnológicas e sociais, dos seus preconceitos, da sua altivez, e humildemente rezou.

 Não sabia já oração nenhuma, mas fez uma prece inventada na altura, onde as palavras eram construídas pelo sofrimento que o apertava e quase o destruía.

Foi a oração mais sincera e mais sentida da sua vida.

Depois disto, vivenciou uma inexplicável tranquilidade. Não tinha tido mais notícias do filho, nem piores nem melhores, disseram-lhe depois, no hospital, já altas horas da madrugada, que era preferível ir para casa, ele foi, mas levava consigo a luz da esperança; escutava lá bem no fundo da sua mente a voz doce de alguém que o consolava, que lhe dizia que tudo iria correr bem e que o seu filho se salvaria.

 na tarde do dia seguinte, quando teve a notícia de que a recuperação estava a ocorrer satisfatoriamente, o Rui, mais uma vez foi humilde e agradeceu à Mãe do Céu e a todos aqueles seres que, lá do outro lado, o tivessem ajudado.

O filho restabeleceu-se, a vida do engenheiro bem-sucedido voltou à normalidade, e o tempo, durante anos, nem sequer foi suficiente para que ele viesse visitar aquela bela imagem que, em noite tão aflitiva, lhe tinha aparecido na mente, para lhe trazer um pouco de luz e tranquilidade.

E digamos a verdade, nem a imagem, nem a Mãe do Céu que ela representava, o Rui teve tempo de, em pensamento, com alguma frequência, voltar a visitar, para aprofundar uma relação espiritual de amor e de humildade, porque isto é assim mesmo, há pessoas que, como diz o povo, só se lembram de Santa Bárbara, quando chegam os trovões.

Todavia, agora diante daquela imagem onde aprendera a rezar, sentia tristeza por ter andado tanto tempo ausente de Deus e de Nossa Senhora, de Jesus e do seu Anjo da Guarda, que lhe povoaram de espiritualidade a sua mente de criança e de adolescente.

Sentia-se alguém que, do ponto de vista afetivo trilhara caminhos de muita solidão, desprezando o profundo em prol do meramente superficial, afastando-se da compreensão e da paz, por causa de relações que, em vez de o edificarem o desgastaram, que em vez de servirem para construir, o tinham feito peregrinar em desertos povoados por palavras inúteis e por solidariedades sempre desejadas, mas também sempre inexistentes.

A quintinha, ano após ano, estava cada vez mais abandonada pelos donos.

Os avós do engenheiro já há muito que tinham falecido; aquela propriedade calhara aos seus pais em partilhas, mas eles   nunca fizeram vida do campo e, nem ele nem a irmã tiveram tempo para lhe dedicar qualquer atenção.

Apesar disso, ele sabia que a propriedade estava bem cuidada pelo caseiro, um amigo seu de infância que, por boa vontade dos donos, ali tinha ficado, numa modesta casa, a viver com a sua família.

De quando em vez lá chegava a Lisboa uma encomenda com a fruta da época e biológica; os albricoques mais doces que já comera, as romãs das mais sadias, que tinham de chegar ainda boas até ao natal, uns figos secos dos melhores, umas azeitonas bem temperadas, e quando ele vinha à quintinha, bem, então o caseiro e a mulher desfaziam-se em amabilidades.

 Matava-se um galo para fazer guisado com batatas em fogo de lenha e caldeirão de barro, como ele gostava, acendia-se o forno e fazia-se pão caseiro, a quinta era toda limpa e preparada para que o engenheiro e a família ali se sentissem bem.

Mas a mulher e os filhos dele não gostavam daquele local.

 Diziam que a casa era incómoda, repetiam incessantemente que a vida do campo não era para eles e que não estavam para passar ali o curto período de férias que tinham.

Por isso, deixaram de ir para a quinta, preferiam antes usar o bom apartamento que compraram junto a uma linda praia da região, e cada vez o distanciamento entre todos eles e a quintinha, foi sendo mais profundo.

 Depois de deixar aquela divisão em que a imagem se encontrava, ele entrou numa outra, precisamente no quarto onde, como a sua mãe muitas vezes lhe disse, ele veio ao mundo.

A mesma cama de então ainda lá se encontrava. Já não era o mesmo o colchão, porque ele o mandara substituir por um novo, de molas, sendo certo que o antigo, aquele onde a mãe sofrera para ele ver a luz do dia pela primeira vez, estava preenchido por lã de ovelha, como os demais existentes, nesse tempo, lá em casa.

Sentou-se na cama e sentiu que o profundo silêncio que reinava naquela casa o questionava, o obrigava a responder a uma pergunta qualquer que ele ainda não tinha conseguido descobrir qual era.

Mas a sua mente conduzi-lo-ia no sentido de identificar qual seria a questão que lhe estava ainda no inconsciente e que tipo de resposta é que ela demandava, porque, dentro de nós, nada fica por explicar ou por esclarecer.

O importante é que não fechemos os ouvidos da mente aos rios de palavras que ela nos tenta vazar no consciente para que, cada vez mais deixemos de ser desconhecidos de nós mesmos.

Começou então a aperceber-se de que, pela primeira vez, ele estava a olhar tudo aquilo com um sentimento diferente daquele que sempre tivera, quando entrava naquela propriedade.

Anteriormente, ele sentia-se o dono, aquilo era o seu espaço, ainda que lá fosse poucas vezes, sabia que aquele espaço era seu, ninguém lho iria tirar, a casa, a quintinha, o Martins, as recordações, os locais familiares, o cenário do filme da sua infância e adolescência, tudo estava ali a postos, sempre que ele lá quisesse voltar para rever, pelo menos no sítio real, as memórias gratas que lhe preenchiam a mente.

Mas agora era diferente. Ele estava a olhar aquilo pela última vez.

 Dentro de pouco tempo deixaria de ser o dono, deixaria de ter permissão para entrar ali, haveria alguém que abriria a porta daquela casa e não veria nela mais do que uma casa velha, talvez para demolir e construir outra no local, as mobílias para irem para o lixo, tudo reduzido a nada, para que ali começasse um outro filme, com uma outra família. Poderiam ser agricultores ou não, poderiam ser gente boa ou um bando de malfeitores, isso já não seria da sua conta, depois dele vender o imóvel e receber o preço respetivo.

A sua relação material com aquele local terminaria precisamente no dia em que a escritura de compra e venda fosse assinada e ele recebesse o preço concordado.

Mas o que é que aconteceria com a relação espiritual estabelecida entre ele e aquele lugar?

O que é que aconteceria com as memórias, os afetos, os momentos gratificantes, que nada disso se vende nem se compra, e que nada disso se retira de nós, como quem varre uma casa e atira para fora dela o que lá se acha e se tem por indesejável?

A quintinha e a casa onde ele nascera, o sorriso do Martins e da mulher, as árvores de ampla sombra onde os seus antepassados jantavam ao sol posto nas quentes tardes de verão, o terreiro onde todos os dias de manhã as aves de capoeira se reuniam ao brado da menina Alice para que comessem o milho que ela alegremente lhes deitava, aquele pedaço da sua história que de forma tão bondosa fazia dele um privilegiado, não só por ter raízes na alma, mas por também as ter cá fora, tudo isso lhe ficaria interdito.

A partir daquela escritura, ele teria empurrado para a gaveta das recordações um local com grande significado para si.

E que lógica era aquela afinal?

Tendo ele o local físico, porque é que se iria desfazer dele, ficando, todavia com a sua imagem lá dentro, a bater, a questionar, a culpabilizá-lo?

Qual era então a lógica do engenheiro que troca o real pela recordação, o físico pela simples memória dele, o local onde existiam tão boas raízes suas pelo preço que não tinha raízes nenhumas e do qual ele nem sequer tinha qualquer necessidade suficientemente justificativa?

Estas eram apenas algumas das perguntas que, malgrado serem por ele repelidas, o começaram a massacrar, naquela manhã, dentro duma casa que, apesar de parecer abandonada, ia falando, naquele modo de falar que não tem palavras, mas que ia buscar ao fundo do engenheiro, palavras que há muito aí estavam guardadas, mas que ele se tinha recusado a ouvir e, na decorrência de tal recusa, sequer tinha ousado pensar sobre o seu conteúdo.

Quase todos os protagonistas das cenas que ali se tinham passado já haviam falecido, isso ele não o pudera evitar, mas restava o Martins e a mulher, restava aquele lugar sempre disponível, para que ali ele pudesse reviver tantos momentos agradáveis da sua vida.

 Contudo ele ia, deliberadamente, e sem que, do ponto de vista monetário o necessitasse, empurrar o que ainda ali tinha para um recanto da memória, para um ponto sombrio do seu íntimo donde, provavelmente se haveria de erguer muitas vezes uma voz acusadora que lhe comprovaria, quando já não houvesse remédio possível, o erro crasso que havia cometido, ao desfazer-se do último pedaço de terra onde a película da sua infância e adolescência ainda estava tão viva.

Desta vez não seria algo de inevitável; seria antes a sua vontade a fazer desabar o pouco que ainda existia para testemunhar os tempos em que o brilho era cristalino e inigualável e que nunca mais assim tão intensamente se havia repetido nas décadas que, depois se sucederam.

Nunca tinha visto as coisas sob este prisma, quando pôs a propriedade à venda, quando pediu o preço, quando apareceu o cliente e, depois de a visitar disse que a queria e quando agendaram a celebração da escritura de compra e venda para dali a cerca de vinte dias.

Mas esta nova perspectiva que agora lhe vinha à mente, enquanto estava sentado na cama onde ele próprio viera a este mundo, incomodava-o, revolvia-o por dentro, fazia com que ele se sentisse nervoso e com uma profunda tristeza que não conseguia explicar.

Entretanto, e sem que o engenheiro desse por isso, o Martins e a Zefinha, a sua mulher, chegaram e, ao verem o carro estacionado, desde logo ficaram a saber que o patrão tinha vindo.

 Porque viram a porta da casa aberta, intuíram que ele estaria lá dentro.

O Martins, aquele homem rijo já metido nos setenta e de mãos visivelmente afeitas à lida da terra, a avaliar pela pele calejada que as cobria, aproximou-se da porta de entrada da casa, e bradou:

- Olá patrão!

O Rui levantou-se dum salto, como que subitamente despertado dum sonho agitado e controverso que o tomava por completo e dirigiu-se para a porta.

 Lá estava o casal de caseiros, de olhos brilhando de alegria por o terem ali.

Cumprimentaram-se, os caseiros perguntaram pela patroa e pelos meninos e, depois duma troca inicial e cortês de palavras, a Zefa disse convictamente:

- Não pode deixar de almoçar hoje connosco; até parece que eu adivinhava; matei ontem um galo, dos melhores que aí tinha, e vou guisá-lo com batatinhas da quinta e com umas ervilhas, assim como o patrão gosta.

- Não te incomodes, Zefa, eu não tenho muito tempo para estar aqui.

 Ainda quero chegar cedo a Lisboa.

- Não faça isso, patrão, - insistiu o Martins; - você vem cá tão poucas vezes! Dê lá este prazer aos seus caseiros velhotes.

O engenheiro não teve coragem de recusar e acedeu, mas pôs uma condição.

- Aceito, mas temos de comer ali na mesa da sala grande.

- Está bem, está bem, - disse a Zefa com um largo sorriso que lhe iluminava a face miúda, onde brilhavam uns espertos olhos castanhos.

– Mas tu vais-me já ajudar, marido.

E lá meteram ambos mãos à obra.

O engenheiro, aproveitando o tempo que ainda faltava para o almoço, pôs-se a percorrer, em passos lentos, embrenhado no seu silêncio e nas suas controvérsias, os cerca de três hectares da propriedade. Agora já sabia, já tinha tomado consciência disso, ia fazê-lo já não como dono, mas como alguém que se despede e que, ainda por cima, por decisão sua, origina a dor de tal despedida.

Ali estava a vacaria. Nos bons tempos da quinta, chegou a ter mais de vinte animais que produziam, de manhã e à tarde, de cada vez quatro cântaros de leite que a cooperativa local vinha recolher.

 A manutenção daqueles animais exigia uma rotina permanente, não havia dias de descanso, era o lavar das cabanas e das vacas, a primeira ordenha, ainda de madrugada, era o ceifar da erva para que elas se alimentassem e era o repetir do ritual da lavagem e da ordenha da parte da tarde.

Dois vaqueiros permanentes para tomarem conta disso e que, certamente, pouco mais recebiam do que o suficiente para se irem economicamente mantendo.

Quantas vezes, em menino, ele ajudou a carregar baldes de água para que as vacas fossem lavadas, cada uma por si, com o pano e a escova, afim de que, quando se chegasse à ordenha, já estivessem devidamente limpas!

 Quantas vezes os vaqueiros o ensinaram a ordenhar, primeiro acariciar as tetas das vacas, para que elas deixassem vir o leite, depois começar a ordenha para dentro dum balde, duas mãos, uma em cada teta, e fazer com que o leite escorresse em pequenos jatos, com abundância.

 Mas ele nunca aprendeu bem; nunca conseguiu, aliás com pena sua, ordenhar como os vaqueiros o faziam.

Enquanto criança, sentia-se um familiar daqueles animais tão dóceis.

Acariciava-lhes a cabeça, elas lambiam-lhe as mãos e ele, todas as tardes bebia-lhes o leite ordenhado diretamente, ainda quente e espumoso, para o púcaro de metal que trazia.

Como ele sonhava, nesses tempos de menino, ser também um vaqueiro, levantar-se de madrugada para tratar do gado, conhecer pelos nomes as vacas uma a uma, tal como os vaqueiros as conheciam, engatar a mula na carroça i partir à disparada por aquelas estradas de terra batida, buraco a aqui, pedra acolá, a mula puxando, o vaqueiro de pé em cima da carroça, rédeas na mão, com autoridade comandando o animal, assobiando uma canção silvestre, como tudo aquilo que rodeava a estrada que as rodas iam triturando, e lá ia o vaqueiro, a carroça e a mula, a caminho do campo onde a erva iria ser ceifada.

Quantas vezes ele desejara isso em menino e, apesar de não ser vaqueiro, quantas vezes um deles, o Manuel Comprido, o levou na carroça, o Manuel de pé, indiferente aos solavancos do carro e ele sentado numa das laterais, por não conseguir equilibrar-se de pé, como o Manuel conseguia.

- Ah! É verdade; o Manuel foi o pai do seu amigo de infância, o Martins, aquele que agora estava precisamente, conjuntamente com a esposa, a preparar alegremente um bom almoço para que o Senhor engenheiro pudesse comer regaladamente ali, na capital do seu pequeno império, a casa grande.

Estava ele do lado de fora da vacaria, e parecia-lhe ver a figura esguia do Manuel Comprido, vestido com aquele fato macaco escuro, quase inútil de tanto uso.

- Eu gosto deste menino como se fosse meu filho!

É verdade, isto dizia muitas vezes o Manuel quando o levava a qualquer lado, apresentando-o aos demais, e, ao mesmo tempo que assim falava, passava-lhe ternamente a mão pela cabeça.

Aquela voz terna, falando com a pronúncia dum camponês, criava regras de gramática que nenhum compêndio adotou e que morreram com ele, porque jamais alguém as irá repetir.

Como poderia o Manuel falar de outra forma, se nem sequer tinha ido à escola, se aprendera a expressar-se no meio dos campos, mais com o gado, do que com as pessoas?

Mas com regras de gramática apenas suas, ele sabia transmitir um dos sentimentos mais ternos e mais puros de que o Rui alguma vez desfrutou.

- Eu gosto de este menino como se fosse meu filho.

E era verdade; ele havia sentido mais carinho vindo das mãos e da voz do Manuel Comprido do que do seu próprio pai;

 ele sentia, quando o Manuel o pegava ao colo, algo que não se via, mas que penetrava lá dentro, como se fosse um laço incandescente que acendia no seu coração de menino feliz fogueiras propiciadoras dum imenso bem-estar, de algo que era, ao mesmo tempo, doce e engrandecedor, estimulante e propiciador duma profunda paz.

Como a vida é um livro tão controverso!

O Rui, que já era pai e avô, que, pela idade que tinha, já se aproximava da porta de saída da vida, continuava a precisar de alguém que lhe passasse a mão pela cabeça e lhe dissesse que gostava dele como se gosta dum filho, porque esse é um dos sentimentos mais belos que existem e do qual nós necessitamos sempre, e talvez tanto mais dele carecemos, quanto menos anos de vida nos restam para completá-la.

Contudo, agora, mais precisamente naquele dia, naquela manhã, o engenheiro viera à quintinha, com o propósito de dizer ao Martins, ao filho do Manuel Comprido, que deveria desocupar rapidamente a casa onde vivia, porque a propriedade ia ser vendida.

Como o engenheiro iria pagar tão bem ao Manuel Comprido o facto de este ter gostado tanto dele como gostava dum filho!

Como o Manuel Comprido, de lá donde estivesse, deveria deitar lágrimas de justificada tristeza, ao ver que aquele menino que ele tantas vezes e com tanta ternura pegara ao colo, agora iria deitar para a rua, para a miséria, para o desespero, para sabe-se lá onde, o seu próprio filho

 e a mulher, ambos já velhos, ambos já incapazes de recomeçarem uma nova vida e de ganharem o suficiente, para terem uma casa onde morar!

Este pensamento quase o sufocou, não por lhe ter retirado o ar dos pulmões, mas sim por lhe ter causado uma enorme dor no mais profundo da alma.

Aquela cabana estava já quase em ruínas. Agora o telhado estava cheio de ninhos de andorinhas, que naquela manhã, chilreavam alegremente e, tendo as portas abertas, lá dentro andavam algumas galinhas, espenicando pequenas palhas que ainda ali existiam.

Cerca de cem metros adiante estava a nora, ainda com o velho engenho lá colocado, a corda dos alcatruzes, certamente avariada, esperando pacientemente que o tempo a derrubasse de vez.

Ali fora um dos locais importantes da sua meninice.

 Ele vinha, com os empregados, engatar a mula à almanjarra para que ela fizesse mover, por horas a fio, o engenho que era o único meio de extração de água na quinta, a qual corria abundante para um tanque a cerca de vinte metros dali.

Ainda se lembra de ter perguntado ao Chico pires:

- Mas para que é que temos de pôr os entrolhos nos animais?

- Para eles não almarearem. - Foi a pronta resposta que obteve.

Quando se queria que o engenho andasse mais rápido, engatava-se a catita, a mula castanha, que era considerada a de mais energia. Quando não era precisa assim tanta rapidez no engenho, então vinha a carocha e, com esta, porque era preguiçosa, tinha de ficar alguém a tocá-la, para que ela não se deixasse ficar a dormir em pé, junto da nora.

Muitas vezes, essa tarefa do tocar dos animais, lhe coube a ele e cumpria-a com prazer e sempre com cuidado, para que o toque fosse leve e o animal não se magoasse.

Todos os anos, entre abril e setembro, o seu avô fazia uma pequena cultura de milho, porque a terra também não dava para muito.

O Rui gostava de ver as plantas a crescerem, consolava-se de andar por dentro do milho e já não ser visto cá de fora, gostava de molhar os pés nas regueiras da água da rega e sempre quisera aprender a manejar bem a enxada para encaminhar a água, para que as leiras se enchessem e depois, quando uma leira estava cheia, mudava-se a água para outra, e assim a rega se ia fazendo lenta e pacientemente.

Como tudo isto tinha mudado em tão poucas décadas!

Provavelmente, aquela forma de irrigar a terra, a levada e as regueiras, o tanque e a nora, já vinha do tempo dos árabes, quando a reconquista cristã ainda não tinha chegado ao sul, e assim havia permanecido por gerações e gerações, os pais ensinavam aos filhos e tinham a certeza de que   esses ensinamentos lhes eram úteis, porque mais tarde, seriam os descendentes a tratarem a terra da mesma forma que os seus antecessores o tinham feito.

Nesses tempos sentia-se a continuidade, os pais eram mestres de matérias que convinha aos filhos aprenderem, para poderem ser bem-sucedidos no futuro.

Mas agora já não, os membros das gerações mais novas acham que nada têm a aprender com os mais velhos, porque hoje é o filho que ensina ao pai a mexer no computador, a instalar este ou aquele programa, a ir à internet e descobrir ali coisas que o pai fica pasmado de lá se encontrarem.

É o filho que se ri da ignorância do papá, da falta de jeito dele para as novas tecnologias, é a moda que vem na música de consumo rápido, o repetir incessante de compassos de tecno, rotineiros, enjoativos, o pai não gosta, mas o filho diz que aquilo é que é moderno, o pai diz que é música pobre, o filho diz que o pai é que não alcança a riqueza da modernidade e da juventude.

É o jogo, tudo na consola, o ténis, o futebol, o pai diz que era bem melhor que fosse mesmo a sério, que o filho fosse para o campo e jogasse, corresse, vertesse suor, testasse as suas capacidades físicas, mas o filho diz que isso é uma seca, que é o pai que não compreende a juventude, que não consegue sentir a adrenalina que a consola transmite, e assim se vai originando, muito a rir e muito cortesmente o choque entre as duas gerações, a daquelas pessoas que foram crianças quando o engenheiro o  foi,  e que agora já estão na idade de serem avós, mas  que ainda sujaram os pés na terra enquanto meninos,  que ainda limparam o estrume do gado, que viviam no local, no círculo das  redondezas, que tinham a consciência de que eram pobres, que o comer podia faltar amanhã, que havia que guardar para o inverno os figos, as azeitonas e a carne do porco já conservada para que, naqueles dias mais feios, a fome pudesse ser aplacada, e a outra geração, a dos jovens de hoje, que tiveram tudo e que não aceitam a negação do que quer que seja, que não fazem por conhecer o passado ainda próximo, as origens daqueles que trabalharam arduamente para que eles se  sintam os beneficiários com todos os direitos e sem quaisquer deveres perante aqueles que os antecederam, encaminhando-os muito delicadamente para um lar de idosos, logo que deixem de ter préstimo e comecem a dar trabalho.

Enquanto pensava nestas realidades, o engenheiro chegou junto do velho tanque e sentou-se numa das suas bordas.

 O sol refletia-se na água levemente ondulada pelo vento, de quando em vez ele conseguia ver um peixe, nadando preguiçosamente, com certeza descendente de alguns daqueles que lá se encontravam quando ele, em tardes de grande calor, e com a permissão sempre difícil de obter da avó Chica, mergulhava naquelas águas e sentia-se um peixe como os demais.

Ainda no tempo dos seus avós, o animal para mover  o engenho caiu em desuso e a corda de alcatruzes começou a ser movida por um motor a gasóleo; mais tarde, continuou o motor, mas em vez dos alcatruzes, foi colocada uma bomba dentro da nora; alguns anos depois o próprio motor foi substituído por uma bomba elétrica e a própria nora teve de ser aprofundada, para que continuasse a ter água; poucos anos após, as levadas deixaram de ser úteis e colocou-se a rega por meio de tubos e com disparos automáticos e controlados por relógios.

As vacas deixaram de ser rentáveis em toda aquela região, e as vacarias todas se extinguiram.

Os carros de besta, que nos seus tempos de infância enchiam a cidade que ficava perto, agora já dificilmente eram vistos e nem sequer podiam entrar na maioria das ruas da cidade, por constituírem um entrave ao trânsito dos

Veículos a motor.

 Ou seja, uma série de mudanças rápidas, a evolução numa aceleração cada vez mais vertiginosa e o trucidar de todos aqueles que não se conseguiram aperceber de que estavam a ficar para trás e, de repente, quando dão por si, verificam que o seu trabalho e o seu conhecimento, já não tem valor algum para a sociedade em que vivem.

Certamente o Martins fora um desses; por ali foi ficando agarrado ao passado, na quintinha onde ele também havia sido criança, filho que era dum dos empregados dos avós do engenheiro.

 À medida que foi crescendo, o Martins passou a ser o moço que fazia tudo, o que regava, que ordenhava o gado, que engatava as bestas e andava com as carroças, o que ia à cidade buscar o que houvesse falta, o jovem que deixou a escola porque não tinha motivação para ela, sentia-se bem naquele mundo, não tinha falta de saber ciências, matemática ou história, para executar as tarefas que lhe preenchiam o dia a dia.

Ele Via a vida à medida daquele ambiente, ali tinha o suficiente para viver, mais tarde conheceu a Zefinha, casou com ela e os patrões deixaram-no continuar a viver ali; o pai dele morreu e ele ficou a assumir as funções que o pai tinha.

No fim de contas, o Martins era o jovem perfeito para ter tido a sua mocidade cem anos antes, porque nessa altura a evolução  da sociedade era menos veloz, o trabalho dele continuaria a ser útil, mesmo depois do pai morrer, mesmo depois dele ser adulto, mesmo depois dele ter filhos a quem pudesse ensinar a mesma profissão, porque a quintinha iria continuar a ser um centro com vitalidade, o engenho tinha de continuar a trabalhar para que houvesse água para regar a terra, as vacas tinham de produzir leite,

 para que os patrões o vendessem e assim pudessem tornar a exploração economicamente rentável.

O Martins esqueceu-se de consultar o relógio do progresso, esqueceu-se de atualizar o modelo de aprendizagem que já lhe fora transmitido pelos genes de séculos e séculos de anterioridade.

 Ele, afinal, já não tinha precisado de aprender nada daquilo que o seu pai lhe ensinou, porque tudo isso iria ficar desatualizado, dentro de pouco tempo e, perante uma sociedade tão mutável  como esta e tão  pouco inclusiva como esta também demonstra ser, as pessoas como o Martins são rapidamente atiradas para as margens, mergulham no sofrimento, que advém de se ter aprendido a ser útil e, afinal,  de se verificar que essa aprendizagem não teve utilidade nenhuma.

Enquanto se debatia com estas ideias, viu o caseiro atravessar o caminho, com um cesto na mão, a uns cinquenta metros de distância. Certamente iria apanhar alguma fruta para o almoço.

 Era um homem de cerca de um metro e sessenta e cinco de altura, mas entroncado, seco, mas musculado, tostado pelo sol, mas vigoroso e demonstrando grande vitalidade.

Tinha o cabelo grisalho e os seus olhos castanhos revelavam uma grande vivacidade.

Ele era um contraste do engenheiro, um homem com cerca de um metro e oitenta de

 altura, gordo, já sem cabelo, exibindo uma barriga bem saliente e um aspeto envelhecido.

Depois da operação que fizera ao joelho direito, só se movia com dificuldade; tinha de andar permanentemente com uma pequena farmácia atrás, comprimidos para o colesterol, o ácido úrico, a pressão arterial e, quando ia urinar, a próstata dilatada causava-lhe sérios problemas para deixar sair o que a bexiga lá tinha.

Afinal, se é verdade que o engenheiro tinha consultado muito melhor do que o Martins o relógio do progresso, ficava evidenciado que o caseiro talvez, instintivamente tivesse sabido ler, com mais sabedoria do que o patrão, o livro do equilíbrio e da saúde.

A vida estava quase a terminar para qualquer deles e, se é certo que o engenheiro tinha um grau muito mais elevado de conhecimentos, será que o Martins não teria um nível muito mais elaborado de humanismo e uma melhor qualidade de vida?

Seja como for, nenhum deles podia voltar a trás no tabuleiro da vida.

Cada jogada feita tornou-se definitiva pouco tempo depois e agora apenas havia que lançar o melhor possível os poucos dados que ainda restavam.

Depois de apanhar um cesto cheio de ameixas e albricoques, o Martins aproximou-se do tanque e sentou-se ao lado do engenheiro.

- Lembras-te, meu caro Martins, quando ambos andávamos descalços por aqui em crianças?

- Bem, patrão, quem andava descalço quase sempre era eu, porque a sua avozinha, quando o via descalço, zangava-se consigo e até houve uma vez que lhe quis bater por causa disso.

- É verdade, Martins.

E tu, porque é que andavas descalço?

- Perguntou o engenheiro.

- Sabe, o meu paizinho era muito pobre, o dinheiro que ganhava aqui mal dava para que comprássemos roupa e sapatos. E vá lá que comíamos com os patrões e, por isso, nunca passámos fome.

Eu tinha uns sapatos para quando saía à cidade e, para andar aqui, tinha de ser mesmo descalço.

Mas sabe uma coisa, patrão, eu gostava mais de andar descalço, do que calçado.

 Quando metia os sapatos nos pés, sentia-me mal, porque não estava habituado a usar sapatos; eles apertavam-me, doíam-me, davam-me calor, era um sofrimento.

- Ouve lá, Martins, e se um dia tivesses de sair daqui o que é que tu fazias?

- Bem, acho que era o princípio do fim da minha vida.

Eu sei que isto não é meu, sei que tenho de me ir embora, quando o patrão quiser, mas este lugar é a minha vida. É só aqui que eu me sinto bem, passei todo o meu tempo nesta quintinha e sou como um passarinho. Quando me tirarem daqui é como se me pusessem na gaiola e morro de tristeza.

Mas também a verdade é esta: se eu trato disto tão bem, porque é que o patrão me há de mandar embora?

- Então ouve lá, e se tivesses de te ir embora daqui os teus filhos não te acolhiam?

- Ó patrão, como diz o povo, um pai é para dez filhos, mas dez filhos não são para um pai.

Então o patrão acha que algum dos meus dois filhos, casados como estão, com as suas casas para eles e para a sua família, têm lá algum lugar para os velhotes?

Nem pensar. Se eu tivesse que sair daqui agora, não tinha ninguém que me desse um abrigo.

 a minha filha está em Lisboa. Houve uma altura em que eu e a mulher tivemos de lá estar cinco dias para um tratamento médico. Ficámos em casa dela, mas estávamos desejando de vir embora.

 Nós parecíamos um estorvo que estava para ali, dormíamos na sala, depois os miúdos queixavam-se que já não tinham espaço para estar, o marido dela tinha uma cara de poucos amigos, enfim, nunca me senti tão mal como naquela altura.

Ó patrão, mas vamos lá ao almoço, que já está pronto e cheira que é uma maravilha.

Tenho ali uma garrafa de reserva que um amigo me ofereceu, uma vez que lá lhe enxertei umas árvores. Vou abri-la de propósito para si.

- Bem, Martins, vai lá andando, que eu já lá vou ter.

O caseiro foi caminho abaixo e o engenheiro Rui ficou ali ainda sentado mais um pouco, moendo-se consigo mesmo, pedindo-se explicações acerca da sua cobardia, ele que sempre fora um homem decidido, mesmo quando se tornava necessário enfrentar as situações mais difíceis.

Mais uma vez ficou por dizer aquela frase simples que ele trouxera na garganta desde Lisboa:

«Martins, vendi a quintinha, dentro de vinte dias vêm para cá os novos donos e, depois disso, tu tens mais dois meses para sair, porque eles querem isto livre.»

No fim de contas, uma frase que demoraria pouco mais de dez segundos a dizer, mas que o engenheiro Rui cada vez estava menos capaz de a pronunciar.

 Ainda não tinha arranjado uma razão sólida para que a não dissesse, mas a intuição mandava-o calar.

 Era uma guerra enorme entre o que se pensa que deve ser e o que se sente que não deve acontecer.

Se as pessoas soubessem bem como a sua intuição as  pode conduzir a caminhos e conclusões onde a razão ainda não chegou, se soubessem que a intuição condensa milénios de experiências vividas entre dois mundos, o espiritual e o físico, ficando ali como uma lanterna, um importante guia, porque ela não se apagou, apesar da restrição de memória operada a quando da reencarnação de cada um, se as pessoas soubessem de tudo isto, atenderiam muito mais à sua intuição, aprenderiam a conhecê-la e a servir-se dela com muito proveito.

O engenheiro sentiu que aquela manhã a revisitar os locais da sua infância lhe fizera bem, sentia-se mais perto das suas raízes e, por isso, começou a experienciar mais solidez na sua forma de encarar a vida.

Subitamente, constatou que as lembranças das dezenas de anos que passara fora dali se iam esfumando, eram como flocos que se desfaziam, era uma poeira que a luz daquele sol do meio-dia, ali junto ao tanque da sua infância, tornava menos densa.

Sentiu como que um sabor amargo a tempo perdido, envergando falsos uniformes que o mascararam, que lhe deram pesos e aparências que deturparam a sua essência.

Sabia que o esperavam para o almoço, mas não queria deixar a borda do tanque.

Das águas ali paradas, surgiam questões extremamente dinâmicas, assertivas, fazendo-lhe perguntas profundamente pertinentes e incómodas.

- “Onde estiveste por todo este tempo Rui?

De que te serviram os títulos académicos, as cátedras, as honrarias e fortunas, se as tuas raízes estavam aqui, se os afetos que te deram felicidade permaneciam na quintinha, esperando por ti, e se até o Manuel Comprido tanto tem pedido a Deus por ti, em gratidão ao que tens feito ao seu pobre filho, a quem agora, sem vergonha nem remorsos queres colocar na rua?

Que ser humano se desenvolveu em ti, nestes longos anos de vida, se agora já não consegues querer andar descalço, para estar ao nível do teu amigo de infância, o Martins?

Mas sabes, o importante não é descalçar os pés, mas sim tirar da alma os falsos sapatos da vaidade e da arrogância que lhe retiram a simplicidade, a empatia, o respeito por um dos mais puros sentimentos, que é o da amizade.

Olha bem para ti, Rui, ainda estás em condições de não cortar os últimos elos que te ligam aos belos tempos da meninice.

Um dia chegará em que a tua consciência te perguntará porque é que a tua evolução em conhecimentos científicos e tecnológicos não ocorreu paralelamente nos teus valores morais.

E, ao te aperceberes desta lacuna enorme que deixaste acontecer na tua personalidade, relegando para segundo plano a boa moral, terás necessidade de refazer o caminho e voltar, para percorrer, com humildade, os caminhos que agora te recusas a enfrentar.

Aqui se faz e se desfaz, aqui se viola, mas também aqui se retifica.

Compreenderás que a cultura e a ciência são muito louváveis e necessárias, mas que, na base de tudo, como primeiro pressuposto, deve estar o amor, como Lei Divina que nos rege e no qual Jesus Cristo assentou todos os seus ensinamentos.”

“amai-vos uns aos outros como eu vos amei.”

Esta frase do Divino Mestre, que ele aprendera nos seus tempos de frequência da catequese, subitamente, começou a ecoar lá dentro e a provocar-lhe perguntas, exigindo as respetivas respostas.

-- “Rui, o dinheiro que vais receber como preço da venda do local onde nasceste e também como preço da tua ingratidão para com o Manuel Comprido e para com o Martins, teu amigo de infância, todo ficará do lado de cá, quando partires, porque, de facto, tudo o que é material apenas nos está emprestado.

Mas o peso da tua ingratidão perante quem brincou contigo, em criança, as lágrimas que o Martins e a mulher irão chorar, quando forem empurrados daqui para fora, os seus sofrimentos, vegetando fora daqui, sabe-se lá onde e em que precárias condições, sim, esse peso vai ficar contigo, não só enquanto estiveres neste lado da existência, mas também quando transitares para a dimensão espiritual e, podes crer, terás um sentimento de vergonha que te fará derramar lágrimas extremamente amargas, perante a tua consciência, um sabor a ingratidão que te vai torturar profunda e prolongadamente.

Nessa altura, desejarás voltar a trás, mas já não será possível; ouvirás de novo estas palavras que agora te batem à porta da mente e arrepender-te-ás de não lhes teres prestado a devida atenção; terás necessidade da bênção do perdão e obtê-la-ás, porque Deus é Misericordioso, mas terás de pisar difíceis espinhos que ainda estás em tempo de evitar.”

Chegou à casa grande, cerca de dez minutos depois e lá estava a mesa posta a rigor, estando coberta com uma toalha ainda do tempo da sua avozinha e encontrando-se, numa pequena mesa de canto, uma jarra de bonitas rosas, que eram as flores que ela preferia.

 Ainda se lembrava dela dizer muitas vezes:

«Não há maio bom sem rosas bonitas.»

Ali, os seus avós, os seus pais, as demais pessoas que encheram a sua infância de brilho e de amor já não estavam fisicamente presentes, mas estavam na sua alma, e no coração do Martins e da mulher, que eram as únicas pessoas vivas que, para além dele os tinham conhecido e que tanto os consideravam.

 

A garrafa dum bom reserva alentejano já estava aberta, o Martins serviu o vinho para os três e depois pediu uma saúde:

- Vamos beber à saúde do nosso querido patrão e pedir a Deus para que ele e a família sempre tenham as maiores felicidades, por todo o bem que nos têm feito.

Ao dizer isto, o Martins emocionou-se, aquelas palavras vinham-lhe mesmo do fundo da alma, estando regadas por lágrimas de gratidão que lhe humedeceram os olhos.

Elas valiam por tantas décadas de estadia ali, valiam por anos e anos de estimação que ele tinha dedicado ao patrão, o seu amigo de infância que, no fim de contas, era o seu amparo na terra.

Todos brindaram e o Rui sentiu-se cada vez mais impossibilitado de levar àquele casal a má nova que ali o trouxera.

Mal sabia o Martins que aquelas palavras assim tiradas do fundo do coração, haviam penetrado profundamente no coração daquele que jogara consigo à bola em criança e que fora o seu companheiro de tantas brincadeiras delineadas pela imaginação fértil de dois meninos que conseguiam deixar-se iluminar por todo o brilho que o sol tinha, de tal forma, que, mesmo quando anoitecia, a sua luminosidade continuava bem plasmada naqueles rostos extasiados de alegria.

O almoço estava quase a terminar e cada vez mais a intuição do engenheiro lhe pedia que calasse a notícia sinistra que tinha consigo.

E se ele pedisse a um funcionário da imobiliária que viesse desempenhar esse papel de que ele agora se achava incapaz?

Nesse caso, ficaria para sempre com uma enorme mancha na sua consciência.

Não queria passar de semideus a um indigno vilão que nem tivera a coragem de olhar de frente os seus velhos caseiros e, ao menos, explicar-lhes a decisão tomada e agradecer-lhes tantos anos de devotados préstimos.

Precisava de ganhar tempo; o poder de decisão estava a escapar-lhe, estava a desconhecer-se; a firmeza que tantas vezes havia demonstrado em importantes entroncamentos da vida estava agora a dar mostras duma enorme fragilidade.

- Zefinha – disse o engenheiro ao levantar-se da mesa, no final do almoço. – Afinal mudei de ideias; já não vou hoje para Lisboa. Prepara aquela cama do quarto que era dos meus avós, que vou passar cá a noite.

Os caseiros rejubilaram com aquela decisão.

- Assim é que é, ó patrão, - disse o Martins – sabe tão bem dormir na quintinha!

- Olha – continuou o engenheiro, falando para a Zefinha – lá mais pela tarde, acende aquela lamparina de azeite que está diante da Nossa Senhora.

Dito isto, ele saiu, entrou no automóvel e dispôs-se a dar uma volta pelas redondezas.

Passou pelo local onde tinha frequentado o ensino primário, mas a velha escola já tinha sido destruída.

Nasceu, em vez dela, outra edificação, mas que nada tinha a ver com aquilo que existia, quando ele ali foi criança.

Passou depois, pela pequena igreja de meio rural onde fizera a primeira comunhão; tinha tido obras de restauro, mas era a mesma, entrou nela e sentiu uma paz semelhante àquela de que desfrutava quando, ainda menino, aos domingos, à saída da missa, era acariciado por vizinhos e amigos.

Dirigiu-se depois à cidade e visitou alguns dos lugares que lhe falavam da mocidade, de aventuras aí vividas, de amigos, muitos deles já falecidos, de sonhos e de esperanças, algumas delas tornadas, mais tarde, por mérito seu, em boas realidades.

Quando já passava das sete da tarde, e estando ele sentado numa das esplanadas da cidade, à espera que lhe servissem um bom prato de amêijoas, daquelas bem gradas, provenientes de algum dos viveiros da Ria Formosa, e uma garrafa dum verde bem fresquinho, tocou o telemóvel. Era a sua mulher.

- Então, Rui, já estás quase a chegar a Lisboa?

- Não, querida, eu hoje vou ficar por cá.

A voz dela subitamente modificou-se para pior, o tom de mulher agastada veio ao decima e atirou-lhe:

- Realmente tu não tens responsabilidade nenhuma, então não sabes que hoje é o dia de anos da tua nora?

 Não sabes que temos de ir lá jantar?

- Olha querida, vai tu, representa-me, eu de manhã já lhe dei os parabéns pelo telefone, mas hoje não consigo sair daqui.

- Acho que estás a ficar um pouco demente – respondeu ela do outro lado da linha – cada vez vives mais com os fantasmas do passado.

- Está bem, Luísa, fica tu no presente e deixa-me em paz.

E desligou o telefone.

Para que ela não insistisse, apagou-o.

Já estava habituado a que a mulher fosse desagradável sempre que era contrariada, mas, felizmente, à distância, esse facto não o preocupava, porque não tinha de olhar para a cara dela que, certamente, como acontecia em situações idênticas, devia   ostentar uma expressão de meter medo.

Mas aquele diálogo áspero trouxe-lhe uma pequena luz que nasceu lá dentro e que, cada vez se ia tornando mais intensa e brilhante.

Mas afinal, ele teria fantasmas do passado a viverem consigo?

Não, a Luísa estava enganada; ele o que tinha do passado eram muitos e edificantes afetos que viviam consigo, sim, mas para lhe tornarem o presente mais belo e significativo.

Ele andara muito tempo esquecido de importantes trechos do seu passado e, por isso, estava a contas com dores e amargos sabores, que só ele sabia avaliar.

Mas ele nunca negara as suas raízes, sempre se sentira bem com elas, a sua vida era uma continuidade, essas raízes faziam parte do seu mundo, do qual ele falara aos seus filhos, aos seus netos, à sua mulher de quase quarenta anos de vida em comum, mas, apesar de eles terem ouvido as histórias que lhes contava, esse mundo não passou para eles, era o seu, aqueles pontos que ele achava importantes, para os demais membros da sua família não tinham importância absolutamente nenhuma.

Só quem compreendia bem o mundo da sua meninice era o Martins, porque fora menino com ele no mesmo ambiente, tendo pisado a mesma terra molhada, comido com ele os frutos ali colhidos por ambos, bebido o leite das mesmas vacas, subido às mesmas árvores, tendo convivido com as mesmas pessoas e com idênticas formas de abordar o dia a dia daqueles velhos tempos.

 Quase por milagre, ainda se mantinha em bom estado o mesmo local onde todo o filme da sua infância e adolescência havia decorrido.

Ele ainda podia dizer:

Ali está o limoeiro onde a minha avozinha ia buscar limões para temperar o peixe cozido com batatas que nos servia ao almoço; ali estão as amoreiras onde eu ia buscar as folhas para alimentar os meus bichinhos da seda; ali estão as figueiras lampas onde eu vinha de manhãzinha comer uma boa barrigada de figos, ao mesmo tempo que apanhava uma cestada para levar para a gente lá de casa; além estão os marmeleiros que, no outono, produziam os grados marmelos de que se fazia o doce que nos ajudava a suportar as agruras dos invernos.

Ainda lá estão as levadas onde eu e o Martins púnhamos pequenos sabugos a servirem de barquinhos, que lá iam na correnteza até aos regueiros da rega.

Esse local físico da minha infância ainda me espera, enquanto eu quiser ninguém ali mexe, ninguém ali altera nada.

 Eu continuo a ser o patrão do Martins e da mulher, mas quando eles assim me chamam, esta palavra tem um sabor especial.

 Não sou patrão por lhes pagar ordenado, por os manter dia a pós dia na minha fábrica, gastando eles o seu tempo, numa rotina difícil, em prol da minha economia, mas antes por lhes permitir que

 tenham uma vida equilibrada, que ali tenham a sua casinha, as suas galinhas, os seus coelhos, o seu cão, que ali se sintam bem e olhem com confiança e alegria cada dia que nasce, depois do galo o ter alegremente anunciado.

Eu não sou o patrão que eles temem, mas antes o patrão que eles desejam que chegue à quintinha, para que eles sintam que o patrão aprecia o bom trabalho de conservação que eles lá vão desenvolvendo.

Eu não sou o patrão que os explora, mas o patrão que os protege, e por isso o sentimento que eles têm por mim é de respeito, de amizade e de enorme consideração.

Todavia, é tudo isso que eu quero trocar por duzentos e cinquenta mil euros, seguindo uma lógica meramente economicista que a minha mulher me conseguiu, pouco a pouco ir introduzindo, em relação à quintinha.

- Ó Rui, mas para que é que tu queres aquilo, só para nos dar despesas?

Os moços não querem ir para lá, ninguém gosta daquilo, tudo velharias, tudo coisas já desatualizadas.

Vende a quintinha, querido, o dinheiro faz-nos mais jeito.

- Mas faz-nos mais jeito para quê? – dizia agora o engenheiro de si para consigo.

- O que é que eu vou fazer de diferente na minha vida com mais duzentos e cinquenta mil euros, se nas minhas contas bancárias tenho mais do que isso e o dinheiro está lá parado?

O engenheiro Rui constatava agora, com mais nitidez do que alguma vez antes isso ocorrera, que, ao longo da sua vida, e desde que tinha casado, fora fazendo, pouco a pouco, muito suavemente, cedências e mais cedências que o afastavam do seu mundo, da sua forma de ser, da sua forma de sentir, do modo como gostaria de passar o seu tempo, tudo cedências em prol da família.

 Comprou a primeira casa em certo local, porque a mulher assim quis, gastou dinheiro várias vezes em mudar de mobílias, porque ela assim o incentivava; foi a dezenas de locais onde não teria ido por sua iniciativa, porque os filhos assim gostavam, enfim, ele foi modelando o seu mundo em prol do mundo da família, foi tentando entrar no mundo daqueles a quem mais amava, mas, infelizmente, eles não fizeram o mesmo em relação a si.

 Estava agora precisamente em vésperas de desferir o último golpe no seu mundo, estava agora, sem ter compreendido bem a situação melindrosa em que se ia colocar, a poucos dias de vender o local das suas raízes, e de empurrar para a desdita um amigo seu de infância que o tem por protetor.

É verdade que aquele casal de caseiros não teria o perfil para que ele os apresentasse, como amigos nas reuniões sociais que organizava na sua casa de Lisboa, mas pouca gente como eles lhe queria tanto bem, pouca gente como eles seria capaz de física e moralmente o ajudar, se um dia ele próprio precisasse de proteção.

Terminou de comer as amêijoas, de beber o verde que estava bem fresquinho e saboroso, pagou a conta e levantou-se.

Quando chegou à quintinha, já o sol se tinha posto; uma lua cheia iluminava o céu;

 um perfume intenso de flores andava no ar e inundava-o de prazer e tranquilidade.

 O Martins e a Zefinha estavam sentados à porta, esperando que ele chegasse.

-Ó patrão, eu pus na cama aqueles lençóis de linho que a sua avozinha dizia que eram os melhores que tinha e que eram só para as visitas – disse ela alegremente.

- Obrigado Zefinha, vocês podem descansar, porque eu não preciso de mais nada.

Os caseiros entraram na casa onde moravam e ele foi, mais uma vez andar pela quinta, desta feita acompanhado pelo sultão.

No tempo em que era criança, não havia ali apenas um cão, mas quatro; era o leão, um cão grande, preto, o bitó, um cão pequeno branco, o labi, um cão pequeno castanho e o dique, um cão castanho, grande.

Em noites como aquela, o pai do Martins, que gostava de apanhar e cozinhar ouriços cacheiros, ia à caça deles, pela quintinha, com o labi e, quando o cão descobria algum, punha-se a ladrar à volta dele, o ouriço enrolava-se com medo, já não saía dali, e era só chegar o homem e apanhá-lo.

Quantas vezes o pai do Martins o pegou ao colo!

Quantas vezes aquele hábil vaqueiro, que vestia um fato macaco sujo e transportando consigo todos os odores da vacaria, o colocou, sendo ele ainda uma criança de quatro ou cinco anos, em cima do carro puxado por uma mula e o levou à apanha da erva, indo a criança apreciando tudo quanto passava, e sentindo-se um príncipe sobre aquela carroça velha e barulhenta que ia aos solavancos pelos caminhos esburacados que serpenteavam entre hortas plenas de verde e de vida!

Como podia ele agora esquecer-se de tudo isso, pagar, com a mais grosseira ingratidão, tanto afeto que aquela família lhe tinha dedicado?

A noite ia avançando e ele não havia meio de ter sono. Mas aquela visita ao passado fez-lhe bem; sentia que, afinal, por muitas voltas que tivesse dado na vida, ainda estava inteiro, ainda tinha dentro dele um pouco da criança que, com pureza, encarava cada dia como se fosse uma nova e entusiasmante brincadeira, e tinha um bocado do jovem que abordava o presente como um desafio a vencer, crendo na sua capacidade de concretização.

Verificava também que, apesar das cicatrizes no corpo e na mente que o já longo e polémico curso da vida lhe tinha causado, havia uma essência que se mantinha e que certamente foi um ingrediente fundamental que possibilitou que se houvesse conseguido conduzir tão bem, em tantas estradas difíceis por onde tinha andado:

 Era o amor pelas coisas naturais e simples que aprendera naquele local, e a capacidade de colocar esse amor na análise das relações sociais por onde ia passando.

Ele, por esse amor, era sincero, era leal, era capaz de colocar a palavra dada acima do interesse económico, a honra acima da mera conveniência social, a gratidão acima de quaisquer influências perniciosas.

Ali, entre gente simples, mas boa, ele tinha aprendido que o amigo nunca desampara o amigo.

Finalmente, entrou em casa, deitou-se, a lamparina estava acesa e a Nossa Senhora vigiava, de terço pendendo entre as mãos. Talvez dali ela o tenha protegido em tantas voltas que a vida deu, em tantas encruzilhadas que o podiam ter levado a locais desastrosos.

O galo cantou pela madrugada e ele sentiu-se mais amparado do que amparador, mais menino do que velho, mais esperançoso do que triste, mais amante e autêntico do que tecnocrata e calculista.

Soube-lhe bem sentir a madrugada, o dia que pouco a pouco despertava, os galos que iam cantando ao desafio, os pássaros que começaram a encher o ar de sons agradáveis, os raios do sol que, a medo iam despontando, atravessando as vidraças da janela e instalando-se dentro daquele quarto onde reinava uma maravilhosa paz, aquela que estava por fora, mas acima de tudo, que morava lá dentro de quem ali despertava para o novo dia, com mais esperança, mais fé, mais gratidão ao Criador, mais amor e mais firmeza.

A primeira medida que tomou, depois de se levantar, foi ligar para a agência imobiliária e mandar cancelar o negócio.

 Felizmente ainda não tinha assinado nada. Do outro lado da linha telefónica houve a admiração, houve mesmo a indignação do promotor por ver que se lhe escapava a comissão, houve uma proposta de aumento de preço, mas a decisão do engenheiro era inalterável.

 Enquanto ele fosse vivo e pudesse decidir dos seus bens, aquela quintinha não tinha preço monetário.

 O grande valor dela era apenas estimativo e o que nós realmente estimamos não podemos trocar por qualquer quantia em dinheiro.

Quando saiu de casa, já os caseiros o esperavam lá fora, tendo-lhe a Zefinha dito que já tinha preparado um café daqueles de cafeteira, como ele gostava e tendo-se prontificado para lhe fazer umas torradinhas de pão caseiro com azeite.

Ele estava bem disposto, aceitou e, dirigindo-se ao Martins, disse-lhe:

- Diz-me lá, a cabana das bestas ainda está boa?

- Sim, patrão, talvez precise de se substituir algumas telhas, mas eu faço isso, se o patrão quiser.

- Pois bem, põe tudo em condições, porque estou pensando em comprar dois cavalos de montar e de atrelar.

 Acredita que tenho saudades de engatar um numa carroça e, segurando as arreatas, como o teu pai dizia, ir por aí como nos antigos tempos, rompendo estrada, campos fora.

O Martins sorriu de contentamento.

 Depois de tomar o pequeno almoço, o engenheiro Rui Gomes, bem disposto como há muito não se sentia, despediu-se dos caseiros, entrou no carro, saiu lentamente da propriedade rumo a Lisboa e ficou com a certeza de ter feito a opção correta e de ter de ali voltar muitas mais vezes, para agarrar melhor as suas raízes, que se tornavam tanto mais percetíveis e consoladoras, quanto mais próximo e sensível ficava o dia da inevitável mudança, em que a quintinha da Ramada ficaria finalmente disponível para ser vendida, mas em que ele fecharia os olhos com a profunda paz de nunca ter traído os seus princípios, nem o seu amigo de infância, podendo chegar à dimensão espiritual e abraçar o Manuel Comprido, com um misto de amor e gratidão, com a alegria de quem cumpriu devidamente o seu dever, retribuindo o amor àquele vaqueiro que o amava como se ama a um filho, colocando este seu modo de sentir abrangente e essencial, incólume aos preconceitos sociais que têm deturpado esse sentimento nobre e edificante, agregador e poderoso, puro e libertador, belo e harmonioso, sábio e virtuoso, abençoado e criador, simples e profundo, que é o amor.

 

Faro, 2014

 

 

José Bento

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