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A MENINA, A BICICLETA E O ENTARDECER

17 de abr.
12 min de leitura

Numa tarde, quando caminhava já no final dum árduo dia de trabalho, por um dos largos da cidade em cujos arredores vive, um homem já muito debilitado, mas amadurecido por profundos golpes que outros lhe haviam desferido, oscilando entre a dor das traições que sofrera e o prazer do sonho que ainda conservava, teve a agradável surpresa de encontrar uma linda menina que, em cima da sua bicicleta desfrutava da plenitude daquele entardecer primaveril.

Ela estava naquela idade em que a infância começa a abraçar a adolescência e, do cimo da sua bicicleta, sem que sequer o pudesse suspeitar, tinha o mundo todo ao seu alcance.

Dali, ela ainda via as portas da vida cheias de luminosidade, convidando-a a que entrasse mais, a que crescesse, a que respirasse o tanto que a força da vida ainda tinha para lhe dar.

Dum lado, uma menina, uma bicicleta, um largo grande e um entardecer iluminado pelo sol que já se ia desmaiando sobre o mar.

Do outro, um homem que, pela idade todos diriam que era um homem feito, mas que nada mais era do que alguém batendo às portas da maturidade, que conseguiu chegar ao tempo em que se aprecia aquele cenário, em que mais se pode dar valor ao muito que aquela menina tinha, apesar de apenas estar sobre a sua bicicleta no centro daquele entardecer, com o pôr do sol por companhia.

Ela, ainda que sonhasse com o mundo das princesas, era, sem que disso suspeitasse, muito mais do que uma rainha, porque não estava preocupada em defender qualquer posição de domínio sobre quem quer que fosse, guardando espontaneamente a privacidade do seu mundo, e sentindo que, naquela hora,

o largo se abria pleno aos seus pés, o sol era esplendoroso aos seus olhos, o verde dos anos servia-lhe de tapete e o azul do céu era um jardim infinito onde todos os horizontes podiam ser desenhados, imaginados e sentidos; onde o universo se abria para as mentes que, como a dela, ainda estavam aptas a colher a boa fantasia e a viver com ela, amando o belo, desfrutando do imenso e inebriante prazer que daí se colhe.

A vida nunca lhe desmentira qualquer sonho; o tempo ainda não fora suficientemente longo para que o manto do passado lhe tisnasse a claridade do presente.

A menina sentia-se livre, linda e leve, qual se fora uma ave deslizando suavemente dentro do azul, impulsionada pela doce brisa do entardecer.

 E tal e qual ela se sentia, assim aquele homem que emergia entre a luz e a sombra, entre a tortura do passado e a beleza da esperança que dá cor ao futuro, a conseguia ver e sentir. 

A menina desejava crescer, queria que o futuro se desenrolasse rapidamente, queria viver na primeira pessoa a novela que povoava a sua mente ainda infantil.

 Por sua vez o homem, ainda que sabendo que isso não era possível, tinha o desejo de rebobinar o seu passado, de voltar a percorrer a estrada da vida e seguir de forma diversa algumas opções que outrora se lhe haviam colocado, e cujas decisões então tomadas, umas por ele e outras que lhe foram totalmente alheias, agora faziam dele aquele misto de luz e sombra, de choro e riso, de sonho e tristeza, de gosto e desengano.

Ele, naquele preciso instante, conseguiu fotografar com a sua mente, a menina e o seu mundo e também outros mundos mais densos que se cruzavam com o dela, aptos a demonstrarem-lhe quão mal estimada é a felicidade, neste entrelaçado de mentes que, apesar de se deverem acariciar, não raro se amachucam, se maltratam e se destroem.

Naquele momento, aquele homem tomado simultaneamente pela beleza e pelo desalento, pela felicidade de ver a menina e pela amargura de já a não poder amparar, ainda assim, queria protegê-la, no centro do entardecer, conseguir dizer-lhe coisas que ela ainda não compreendia e que, se as ouvisse, certamente iriam nublar o seu entardecer e fazer menos leve a menina que deslizava suavemente na sua bicicleta.

Encerrou-se ele pois no silêncio, num canto daquele largo em que a menina, tão absorta que estava pela luz em que mergulhava, nem sequer nele reparou.

Aquele homem, já desgastado pela desilusão e pelo cansaço, por um passado espinhoso e por um futuro que não se antevia claro,  ainda que não deitasse qualquer lágrima, chorava dolorosamente pela já prevista perda daquela inocência infantil, pela menina que cada dia cruzaria com menos beleza a amplitude daquele largo, onde iria descobrindo curvas que ali não existiam, obstáculos que só ela ia ver e que outros lhe iriam colocando numa mente suficientemente desprevenida que, por isso mesmo, seria progressivamente povoada de noites capazes de obscurecerem a tarde mais luminosa.

Pobre menina!

 Como a vida se iria encarregar de lhe retirar a tarde e a bicicleta, o sonho e a inocência, a ilusão e a beleza, o largo e a imensidão, o olhar que vê mais fundo mergulhado no azul, e a sensibilidade dum coração que sente inexplicáveis infinitos embebido no amor, tal e qual, nos seus tenros anos, já lhe retirara o pai, o qual vira nela uma luz, para lhe  contra balançar a ele  muitas penumbras   com as quais a vida o brindara.

Tudo isso ele já o sabia, mas nada disso ela ainda o poderia pressupor, e ainda bem, para que esse dia continuasse lindo e os seus olhos ainda pudessem, nessa noite, adormecer cheios da poesia que a tarde e a bicicleta, o azul e o desejo, sobre ela tinham derramado.

O homem sentou-se num dos bancos ali existentes e ficou a observar o sol que se desmaiava, o largo que cada vez tinha menos gente e a menina que calmamente o percorria pedalando sem pressa na sua bicicleta cor de rosa, da mesma cor dos sonhos que ela transportava, e que a impulsionavam a abraçar a noite que se aproximava e onde ela entraria com aqueles lindos olhos escuros, mas plenos de luz e brilhantes de tranquilidade.

Ali foi ele pensando e recordando, passo a passo, segundo a segundo, o momento em que, logo após ela ter nascido, ele a cingira nos seus braços e imediatamente se gerara dele para ela um laço de ternura e esperança, que nem a mais difícil distância tinha logrado quebrar.

Laço esse, todavia, muito peculiar, porque o prendera apenas a ele, deixando-o amarrado a esse momento maravilhoso, como se ficasse envolto por uma cortina de magia que nenhum facto, ainda que extremamente doloroso, tinha conseguido desfazer.

Passou a lembrar-se dos choros dela, enquanto bebé, das suas perguntas de criança, dos seus beijos, pedindo amparo e expressando agradecimento.

Mas agora, por impensável volta do destino, ela não era mais do que uma menina que ele, por mero acaso, encontrara no final dum dia cansativo de trabalho, passeando naquele largo, na sua bicicleta cor de rosa, no centro do entardecer, gerando naquele coração adulto e já meio cansado mil perguntas por responder e   sentimentos de perda muito dolorosos.

Para aquele homem, ela não era uma menina qualquer; encontrara-a, naquela tarde, junto à casa onde ela agora morava, e bem longe daquela onde, durante os primeiros anos da sua vida, a menina tinha habitado com ele, quando ambos podiam adormecer na mesma cama, ele com a mão nos cabelos dela, estando então aquela menina certa de que a proteção do pai jamais lhe faltaria.

À medida que ela se ia deixando dormir, nesses doces tempos de ilusão e encantamento, ele ia subindo ao paraíso, ia-se sentindo suficientemente rico para não ambicionar mais riqueza nenhuma, ia desfrutando do valor do invisível adornado por um maravilhoso imaginário,, do afeto que une, do prazer imenso de agarrar a debilidade dela e conseguir dizer-lhe sem quaisquer palavras que, pouco a pouco, ela  iria sendo mais forte e, que tal e qual uma planta se ampara na haste que o agricultor ali colocou para a ajudar a crescer, também ela se podia amparar no pai que, por um puro e ilimitado amor, tudo faria para a livrar dos espinhos que, na rota ascendente da vida  a iriam magoando. 

Mas a roda da vida foi empurrada em coordenadas que ele não previa e tudo o que parecia certo se esfumou, afastando-se da realização pretendida.

O quarto dela, na casa que agora era só dele, há mais de três anos que estava fechado; a sua voz de menina jamais lá ecoara, alegrando uma casa outrora plena de sol e hoje pejada de sombras.

Contudo, para surpresa sua, no final daquele dia de trabalho, encontrou aquela menina, que apesar de ser a sua já o deixara de ser, pedalando ela alegre e livremente no centro do entardecer.

E tão metido ficou ele   nos seus pensamentos, que não deu pela noite que havia entrado, pela menina que tinha deixado de estar no largo e pelo facto de ali ter ficado ele sozinho, plantado à beira dum jardim de lembranças, amarrado àquele banco, qual árvore presa à terra que a viu nascer.

A menina tinha partido de novo, seguira a rotina do seu dia a dia da qual ele já não fazia parte.

Ele sentia dentro de si, de quando em vez, o gotejar duma lágrima, a perturbação dum lamento, o desconforto duma derrota, o gelo duma solidão, o vazio duma perda e a tristeza pela falta duma sintonia que, enquanto existiu trazia plenitude e que, ao desaparecer, produziu muita amargura.

A noite adensava-se, a cidade estava cada vez mais em silêncio e aquele homem, que ficara ali preso por causa duma menina que andava de bicicleta na doce luminosidade do entardecer, estava agora a contas com contos antigos, percorrendo a sua própria

 estrada nos diversos sentidos possíveis, em busca do sentido mais adequado a dar a tantas quedas e enganos que lhe turvavam a alma, buscando a menina que, no entanto, já estava num mundo de que ele não fazia parte.

Era a tentativa de ressuscitar das cinzas o que em tempos fora e que já deixara de ser, mas que agora apenas tinha significado, porque se retivera na memória dum homem inconformado com o tempo presente, com o caminho percorrido, com os golpes sofridos e as decisões que, por sonhos vãos tomara, e que por serem tão funestas o tinham tomado a ele, em brasas de sofrimento.

A imagem daquela menina, rolando, com a sua bicicleta, no incendiar meigo do entardecer, trouxera-lhe a recordação do menino que ele tinha sido, que fazia brotar o sonho belo, mesmo que lhe servisse de chão a mais difícil tempestade, mesmo que não houvesse largo nem bicicleta, mesmo que ainda não tivesse chegado o sol e não fosse previsível a primavera, num qualquer momento do entardecer.

Nesses já distantes tempos, apesar de estar perto do nada, ele tinha o tudo, apesar do pouco ele sonhava o muito, e desse sonho se nutria, e nas suas asas ia ultrapassando tantas barreiras que a vida lhe tinha colocado, sendo ele ainda tão verde e tão débil.

Naquele fim de tarde, o corpo ficara-lhe preso naquele banco de jardim, enquanto a mente se espalhava por tantos jardins inventados que ele nunca tivera, por tantos mares de águas límpidas que ele nunca tinha percorrido, por tantos abraços que ele intensamente desejara e os quais, todavia, jamais tinha logrado sentir.

Estava ali um homem feito em dois, o que se colara ao banco e o que saíra dele, o que punha os pés no largo e chorava e o que punha a mente muito longe e ainda continuava a desejar algo, que nem ele próprio sabia bem o que era, mas que continha auras de infinito, cheirava a beleza, exalava continuidade, dádiva e conforto.

Naquela noite, já para lá do entardecer, repetia-se naquele homem o seu dilema de sempre, estar metade na terra e a outra metade na plenitude do azul do céu, suportando os golpes que lhe vinham do chão, mas sendo incapaz de prevê-los, por ter os olhos da alma demasiadamente encantados pelas cores que estavam muito para lá do solo que os pés mansamente calcavam.

E ali, com ele, teimava em permanecer a imagem da menina, do bom que tinha sido ter podido acariciá-la enquanto bebé, ampará-la enquanto criança, e do terrível pesadelo que ainda hoje o atormentava e que começara no dia em que, para tortura sua a tivera de perder.

A certa altura apeteceu-lhe voltar a casa, onde ninguém o esperava, mas onde desfrutava duma sensação de abrigo, de aceitação e de paz, a qual lhe era transmitida por aquelas paredes que assistiram ao desenrolar de tantos e importantes momentos da sua vida.

Lá não estariam os braços com que sempre sonhara, o sorriso que sempre tinha desejado, o amor que sempre lhe iluminara os sonhos mais bonitos com que gostosamente se tinha deleitado.

nada disso lá encontraria, mas estaria ele, ainda constante no prazer de conceber o belo, de conseguir levantar-se do meramente material para entrar em algo mais vasto, mais enriquecedor, naquilo que permanece, que se dilata, que traz significados de amor e de continuidade, de pureza, de harmonia e de humano de braços estendidos para o Divino.

Lá estaria ele ainda capaz de aceitar a prorrogativa que Deus lhe concedera de participar no ato criativo, como quem quer acrescentar mais um milímetro de beleza aos biliões de quilómetros de toda aquela que já existe, e que, criando, o faz com gratidão e alegria, com amor e com fé; que o faz com o gosto de ser uma criatura e, ao mesmo tempo um criador.

Envolto em sentimentos destes, de pés no chão e mente no Céu, foi ele caminhando pelas ruas da cidade adormeci da, tendo depois saído dela por uma estrada rural que o havia de conduzir até à sua casa.

 À medida que caminhava, ia ouvindo sons de tambores que ecoavam em terras distantes onde milhões de crianças não tinham qualquer possibilidade de andar de bicicleta no centro do entardecer, num largo tranquilo da cidade onde viviam, nem sequer lhes sendo facultados os alimentos essenciais de que careciam para poderem crescer.

Disso não suspeitava aquela menina, que pedalara docemente cruzando aquele largo na orla do entardecer.

 À medida que ela percorria o largo, via flores, sonhava com reinos encantados, com torrentes de abraços, com harmonia e doçura, tendo expulsado já do seu mundo um pai que ficou para lá duma esquina do tempo, envolto em incontáveis histórias provavelmente de conteúdos muito deformados e controversos.

Contudo, havia milhares de meninas que choravam por um pai que nunca conheceram ou por um pai que um dia havia partido, deixando um lugar que jamais pôde ser preenchido nos seus corações ávidos de ternura.

À medida que a noite avançava e que ele se embrenhava naquele caminho mal iluminado, foi aumentando dentro de si o ruído provocado por gritos aflitivos de pessoas que eram empurradas para o desespero, que viviam já numa zona em que a vida quase deixa de fazer sentido, e que só por um fio de nada ainda não se haviam despenhado em busca dum descanso meramente ilusório.

Todo o planeta foi penetrando dentro daquele homem, com uma mescla de seres que caminhavam impulsionados pelo desejo de viver e de outros que sugavam a vida daqueles com quem se cruzavam, ostentando uma avidez insaciável de ocupação, de posse e de aniquilamento.

Uns lutavam pela vida e outros utilizavam o tempo de vida para fomentarem a tristeza e a morte.

Todas estas sensações lhe demonstravam como ele deveria abandonar a amargura da perda e embrenhar-se mais no empenho do melhoramento dum mundo que ainda dele necessitava, e no qual a sua força de menino ainda fazia sentido, encarnada no homem que vagueava metade na sombra, metade na luz, mas ainda com a força bastante para encontrar a madrugada.

A brisa daquela noite primaveril acariciava-lhe as faces, o perfume das flores de laranjeira que vicejavam nos campos em derredor flutuava no ar, trazendo um odor, ao mesmo tempo fresco e revitalizante.

Os passos dele por aquela estrada rural iam-se sucedendo lentamente e a cidade ia ficando cada vez mais para traz.

Já o fresco da madrugada inundava a noite, quando ele chegou à porta da casa onde morava.

 Ali estavam, no quintal anexo, mais de dez árvores que ele plantara cerca de dezasseis anos antes, precisamente no primeiro mês que habitara naquele local.

Elas, agora, estendiam os seus braços fortes para o céu, inundando de verde aquele jardim e contrastando com aquelas plantas débeis de pouco mais de dois palmos de altura que ele, carinhosamente plantara, cova após cova, ainda incerto sobre se alguma vez iriam crescer.

 Mas a verdade é que vingaram, em poucos anos já as suas copas o protegiam das tardes soalheiras de verão, muitas e plenas de prazer tendo sido as horas que passou à sombra delas.

Afinal o processo natural da vida é isso mesmo; uns que auxiliam os outros a viver e que vão ter um dia o retorno da vida que ajudaram a desenvolver.

É a existência regida pela Providência Divina, que sempre nos dá conforme o que plantámos, encaminhando-nos no sentido do progressivo aperfeiçoamento e do alcançar de patamares cada vez mais amplos de felicidade e sabedoria.

Ao chegar a casa, não lhe apeteceu dormir e pegou ele próprio na sua bicicleta, tendo começado a andar sem destino pelos arredores da cidade, dentro da madrugada, sorvendo um turbilhão de emoções, que ora o faziam chorar, ora o faziam sorrir.

 Quando o nascer do dia já se aproximava, dirigiu-se para aquele largo onde tinha podido ver uma linda menina, pedalando tranquilamente na sua bicicleta no centro do entardecer.

 Quando os primeiros raios de sol dessa manhã primaveril visitaram aquele local, encontraram pedalando na sua bicicleta, e percorrendo o largo sem pressas nem pressões um homem já amadurecido pela vida que, todavia mantinha o fulgor do desejo e tinha espelhado na alma o brilho de quem sabe que, até ao último minuto, a vida continua a valer a pena, para que a semente dê o fruto, o braço traga o apoio, o perdão gere a paz,  o beijo entregue a ternura, o amor reforce a união, a canção ofereça a doçura, a vontade potencie a força e o homem faça da terra mais um dos jardins do bem, do belo e de felicidade que flutuam na imensidão do universo.

 

Faro, 30-3-2017

 

José Bento

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