top of page

A ILUSÓRIA ZONA DO NORMAL

  • 9 de mai.
  • 2 min de leitura

Ao redor de nós, a praia está deserta,

E cada onda que chega, docemente desmaia.

Nos teus lábios, há um beijo que se espraia,

Que tu hoje me dás, de alma pura e liberta.

 

Mas amanhã a praia terá muita gente,

Com visões que trazem muita forma e muita regra;

E não te será fácil amar o ser diferente,

Suportando os medos que isso integra.

 

Para o teu bem, foge desta minha doçura,

Que traz consigo um ramo de difíceis questões;

Uma montanha de traumas e crispações,

Que transformarão em tédio a tua ternura.

 

Para o teu bem, retira-me do teu caminho,

Porque o amor só é belo, quando é profundo;

E eu sei que tu, pressionada pelo mundo,

Vais deixar-me, um dia, a amar sozinho.

 

Acredito naquilo que agora me dizes;

Mas à medida que os dias forem passando,

Esse amor, em obrigação se vai mudando,

Perde a pureza e ficamos infelizes.

 

Era bom que o hoje se pudesse prolongar;

Que o teu amor puro se pudesse manter.

Mas sei que não te conseguirás libertar

De fios invisíveis que te irão prender.

 

Para teu bem, enquanto podes, vai-te daqui;

Segue o conselho de quem chorou, noutros romances;

De quem se deu em muitas formas e nuances,

Empobrecendo, enquanto dava partes de si.

 

Fica tranquila, na fácil zona do normal,

Onde a ilusão não mostra as dificuldades.

Eu vou aprender, com as minhas debilidades,

E tendo a paz de quem, para ti, foi leal.

 

Soubera eu de tudo aquilo que sei hoje,

E teria evitado muita frustração.

Mas somos flocos lançados no tempo que foge,

E cada um, em tempo, terá a sua lição.

 

Eu sei que o amor é nobre e tudo supera,

Sendo a força que dirige a natureza.

Mas quem não entra no amor fica à espera

De ter coragem de agarrar a sua grandeza.

 

Enquanto tu vais, fico sentado no areal,

Sonhando com o brilho desse belo porvir,

Em que o bem espalhe o perfume do sentir,

Integrando todos, no poema universal.

 

Caminhas na praia, interpretando o agora;

Fico sentado, pensando no que não existe.

Em cada um de nós há uma alma que chora,

Mas a separar-nos, há um passado que persiste.

 

Faro, 7-2-2024

 

José Bento

Comentários

Avaliado com 0 de 5 estrelas.
Ainda sem avaliações

Adicione uma avaliação
bottom of page