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A ESTRADA ANTIGA DE LISBOA

  • 17 de abr.
  • 13 min de leitura

Pouco passava das cinco da manhã, naquele dia frio de janeiro, mas apesar de tudo agradável, quando saí de casa.

Já estava estacionado, em frente da minha porta o táxi que me deveria levar a Lisboa.

Logo que me aproximei do carro, o motorista, de pé junto à viatura, abriu solicitamente a porta por onde eu devia entrar e cumprimentou-me cortesmente, estendendo-me a mão:

- Olá, eu sou o Lúcio – disse ele com um sorriso que, de certa forma aquecia aquela madrugada ainda gélida e me dava um bom sinal   para a viagem que ia começar.

A minha primeira impressão foi a de que iria viajar com alguém afável e que aparentava ser um bom profissional.

Era um homem alto, que teria não mais de quarenta anos, bem vestido e bem barbeado, cabelo negro encaracolado e curto, olhos castanhos e perspicazes.

Apertei-lhe a mão e disse:

- Olá, muito prazer, eu sou o Henrique.

Sentei-me no banco de trás, não por preconceito, mas por necessidade de espaço, porque ia tão atravancado de ideias e de desencontros, de dúvidas e de tristezas, de danos e desilusões, de alguns passados incómodos e de tantas névoas tisnando o presente, que me fazia bem procurar dentro daquele pequeno habitáculo um isolamento que me salvaguardasse a mim mesmo, sabia lá eu bem do quê.

Apesar da madrugada, na linguagem dos poetas, poder significar renovação, eu continuava longe dela, submerso num lençol de dúvidas e de confusão, que quase me separava totalmente de tudo aquilo que, em derredor de mim acontecia.

- Pois bem, sr Henrique, qual é a estrada que prefere que tomemos?

- Por muito estranho que lhe possa parecer, quero que vamos pela estrada antiga de Lisboa.

- Qual, pela estrada de S. Marcos da Serra?

- Não, sr Lúcio, essa ainda não se pode considerar como antiga.  Quero ir por S. Brás do Alportel e pela Serra do Caldeirão.

O rosto do homem mudou imediatamente de semblante, demonstrando uma enorme surpresa.

- Mas essa estrada tem o piso em mau estado, tem imensas curvas, vamos demorar muito mais tempo a chegar a Lisboa.

- Não faz mal sr Lúcio, só tenho que estar lá por volta das onze horas.

O homem nada mais disse. Certamente que pronunciou para ele aquela frase sagrada de que o cliente é que manda e tomou o rumo indicado.

O aparelho de som do automóvel ia tocando num baixo volume canções românticas provenientes duma pen drive que lá estava colocada, e os dois passageiros do veículo mantinham-se em silêncio.

O motorista levava, na ponta da língua, uma pergunta que, todavia, não teve a coragem de fazer.

Queria ele seguramente saber qual era a razão que me levara a escolher um trajeto que, naquela altura, já era tão desusado, para quem quisesse ir de Faro para Lisboa.

Só que essa pergunta, conjuntamente com algumas outras, também estava na minha mente, com a clara desvantagem, para mim, de que ninguém lhe poderia responder, se não eu mesmo, sendo certo que a resposta ainda me escapava por completo.

E porquê procurar uma estrada difícil e morosa, tortuosa e pouco frequentada, quando muito mais fácil seria que nos metêssemos pela autoestrada, que em pouco mais de duas horas e meia, nos possibilitaria chegar ao destino?

E porque iria eu de táxi, pagando quatro o cinco vezes mais do que se viajasse comodamente, na primeira classe do comboio?

Mas estas eram perguntas extremamente insignificantes, quando comparadas com aquela outra que eu tentava omitir:

Afinal, qual será a notícia que aquele médico me dará hoje, cerca das onze horas?

Qual será o horizonte que, repentinamente essa notícia vai abrir, ou fechar na minha mente?

Quando for meio-dia, quando a maioria das pessoas sair para o curto descanso que divide a manhã da tarde, quando as ruas de Lisboa se encherem de gente em busca dos restaurantes para a costumeira confraternização e recolha dum pouco mais de energia, a fim de melhor enfrentarem mais um período de trabalho, que homem serei eu?

Aquele que ainda conserva alguma solidez no equilíbrio da sua personalidade, ou o outro que se começa a desmoronar caoticamente?

Completara há pouco os sessenta e cinco anos e, pela primeira vez na minha vida, aguardava uma revelação que podia mudá-la por completo.

No consultório existente naquele grande edifício, sito numa das principais artérias de Lisboa, por volta das onze horas daquele dia, um médico iria dizer-me se o resultado do teste a que eu me tinha submetido dera positivo ou negativo.

Ao contrário daquilo que sempre me acontecera na vida, agora o negativo era o bom e o positivo era o início do calvário, do sofrimento, do enfrentar duma doença que me iria consumir o resto dos dias que ainda estavam na minha conta do tempo de vida.

Estava eu agora tristemente mergulhado numa situação idêntica àquela, na qual milhões de seres humanos já tinham estado, e com a qual muitos outros ainda se irão confrontar no futuro.

Dali a poucas horas, eu ia saber se a presumível má sorte me havia escolhido para o rebanho daqueles que têm o final já marcado com alguma precisão temporal, ou se, pelo contrário, a boa sorte me continuaria a proteger, deixando-me no outro rebanho, constituído por aqueles que ainda nada sabem sobre o seu tempo de vida e que, por ironia do destino, até poderão morrer primeiro do que os que já têm a morte anunciada.

A tudo isto era alheio o Lúcio, que ia percorrer uma estrada que não lhe despertava qualquer interesse, que iria fazer uma viagem que o enfadava, na companhia dum cliente tão estranho, como estranha era a opção de ir por uma estrada que já quase ninguém quer utilizar, para fazer o trajeto de Faro para Lisboa.

Enquanto o carro deslizava tranquilamente pelas ruas ainda desertas da cidade, veio-me à memória uma madrugada muito idêntica àquela, a qual se passara cerca de sessenta anos antes.

Eu entrara também num carro para, nesse dia ser visto por um médico, em Lisboa.

 Mas não era um táxi; era o carro azul do meu avô, do qual eu gostava mais do que de qualquer outro, era aquele o carro que eu, no meu imaginário infantil, achava o melhor do mundo, apesar de apenas ter três velocidades para a frente, a somar à marcha atrás.

Para mim, esse carro era mais do que um veículo, era um abrigo, era uma espécie de prolongamento da família, era um habitáculo preenchido, não apenas por pessoas, mas também por ternura, por amor, e por muita dedicação, da qual eu me sentia um alvo privilegiado.

O meu avô conduzia, o carro estava cheio; para além de mim e dele, iam as minhas duas avós e um amigo da família.

Todos se haviam disponibilizado para me levar, ainda criança, a esse médico; todos sentiam o gosto de me acompanhar, todos se interessavam pela notícia que o médico me pudesse dar nesse dia.

Nessa madrugada eu estava dentro duma família; todos desejavam que o parecer do médico fosse o melhor, mas todos me continuariam a apoiar, mesmo que se verificasse precisamente o contrário.

Lembrei-me então que, antes de pôr o carro em movimento, o meu avô pronunciou a frase que sempre dizia, antes de iniciar qualquer viagem:

“Vamos na Graça de Deus.”

Quando eu era criança, esta frase não tinha grande significado para mim. Contudo, à medida que me fui tornando mais entrado na vida, esta pequena frase foi ganhando cada vez mais sentido.

Sim, a Graça de Deus. Quantas vezes eu a solicitei e quantas vezes o Pai Misericordioso ma concedeu!

A Graça de Deus é o apoio que nunca me faltou e que ainda, naquela madrugada, dentro do táxi preto em que ia viajando, continuava comigo, como um recurso de inesgotável luz e paz.

Os meus avós já todos tinham falecido há muito e aquele amigo que então nos acompanhava, que nesse tempo era um jovem sorridente e despreocupado, agora estava a braços com uma doença tremenda que o encarcerava na sua própria casa, longe do convívio social, posto numa zona em que nos perguntamos se uma pessoa nesse estado ainda está espiritualmente nesta vida, ou antes se já está suspensa entre esta e a outra, como que impedida de participar em pleno em qualquer delas.

Entretanto decorreram sessenta anos, de criança eu passei a idoso e a estrada de Lisboa que eu percorri nessa madrugada do antes, deixou de ser a estrada corrente de Lisboa para passar a ser a estrada antiga para Lisboa.

A criança que então via um universo pleno de luzes, que se ancorava em punhados dum afeto sincero, dera lugar ao homem que atravessara sessenta anos de vida desde então, o qual agora ia percorrer aquela estrada por onde, em criança, ele fora derramando sonho e esperança a cada quilómetro que passava, mas por onde agora não espalharia mais do que umas frouxas lembranças alicerçadas num intenso vazio e numa ténue penumbra de desilusão.

Sessenta anos; o tempo necessário para que a estrada passasse a ser antiga e para que a criança deixasse de ser verde e o homem deixasse de sonhar cor de rosa.

Sessenta anos; o tempo suficiente para que o carro azul tivesse desaparecido e para que, no seu lugar, surgisse um táxi preto, em que não havia família nenhuma, em que para além de mim apenas havia um motorista que não tinha qualquer interesse, nem pela notícia que eu iria receber, nem pelas consequências que a mesma me trouxesse.

Ele conseguira um bom contrato de transporte, terminaria o seu dia com um ganho apreciável, independentemente das perdas que, no regresso a Faro eu pudesse já ter registado.

A estrada mantinha-se, as curvas da Serra já se iam descrevendo uma após outra, o meu corpo ia sendo empurrado, ora para a direita ora para a esquerda, o dia já clareava e as lembranças iam-se tornando cada vez mais presentes, retirando do fundo da memória as dezenas de vezes que eu já percorrera aquela estrada nos últimos sessenta anos.

Apareciam-me como se fizessem parte duma  película de imagens bem nítidas    os episódios, as pessoas, as palavras ditas aqui ou ali, as paragens neste ou naquele local da estrada para este ou para aquele efeito, sessenta anos, tantos quantos  os necessários para substituir a debilidade boa duma criança pela fragilidade dolorosa dum homem maduro, que percorrera aquela estrada dezenas de vezes, pensando, de cada vez que por ela andava, que  mais ia ganhando na força, no conhecimento, na experiência e na felicidade, sem perceber que, afinal, aquele carro azul que o transportara quando ele apenas tinha cinco anos, nunca mais haveria de ser substituído por outro igualmente azul e igualmente cheio de gente que, com bons afetos, com dádivas de apoio e de beleza, consigo se relacionasse.

Sessenta anos, o tempo suficiente para que a criança que produzia uma intensa luz que agregava à sua volta uma família que a apoiava, tivesse dado lugar a um homem que perdido no banco de trás dum táxi, não lograva dimanar qualquer luminosidade, nem sequer a suficiente para que alguém visse o quanto ele era débil e o quanto necessitava do abraço, da palavra, do beijo, do compromisso, da mão amiga e solidária.

Sessenta anos; o tempo bastante para que a criança de então tivesse crescido tanto, que continuava amarrada à infância, desejando talvez ter parado no tempo em que o carro azul existia e igualmente existia a família que ele transportava.

Agora rolava, por aquela estrada sinuosa, um táxi preto, que transportava dois homens, cujos mundos nada tinham a ver um com o outro.

O que conduzia o carro estava, presumivelmente a meio da vida, provavelmente cheio de sonhos, rodeado ainda duma família, que poderia encher um carro e dar-lhe calor; encher uma vida e dar-lhe alegria.

O outro, aquele que seguia para ali desprezado no banco de trás, apesar de parecer um senhor, era um mendigo, não de dinheiro, mas de carinho e de esperança, um homem com os bolsos cheios de desilusões, que já não tinha família nenhuma a quem a notícia que aquele médico lhe iria dar dentro de algumas horas pudesse interessar.

É verdade; eu carregava comigo muitos anos de amarguras, de lições dolorosas, de sonhos que eram tão belos, que me empolgavam, mas que se desfizeram, à medida que foram embatendo contra os rochedos agrestes que a realidade da vida pusera no meu caminho.

Imagine-se bem quão pobre era esse homem que seguia no banco de trás daquele táxi que, buscando bem na sua bagagem, naquela viagem entre duas cidades, já não encontrava um único sonho daqueles cor de rosa que durante tanto tempo ele alimentara e que o tinham mantido de pé e esperançoso de alguma vez atingir algum deles.

Mas afinal porque quisera eu fazer a viagem pela estrada antiga de Lisboa?

A dada altura apercebi-me da resposta possível: eu quis percorrer de novo aquela estrada para comparar as rugas que eu já criara cá dentro com aquelas que a estrada antiga para Lisboa ostentava por fora.

Quis aperceber-me, durante aqueles cerca de trezentos quilómetros de viagem, quão dura, distraída e mal aproveitada foi aquela outra viagem   que eu fizera nos últimos sessenta anos, apesar de tantas centenas de milhares de quilómetros percorridos, nas estradas de asfalto e nas do pensamento, nas da fantasia e nas do afeto, nas da ilusão e nas do desencanto.

Sessenta anos; o tempo necessário para voar pelos diversos céus do imaginário e para depois cair nas múltiplas florestas do real, intrincadas e densas, agrestes e sombrias,

numa queda brutal, daquelas que nos retiram dum jardim de paz e nos emborcam num pântano; que nos expulsam da luz e nos lançam na penumbra; que nos trazem dos jardins da fantasia e nos fazem aterrar no mais árido deserto.

Ali ia eu, sem o carro azul, sem amigos ou família, um incógnito ser à espera duma decisão importante para o decurso da sua vida, acompanhado por um taxista indiferente a tudo isso e num carro que não era azul, nem continha afetos, e que servia diariamente para transportar quem quer que fosse, independentemente dos objetivos ou dos desesperos de cada passageiro.

Ali ia eu cada vez mais convencido da minha pequenez, cada vez mais confinado à exígua gota de existência que eu era, um ponto indefinido entre o ser e o não ser, um homem com o desejo de entrar no tudo e, todavia, sentindo-se tão perto do nada, que o pouco que era se encontrava quebrado em porções tão exíguas e desordenadas, que já não tinham a boa coesão para representarem uma personalidade saudável.

Nessa altura não ia ali um homem, mas um monte de destroços, delimitados por um corpo, provavelmente em fim de vida onde habitava uma mente, em final de sonho.

O sol já entrava pelas janelas, a planura alentejana espraiava-se a perder de vista; a claridade da manhã penetrava dentro de mim e desencadeava a pergunta:

Mas se eu sempre abrira portas de ternura, se sempre me encantara com rios de dádiva, o que tinha então falhado para que tanta claridade se tivesse esbarrado em penedias de indiferença e em montes escarpados de solidão?

Talvez essa fosse uma das grandes incógnitas da minha vida e estava seguro de não a conseguir resolver, por mais quilómetros que percorresse nas diversas estradas que ainda se me anunciavam.

Cerca das dez e meia chegámos junto do prédio em que o consultório se situava. Pedi ao Lúcio que voltasse ali dentro de uma hora.

Entrei no edifício, bati à porta do consultório, preenchi as formalidades e esperei na sala, não mais do que um quarto de hora.

Pensei, nessa altura, que mais cedo ou mais tarde essa notícia má que agora eu não queria receber haveria de chegar. Ou talvez não; talvez a morte viesse sem se anunciar, naturalmente, levando-me, como quem adormece instantaneamente, como quem passa e só depois se apercebe que já passou.

Mas, naqueles poucos minutos passados à espera de entrar no gabinete do médico, constatei que eu ainda não estava preparado para aceitar com naturalidade, o facto

 mais natural que todo o ser vivo sabe que vai experimentar, apesar de eu acreditar na espiritualidade, apesar de saber que outra vida me espera, a qual pode ser bem melhor do que esta, se eu tiver conseguido resolver devidamente as imperfeições que me trouxeram a esta reencarnação.

Apesar de tudo quanto tinha lido e mentalizado, eu ainda não conseguia aguardar serenamente a morte, encarando-a como uma outra forma de renascimento.

E para ali fiquei perdido em pensamentos deste tipo, focados naquele momento essencial em que deixamos um corpo físico e ficamos apenas com um corpo espiritual, mas com a mesma personalidade, com os mesmos defeitos e virtudes, com os mesmos laços afetivos que nos darão a saudade de partir ou a alegria de lá chegar.

Mas de quem levaria eu saudades se aqui já era um homem sozinho?

E quem teria eu a alegria de encontrar, se me parecia que todos os que partiram já haviam perdido quaisquer ligações afetivas comigo?

E aí veio-me à mente aquela realidade que, afinal, fora a mais constante da minha vida:

Aí, nesses momentos de transição, independentemente das solidões, das dúvidas, dos abandonos, dos sofrimentos, dos medos, dos maus passados ou dos futuros nublosos, eu encontraria sempre a Graça de Deus.

Afinal, o meu avô, aquele homem de mãos calejadas que nem logrou completar a quarta classe, que teve como primeira profissão a de ser ferrador de bestas, que achou na sua força de trabalho o pão do dia a dia, que raramente entrara num templo de pedra, tinha o templo do coração sempre aberto a uma ideia, provavelmente que lhe fora inata:

Ele sabia que poderia contar sempre com a Graça de Deus.

E, subitamente, veio-me à mente e ao coração a imagem do Bondoso Divino Mestre quando, perante aquelas pessoas, provavelmente estupefactas pela dimensão da Verdade que Ele revelava, lhes disse que O Reino de Deus está dentro de nós.

Finalmente o médico mandou-me entrar.

Ao sentar-me em frente da sua secretária, senti que estava a um pequeno passo de dar um salto enorme em toda a minha estrutura.

E, todavia, sem nos apercebermos, nós vivemos muito disso mesmo; duma gota de ilusão que se pode desfazer num qualquer momento; duma pequena fração de segundo tornada eternidade; dum pequeno quê, transformado em dezenas de perguntas dolorosas; duma errada convicção de permanência, vogando no vasto oceano da transitoriedade; dum conjunto de razões capazes de se escaparem à mais metódica e abrangente explicação.

De repente eu era e podia deixar de ser, subitamente eu acreditava e podia deixar de acreditar.

Depois de remexer na papelada que ali tinha e que constituía o meu processo, o médico, encarando-me com um olhar sereno e bondoso, disse-me tranquilamente:

- Sr Henrique, não há nada que o possa alarmar. Você é um homem saudável.

A expressão alegre do meu rosto só ele é que a viu, mas a paz que me inundou a alma só eu é que a consegui sentir.

E quanto necessitava eu de paz!

 Quanto necessitava eu duma boa notícia, de algo que me desse, ainda que por pouco tempo, alguma felicidade!

- Obrigado meu caro Dr.

Cumprimentei-o e, sorridente, saí.

Sentia-me como aquele adolescente que acaba de passar num exame da escola e se prepara alegremente para dar aos pais essa boa novidade.

Quando Lisboa se agitava sob o sol do meio-dia, ali entre a manhã e a tarde, quando os vendedores de cautelas tentavam entregar a um qualquer cliente a sorte grande, quando os amigos se juntavam para o almoço, quando ainda era permitido ter esperança e sentíamos que a noite ainda vinha longe, convidei o Lúcio para um brinde à vida, cada um com a sua caneca de cerveja numa das mesas da Portugália.

Ele apenas soube, naquele momento do brinde, como eu estava grato e louvava a vida.

As perguntas e os desencantos, as carências e as solidões, as fragilidades e os vazios, as saudades do carro azul e de quem, dentro dele comigo viajara, tudo isso ficou só para mim, para me acompanhar no banco da frente dum táxi de regresso a Faro, pela estrada

 nova de Lisboa, desta vez disposto a aceitar a existência como ela se deparasse, na certeza de que nenhuma vivência é inútil e de que o azul do carro de que eu tinha saudades era precisamente aquele que faltava dentro de mim e que só eu podia criar de novo.

 

 

Faro, 21-1-2019

 

 

José Bento

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