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A AUTOESTRADA

  • há 3 dias
  • 2 min de leitura

Tu dizes que podemos ir pela autoestrada,

Que, indo por ela, tudo nos fica mais perto;

Que nela, o piso é mais limpo e mais certo

E que, por aí, a viagem não é agitada.

 

Dizes que, indo por lá, não achamos a pobreza

Das muitas aldeias que existem no caminho;

Que veremos muito mais brilho e menos tristeza,

Que há neste país, ainda tão pobrezinho.

 

Falas-me só da autoestrada de asfalto;

Mas eu falo-te da autoestrada da vida;

Dessa que, ora é alegre, ora sofrida,

Mas que, percorrendo-a bem, nos conduz ao alto.

 

Tu falas-me dum andar isoladamente;

Do evitar ajuntamentos malcheirosos;

Do não andar pelos caminhos pedregosos,

Onde as lágrimas visitam tanta gente.

 

Falas-me de hotéis, de luzes artificiais,

Do progresso estruturado na matéria.

Mas eu falo-te de trilhos espirituais,

Duma caminhada mais profunda e mais séria.

 

Eu falo-te das aldeias do sofrimento;

Da luz que tantos olhos abertos não veem;

Dos livros que tantos letrados não leem,

Porque dirigem mal os carros do pensamento.

 

Enquanto houver gente, que precisa de ajuda,

Carente do amor, que a todos edifica,

Nesta zona pobre, pouca coisa muda,

Enquanto vais veloz, nessa autoestrada rica.

 

Não voltes a insistir, que, por aí não sigo;

Quero andar melhor, com passos firmes e lentos,

Ajudando a minorar tantos tormentos,

Àqueles que me reconhecem como amigo.

 

Na próxima portagem, sai da autoestrada

E vem comigo, por estes trilhos secundários.

Deita fora os sentimentos tão primários,

Por causa dos quais só te vês a ti e mais nada.

 

Vem por aqui, desbravar o caminho da luz;

Não temas vir ao encontro de ti mesmo.

Deixa o teu andar, confuso e a esmo,

E não te negues a carregar a tua cruz.

 

Que bom é ouvir a tua alma, neste momento!

Sente que bela é a natureza em harmonia!

Cada um de nós está na imensa poesia,

Contida nos astros, presentes no firmamento.

 

Vem aproximar-te de Deus, O Divino Poeta;

Quem a tudo ama e a tudo quer proteger,

Porque a sua poesia só será completa,

Quando ninguém estiver em risco de se perder.

 

Faro, 29-8-2023

 

José Bento

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