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A FLAUTA DAS NOTAS TRISTES

  • 17 de abr.
  • 12 min de leitura

Numa manhã serena e outonal de domingo, no cimo da escadaria que dá acesso ao teatro da cidade, um edifício amplo e trabalhado com esmero, produto duma arquitetura oitocentista, evidenciando que o dinheiro não foi escasso para o levantar, uma jovem que não teria mais de trinta anos, de cabelos compridos e escuros, e de olhos grados quase da mesma cor, de corpo esguio e dedos longos, de cara arredondada e traços suaves, extraía duma flauta transversal sons doces e tristes, os quais  articulavam uma melodia que, sem palavras, falava de desânimo e,  sem chorar vertia  lágrimas pejadas de desespero.

Ali em baixo, em redor, as pessoas iam passando no desfrutar dum brando ritmo domingueiro, enquanto ao longe soavam os sinos, primeiro o do relógio duma torre que bateu as onze horas e, instantes após, do outro lado, os sinos de outra torre que anunciavam a missa dedicada ao dia do Senhor.

As portas do teatro estavam encerradas e, no cimo da escada estava ela carregada de perguntas sem respostas satisfatórias, apenas acompanhada pela   flauta com quem dialogava, pela melodia triste que ia surgindo e pelo vento suave que ia transportando aqueles sons médios e graves, por forma a que chegassem mais tímidos a quem, mesmo sem subir a escadaria, ali passasse por perto. 

Dali ela dominaria um vasto horizonte de ruas emaranhadas, de muito cimento levantado, duma cidade minimamente ordenada, mas suja, antiga e envelhecida, fria e desumanizada.

Dominaria esse horizonte, se o visse, mas ela não conseguia ver mais do que a flauta, os dedos que nela desenhavam uma melodia triste, as perguntas sem respostas satisfatórias e as lágrimas que, querendo soltar-se, todavia, ficavam duramente retidas, e que, querendo evadir-se para o espaço, contudo, embatiam ferozmente de encontro às paredes do seu peito ainda tenro, ainda jovem.

 e, nesse embater, as gotas de choro magoavam, feriam, golpeavam selvaticamente, destruindo sonhos, demolindo castelos que tinham sido belos, apagando luzes que tinham sido claras e envelhecendo uma jovem que ainda há pouco fora menina e andara ao colo.

Os seus olhos, de tanta tristeza que lhe ia no coração, voltaram-se totalmente para dentro, passando a vislumbrar, em vez da luz do sol, a noite da desilusão, em vez do azul do céu que embelezava a manhã, o entardecer crepuscular de sonhos que se desmoronavam e caíam pesadamente no mais fundo duma alma perturbada pelo desalento.

As primeiras lembranças que tinha da flauta eram tão antigas como as que tinha das bonecas, porque a flauta e as bonecas foram as suas grandes amigas de infância e de adolescência; falava tanto com estas como com aquela,  por vezes sentava as bonecas em frente de si e tocava para elas o último exercício que a professora lhe ensinara, podendo então assegurar que as bonecas ouviam e gostavam e que a flauta ficava maravilhada ao tocar para elas, afirmando, convictamente, e, nesses belos tempos, mais do que afirmar, sentindo,  que ela, a flauta e as bonecas tinham formado um grupinho de amigas, tinham criado cumplicidade recíproca, tinham enfeitado o tempo umas das outras, tendo elas assistido ao seu crescimento, conhecido as suas fases, as boas e as más, compartilhando as alegrias nas boas e as profundas tristezas nas piores crises de sorte por que passou.

Daquela vez em que teve a primeira audição e, no final, os pais lhe deram um grande ramo de rosas, chegou a casa e mostrou-o às bonecas, a flauta tinha assistido a tudo lá no auditório, e, em casa, no seu quarto de menina, ficaram as rosas a perfumar uma noite em que ela, a flauta e as bonecas não cabiam em si de contentes, era uma noite de Junho, cálida, o cheiro a rosas perfumava o quarto, ela deitou-se na cama, mas não conseguia dormir, tudo quanto a rodeava era beleza, tudo quanto via para o futuro eram alegrias, ela a tocar e muito público a ouvir, as pessoas a entrarem na música, à medida que o som da flauta entrava nelas, as pessoas a ficarem cada vez mais livres, enquanto abraçavam as notas que ela lhes entregava, e todos a voarem para o mundo das fadas, das princesas, dos jardins imensos e das histórias bonitas, ela, as pessoas do público, a flauta e as bonecas.

 Era esse o mundo que apetecia sentir, ter, abraçar, viver, o mundo onde a fantasia boa se transformava em realidade, onde toda a gente era feliz, onde todas as crianças tinham um quarto como o dela, brinquedos e beleza, família e ternura.

Houve também alturas em que a vida se pintou de cores bem mais pesadas, como foi o caso daquele dia em que, quando chegou a casa, lhe disseram que a mãe estava gravemente doente no hospital.

Quando lhe foi permitido visitá-la, dois dias depois, as lágrimas de ambas uniram-se, num misto de dor, amor e esperança.

 a mãe nem podia falar, estava ligada a tubinhos, o pai disse-lhe, tristemente, que o estado era de alguma apreensão.

Quando a menina voltou para casa, falou com a flauta e as bonecas, a flauta correu para as suas mãos, e as duas tocaram notas que formavam uma melodia muito triste, mas que ao mesmo tempo continha fé e esperança.

- Sim, vamos pedir pela mamã; - disse ela. - E as bonecas, acompanhadas pela flauta responderam afirmativamente.

Enquanto a mãe não voltou do hospital, todas as noites as notas se soltavam da flauta e construíam um tapete voador que as transportava a todas até ao Céu, para que o Pai Celestial ouvisse melhor e atendesse as preces sinceras que elas faziam, trazendo a mamã para casa, já curada.

Querida menina;

Que lindos eram esses tempos em que sonhavas beleza e tudo parecia realidade; em que voavas nas asas da fantasia e, dessa forma transpunhas abismos, saltavas os improváveis, mas, dentro de ti, construías os belos possíveis que a tua mente de criança lograva inventar.!

E, de facto, a mamã voltou curada e a família continuou a ser unida e feliz.

Mas as notas que se desprendiam da flauta, naquele domingo de que falámos, no alto da escadaria daquele teatro fechado, apesar de serem tristes como aquelas que ela soltou a quando da ida da mamã para o hospital, mais de quinze anos antes, tinham algo que as tornava diferentes e mais pesadas.

As outras, aquelas que saíam dos dedos duma adolescente ainda iluminada, para além de tristeza tinham esperança e, por isso, apesar de se ressentirem do peso da dor, refletiam a luz de quem acredita no futuro, de quem acalenta a certeza de que as coisas vão mudar para melhor.

Estas que naquela manhã de domingo  voavam dali para o público anónimo que lá em baixo passava e nem as ouvia, estavam vestidas de desespero,  eram notas fechadas que não tinham qualquer fresta aberta para o porvir,  eram notas esmagadas por um passado de trabalho e de sonho que, de repente, desmoronava à porta dum teatro encerrado, no meio duma cidade que lhe era alheia, que se recusava a sonhar, constituída por pessoas que se cruzavam sem se verem, que conviviam sem se sentirem, que se enclausuravam sem compartilharem, que se deixavam expropriar sem se unirem.

As outras notas do antes vinham dos dedos duma adolescente que ainda se sentia tão pura como quando era criança, ao passo que estas do agora, provinham do sopro duma jovem que se sentia tão desiludida como se fora uma velha, que acusava o peso do longo caminho percorrido, dele tendo absorvido mais cinzas do que luzes, mais troncos secos do que flores viçosas, mais desencantos do que poesias, mais desilusões do que esperanças.

De facto, a flauta, apesar de ser amiga, não lhe prometera entregar-se, tendo-lhe antes apontado um caminho.

- Vem, minha amiga, eu estou contigo, mas tens de trabalhar muito para que eu possa dizer tanto como tu queiras que eu diga; eu estou aqui disponível, sou a tua amiga de todas as horas, disposta a estar contigo   sempre que tu me desejares,  mas, precisamente por isso, por ser tua amiga, tu tens de ir evoluindo, tens de ir construindo a tua técnica e o teu caminho, porque os verdadeiros amigos são os que nos levam para diante, os que nos fazem crescer, acreditar no trabalho, saber que pelo trabalho se vai sempre mais além e se atingem graus progressivos de mais aperfeiçoamento.

Eu dou-te a minha disponibilidade, mas tu, em prol de ti mesma, dás-me o teu tempo, o teu trabalho, o teu entusiasmo, o teu desejo de tocar cada vez melhor, e assim faremos um duo de que todos certamente gostarão.

E foi por lhe parecer ter ouvido a flauta a pronunciar estas frases, enquanto

 ainda era criança, que ela passou muitas horas, ao longo de anos, junto daquela amiga que apresentava sempre   novos segredos para desvendar.

Enquanto as outras crianças brincavam, ela gostava de estar no seu quarto a ensaiar novas técnicas; enquanto as suas amigas, já adolescentes, passavam dias na praia, saíam à noite para as discotecas e diziam que tinham de arranjar novas formas de passar o tempo, porque as que tinham já estavam gastas, ela ficava no seu quarto com a flauta, tendo as bonecas por ouvintes e ia atingindo graus cada vez mais elevados de perfeição.

Enquanto tocava, nesses longos anos de estudo do instrumento, o futuro que ela via passava pelo público, era a dádiva dela para muitas pessoas que ouviam, que embarcavam num   tapete de beleza e voavam com ela, pessoas que lhe ficavam gratas pela felicidade que lhes transmitia, pelos momentos de sonho que lhes criava.

No final das atuações, o melhor pagamento que ela desejava era constituído por aplausos, - - bravo, bravo, muito bem, - as pessoas levantadas em agradecimentos sinceros, as palmas, o entusiasmo, a troca de emoções entre os que estavam no palco e os que enchiam a sala.

foram estes os sonhos que a ajudaram em criança e depois em adolescente a passar de nível para nível, a cumprir exigências cada vez maiores, a tirar um curso superior do instrumento e, mais tarde, a candidatar-se a uma orquestra, onde foi admitida e, na qual subiu rapidamente a flautista principal.

O sonho transformou-se então em realidade.

 O público, o som maravilhoso dos instrumentos em articulação, o maestro e os músicos no mesmo balão emotivo, a sala a vibrar, os sons da sua flauta, quando solista, esvoaçando por cima dos demais sons, tal e qual um pássaro de asas multicolores, encantando com a sua beleza todos quantos o podiam admirar.

Nesse domingo de que falamos, ela estava criando melodias à porta daquele teatro onde sentira promessas, onde criara beleza, mas que agora não passava dum edifício solitário, triste, desapropriado do fim para que fora criado, metido consigo, ignorado, na sua essência, pela cidade a que pertencia e que, displicentemente o desprezava.

Ela foi para ali como que para despejar a sua mala de desilusões, de conteúdos belos, mas inapreciados, de conquistas espirituais profundas, mas que se despenhavam de encontro à matéria, mais de encontro â que as pessoas levavam na alma, do que aquela que se continha nas paredes daquele velho edifício.

Também naquele domingo, enquanto tocava, houve um homem alto, elegante, bem vestido, de cabelos grisalhos,

aparentando ter mais de sessenta anos, que foi subindo lentamente a escadaria e que se chegou junto dela, sem que ela o tivesse percebido.

A melodia continuava a fluir triste, e aquele homem começava a emocionar-se.

 Talvez ele tivesse vindo em busca de sol e, apesar de ainda ser manhã, percebia que aquela flauta transportava para fora o sentir duma jovem que se procurava no centro da noite.

Ninguém mais tinha tido a coragem ou o desejo de subir aquelas escadas.

 Estava ele e a jovem, ele como única testemunha dos sons de desalento que ela enviava para o firmamento, ali junto a um teatro fechado, no meio duma cidade desagregada, à esquina dum tempo, numa encruzilhada de perguntas, de opções, de dúvidas, e ambos, ele e a jovem, certamente com uma enorme sede de respostas.

A dada altura ele colocou-lhe uma das mãos no ombro e ela, abrindo os olhos, despertando rapidamente do diálogo que mantinha consigo e com a flauta, levantou-se repentinamente, abraçou-o e exclamou:

- Papá, papá, tu estás aqui?

- Então, meu amor, vim, de propósito, para ouvir o teu concerto de hoje. Fui lá a casa, mas como não te encontrei, pensei que estivesses no teatro a ensaiar.

Quis fazer-te esta surpresa.

 Andei mais de mil e quinhentos quilómetros, mas isso não importa, tinha um desejo enorme de te ouvir, como naqueles tempos, lá na nossa cidade.

- Mas já não vais poder ouvir o concerto, papá.

 Na passada sexta-feira, antes de começarmos o ensaio geral, o diretor da orquestra veio comunicar-nos que, por falta de subsídios, a orquestra estava encerrada a partir daquele momento, todos nós estávamos desempregados, cada um que se arranjasse como pudesse.

Estás a ver, tanto esforço que nós despendemos para que a orquestra fosse boa, tanto que nós ensaiámos, ao longo de meses e meses, para que o resultado fosse cada vez melhor, tanta dedicação que demos, tudo foi assim inutilizado, rasgado, deitado fora, cada um que se arranje como puder.

Ficámos, dum momento para o outro, sem dinheiro para comer, para pagar a casa, para as nossas necessidades mais básicas, e olha que havia casos em que o marido e a mulher trabalhavam na orquestra e tinham filhos pequenos a depender deles.

 Há colegas que são do outro lado do mundo e nem têm dinheiro para pagar a viagem de volta para os seus países.

Enquanto dizia isto, ela chorava e, enquanto ouvia tais palavras, ele começou a chorar também.

  Abraçaram-se ternamente e depois sentaram-se, lado a lado, no cimo da escadaria.

Eram dois desiludidos, ela que ainda conseguia formular perguntas sobre as razões que levavam a que uma cidade assim prescindisse da beleza. Ele que já nem perguntas tinha coragem de formular, por saber de antemão as respostas que iria receber.

As lágrimas dela eram gotas de desilusão; as dele mandavam para fora, aos borbotões, chamas de remorso, que o queimavam até ao mais profundo do seu ser.

 A flauta já não tocava, a cidade continuava a agitar-se em redor, as portas do teatro não se iriam abrir, nesse domingo, como estava previsto para que a orquestra atuasse, mas a cidade passava sem isso, da mesma forma que passava sem uma pastelaria ou sem um salão de cabeleireiro que tivessem encerrado.

Entre eles fez-se um prolongado silêncio e cada um navegou por zonas diversas do pensamento.

A dada altura ele disse:

- Olha, filha, tive há dias uma proposta para vender o monte da avozinha.

- Mas tu não vais vender, pois não?

Aquilo é o local de que tu sempre gostaste, a casa onde nasceste, onde tens os teus cães, os teus passarinhos, onde fazes as tuas culturas, onde tens as tuas raízes, desde menino.

- Mas vendo sim. Agora já me decidi.

- Mas porquê papá?

- Porque me sinto culpado por tu estares hoje aqui, à porta deste teatro fechado, no cimo desta escadaria, a tocar para uma cidade que passa indiferente.

Eu devia ter-te prevenido a tempo e não te devia ter incentivado a ser uma grande artista, porque eu sabia, ou pelo menos tinha a obrigação de saber, que muitas décadas terão ainda de passar, até que as pessoas encarem e tratem com a dignidade devida quem lhes pretende transmitir beleza, quem aposta no sensível, no aprofundamento, na iluminação de caminhos novos e na criatividade, que faz a humanidade crescer.

Eu vou dar-te o dinheiro que receber pela venda daquela casa, porque, certamente daqui a poucos anos, já não estarei cá e, nessa altura, minha querida, não haverá ninguém que suba a escadaria que conduz às portas dum teatro fechado para ouvir as notas tristes da tua flauta, lançando lamentos aflitivos    sobre as ruínas duma orquestra desmantelada.

Eu quero um dia partir para a derradeira viagem sem a preocupação de te deixar indefesa, entregando arte a quem a não quer receber, fazendo nascer a luz da beleza numa cidade que olha para baixo, que voga à superfície e que apenas dá valor ao palpável que, todavia, é efémero.

 Um dia depois, a flautista e o pai partiram rumo à sua cidade natal; os demais músicos da orquestra foram deixando a cidade nos dias seguintes, mas ninguém reparou que a cidade ficara mais triste, mais vazia, mais escura, muito mais pequena e pobre.

 Ninguém reparou na altura, mas meses depois, começou a acumular-se a monotonia; houve muita gente que foi passando à porta daquele teatro fechado e foi-se lembrando dos bons momentos que vivera dentro dele, a escutar a orquestra agora desfeita.

Houve namorados que se lembraram de quando as suas mãos se apertaram mais, perante uma melodia mais sentida que o oboé lançava sobre a orquestra e a guitarra,  fazendo lembrar um perfume raro e precioso que trazia odores essenciais da Andaluzia; houve casais que recordaram aquele dia em que, tendo levado ali as suas crianças, elas vibraram com o último  andamento da nona de Beethoven em que a orquestra e os coros encheram a sala com um enorme hino de alegria, as vozes e a orquestra tudo junto, em bloco, a força, e a sala cheia duma pujança contagiante, tudo numa afirmação inequívoca de que o ser humano pode, através da beleza, atingir pontos imensamente profundos e sublimes; houve  também quem se lembrasse duma flauta a pairar por sobre os violinos que faziam um tapete dourado e a flauta, qual pássaro azul, de formas diáfanas, voava, e quem a ouvia voava com ela, de repente vinham outros instrumentos de sopro,  as pessoas voavam no meio daquilo tudo, desprendiam-se da cidade e transportavam-se para mundos diversos, desvendavam-se e conheciam outras paisagens interiores que, até então nem sabiam que lhes eram acessíveis.

E por tudo isto a cidade começou a ter saudades da orquestra, começou a desejá-la, começou a exigi-la, e houve um dia em que uma jovem flautista e um homem de mais de sessenta anos subiram de novo aquelas escadas, ela passou para os bastidores e ele ficou ansioso na plateia, e, quando o som da flauta pairou  sobre um tapete voador de violinos e demais instrumentos de cordas, e depois contrastou com outros instrumentos de sopro, quando a percussão engrandeceu a base e reafirmou a força e o propósito de ir mais além na penetração do íntimo de cada um, ele, profundamente emocionado, e apesar do sofrimento e da incerteza,  sentiu   que, afinal, sempre tinha valido a pena que a sua menina tivesse feito um grupinho de amigas com a flauta e as bonecas, tendo logo  ali agradecido a Deus, de lágrimas nos olhos que lhe escorriam do mais fundo da alma, o facto de ter podido viver até àquele momento e voltar a acreditar na capacidade da cidade para sentir saudades da beleza e para  reerguer uma orquestra desmantelada.

Quando ambos deixaram o teatro, de mãos dadas, ela ainda vibrando pela emoção dos aplausos do público, no final do concerto, e vendo brilhantes luzes acendendo-se no futuro, mas ele sentindo desmaiarem-se as luzes do presente, que caíam nos sons dum poente que já se ia tornando percetível, ele disse, ao mesmo tempo que lhe entregava um envelope cerrado:

- Minha filha, está dentro deste envelope o cheque que recebi, anteontem, pela venda da casa da avozinha.

Deposita-o na tua conta, usa esse dinheiro como sendo uma salvaguarda para os tempos difíceis, porque eu sei que os grandes tesouros de sensibilidade, de beleza e de bondade que tens dentro de ti não serão sempre suficientes para te garantirem a vida economicamente digna a que tens direito.

 

 

Faro, 2016

 

 

José Bento

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